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COLECTIVAO PODER DE MINHAS MÃOSSESC POMPEIA Rua Clélia, 93 - Pompeia São Paulo - SP, 05042-000, Brasil 23 AGO - 26 ABR 2026
Se o propósito maior da definição desta “Temporada” é trazer próximos os dois países e “ampliar a relação bilateral e reafirmar as iniciativas comuns face aos desafios políticos, sociais e ecológicos da contemporaneidade.”, esta exposição, estando nela inserida, sublinha a ideia de desafio, mostrando apenas a produção artística de mulheres sob um título emprestado à obra da artista angolana Keyezua. Estas obras são no espaço organizadas segundo quatro eixos – “Estórias pessoais”, “Histórias e ficções”, “Pessoal é político” e “Performances” – que se intercalam para dar lugar à narrativa geral e que, indica o belíssimo título, é tão plural quanta a potencialidade deste nosso membro. Esta exposição é uma versão revista e ampliada da exposição apresentada primeiramente na Saison Afrique 2020, mostrada em França e Angola, que teve à época uma resenha publicada nesta mesma revista. Se continuo céptica a “exposições de mulheres” ou “exposições que dão a ver o feminino” e variações destes mesmos testemunhos, a verdade é que não tenho como questionar a força que esta exposição ganha ao reunir num mesmo espaço abordagens artísticas que têm um mesmo horizonte. Diz Suzana Sousa em vídeo promocional da exposição que a origem geográfica das artistas se espraia pelas histórias e lutas e também pela partilha. Não seria por isso possível, na sua colocação, identificar nenhuma das artistas pela sua geografia individual, significando isto que a experiência de ser mulher é partilhada intrinsecamente, mesmo que marcada pela sua definição social e cultural, após o danosíssimo período colonial. Dizem também as curadoras que lhes dirigiu as decisões a tentativa de criar um grande encontro de gerações, com a maior diversidade de expressões, de culturas oriundas ou próximas deste triângulo entre Brasil, França e diáspora africana. Esse âmbito partilhado que refere Suzana seria fruto do envolvimento das artistas no questionamento das suas próprias histórias de intimidade e auto conhecimento, experiências caseiras que ganham dimensões políticas, e cuja prospecção quanto às suas próprias identidades resulta da fabulação criada pelo empoderamento, pela recuperação do poder das mãos. Dizem que são as mulheres que carregam as histórias, e que são por isso elas a memória do mundo e alicerce da cultura, guardiãs de segredos. Não apenas porque as carregam, carregam também a responsabilidade de se vocalizarem, a si e a outras mulheres, impulsionando a volta contra colonial. O domínio da narrativa sobre si mesmas significa a detenção de uma voz na narrativa global. À exposição como um todo saúdo a força do conjunto que, apesar do formato institucionalizado, efectivamente nos permite ter acessos a estas possibilidades que as curadoras evocam. Assinalo a pequena bibliografia disponível no espaço dedicado ao serviço educativo, no final do percurso da exposição. Entre vários outros títulos de enorme urgência, atropelou-me o livro de Nina Rizzi, e o seu também pungente título – Diáspora não é lar – do qual deixo o início e o fim de um radicalmente cru poema;
a terapeuta imaginária não quer saber
de lembranças felizes
[...] ó! a terapeuta e a crítica nunca entenderiam
Do todo da exposição, destaco as obras de Ana Silva e Grace Ndiritu. Artista angolana, Ana Silva recupera tal como Nina Rizzi, memórias. São as de Ana pessoais e partilhadas, vêm de lembranças felizes e inevitavelmente tristes se pensarmos a história angolana, para as reconstruir com lentidão. A cada ponto de costura uma grande amplitude da memória.
Vista da exposição O poder das minhas mãos, 2025-2026, SESC Pompeia. © Cortesia SESC Pompeia
Na obra criada especialmente para a exposição – Natureza Bordada (2025) – encena um portal. Diz a informação da tabela de obra que Ana procura “enxergar o vazio não como uma ausência e sim como um espaço cheio de potencial”. Creio tanto que o consegue que o vejo tal qual descrito. Um portal; o eixo entre o vazio aparente, vórtice, e o em si mesmo da potência, o que não se sabe. A iluminação da exposição acentua o passo a passo de a considerar e as obras que tanto lhe têm em comum, distanciam-se, para que a olhemos. O que a afasta de outras companheiras obras no espaço, faz-nos atravessá-la. As transparências do portal bordado, suspenso contra um fundo rosado que permeia ¾ das paredes da exposição, exalam mistério e uma qualquer religiosidade a que a esta luz, ou a qualquer luz, possamos associar. Numa leitura semiótica, a imagem dos cogumelos, a uma escala semelhante à da mulher bordada e atarefada, carrega toda a literatura produzida recentemente sobre o poder de cura natural e sabedoria ancestral. A instalação de vídeo intitulada Black Beauty: For A Shamanic Cinema, 2021 de Grace Ndiritu é para mim a peça mais intrigante da exposição, a que mais lastro deixa no pensamento. Neste vídeo a modelo africana Alexandra Cartier encontra Jorge Luis Borges e juntos discutem problemas contemporâneos relativos à pandemia e à ecologia. Chama-lhe, a artista, de cinema xamânico. Acção-criação que atesta como forma de retomar o cinema como “um espaço de partilha, participação e ética.”, dando nota de que “desde a pré-história até aos tempos modernos, o xamã não era apenas o curandeiro do grupo e o facilitador da paz, mas também o criador; o artista e o cineasta.”. De estados que permitem revisitação de problemas extemporâneos aos interlocutores, Grace propõe-nos uma verdadeira viagem aos confins dos questionamentos. A imagem dá-se maioritariamente focando as faces, expressões e gestos destes dois interlocutores, e a voz de ambos vai tremelicando nas partes em que aparentemente se constroem em directo indagações. Dizia o professor de pintura Ricardo Leite que “o homem deveria pintar o falo do tamanho que a mulher deseja”, isto para renovar a velha máxima de que não só o poeta é um fingidor como o pintor é um grandessíssimo mentiroso. Aparte o carácter risível em que coloco esta sentença – que mais do que frase, me parece a palavra apropriada – e que me perdoem os autores pelo descontextualizar das suas palavras, serve-me o falo, o homem, a mulher e o desejo para baralhar o sentido e dizer que a mulher deve esquecer o falo e o homem e viver à mercê do seu próprio desejo. Nada disto se previa quando iniciei a escrita desta analogia que ainda nem introduzi. É que em nenhum lugar na exposição é dito que quem dialoga com a “modelo africana” como é nomeada é um actor que interpreta Jorge Luis Borges. Mérito dado à graça com que Grace desenha as palavras de Borges, e que, não conhecendo a icónica face deste escritor morto, nos enganaria. Se mediadas pelas mãos as palavras me fugiram a uma melhor organização, a primeira reviravolta da frase original, nesta exposição de mulheres, deveria ser a mulher deve pintar o homem na medida em que se o deseja. Dizendo assim nas entrelinhas que se serve a representação para fabular a realidade – em presentes ou futuros – a apresentação ou representação do que é a realidade pode ser esticada para que encaixe numa narrativa que melhor se deseja. Agraciem-se os intérpretes Emilio Linder enquanto Jorge Luis Borges e Aida Welle enquanto Alexandra Cartier, pela belíssima performance. Finalizo com uma nota de adoração a Castiel Vitorino Brasileiro, artista que, diz a placa informativa junto à sua série de pinturas A linguagem dos anjos, vive e trabalha no planeta Terra. Gesto singelo, que me faz pensá-lo tão activo na dominação da narrativa como tantos outros, mais visíveis, dentro das portas desta exposição. Porque, novamente Nina Rizzi; “algumas histórias começam pelo meio // porque ninguém quer ouvir o começo / mas a minha história começou / antes de começar.”
Catarina Real
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