MANUEL BOTELHOCartas de Amor e SaudadeCENTRO CULTURAL DE CASCAIS Av. Rei Humberto II de Itália 2750-800 CASCAIS 02 JUL - 28 AGO 2011 PRESS RELEASE A Fundação D. LuÃs I inaugurou no Centro Cultural de Cascais, a exposição Cartas de Amor e Saudade, uma instalação de Manuel Botelho. Patente até 28 de Agosto, de 3ª feira a domingo das 10h à s 18h00, esta exposição tem como tema axial a importância da carta no contexto da guerra colonial. Cartas de amor, cartas para a famÃlia, cartas das Africas para a então Metrópole, e vice-versa, com o estatuto de vÃnculo relacional privilegiado, são o ponto forte da indagação do artista, empenhado numa alusão epocal capaz de espelhar os duros sacrifÃcios exigidos à juventude portuguesa naqueles tempos conturbados. Na reconstituição de Manuel Botelho é posta ênfase na carta de amor e no “anátema†pessoano de que todas elas são “ridÃculasâ€, mas que não obstante a concessão à trivialidade epistolográfica constituem testemunho e memória do embrião da crise que viria a transformar radicalmente Portugal. FOLHA DE SALA Conta-me como foi... Podemos evocar dois poemas, de muito diferente origem, tempo e destino público, perante um maço de cartas de amor: os versos melodramáticos da canção ligeira de Tony de Matos e a complexidade analÃtica do poema de Ãlvaro de Campos/Fernando Pessoa. Se os evocarmos a pretexto deste trabalho de Manuel Botelho, talvez se esclareça melhor o fundo psicológico e o contexto histórico e social que enquadra os diálogos de Amor que o artista encontrou na Feira da Ladra, comprou, transcreveu, fotografou, fez ler e encenou para um público que, inesperadamente, se descobre capaz de ter escrito ou lido partes dessas longas páginas de “cartas banaisâ€: “Cartas grandes, extensas, iguais/ Ao [seu] grande sofrer†(Tony de Matos). Ãlvaro de Campos não procura a justificação cultural ou mesmo mÃtica das grandes histórias de amor. Sem deixar de ter uma perspectiva intemporal, porque se refere a “Todas as cartas de amorâ€, inclui-se no mesmo universo (“Também escrevi em meu tempo cartas de amorâ€), funde todos os casos passados presentes e futuros e desarma sem piedade o sentido de excepcionalidade que o discurso vulgar atribui ao Amor; porque, de facto, afirma ele, “Todas as cartas de amor são/ RidÃculas†e “Não seriam cartas de amor se não fossem/ RidÃculasâ€, confirmando que, também as suas cartas de amor, teriam sido ridÃculas. A consciência do RidÃculo parece apenas poder formar-se depois do amor (um amor concreto ou mais ainda a possibilidade mesmo do Amor) ter acabado. De facto, o poeta, lamenta o passado perdido: “Quem me dera no tempo em que escrevia/ Sem dar por isso/ Cartas de amor/ RidÃculasâ€. Os autores reais das cartas de amor que ouvimos ler na instalação de Manuel Botelho não têm, evidentemente, esta consciência crÃtica. Podemos descodificar o valor sentimental dessas cartas de amor, que é intenso, mas percebemos a mediania da sua densidade psicológica, valor literário e histórico, fatalmente determinadas pela fragilidade cultural e polÃtica de ambos os intervenientes. Ainda assim, malgré eux, são decisivos documentos: na medida em que raras são as cartas escritas no feminino, e mais raro ainda é existir uma carta e a sua resposta. Os protagonistas escreveram-se, longamente, dois anos intensos de “extensasâ€, “iguais†e “ridÃculas†cartas de amor. Por vezes tinham ideia que a linguagem lhes era escassa para exprimir o que sentiam, por vezes desejavam ser menos insistentes, menos repetitivos mas nunca desmontam os frágeis mecanismos do aparato conceptual que determina o seu pensamento. Assim sendo, o seu tom aproxima-se mais do da cançoneta popular, cronologicamente coincidente com a época histórica para que estas cartas de amor remetem. Passo a passo, embora nunca haja ruptura nem drama, do que nestas cartas se fala é da saudade e da falta, do ciúme e do silêncio, do sonho de um futuro próximo e diverso. O que ouvimos, de ambos os intervenientes, embora as cartas dela sejam, esteriotipadamente, mais carregadas de sentimento e emotividade, são realmente “[...] Pedaços de dor / Sentidas de alguém†(Tony de Matos). Cada um dos elementos do casal é um eco dos versos cantados por uma das mais famosas estrelas populares de então: “Nelas jurei/ Com verdade o amor que senti/ Quantas noites em claro passei/ A escrever para ti / Cartas banais/ Que eram toda a razão do meu ser [...]â€. É esta dimensão de sinceridade que nos toca ao ouvirmos ler os excertos dessas cartas. É interessante, aliás, que mesmo Ãlvaro de Campos insista, em certa altura do seu poema, na presença desse sentimento ao afirmar que, “As cartas de amor, se há amor,/ Têm de ser/ RidÃculas†e que, “Só as criaturas que nunca escreveram/ Cartas de amor/ É que são/ RidÃculas.†Na instalação apresentada, temos duas cenas que se sucedem no espaço – devemos pensá-las como tempos simultâneos, duas faces de uma mesma moeda. Mas, de facto, entramos pelo fim, na história que temos vindo a desvendar neste texto. Assim, ao longo das paredes da primeira sala, pendurados como os grandes tapetes antigos eram pendurados, vemos uma colecção de panos de tendas de campanha. A história que nos contam não está neles figurada mas nós sabemo-la de cor: é uma história de homens, a história abstracta da guerra e da morte. Na sala seguinte, um novo dispositivo cénico inventa a possibilidade de uma boca de cena (fechada) feita de cortinados domésticos. Pelo texto cruzado ficamos então a saber tudo: tem o sabor de uma rádio-novela ouvida em longas tardes de costura, pequenos lanches, cumplicidades e adivinhadas tensões femininas. O texto situa-nos no tempo, no espaço e revela-nos a dimensão dos sentimentos: Portugal e Guiné, Anos de 1960 e Guerra Colonial, Amor e Morte, Ciúme e Esperança, … Tudo em doses pequenas e muito portuguesas, fugindo matreiramente quer à censura oficial quer à censura familiar, numa hoje impensável candura sexual e contenção de linguagem. Nas paredes de ambos os espaços, temos uma escassa colecção de imagens: que pode fixar e recuperar, como imagem artÃstica, as próprias cartas (que antes de mais são documentos sociológicos) e a imagem kitsch de um postal de namorados. Podemos certamente seguir o cinismo ou derrisão de Ãlvaro de Campos quando, depois de aceite a inevitabilidade das cartas de amor e do seu RidÃculo, conclui que, afinal, as memórias actuais que tem “Dessas cartas de amor/ É que são/ RidÃculasâ€. Mas não é apenas (ou principalmente) a exposição dessa fragilidade humana que move Manuel Botelho, na sua pesquisa e recriação. Ele é um dos autores que têm, no novo século, de modo profundo e inovador, trabalhado sobre o continente artisticamente quase inexplorado que é a Guerra colonial e a presença portuguesa em Ãfrica. Já vimos como estas cartas podem ser retrato ideológico do Portugal de então. Aqui são transformadas em obras de arte, ou seja, colocam-nos numa dimensão de interpretação e metáfora: o que sentimos perante a possibilidade da nossa morte ou da morte do ser que amamos? o que sentimos quando estamos longe do que amamos e de quem amamos? como vivemos tudo isto e como o relacionamos com a pequena vida de todos os dias, as suas pequenas alegrias, tristezas, derrotas, êxitos, espantos? Afinal, se tudo é RidÃculo, é também tudo muito Banal. Não há heróis para estas/nestas histórias; e se os houvesse, na dimensão excessiva das suas vidas, não se revelariam, eles também, RidÃculos? (João Pinharanda - Lisboa, 10 Maio 2011) |


















