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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição O poder das minhas mãos, 2025-2026, SESC Pompeia. © Cortesia SESC Pompeia


Vista da exposição O poder das minhas mãos, 2025-2026, SESC Pompeia. © Cortesia SESC Pompeia


Vista da exposição O poder das minhas mãos, 2025-2026, SESC Pompeia. © Cortesia SESC Pompeia


Vista da exposição O poder das minhas mãos, 2025-2026, SESC Pompeia. © Cortesia SESC Pompeia


Vista da exposição O poder das minhas mãos, 2025-2026, SESC Pompeia. © Cortesia SESC Pompeia


Vista da exposição O poder das minhas mãos, 2025-2026, SESC Pompeia. © Cortesia SESC Pompeia


Vista da exposição O poder das minhas mãos, 2025-2026, SESC Pompeia. © Cortesia SESC Pompeia


Vista da exposição O poder das minhas mãos, 2025-2026, SESC Pompeia. © Cortesia SESC Pompeia


Vista da exposição O poder das minhas mãos, 2025-2026, SESC Pompeia. © Cortesia SESC Pompeia


Vista da exposição O poder das minhas mãos, 2025-2026, SESC Pompeia. © Cortesia SESC Pompeia


Vista da exposição O poder das minhas mãos, 2025-2026, SESC Pompeia. © Cortesia SESC Pompeia


Vista da exposição O poder das minhas mãos, 2025-2026, SESC Pompeia. © Cortesia SESC Pompeia

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COLECTIVA

O PODER DE MINHAS MÃOS




SESC POMPEIA
Rua Clélia, 93 - Pompeia
São Paulo - SP, 05042-000, Brasil

23 AGO - 26 ABR 2026


 


O Sesc Pompeia, antiga fábrica de tambores, foi projectado por Lina Bo Bardi e acolhe até 26 de Abril de 2026 a exposição colectiva “ O Poder de Minhas Mãos”. A exposição, com curadoria de Odile Burluraux, Suzana Sousa e Aline Albuquerque agrega obras de Aléxia Ferreira, Aline Motta, Ana Pi, Ana Silva, Buhlebezwe Siwani, Castiel Vitorino Brasileiro, Dhiovana Barroso, Eliana Amorim, Fabiana Ex-Souza, Gabrielle Goliath, Gê Viana, Grace Ndiritu, Kapwani Kiwanga, Jasi Pereira, Lebohang Kganye, Lerato Shadi, Lidia Lisbôa, Lucimélia Romão, Pedra Silva, Reinata Sadimba, Senzeni Marasela, soupixo, Stacey Gillian Abe, Terroristas Del Amor e Wura-Natasha Ogunji e insere-se na programação da Temporada França-Brasil 2025, realizada em parceria com o Museu de Arte Moderna de Paris.

Se o propósito maior da definição desta “Temporada” é trazer próximos os dois países e “ampliar a relação bilateral e reafirmar as iniciativas comuns face aos desafios políticos, sociais e ecológicos da contemporaneidade.”, esta exposição, estando nela inserida, sublinha a ideia de desafio, mostrando apenas a produção artística de mulheres sob um título emprestado à obra da artista angolana Keyezua.

Estas obras são no espaço organizadas segundo quatro eixos – “Estórias pessoais”, “Histórias e ficções”, “Pessoal é político” e “Performances” – que se intercalam para dar lugar à narrativa geral e que, indica o belíssimo título, é tão plural quanta a potencialidade deste nosso membro. Esta exposição é uma versão revista e ampliada da exposição apresentada primeiramente na Saison Afrique 2020, mostrada em França e Angola, que teve à época uma resenha publicada nesta mesma revista.

Se continuo céptica a “exposições de mulheres” ou “exposições que dão a ver o feminino” e variações destes mesmos testemunhos, a verdade é que não tenho como questionar a força que esta exposição ganha ao reunir num mesmo espaço abordagens artísticas que têm um mesmo horizonte. Diz Suzana Sousa em vídeo promocional da exposição que a origem geográfica das artistas se espraia pelas histórias e lutas e também pela partilha. Não seria por isso possível, na sua colocação, identificar nenhuma das artistas pela sua geografia individual, significando isto que a experiência de ser mulher é partilhada intrinsecamente, mesmo que marcada pela sua definição social e cultural, após o danosíssimo período colonial. Dizem também as curadoras que lhes dirigiu as decisões a tentativa de criar um grande encontro de gerações, com a maior diversidade de expressões, de culturas oriundas ou próximas deste triângulo entre Brasil, França e diáspora africana.

Esse âmbito partilhado que refere Suzana seria fruto do envolvimento das artistas no questionamento das suas próprias histórias de intimidade e auto conhecimento, experiências caseiras que ganham dimensões políticas, e cuja prospecção quanto às suas próprias identidades resulta da fabulação criada pelo empoderamento, pela recuperação do poder das mãos. Dizem que são as mulheres que carregam as histórias, e que são por isso elas a memória do mundo e alicerce da cultura, guardiãs de segredos. Não apenas porque as carregam, carregam também a responsabilidade de se vocalizarem, a si e a outras mulheres, impulsionando a volta contra colonial. O domínio da narrativa sobre si mesmas significa a detenção de uma voz na narrativa global.

À exposição como um todo saúdo a força do conjunto que, apesar do formato institucionalizado, efectivamente nos permite ter acessos a estas possibilidades que as curadoras evocam. Assinalo a pequena bibliografia disponível no espaço dedicado ao serviço educativo, no final do percurso da exposição. Entre vários outros títulos de enorme urgência, atropelou-me o livro de Nina Rizzi, e o seu também pungente título – Diáspora não é lar – do qual deixo o início e o fim de um radicalmente cru poema;

 

 

a terapeuta imaginária não quer saber

 

de lembranças felizes

a crítica literária imaginária não quer saber

de poemas de amor entre gente negra

lembranças de infância

não são sempre uma várzea do time ladeira abaixo

contra o chute no pâncreas

[...]

ó! a terapeuta e a crítica nunca entenderiam

o ferro, a terra, a água, o canavial, o milharal, os trapos

a gente suada, rindo, comendo, bebendo, sarrando

nunca entendem mesmo o verbo

a estratégia que molda nossa pele

 

 

Do todo da exposição, destaco as obras de Ana Silva e Grace Ndiritu.

Artista angolana, Ana Silva recupera tal como Nina Rizzi, memórias. São as de Ana pessoais e partilhadas, vêm de lembranças felizes e inevitavelmente tristes se pensarmos a história angolana, para as reconstruir com lentidão. A cada ponto de costura uma grande amplitude da memória.

 

Vista da exposição O poder das minhas mãos, 2025-2026, SESC Pompeia. © Cortesia SESC Pompeia

 

Na obra criada especialmente para a exposição – Natureza Bordada (2025) – encena um portal. Diz a informação da tabela de obra que Ana procura “enxergar o vazio não como uma ausência e sim como um espaço cheio de potencial”. Creio tanto que o consegue que o vejo tal qual descrito. Um portal; o eixo entre o vazio aparente, vórtice, e o em si mesmo da potência, o que não se sabe. A iluminação da exposição acentua o passo a passo de a considerar e as obras que tanto lhe têm em comum, distanciam-se, para que a olhemos. O que a afasta de outras companheiras obras no espaço, faz-nos atravessá-la. As transparências do portal bordado, suspenso contra um fundo rosado que permeia ¾ das paredes da exposição, exalam mistério e uma qualquer religiosidade a que a esta luz, ou a qualquer luz, possamos associar. Numa leitura semiótica, a imagem dos cogumelos, a uma escala semelhante à da mulher bordada e atarefada, carrega toda a literatura produzida recentemente sobre o poder de cura natural e sabedoria ancestral.

A instalação de vídeo intitulada Black Beauty: For A Shamanic Cinema, 2021 de Grace Ndiritu é para mim a peça mais intrigante da exposição, a que mais lastro deixa no pensamento. Neste vídeo a modelo africana Alexandra Cartier encontra Jorge Luis Borges e juntos discutem problemas contemporâneos relativos à pandemia e à ecologia. Chama-lhe, a artista, de cinema xamânico. Acção-criação que atesta como forma de retomar o cinema como “um espaço de partilha, participação e ética.”, dando nota de que “desde a pré-história até aos tempos modernos, o xamã não era apenas o curandeiro do grupo e o facilitador da paz, mas também o criador; o artista e o cineasta.”. De estados que permitem revisitação de problemas extemporâneos aos interlocutores, Grace propõe-nos uma verdadeira viagem aos confins dos questionamentos. A imagem dá-se maioritariamente focando as faces, expressões e gestos destes dois interlocutores, e a voz de ambos vai tremelicando nas partes em que aparentemente se constroem em directo indagações. 


Dizia o professor de pintura Ricardo Leite que “o homem deveria pintar o falo do tamanho que a mulher deseja”, isto para renovar a velha máxima de que não só o poeta é um fingidor como o pintor é um grandessíssimo mentiroso. Aparte o carácter risível em que coloco esta sentença – que mais do que frase, me parece a palavra apropriada – e que me perdoem os autores pelo descontextualizar das suas palavras, serve-me o falo, o homem, a mulher e o desejo para baralhar o sentido e dizer que a mulher deve esquecer o falo e o homem e viver à mercê do seu próprio desejo. Nada disto se previa quando iniciei a escrita desta analogia que ainda nem introduzi. É que em nenhum lugar na exposição é dito que quem dialoga com a “modelo africana” como é nomeada é um actor que interpreta Jorge Luis Borges.

Mérito dado à graça com que Grace desenha as palavras de Borges, e que, não conhecendo a icónica face deste escritor morto, nos enganaria. Se mediadas pelas mãos as palavras me fugiram a uma melhor organização, a primeira reviravolta da frase original, nesta exposição de mulheres, deveria ser a mulher deve pintar o homem na medida em que se o deseja. Dizendo assim nas entrelinhas que se serve a representação para fabular a realidade – em presentes ou futuros – a apresentação ou representação do que é a realidade pode ser esticada para que encaixe numa narrativa que melhor se deseja. Agraciem-se os intérpretes Emilio Linder enquanto Jorge Luis Borges e Aida Welle enquanto Alexandra Cartier, pela belíssima performance.

Finalizo com uma nota de adoração a Castiel Vitorino Brasileiro, artista que, diz a placa informativa junto à sua série de pinturas A linguagem dos anjos, vive e trabalha no planeta Terra.

Gesto singelo, que me faz pensá-lo tão activo na dominação da narrativa como tantos outros, mais visíveis, dentro das portas desta exposição. Porque, novamente Nina Rizzi; “algumas histórias começam pelo meio // porque ninguém quer ouvir o começo / mas a minha história começou / antes de começar.”

 

 

Catarina Real

(1992, Barcelos) Trabalha na intersecção entre a prática artística e a investigação teórica no campos expandidos da pintura, escrita e coreografia, maioritariamente em projectos colaborativos de longa duração, que se debruçam sobre o questionamento de como podemos viver melhor colectivamente. É doutoranda do Centro de Estudos Hu-manísticos da Universidade do Minho com uma investigação que cruza arte, amor e capital. Encontra-se em desenvolvimento da Terapia da Cor, prática aplicada entre teoria da cor, arte postal e intuição coreográfica. Mantém uma prática de comentário - nas vertentes de textos de reflexão, textos introdutórios a exposições, entrevistas e moderação de conversas - às obras e processos realizados pelos artistas na sua faixa geracional, com a intenção de contribuir para um ambiente salutar de crítica e criação colectiva e comunitária.
Foi artista residente na Residency Unlimited, Nova Iorque, com apoio do Atelier-Museu Júlio Pomar/EGEAC.



CATARINA REAL