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EXPOSIÇÕES ATUAIS


3553: Objetos de Teresa Segurado Pavão, MUDE, 2013. Fotografia: Pedro Rosa.


3553: Objetos de Teresa Segurado Pavão, MUDE, 2013. Fotografia: Pedro Rosa.


3553: Objetos de Teresa Segurado Pavão, MUDE, 2013. Fotografia: Pedro Rosa.


3553: Objetos de Teresa Segurado Pavão, MUDE, 2013. Fotografia: Pedro Rosa.


Fotografia: Eurico Lino do Vale.


Fotografia: Eurico Lino do Vale.


Fotografia: Eurico Lino do Vale.

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ARQUIVO:


TERESA PAVÃO

3553: Objetos de Teresa Pavão




MUDE - MUSEU DO DESIGN E DA MODA
R. Augusta, 24
1100-053 Lisboa

12 DEZ - 02 MAR 2014

Teresa Pavão: roubar um tesouro

Descemos a um lugar que foi secreto. O protocolo de acesso e a cenografia mantida garante ainda, ao vasto espaço dos antigos cofres de aluguer do Banco lisboeta onde funciona agora o MUDE, a simbologia dos lugares que apenas os eleitos conhecem.

O papel de um Museu é democratizar as visitas aos lugares sacralizados – sem destruir a poética original. As escadas, as sombras da ante-sala, os guichets, o peso das portas blindadas, as cores escuras dos mármores, a luz em frestas preparam-nos para a sala a que, finalmente, podemos aceder. E, nela, tudo mantém a gravidade e excita o fascínio pelo poder e riqueza que fizeram o lugar.

Um artista, ao expor num espaço destes, enfrenta um desafio difícil de vencer. O que mostra tem que nos devolver a memória do lugar mas, ao mesmo tempo, desmontar a violência e obscuridade contida nesse passado de pequenos tesouros particulares. É o que foi perfeitamente entendido e concretizado na intervenção de Teresa Pavão cujas peças cerâmicas, sempre acrescentadas por materiais que as abrem a uma multiplicidade de universos, nomeadamente aos limites do mais vasto campo da escultura.

O necessário confronto entre o que se guardava (escondia nos cofres) e o que agora se mostra (saindo de dentro dos cofres) é alcançado por contraste. Mas esse confronto é feito de um modo elegante e delicado: sem aparente ironia relativamente ao passado do local mas deslocando-se dele; sem excessiva carga metafórica mas explorando uma poética de melancolia. E, com evidente oportunidade cenográfica, entendendo todas as regras necessárias à realização dos jogos de formas, matérias e funções que garantem uma das mais conseguidas montagens da recente história deste espaço.

Os 3553 cofres da vasta sala subterrânea, que dão nome à exposição, ultrapassam largamente as 121 peças apresentadas por Teresa Pavão. Mas, ao mesmo tempo são elementos decisivos da exposição: desenham e contêm o espaço com a sua geometria tranquilizadora e os seus brilhos subtis e abrem-se para receber e proteger as frágeis peças – cada uma delas se afunda, abriga ou liberta das caixas e bancadas onde a artista as deixou oferecidas ao roubo dos nossos sentidos. Tocamos-lhes com os olhos semi-cerrados, do mesmo modo que as vemos com as mãos em concha ou passando-lhes a polpa dos dedos. E que tesouro temos? O espelho incerto dos vidrados, a seda, a terra, o frio e o calor dos barros; as cores, aprisionadas nos brilhos, como matérias escassas da pintura primordial de um corpo; ferros e madeiras, outras cerâmicas e outros vidros, colheres, botões, pregos, agulhas, malhas de ferro como véus; temos a perturbação dos ossos presos na cerâmica.

Um dos caminhos mais interessantes de Teresa Pavão é precisamente o da encenação de uma realidade intemporal para as formas e materiais criados. Mas a não obrigatória funcionalidade ou a funcionalidade múltipla das peças (caixas, taças, pratos, chávenas, almofadas…) garante a actualidade das suas propostas. Cada peça é personagem de uma ficção e Teresa Pavão usa o cenário local para nos aproximar da imagem das criptas, onde os corpos se faziam acompanhar dos bens mais preciosos usados em vida. E, depois, a artista desmonta essa ilusão: porque a sua ideia de trabalho não é a da repetição de modelos estabilizados anteriores mas de um exercício de liberdade sobre modelos que interiorizou como paradigmas pessoais.

Há, portanto, uma sucessão de verdades no trabalho de Teresa Pavão: a sabedoria do passado, o tempo longuíssimo dado pela histórica da cerâmica; o fascínio pela transversalidade, os ecos orientais, africanos e ocidentais que tocam e se trocam, nas suas peças; e a dinâmica do presente, ganha na modernidade das formas, na liberdade das formas relativamente à sua utilidade, na sobreposição de tempos, lugares e destinos reservados a cada um dos objectos, e no contributo que dão para uma nova diluição de fronteiras entre a artes decorativas e a escultura.



João Pinharanda é crítico de arte e curador, responsável pela Colecção de Arte da Fundação EDP.


João Pinharanda