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CATHERINE OPIETO BE SEENNATIONAL PORTRAIT GALLERY St Martin’s Place London WC2H 0HE 05 MAR - 31 MAI 2026 O olhar de Catherine Opie. Retratos, identidades e comunidades
A fotografia reproduz e fixa a realidade, congelando o instante, o tempo, o efémero. Expõe a sociedade e aqueles que a constituem, tornando-se num fiel e indispensável testemunho de épocas e culturas. Neste contexto, destaca-se o retrato, central na construção de identidades individuais e coletivas desde que a fotografia surgiu, no início do séc. XIX. Já na contemporaneidade, esse género fotográfico opera em duas dimensões, ora enquanto revelador do íntimo do retratado, ora, pelo contrário, participando na encenação e na construção de um outro eu. Este duplo potencial do retrato é explorado de modo notável e singular por Catherine Opie (1961, Ohio), uma das figuras mais relevantes da fotografia contemporânea norte-americana. Reconhecida, sobretudo, pela forma como retrata e apresenta diferentes identidades, comunidades e estruturas de poder, Opie é a autora de uma vasta e impressionante obra. Nos últimos 35 anos, tem-se dedicado sobretudo à fotografia de retrato em diversos contextos e sob diferentes formatos, apresentando, sempre, uma estética cuidada, recorrentemente inspirada em movimentos artísticos da pintura clássica e visualidades próprias do tradicional estúdio de fotografia. Recorre, portanto, a uma linguagem visual institucional, isto é, de acordo com padrões formais e tradicionais de composição e figuração. No entanto, retrata aqueles que foram habitualmente excluídos desse género de representação, pretendendo dar-lhes visibilidade. Representa comunidades LGBTQ+, famílias queer, a subcultura leather (estética erótica, liderada por gays, das décadas 40 e 50, nos EUA), adolescentes e habitantes dos subúrbios pobres. Os sujeitos surgem centrados, imóveis, adequadamente iluminados, numa formalidade semelhante aos antigos retratos de nobreza e aristocracia, ou, nos dias de hoje, da realeza e de figuras políticas. Mas os corpos, as tatuagens e o vestuário revelam os seus contextos e enquadramentos sociais e culturais. Deste modo, a fotógrafa desafia, desvirtua e reconfigura o retrato, género primordial da prática fotográfica e um dos mais importantes da história da pintura. É isto que pode ser observado na atual exposição de Opie, na National Portrait Gallery, em Londres, inaugurada a 5 de março, com curadoria de Katy Barkan, na primeira grande mostra individual da fotógrafa num museu do Reino Unido. A dar início à exposição encontramos um retrato do ator trans e não-binário Daniel Sea, ainda enquanto Daniela, cujo reconhecimento à escala internacional decorreu da sua participação na série televisiva americana “The L Word”. O título, "Daniela", ao colocar em evidência o nome próprio, aproxima-a de nós, espectadores. Esta estratégia a que Opie recorre repete-se, nessa mesma parede da exposição, com Jesse, Beatrice, Spencer, Petey, Pilar, Oscar e Kellen. Todos estão retratados do mesmo modo, direto e frontal, tendo como única alteração a cor de fundo, sempre forte e expressiva.
Pig Pen, 1993. © Catherine Opie / Cortesia Regen Projects, Los Angeles; Lehmann Maupin, New York, Hong Kong, London, and Seoul; Thomas Dane Gallery
Numa outra zona da exposição, os fundos cromáticos são substituídos e dão lugar a um preto denso, profundo. Deste modo, a formalidade das imagens altera-se e emerge uma visualidade própria do Barroco, definida por fortes contrastes de luz e sombra. Na arte barroca, predominava a técnica do chiaroscuro, concebida para dar tridimensionalidade e teatralidade às pinturas. Já nas fotografias de Opie, este efeito ganha particulares sentido e importância, pois estabelece um espaço psicológico, como se verifica no retrato do casal gay Thelma Golden, Diretora e Curadora-Chefe do Studio Museum em Harlem, e Duro Olowu, estilista. Assinale-se, porém, que a relação com a pintura barroca comporta também um caráter crítico, na medida em que Opie questiona as responsabilidades e as funções políticas e religiosas recorrentemente atribuídas à arte. Recorde-se que, durante séculos, a arte esteve ao serviço da igreja, foi utilizada para educar o povo e apropriada enquanto meio de propaganda e de poder, de partidos e movimentos políticos. Na exposição, encontram-se outras referências do campo artístico, nomeadamente, da pintura renascentista. A principal e assinalada pela artista é Hans Holbein, pintor suíço-alemão do século XVI cuja tarefa fora retratar a corte de Henrique VIII. Como explica a fotógrafa, "a devastação causada pelo VIH/SIDA afetou a nossa comunidade” e “usei Holbein como uma força orientadora para documentar a minha comunidade e torná-la a minha própria família real". Opie regista aqueles que lhe são próximos, nos seus próprios espaços, como é exemplo o seu trabalho do início da década de 2000, realizado no bairro onde então vivia, em Los Angeles. Note-se, porém, que mesmo as cenas e os ambientes domésticos estão alinhados com a política de visibilidade de Opie, pretendendo remeter para a problemática da homofobia persistente na cultura americana durante a administração Bush. Já os “Surfistas” (2003) de Malibu, retratados como se emergissem do oceano, absorvidos pela paisagem, com iluminação, tonalidade e composição próximas do Romantismo, representam a interseção entre identidades individuais e coletivas. Quanto às "Paisagens do Futebol Americano”, de 2007 a 2009, dão continuidade à problematização da estrutura social americana, sendo que os retratos dos jovens jogadores, do ensino secundário, denunciam as pressões dos estereótipos de masculinidade atlética. Outros motivos políticos desdobram-se ao longo do último corredor da exposição, onde diversas divisões e alianças são colocadas em confronto e em diálogo através de imagens do centenário do Jamboree dos Escuteiros na Virgínia, na Reserva Nacional Escoteira da Família Bechtel, do Festival de Música Feminina de Michigan, festival de música e cultura feminina, comícios do Tea Party e a tomada de posse do Presidente Barack Obama. Por fim, uma fotografia do Papa Francisco à janela, no Vaticano, enquadramento este que o insere no que Opie entende ser a “arquitetura do poder”. O título deste retrato do antigo chefe da Igreja Católica, “No Apology (June 5,2021)”, faz referência ao reconhecimento papal tardio das mortes de crianças das Primeiras Nações do Canadá sob a administração da igreja. Compreende-se, então, que a exposição seja apresentada enquanto "uma reflexão sobre o significado da representação e a importância de ser visto". E como se verifica ao longo da visita, à medida que Catherine Opie se debruça sobre diferentes problemáticas sociais, recorrendo à fotografia como ferramenta de registo documental, utiliza-a também enquanto instrumento de memória e resistência. Os seus retratos são espaços de afirmação identitária e comunitária, pessoal e política, do eu e do nós. A visitar, até ao dia 31 de maio.
Constança Babo
(Porto, 1992) é crítica de arte e membro da AICA Portugal. É doutorada em Arte dos Media e Comunicação pela Universidade Lusófona, mestre em Estudos Artísticos - Teoria e Crítica de Arte, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, e licenciada em Artes Visuais - Fotografia, pela Escola Superior Artística do Porto. Realizou, igualmente, os cursos Curating New Media Art e Redefining Museums: Curatorial Theory and Practice for a New Era, no Node Center – Curatorial Studies Online, e Questions of Judgement, na Universitat der Kunst Berlin. Foi research fellow no projeto internacional BEYOND MATTER, no Zentrum fur Kunst und Medien Karlsruhe, e colaborou como investigadora no projeto MODINA, na Tallinn University. Também publica artigos científicos.
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