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EDUARDO LOURENÇO (1923-2020)

2020-12-01




O filósofo e ensaísta português tinha 97 anos. Eduardo Lourenço era Conselheiro de Estado e morreu esta terça-feira em Lisboa.

Foi um dos pensadores mais proeminentes e um dos vultos da cultura portuguesa nas últimas décadas. Nasceu a 23 de maio de 1923 em Almeida, na Beira Alta.

Professor, filósofo, escritor, crítico literário, ensaísta e interventor cívico, foi várias vezes galardoado e distinguido.

Um dos seus últimos trabalhos com maior visibilidade foi um filme realizado sobre si, o "Labirinto da Saudade", de 2018, com base num dos últimos livros que publicou.

Hoje saiu de cena, mas deixa a marca da "grande originalidade" do seu pensamento - de acordo com a página a si dedicada, do Centro Nacional de Cultura -, e a imagem do ensaísta que permitia "a única reflexão inteligente sobre a política nacional", como o definiu o poeta Herberto Helder, numa carta de 1978.

Apaixonado pela literatura, referia-se aos livros como "filhos" e dizia que "estar-se sem livros é já ter morrido". Mas foi sobretudo sobre a poesia, mais do que a prosa, que incidiram os seus ensaios, de Luís de Camões a Miguel Torga, passando por Fernando Pessoa.


Marcelo Rebelo de Sousa lamenta morte de "amigo" e "sábio"

O Presidente da República já lamentou a morte de Eduardo Lourenço e agradeceu a este “sábio” e “amigo”.

“Eduardo Lourenço foi, desde o início da segunda metade do século passado, o nosso mais importante ensaísta e crítico, o nosso mais destacado intelectual público”, lê-se numa nota publicada no site da Presidência.

“Tendo vivido durante décadas em França, e sendo estruturalmente francófilo, poucos foram os «estrangeirados» tão obsessivos na sua relação com os temas portugueses, com a cultura, identidade e mitologias portuguesas, com todos os seus bloqueios, mudanças e impasses”.

“Nunca esteve, por isso, alheado dos debates do nosso tempo, nem das vicissitudes da política. Devemos-lhe algumas das leituras mais decisivas de Pessoa, que marcam um antes e um depois, e um envolvimento, muitas vezes heterodoxo, nas questões religiosas, filosóficas e ideológicas contemporâneas, do existencialismo ao cristianismo conciliar e à Revolução”.

“Vencedor de diversos prémios, incluindo o Pessoa e o Camões, distinguido por quatro vezes com ordens nacionais, e também reconhecido no estrangeiro, o Prof. Eduardo Lourenço deu-me a honra de integrar o Conselho de Estado”, escreveu Marcelo Rebelo de Sousa.

“Aos seus familiares apresento as minhas sentidas condolências pela perda deste amigo, deste sábio, desta figura essencial do Portugal que vivemos”.
Vida académica

O mais velho de sete irmãos, e filho de um militar do exército, frequentou a escola primária da aldeia onde nasceu e matriculou-se, posteriormente, no Colégio Militar, em Lisboa, onde concluiu o curso em 1940.

Inscreveu-se na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, de que desistiu, para prestar provas, mais tarde, em Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras da mesma instituição.

Era um "dos melhores em Filosofia, não porque repetisse as aulas como um papagaio, mas por ter revelado um arguto espírito crítico e uma ideia já autónoma", segundo a descrição, à revista Prelo, que dele fez o escritor e pedagogo Mário Braga, ex-editor da Vértice.

Eduardo Lourenço concluiu a licenciatura em 1946, com uma tese sobre "O Sentido da dialética no idealismo absoluto".

No ano seguinte, passou a lecionar como assistente e colaborador do professor Joaquim de Carvalho e, em 1949, com apenas 26 anos, reuniu parte da sua tese de licenciatura no primeiro volume de uma obra intitulada "Heterodoxia", "um dos mais nobres e perturbantes discursos ensaísticos de toda a nossa história literária", como a classificou o professor e ensaísta Eugénio Lisboa.

Antes disso, em 1944, Eduardo Lourenço começara a colaborar com a revista Vértice, publicação em que se estreou com o poema "Aceitação", um prelúdio de "Heterodoxia".

E foi com "Crónicas Heterodoxas" que colaborou também com o Diário de Coimbra, publicação histórica da cidade onde conviveu com o escritor Vergílio Ferreira e onde viria a ser associado a uma determinada forma de existencialismo, influenciado por filósofos como Heidegger, Nietzsche, Husserl, Kierkegaard e Sartre, e pela leitura de escritores como Dostoievsky, Kafka e Camus.







FONTE: RTP/Cultura