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OPINIÃO


Fernando Lemos, Eu,1950. Fotografia.


Fernando Lemos, Revista Pentacórnio, 1956


Fernando Lemos, Revista Long Playing, 1961.


Fernando Lemos, Cartaz Brasil Verdade, 1968.


Fernando Lemos, Tecido Estampa Rhodia, 1968.


Fernando Lemos, Metro São Paulo - Estação Brigadeiro, 1991.


Fernando Lemos, Estudo para cartaz da exposição Tanto Mar, 2017.

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Talvez o design gráfico esteja, hoje em dia, demasiado preocupado em definir as suas leis que se esquece de viver e de representar as formas que pulsam no dia a dia e que são fluídas, sem amarras, à margem de categorizações.

O design vive delas todas. As formas de expressão, como a poesia, a fotografia, a pintura, o desenho, a ilustração, a escultura e até a instalação, prefiguram o alcance do design gráfico e estabelecem conexões transversais. Por outras palavras, a necessidade de comunicar encontra-se um pouco por todo o lado e é inerente a qualquer das disciplinas. Até mesmo um objecto tridimensional destinado a um uso concreto e básico não deixa de comunicar, além da sua função directa (se for bem sucedido enquanto objecto de uso) a função estética, a função simbólica, definindo o que o objecto é, nas suas propriedades comunicacionais, enquanto vasos transmissores de estatuto, por um lado, ou de agradibilidade, por outro, no caso de serem aprazíveis aos sentidos. A própria matéria, de que é feito o objecto, contém as suas propriedades comunicantes, como a cor, a textura, se é uma matéria natural ou artificial, qual a temperatura que de si emana, o cheiro, o passado e a memória que evoca.

Provavelmente tenha sido por essa razão abrangente do design que Fernando Lemos reivindicou para si o estatuto de designer, atitude que, na sua opinião, o define melhor.

Chico Homem de Melo, curador da exposição “Fernando Lemos Designer” (patente na Coordoaria Nacional e organizada pelo Museu MUDE), ao apresentar Fernando Lemos no catálogo da exposição, refere que o designer “não cabe numa única nacionalidade, é português, é brasileiro, por isso talvez não caiba numa única definição profissional – é designer, artista visual, fotógrafo, muralista, poeta, pensador de cultura”.

“Talvez seja a sua peculiaridade como criador, ser um e ser tantos”, Fernando Lemos gosta de afirmar que em tudo o que faz é sempre designer. Ele entende que o termo é suficientemente amplo “para resumir a sua forma peculiar de produzir linguagem”. Essa identificação como designer justifica ainda mais o título que dá nome à exposição e a vontade de, além da fotografia que o tornou notável em Portugal, dar a conhecer ao grande público o trabalho intenso que realizou no Brasil, enquanto designer gráfico, e ao longo de uma vida. Porém, é preciso salientar que o trabalho e a forma de pensar de Fernando Lemos, segundo Homem de Melo, confirma o homem coerente e livre que sempre tem sido. Como se verificou nos anos 1950, quando decidiu sair de Portugal, numa época agrilhoada pela ditadura, e sabendo o criador das limitações que a permanência em Portugal provocaria na sua criação artística. Num compromisso libertador, alheio às academias, Lemos rumaria ao Brasil. E é por esse motivo, por ser um livre pensador, que Homem de Melo compara o designer a um arquipélago. Traduzindo em ilhas o número de áreas e a diversidade de produção que reveste a sua obra no Brasil.

Compreendendo a sua intensa actividade como designer gráfico no Brasil, Lemos realizou um projecto visual maravilhoso, em 1963, no Pavilhão Brasil, por ocasião da feira de Tóquio. O sinal que se encontrava sobre o muro do pavilhão, formado por letras com a identificação Brasil, era também capa do folheto. Com esta resposta por parte do Lemos, a palavra Brasil, que acabava por se transformar em um quase-logótipo, tornava-se assim um símbolo para o país que o acolheu.

Lemos destacava-se como grande muralista. Em 1954 São Paulo comemorava 400 anos da sua fundação e Lemos foi um dos artistas a ser convidado para guarnecer a cidade com arte. O convite veio do prestigiado Jaime Cortesão, historiador português que, à data, residia no Brasil.

Coube a Lemos realizar um belíssimo e gigantesco mural alusivo à efeméride e de que infelizmente hoje só há registo através de fotografias, dado que os murais foram todos destruídos à data de encerramento da exposição.

A composição do Mural revela um jogo de formas de génese maioritariamente geométrica, reforçada por um contraste de claro-escuro, habitualmente definidor da operacionalidade de Lemos. Já nas fotografias do designer o contraste claro-escuro era uma tónica na sua obra. Como se as coisas continuassem a ser esculpidas pela luz, fosse qual fosse o meio que utilizasse.

Lemos, ainda na década de 50, tem a oportunidade de trabalhar como ilustrador na revista Manchete e na revista Sombra. Sendo, nesta última, em 1953, que vai participar com uma fotografia e um poema, ambos de qualidade impar.

Em 1958 desenha a capa de um disco de poesia cujos protagonistas são Sérgio Milliet e Manuel Bandeira. A capa destaca-se pelo grafismo abstracto das formas, vindo a confirmar, mais uma vez, a sua mestria enquanto designer gráfico.

Na mesma revista explora simultaneamente o figurativo e o abstracto, e mais tarde, já na década de 60, reforça esse pendor pelo abstracto nas ilustrações do Suplemento Literário, o então encarte cultural pertencente ao mais importante jornal daquela cidade “Estado de S. Paulo”. O meio artístico naquele período parecia viver então em total e pura efervescência abstracionista geométrica.

Lemos introduzia assim uma nova linguagem no domínio da ilustração, e numa altura em que o Brasil proliferava em matéria deste género artístico.

 

Fernando Lemos, livro A Televisão da Bicharada, 1962.

 

Ilustrou poemas de Cecília Meireles em 1956; poemas de Miguel Torga em 1957; Capas de discos para a editora brasileira “Long Playing”, capas de livros como “A Cidade Antiga”, de F. Coulanges, ou as “Confissões de S. Agostinho”; As “Memórias do Capitão”, de Sarmento Pimentel, em 1961; entre outros. Posteriormente criou, para o nº3 da revista “Produto e Linguagem”, em 1966, uma edição absolutamente pioneira, onde, curiosamente, constava também um texto de Bruno Munari, de nome “A laranja”. Esta revista era constituída por uma capa, em formato de envelope, e o seu interior continha folhas impressas, soltas. Mais uma vez Lemos desafiava as convenções. Esta belíssima edição assemelhava-se ao conceito de “livro objecto”, muito à frente da sua época, o que sofreu duras críticas por pessoas que ainda não estavam preparadas para compreender o feito do designer.

Destacou-se como um grande disseminador de um design modernista no Brasil, modelado por um modernismo gráfico detentor de um rigor estrutural e compositivo, no entanto desafiando as convenções. Avesso às estagnações, arrojado, e sem medo de arriscar. Um eterno insatisfeito, no sentido mais positivo e libertador do termo. Característica do artista que conserva dos seus trabalhos de fotografia na década de 1940, onde as formas sombras e silhuetas impressas sobre a película pareciam revelar uma incessante procura estética, velada pelas formas que, em sobreposição na composição, evidenciavam um gosto apurado e informado, denunciador de um apelo dadaísta.

Tal como nas fotografias, nos seus trabalhos gráficos o rigor e transgressão figuram lado a lado: em composições de capas de livros a linearidade geométrica das formas sofrem subtis arrastamentos, sobreposições e deslocamentos, revelando alguma revelia salutar, acompanhada por uma paleta de cores surpreendentemente imprevisível.

A obra de Fernando Lemos é incomensurável e revela a grandiosidade de um homem.

Uma pequena estrofe de um poema de Miguel Torga, chamada “Brasil”, e que o próprio designer terá ilustrado, poderia ser usado para definir o designer: “O retrato da pura imensidade”.

 

 

 


Carla Carbone