Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição, © Josef Koudelka | © Fotografia : Jérémy Halkin / BnF


Vista da exposição, © Josef Koudelka | © Fotografia : Jérémy Halkin / BnF


Vista da exposição, © Josef Koudelka | © Fotografia : Jérémy Halkin / BnF


Vista da exposição, © Josef Koudelka | © Fotografia : Jérémy Halkin / BnF


Josef Koudelka. À esquerda. Jordânia, Petra, séc. I, 2016. À direita, Turquia, Didymes (Didim), templo de Apolo, época helenistica, 2012.


Josef Koudelka, Grécia, Cabo Sounion, Attique, templo de Poséidon, colunas de péristasis orientale, entre 444 et 440 AC, 2003.


Josef Koudelka, Turquia, Aizanoi (Çavdarhisar), teatro-estádio, construção começada em 160 e concretizada no séc. III, 2011.


Josef Koudelka, Argélia, Timgad (Thamugadi), detalhe de decumanus maximus e da sua colunata, ano 100, 2012.


Josef Koudelka, Grécia, Atenas, Ática, Olympiéion, troços de coluna da péristasis Sul, templo construído em 131-132 pelo imperador Adriano, 1994.


Josef Koudelka, Grécia, Micenas, Argolide, Péloponnèse, cisterna subterrânea, séc. XIII AC, 2003.

Outras exposições actuais:

JORGE SANTOS

A ILUSÓRIA VERDADE


Galeria Quattro, Leiria
SÉRGIO PARREIRA

PEDRO CALHAU

DO INESGOTÁVEL


Fundação Eugénio de Almeida - Centro de Arte e Cultura, Évora
NUNO LOURENÇO

KORAKRIT ARUNANONDCHAI & ALEX GVOJIC

NO HISTORY IN A ROOM FILLED WITH PEOPLE WITH FUNNY NAMES 5


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
MAURO SANTOS GONÇALVES

THIERRY FERREIRA

HABITAR O LUGAR


Vários locais / Leiria, Leiria
SAMUEL RAMA

ISAKI LACUESTA

ISAKI LACUESTA


Solar - Galeria de Arte Cinemática, Vila do Conde
DASHA BIRUKOVA

COLECTIVA

GLOBAL(E) RESISTANCE


Centre Pompidou, Paris
MARC LENOT

MAJA ESCHER

UM DIA CHOVEU TERRA


Galeria Municipal de Arte de Almada, Almada
CATARINA REAL

COMPETIÇÃO EXPERIMENTAL

CURTAS VILA DO CONDE IFF 2020


Teatro Municipal de Vila do Conde, Vila do Conde
DASHA BIRUKOVA

ANGELO GONÇALVES

ESTANQUE


Galeria TREM, Faro
MIRIAN TAVARES

COLECTIVA

PAUSA | LIVROS - PARTE IV


PLATAFORMAS ONLINE,
SÉRGIO PARREIRA

ARQUIVO:


JOSEF KOUDELKA

RUINES




BIBLIOTHÈQUE NATIONALE DE FRANCE - BIBLIOTHÈQUE FRANÇOIS-MITTERRAND
Quai François Mauriac
75706 Paris Cedex 13

15 SET - 16 DEZ 2020


 

 

A exposição na Biblioteca Nacional de França (até 16 de dezembro) apresenta uma parte (110) das 170 fotografias que Koudelka doou ao BnF. Mas, implicitamente, a abordagem escolhida aqui é bem diferente da do livro: as fotografias são identificadas apenas por números, às vezes no chão e, antes de os negligenciar preguiçosamente passado um momento, é necessário reportar a uma folha de sala para descobrir a qual cada um se refere (só um olho exercitado e perito pode reconhecer num ápice Delfos ou Palmira). Não há lógica geográfica ou histórica para o esquema de apresentação das imagens, mas apenas agrupamentos formais e estéticos. Às vezes a ruína mal é visível, como no grande Grand Saint Bernard enevoado. A cenografia pretende ser "um andar rítmico mas aleatório, favorecendo as surpresas visuais e a renovação do olhar". O resultado é, portanto, muito diferente da leitura do livro: em vez de descobrirmos AS ruínas, nós vemos aqui UMA ruína única, genérica, polimórfica e ubíqua. Em vez de experiências locais diversas, é a própria ideia de ruína com que somos aqui confrontados. Por isso, é muito interessante ver como, a partir do mesmo corpus, podemos construir para o leitor e para o visitante, duas experiências muito diferentes, bastante complementares, mas induzindo sensações, emoções e reflexões contrastantes.

Quarenta imagens de grande formato estão suspensas no centro da sala, indiscutivelmente as mais emblemáticas. Como sabemos, Koudelka privilegia o panorâmico, que ele subtrai da sua função documental histórica, para torná-lo numa ferramenta de perceção mais íntima da paisagem. Muito poucas das suas imagens são abertas, muito poucas deixam o olhar fugir para a distância, em direção ao horizonte (uma das exceções: o Cabo Sounion). Estas imagens suspensas em duas ou três, frente verso, permitem um percurso errante no meio delas, uma deriva inspirada, um olhar plural incluindo as imagens adjacentes daquela que se observa.

Uma vintena de fotografias são panoramas verticais, penduradas nas paredes como janelas estreitas, assassinos cortando a visão. Os dois da Jordânia e da Turquia justapõem a brutalidade rochosa de um desfiladeiro estratificado em Petra e a rocha esculpida, domesticada de uma coluna jónica do Templo de Apolo em Didymes: as fronteiras do deserto e a urbanidade da Ásia Menor, Nabateus e Gregos, acidente de terreno e harmonia controlada, domada. Mas o alto relevo erodido do camelo gigante esculpido na parede e o bloco áspero do qual a coluna parece emergir liga estes dois mundos.

Erosão aqui, além turismo, por vezes danos de guerra ou destruições ideológicas: a ruína modifica-se ao longo do tempo (e as fotos de Palmira, tiradas por Koudelka em 2006, mostram uma ruína que não é mais assim); pensamos noutras ruínas noutros lugares, as de Beirute após a guerra civil e os bombardeamentos israelitas, que Koudelka fotografou em 1991, o mesmo ano em que ele iniciou este grande projeto, certamente não uma coincidência. Todas estas construções antigas foram obra de homens impondo-se à natureza, escavando, nivelando, destruindo uma paisagem natural para instalar os seus artifícios de pedra, teatros ou templos, já uma forma de violência paisagística. E o tempo e os homens, por sua vez, destruíramo-nos; quase não há edifícios recuperados e reutilizados aqui, como as mesquitas que se tornaram igrejas ou vice-versa, ou as arenas que se tornaram locais de consumo de espetáculos; a igreja romana dos Santos Lucas e Martinho, cuja cúpula aponta por trás do Fórum de César, acima de um apoio Renascentista.

 

Josef Koudelka, Itália, Roma, Latium, Forum de César, capitéu coríntio, entre 51 e 40 AC, 2000.

 

Também na ruína de Koudelka não existem, ou quase, seres humanos, nem mesmo seres vivos (só as ervas selvagens têm o direito a lugar). A sombra de Koudelka no teatro-estádio de Aizanoi numa vista de cima, única aparição de toda a série, é acompanhada por muito poucas representações da figura humana: Neptuno na sua quadriga num mosaico de Ostia, algumas estátuas raras (um togatus acéfalo em Eleusis, Roma personificada em Amazona dominadora em Ostia, o rio Tibre em Tivoli, uma mulher nua no meio de juncos em Dion, e o nosso camelo nabateano), é praticamente tudo (com dois turistas por inadvertência no Cabo Sounion), Koudelka não é um fotógrafo de estátuas.

Tudo aqui é inanimado, de pedra, de mármore e de calcário, raramente rochas mais decorativas, como as veias das colunas do Monte do Templo em Jerusalém ou os mármores dos do mercado de Leptis Magna, ou as assemblagens de tijolos mais expressivos (como a parede da Villa de Adriano em Tivoli ou a grelha em primeiro plano do templo redondo de Tibur, também em Tivoli). Algumas vistas do terreno, os traços dos carros no pavimento escurecido da Via Ápia e sobre as lajes de Timgad, ou as pontuações da pavimentação da Rue des Courètes em Éfeso.

O que aqui predomina, é claro, é a pedra e as suas vibrações: estrias fervilhantes das colunas, jogos de luz fazendo dançar os degraus no nosso olhar, como no Teatro de Epidauros ou no Estádio das Afrodísias. A coluna partida da Olympia de Atenas é talvez a imagem mais emblemática de toda a exposição, tanto a mais simbólica de uma grandeza caída como a mais bem sucedida esteticamente entre a métrica e jogos de sombra.

Catálogo (notável) recebido em serviço de imprensa. Por outro lado, podemos abster-nos de ler "Josef Koudelka, l’épreuve totalitaire" de Jean-Pierre Montier (Delpire, 2004), não que a análise bastante social e política da obra de Koudelka seja desinteressante, mas infelizmente é poluída pelas digressões neo-conservadoras do autor sobre as supostas desonestidades da esquerda francesa, aqui muito incongruentes.

 

:::

 

Todas as imagens © Josef Koudelka / Magnum Fotos.
 



MARC LENOT