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© AliÌpio Padilha
A Moda constitui um problema que não é, de maneira alguma, frívolo, pois tem as suas raízes na religião, na política, na arte... - Gillo Dorfles
Há um mistério que habita em todos os centros das grandes cidades mundiais – ao menos nas mais antigas – e este mistério consiste naqueles espaços: ruas, praças, becos, pátios, anexos, que apesar de estarem no centro geográfico e pertíssimo do formigueiro humano são pouco ou nada frequentados e permanecem quase desconhecidos. Estes podem ser públicos, ou até semi-públicos, mas estão lá, no meio da azáfama de nativos e muito especialmente de turistas, vizinhos do comércio, seja de luxo seja de lojas de souvenirs baratos, de gourmets e de tuk tuks. São simultaneamente uma espécie de não-espaço e na realidade os únicos espaços genuínos por onde ainda se pode existir no quase escondido e no quase silêncio, coisas raras nesta época de ruído – físico e virtual – e de presença permanente – em especial a (falsa) presença virtual que se derrama por fotografias, vídeos e partilhas. Foi num desses não-espaços que penetrei como se descobrisse um portal para um outro mundo em pleno Largo do Chiado, e curiosamente vizinho da Igreja da Nossa Senhora da Encarnação – e escrevo curiosamente pois as igrejas também são espaços onde ainda se pode existir sem ter de se impor ou sentir a imposição da presença e do consumo. O misticismo habita tanto nas religiões como na arte, ambas estão escondidas e ambas revelam-se aos iniciados. Transposta a entrada e percorridos alguns corredores circundados por altas paredes de edifícios e uma ou outra porta de escritórios, encontro a Escola do Largo onde me desloquei para assistir a Dressing Room, da performer Lígia Soares, através da sua Romance - Associação Cultural.

© AliÌpio Padilha
São poucas as cadeiras para o público, e no espaço que serve de palco está uma mulher muito magra e alta, vestida com um vistoso e luxuoso vestido. É para o vestido que o público é sugado como se este fosse um buraco negro, pois é sobre ele que o espectáculo gira, não única e necessariamente por ser vistoso mas porque custou a maior parte do orçamento do espectáculo. Poderia ser essa a razão do minimalismo da encenação, a falta de dinheiro para a restante produção, mas a razão é essencialmente a necessidade de ter espaço psicológico para se falar do tema, espaço para o texto reinar, espaço para respirar, e pensar, não apenas sobre a moda de luxo, mas também sobre a arte de luxo e do viver sendo artista, e o simples viver como um luxo – pois sobreviver é outra coisa, é o pão nosso de cada dia nos dai hoje ou só às vezes. E esse minimalismo, esse descarnado, faz também parte da própria ideia do que é um espectáculo nos dias de hoje em que tudo de alguma forma se tornou espectáculo. O vestido, mais do que tecido, é um conceito, é uma glamourização do vestuário e da indústria da Moda e do que esta tem em comum com o mundo da arte, e nesta performance convergem no longo e falso monólogo, pois na realidade é diálogo, com a autora/performer mais de uma vez a interrogar e confrontar o público com alguma agressividade de onde escorre ironia como mel.
O texto da autoria da própria Lígia é uma crítica a propósito do valor real, simbólico e social de um objecto de arte – convenhamos, a Moda, seja retalho ou alta costura, também é uma Indústria Criativa, embora seja fácil de esquecer isto. O texto irónico, ácido e confrontacional aborda questões éticas sobre o alto preço de um vestido de luxo/obra de arte e o seu significado e função entre a futilidade ou o activismo, entre a pura estética ou o ter uma mensagem a transmitir. Devem ter uma mensagem social e política ou ninguém os recrimina por serem apenas um deleite estético e exibicionista? Estamos ali entalados entre o luxo e o engajamento, pois Lígia exibe-nos um vestido de alta costura da marca portuguesa Alves/Gonçalves que custou 20.695 euros do orçamento total do espectáculo, aliás, custou-nos a todos nós, coisa que faz questão de nos lembrar, pois a performance é subsidiada pela Direcção-Geral das Artes e por consequência por dinheiro público. Ela não poderia, ou passe a piada, seria bastante custoso, comprar o vestido com os seus rendimentos de “artista”. Quantos artistas poderiam comprar o vestido? O seu valor é real, mas ali é discutido o seu valor simbólico. O artista plástico italiano Salvatore Garau vendeu por elevado valor uma escultura que não existe fisicamente, mas apenas como conceito, portanto, é apenas uma “ideia” na sua cabeça – e um certificado ao comprador (pois não estamos aqui para enganar ninguém). Se isto é escandaloso não é nada comparado a Maurizio Catellan – outro artista plástico italiano – que colou uma banana a uma parede e esta obra de arte conceptual atingiu em leilão o valor de 6,2 milhões de dólares. Quem designa o valor de uma obra de arte? Ainda antes disso: Quem designa o que é ou não é arte, ou se esta é ou não é válida? Marcel Duchamp, um dos responsáveis pela Arte Conceptual, afirmou: “Anything is art if an artist says it.” – Quem designa o valor de um vestido de luxo? O designer? O mercado? A imprensa de moda?

© AliÌpio Padilha
No interessante artigo de Serena Giordano de seu nome A Importância da Estupidez na Arte, é dito que no dicionário etimológico da língua italiana a entrada da palavra «estupidez» remete também para uma outra palavra: Estupefacção. Muitos que veneram a ostentação de riqueza e a recente moda do empreendedorismo e meritocracia certamente ficam “estupefactos” perante uma escultura não existente ou perante um discurso sobre as condições reais do artista e da arte que este produz, esses mesmos estupefactos são na sua maioria os que ficam indignados com os subsídios atribuídos às artes, mas são capazes de comprar um vestido de 20.695 euros para ir a uma famosa gala ou a algum evento artístico e neste caso somente porque “fica bem”, tanto o fazer de conta que aprecia e entende de arte como o aparecer. São os mesmos que nas redes sociais perante uma banana colada na parede colocam emojis de risinhos e comentam “Mas isto é arte? É para isto que dão dinheiro?”. É preciso alimentar o ego e o status, mas ficam, “estupefactus”, e contra vestidos não há argumentos.

© AliÌpio Padilha
Tudo começa como se Lígia estivesse a apresentar uma Gala. Mas não está Lígia a jogar um jogo viciado à partida, pois o público é na sua grande maioria o seu público, aqueles que gostam de artes? E talvez de Moda. É-nos pedido – imposto é melhor palavra – para meditar sobre o assunto que do centro do buraco negro se expande para galáxias temáticas vizinhas (sempre à volta da crítica ao Capitalismo, por exemplo a especulação imobiliária), mas não seria mais interessante tentar chegar ao outro público? Aquele que não filosofa tanto sobre estes assuntos? Eu sei, eu sei… Como fazer isso? – podem perguntar. Vivemos numa época em que pecamos por falar em circuito fechado quando a ideia é usar o megafone no máximo, mas acontece que o sistema está viciado – sempre esteve, e tudo redunda na hiperpolítica. Por causa da Internet vivemos como nunca antes numa época de deslumbramento com imagens/nossa imagem, e desejos não realizados que são sugados das redes sociais e canalizados para as mesmas redes sociais. Nunca bastou ser, sempre foi preciso aparecer.
A autora/performer está em palco, sempre a solo, e manipula aparelhos, fala connosco, nunca nos deixa esquecer porque estamos ali e o que está lá fora, a poucos metros – as lojas de luxo, a Lisboa Disneylandia, a Lisboa Ibiza, os pedintes andrajosos a dormir na rua. Tudo é incómodo com pitadas de humor e a dada altura vem ter connosco e pede que mexamos no vestido. Como sempre a maioria das pessoas toca timidamente, não pelo valor e por medo de estragar, mas porque estamos formatados a ter medo de tocar e participar num espectáculo, temos medo de espelhos que sejam tocáveis – apesar de tanta selfie practicada. Também pede a dada altura para fecharmos os olhos e continuarmos a visualizar o vestido, a o idealizar em todo o seu esplendor e possibilidades, sendo que porventura foi a primeira vez que tocámos numa peça de vestuário tão cara. Entre o toque e a idealização existe um buraco negro a ser preenchido por pensamentos, pois tudo é sugado para ele.

© AliÌpio Padilha
Entretanto, e de surpresa: a electricidade falha. Escuro, interrupção. Por momentos nasce em todos a dúvida se fará parte do espectáculo – eu, maldoso, confesso ter pensado que com a despesa no vestido não houve dinheiro para pagar a conta da luz. – Mas não, é a igreja paredes meias que de vez em quando faz uma espécie de puxada de eletricidade e o quadro da escola do Largo vai abaixo. Mas Lígia, experiente performer, absorve a falha técnica, incorpora o erro, e devolve-o repleto de sentido metafórico. Esta falha tornou tudo mais frágil, mais humano, mesmo porque quem é que com um vestido daqueles vai ao quadro de electricidade ver o que se passa? Lígia foi, e fez-se luz. O texto e a ideia desta performance já tinha algum tempo e pôde finalmente ser concretizada. Dressing Room mostra ser um bom exercício com a performer vestida a despir o público para depois novamente o vestir. É uma forma de vestidos nos observarmos nus. Ela está vestida para pensar e pensar ainda é grátis. Ainda.
“Digam lá se não pareço uma princesa. Sim? Ou talvez uma estrela? Uma pessoa famosa e bem sucedida, já que uma depende necessariamente da outra.” - in Dressing Room.
Se possível, Leonel Ventorim escreve de tudo: de romance a horóscopo, de teatro a bula farmacêutica, de poesia a epitáfio. Gosta de Jornalismo Cultural e dedica-se a espécies literárias em perigo de extinção tal como a crónica ou a crítica de teatro. Tem uma boa colecção de Jornalismo Literário, cerca de duzentas gravatas, dois gatos, e gosta de gelado de chocolate e pistáchio. Já fez muita coisa mas prefere sempre o futuro.