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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição. Fotografia: Constança Babo.


Study of Perspective (1995-2005). Fotografia: Constança Babo.


Study of Perspective in Glass (2018). Fotografia: Constança Babo.


Odyssey Tile (2021). Fotografia: Constança Babo.


Odyssey (2016). Fotografia: Constança Babo.


Life Cycle (2018). Fotografia: Constança Babo.


Law of the Journey (2016). Fotografia: Constança Babo.


Rohingya (2021). Fotografia: Constança Babo.

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AI WEIWEI

RAPTURE




CORDOARIA NACIONAL
Avenida da Índia
Lisboa

04 JUN - 28 NOV 2021


 

 

Ai Weiwei é um nome cuja relevância e notoriedade à escala internacional, sobretudo durante a última década, o enquadram nos que “dispensam apresentações”. Contudo, no âmbito de uma reflexão sobre a sua atual exposição Rapture, na Cordoaria Nacional em Lisboa, inaugurada no passado dia 4 de junho, sugere-se uma breve introdução sobre o percurso e as várias motivações e convicções do artista, nos quais se sustenta a mostra.

Weiwei personifica o cruzamento entre arte e vida. É multidisciplinar, irreverente e provocador, tanto na linguagem como na expressão plástica, ora em imagens 2D, ora em objetos 3D, caso da série de fotografias Study of Perspective (1995-2010) e da sua versão em vidro, in Glass (2018). Com uma obra que abrange um largo espectro, tanto na plasticidade e na materialidade quanto nas problemáticas exploradas, que surgem diversificadas e sempre pertinentes e necessárias, é tão artista quanto ativista, reconhecido enquanto “símbolo da resistência à opressão e defensor dos direitos civis e da liberdade de expressão”, como indicado na exposição. Também na mostra se encontra discriminada a sua biografia, da qual aqui se destaca, desde logo, a sua assinatura, no primeiro espaço de arte contemporânea independente da China, em Pequim, China Art Archives and Warehouse, inaugurado em 1997, treze anos depois de Weiwei ter abandonado a cidade e o país a fim de desenvolver, livremente, a sua arte. Contextualize-se, ainda, que, em 2003, entrou em funcionamento o Projeto Escudo Dourado, a “Grande Firewall” da China, ou seja, um sistema de censura e controlo de sites e informações online, o que incitou o artista a criar um blogue maioritariamente dedicado à crítica à sociedade e à política governamental. O seu trabalho em defesa dos direitos humanos tornou-o merecedor do Prémio Embaixador da Consciência, da Amnistia Internacional, em 2015, posição que Weiwei honra sem cessar, mantendo-se um dos principais artistas ativistas da atualidade.

É, porém, esse mesmo caráter que, simultaneamente, o torna alvo de contínuos ataques, condenações e, inclusivamente, de captura por parte das autoridades chinesas. Ora, se “captura” nos remete para o título da exposição, Rapture, refira-se que esta expressão, em inglês, tem outros significados, tais como o momento transcendente que conecta as dimensões terrestre e espiritual. Como indica, em texto de parede, o curador da exposição Marcello Dantas, a estruturação da exposição opera-se em dois núcleos: um primeiro, relacionado com a esfera da fantasia e do imaginário e, um segundo, ligado ao real. Destaca-se a interessante iniciativa do comissário em explorar o processo de “inoculação” que, embora batizado por ele próprio e pelo artista antes da atual pandemia, refere-se, nomeada e precisamente, à inserção de um vírus externo dentro de um organismo para o proteger. No contexto da exposição, a ação de inocular é, porém, mais abrangente, e também se reporta à integração de artesãos portugueses na criação artística de Weiwei, através de trabalhos comunitários, de que é exemplo a peça em azulejos de cerâmica de Viúva Lamego (Cerâmicas de Sintra), intitulada Odyssey Tile (2021).

A obra em questão, trata-se de uma reinterpretação da conhecida Odyssey (2016), em papel de parede, que convoca a crise dos refugiados, com particular enfâse para as suas viagens, tomando como ponto de partida os primeiros deslocamentos humanos, tal como descritos no Antigo Testamento. A obra mais recente situa-se numa extremidade da galeria e a versão original, na área oposta, acentuando a divisão da exposição em duas secções. Numa mesma lógica, ao lado de cada uma dessas peças, Life Cycle (2018), de bambu e fio de sisal e seda, recupera Law of the Journey (2016), em PVC preto, exercendo-se um acentuado contraste entre ambas, principalmente decorrente dos materiais que as compõem, de naturezas largamente distintas, que se repercutem no impacto visual e na experiência que fornecem. Destaquem-se, aliás, as escolhas materiais do artista, recorrentemente matérias nobres tais como o mármore, a partir das quais representa motivos banais e do quotidiano, caso de rolos de papel higiénico, no que se poderá entender enquanto uma modalidade de ready-made.

Rapture, extensa e completa, com 85 objetos entre instalações, esculturas de várias dimensões, fotografias e vídeos, reflete a imensidão e a diversidade da obra de Ai Weiwei. Quanto à estrutura industrial do edifício da Cordoaria Nacional, considera-se que se coaduna com as obras expostas, formal e conceptualmente, talvez mais do que ocorreria num habitual white cube. Porém, a forma como a exposição se constrói assemelha-se aos modelos expositivos modernos, de organização sequencial e temática. Também a colocação central das obras de maior escala, ladeadas por dois corredores de peças de menores dimensões, a par de um percurso definido em linha recta, embora eficaz para ordenar o expectável elevado número de visitantes, não constituirá o melhor contexto para a expressão e a manifestação das peças. Se algumas das séries, tais como Zodiac (2018), se adequam a esta exercida reticularidade, outras beneficiariam com um distinto modelo expositivo, nomeadamente uma construção espacial mais individualizada que potenciasse as suas recepção e experiência, como é o caso de S.A.C.R.E.D (2011-2013), conjunto de instalações nas quais o artista retrata a sua polémica prisão em solitária e, de seguida, domiciliária.

 

Vista da exposição. Fotografia: Constança Babo.

 

Ademais, a fila de ecrãs televisivos que ocupa quase na totalidade uma das longas paredes laterais do edifício, remete para elementos problemáticos para a esfera da arte: a cultura de massas, a produção em série e o predomínio dos media de comunicação. Acrescente-se a longa duração da maioria dos vídeos, condições estas que impossibilitam a completa e atenta visualização das peças, o que não deixa de resultar num excesso e numa saturação de imagens. Não obstante, as primeiras peças são importantes registos ativistas da autoria de Weiwei, sugerindo-se procurar atentar a The Rest (2019) e Coronation (2020), respetivamente sobre os refugiados e o recente confinamento da cidade de Wuhan. A segunda secção de vídeos, sobre o próprio artista, Ai Weiwei: The Fake Case (2014), realizado por Andreas Johnsen, expõe o episódio do aprisionamento abordado na obra acima referida.

Por certo, Rapture detém um caráter de blockbuster, também latente no modo como se anuncia pelo país, em grandes cartazes, e reflete a contemporaneidade, era de multiplicidade, velocidade e pluralidade, a par, evidentemente, das próprias problemáticas atuais, sociais e políticas convocadas. Por último, sublinha-se que a visita, passível de se concretizar até ao dia 28 de novembro, é recomendada sobretudo pelo valor artístico e humanitário de Ai Weiwei que é, por si só, valioso e meritório.



CONSTANÇA BABO