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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Bruno Zhu, Uh-oh, 2021. Cortesia do artista e do Sismógrafo. © Filipe Braga


Bruno Zhu, Uh-oh, 2021. Cortesia do artista e do Sismógrafo. © Filipe Braga


Bruno Zhu, Uh-oh, 2021. Cortesia do artista e do Sismógrafo. © Filipe Braga


Bruno Zhu, Uh-oh, 2021. Cortesia do artista e do Sismógrafo. © Filipe Braga


Bruno Zhu, Uh-oh, 2021. Cortesia do artista e do Sismógrafo. © Filipe Braga


Bruno Zhu, Uh-oh, 2021. Cortesia do artista e do Sismógrafo. © Filipe Braga


Bruno Zhu, Uh-oh, 2021. Cortesia do artista e do Sismógrafo. © Filipe Braga

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ARQUIVO:


BRUNO ZHU

UH-OH




SISMÓGRAFO
Rua de Alegria 416
4000-035 Porto

29 MAI - 19 JUN 2021


 

 

Há exposições às quais se deve reagir, mas não necessariamente com palavras.

A exposição “Uh-oh” de Bruno Zhu, patente no Sismógrafo no Porto até 19 de Junho de 2021, merecia uma resposta à altura do título, algo sonoro - onomatopaico, com a língua a demorar-se no céu da boca - e que talvez se pudesse formular assim:

oh oh oh,
Tsá-a-á-á,
wow, tsiii.
RRRRRRR
RRÁ
ÁÁÁÁ
áá
á

(…)

E depois podíamos continuar, variar o ritmo, usar o corpo, bater com as mãos na caixa torácica e usar as várias articulações do corpo com o espaço, para gerar som. Sons variados.

O ar e o chão não deviam ser esquecidos nesta resposta.

“Uh-oh” activou um espaço que não é linguístico - qualquer tradução é sempre uma perda!, mas aquela que vai da reacção próxima da víscera à palavra é de uma perda irrecuperável - e activou também um desconforto, que acabou por se desdobrar em desconfortos vários.

[

As palavras deviam ser também usadas, e muito!, a propósito desta exposição, que se usa a si própria a propósito de outras questões; a versão inglesa da folha de sala, que é diferente da portuguesa, reserva apenas os dois últimos parágrafos para se referir ao que se propõe no espaço do Sismógrafo. O resto do texto trata de uma narrativa de assédio continuado, fruto de o artista ser português de primeira geração filho de pais chineses, e é motivada por uma ofensa feita por um par, que como tantos outros, estão presentes em marchas antirracistas, activam todos os hashtags e molduras em que se podem inscrever, e que em privado, digamos simplesmente que Não bate a bota com a perdigota.

“I didn't mean it that way.”, ainda se diz, e ainda dizem a Bruno.

E parece que também aqui as onomatopeias se activam, mas vêm de uma raiva funda. Já passou da hora de assumir a responsabilidade. Neste problema, nesta questão, nas palavras usadas, nos gestos feitos, mas também nos outros problemas, nas outras questões, nas outras palavras usadas, nos outros gestos feitos. Dizer fui eu, sou eu, continuarei a ser. Dizer é o meu legado. E talvez a partir da assumpção - de toda, de uma, de qualquer coisa - possamos começar textos de exposições apenas nos últimos dois parágrafos.

]

“Finalmente, eu vim-me.” - diz-nos o artista na versão portuguesa da folha de sala. E nós, que visitamos a exposição? Bruno, Bruno, E AGORA?, o que é que fazemos? Vamos para casa? Temos pesadelos? Vimo-nos também?

Que nos vimos, isso é certo, mas estes jogos presos na linguagem não se prestam a entrar aqui.

Bruno evidenciou a característica mais premente do espaço do Sismógrafo criando um portal têxtil que cria uma linha ortogonal no espaço. A alcatifa vermelha torna-se secundária e a luz diagonal casa-de-banho-peça-"Porta para o Sismógrafo" domina a compreensão do espaço, e também a sua ocupação.

Durante a visita à exposição utilizei a casa-de-banho. Não pude apagar a luz. Estava acesa no início. Parece pouco, mas a privação desse gesto automático gera uma qualquer-coisa, um quase-nada, de pequeno incómodo. A privação de um hábito é menos penosa, mas mais maçadora que a privação de um vício. Na casa de banho pede-se para não serem colocados papéis na sanita. Supõe-se que o esgoto poderia entupir. Também Bruno pega nessa possibilidade de entupimento e de desentupimento colectivo. Como uma força para alguma coisa. Como se a decisão colectiva daquele prédio despejar a sua merda ao mesmo tempo pudesse ser o maior gesto de libertação de constrangimentos. Para mim isso é claro. É compreensível. O que causa o transtorno, uma espécie de mau estar não tão habitual (semelhante, embora em maior escala, ao não poder apagar a luz da casa-de-banho) e que é até agradável, numa segunda compreensão, é um acrescento a essa hipótese - que nos dá como política - fazer da merda, acção de emergência: a noiva. Uma noiva cadavérica, zombie, de longos dedos que se arrastam pelo chão, e que se sustém pelos olhos. Como força - talvez - como se explodisse de energia de libertação - uma imagem saída de um filme de ficção fantástica, com uma leitura sórdida acrescida, trazida pelo vestido branco, signo da pureza virginal juvenil. Há muito pervertido embora ainda desejado de forma incomum. Não era incomum a palavra. Era incompreensível. Porque se casam ainda hoje de branco as noivas; serão também resquícios de merdas, que ainda não descarregamos colectivamente?

Será só assim, à pala de noivas horríveis - no bom sentido, Bruno - que destroem a alegoria da noivibilidade e que apelam a uma descarga de merda colectiva, para mandar abaixo a estrutura (aqui, a arquitectura), que nos poderemos livrar das histórias enraizadas como as que Bruno narra - só para inglês ler - na folha de sala? Talvez a simpatia saiba bem, mas talvez já não seja altura. É provocatório, mas também a civilidade precisa de reforma. “One would go down. One would go under.” parece-me ser mais do que a chave de compreensão, o mantra. Diz-nos o artista que a sanita poderia ser o portal, e a descarga articulada, essa força todo-poderosa. O que viria depois?

Andamos a descarregar merda uns nos outros, levantamo-nos com problemas, e ao invés de alavancarmos soluções colectivas e de vermos na merda - tal como em qualquer matéria - uma potencialidade mal cheirosa, vemos no dejecto uma monstruosidade individual que devemos e temos e desejamos esconder de todos os outros, que detêm a sua monstruosidade individual para si próprios.

O Bruno, entre outras coisas, dá-nos esta possibilidade o olharmos de outra maneira: Uh-oh mas também WOW.



CATARINA REAL