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A LUTA PARA IMPEDIR QUE UM ACERVO DE OBRAS DE FRIDA KAHLO ABANDONE O MÉXICO

2026-04-08




Uma exposição de grande sucesso com obras modernistas mexicanas, incluindo muitas de Frida Kahlo, na Cidade do México, esteve envolta em controvérsia, uma vez que a valiosa coleção se prepara para deixar o país rumo a Espanha ainda este ano.

A Coleção Gelman, parte da qual está atualmente exposta no Museu de Arte Moderna da cidade, vai ser transferida para o novo centro cultural do Banco Santander, num acordo que gerou indignação entre artistas e historiadores. As autoridades afirmaram que a transferência é temporária — e as obras regressam em 2028 —, mas a disputa acendeu um debate mais amplo sobre o património cultural, a transparência e o papel das instituições privadas na gestão do património artístico mexicano.

A polémica envolveu a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, que na segunda-feira defendeu o acordo do banco e afirmou que as autoridades estavam a cumprir a lei.

Uma carta aberta, publicada a 18 de março no e-flux, alegava que a decisão do banco de transferir a coleção para Espanha viola a lei do património nacional. “Como podem os mexicanos confiar os seus ativos financeiros a um banco que, através das suas decisões, opta por privá-los do seu património cultural?”, questionava a carta, referindo que entre as obras se encontram 11 pinturas de Frida Kahlo. Duas delas — “Autorretrato com Macacos” (1943) e “Diego em Minha Mente” (1943) — são “amplamente consideradas por estudiosos e especialistas como obras-primas essenciais para a compreensão do desenvolvimento artístico e do universo intelectual de Kahlo”, argumentavam os autores da carta.

A História da Coleção Gelman

O acervo de mais de 160 obras do século XX foi originalmente reunido por Jacques Gelman, nascido em São Petersburgo, filho de pais judeus, que se mudou para o México em 1938, e pela sua mulher, Natasha Zahalka. O casal tornou-se amigo de Kahlo e do seu marido, Diego Rivera, e começou a colecionar obras seus, bem como de outros modernistas mexicanos, como María Izquierdo, José Clemente Orozcó e Rufino Tamayo.

Após a morte de Natasha em 1998, a coleção foi legada ao seu conselheiro e amigo Robert Littman, que posteriormente a expandiu e vendeu parte dela depois de disputas de propriedade terem impedido a sua exposição no México após 2008. Janet C. Neschis, advogada que representa a Fundação Jacques e Natasha Gelman, disse ao New York Times que a família Gelman sempre teve a intenção de manter a coleção no México.

Em janeiro, cerca de 18 anos após a sua última exibição pública, foi revelado que a coleção foi adquirida em 2023 pela família Zambrano, uma das famílias empresariais mais ricas do México. A sua gestão foi transferida para a Fundação Banco Santander no âmbito de um acordo privado com os Zambranos, que mantêm a propriedade da coleção. O banco anunciou então que a coleção seria renomeada como Coleção Gelman Santander e instalada no seu novo centro cultural Faro Santander este verão.

Embora não tenha sido divulgado qualquer prazo oficial para a permanência da coleção em Espanha, o diretor do Faro Santander, Daniel Vega Pérez, sugeriu à imprensa espanhola no início deste ano que esta teria uma “presença permanente, mas dinâmica” na nova instituição.

Leis de Exportação Rigorosas em Relação às Obras de Kahlo

A 10 de março, a primeira carta aberta que criticava a medida referia que a coleção contém 30 obras de artistas como Kahlo, Rivera e David Alfaro Siqueiros, que estão sujeitas a uma proibição de exportação.

A lei mexicana protege rigorosamente certas obras de arte, especialmente as de Kahlo, designando-as como monumentos culturais nacionais que não podem ser exportados permanentemente, mesmo que sejam propriedade privada. Podem ser emprestadas temporariamente ao estrangeiro, mas devem ser devolvidas ao México.

“Os cidadãos deste país têm o direito de estar plenamente informados sobre os motivos que levaram estas autoridades a permitir a remoção por tempo indeterminado das 11 telas de Kahlo do país, o que contraria gravemente o decreto que estabelece que a sua obra, ao contrário da dos seus colegas, só pode ser exportada temporariamente”, refere a carta aberta.

“Este decreto foi especificamente concebido para bloquear coleções privadas”, disse o historiador Francisco Berzunza ao The Guardian. “Para garantir que não saíam do país nem eram dispersas. É por isso que o defendemos com tanta veemência”.

Berzunza é um dos oito autores da carta aberta, assinada por quase 400 figuras da cultura mexicana. Criticaram a falta de transparência do Ministério da Cultura do México, que, segundo eles, não explicou por que razão permitiu a “remoção por tempo indeterminado” das obras de Kahlo.

Uma solução temporária?

Em conferência de imprensa, a 30 de março, a secretária da cultura do México, Claudia Curiel, insistiu que a coleção “não foi vendida, está apenas em exposição [em Espanha] temporariamente”.

O banco divulgou ainda um comunicado a esclarecer que o acordo não implica uma mudança de propriedade das obras ou uma transferência permanente. “Estamos empenhados em cuidar e divulgar o valioso acervo da Coleção Gelman Santander em estrita conformidade com as normas mexicanas e com respeito pelo que estas obras representam para o México”, pode ler-se no comunicado.

Alguns especialistas defendem que as regras que limitam o tempo que as obras de arte podem estar fora do México ignoram a questão mais importante: mesmo quando as obras permanecem no país, os colecionadores não são obrigados a expô-las publicamente.

A Coleção Gelman não era exibida publicamente no México há quase duas décadas, até que cerca de 70 peças foram expostas no Museu de Arte Moderna da Cidade do México, em fevereiro. Estas obras permanecerão em exposição até junho, antes de serem transferidas para Espanha. Desde 2010, as obras da Coleção Gelman deixaram o México cerca de 30 vezes para digressões internacionais.


Fonte: Artnet News