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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição. Fotografia ©Fundação de Serralves, Porto.


Vista da exposição. Fotografia ©Fundação de Serralves, Porto.


Vista da exposição. Fotografia ©Fundação de Serralves, Porto.


Vista da exposição. Fotografia ©Fundação de Serralves, Porto.


Vista da exposição. Fotografia ©Fundação de Serralves, Porto.


Vista da exposição. Fotografia ©Fundação de Serralves, Porto.

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PAULA REGO

PAULA REGO. O GRITO DA IMAGINAÇÃO




MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua D. João de Castro, 210
4150-417 Porto

25 OUT - 08 MAR 2020


 

É com O Grito da Imaginação que Paula Rego (Lisboa, 1935) regressa ao Museu de Arte Contemporânea de Serralves depois da sua grande exposição nesta instituição, em 2004, comissariada por João Fernandes.

 

Encontrando-se Serralves a celebrar, no presente ano 2019, o trigésimo aniversário da sua coleção, é precisamente da artista Paula Rego que o museu conta com um número de obras muito significativo. É a partir deste espólio que se concebeu a mais recente ocasião expositiva, à qual ainda se acrescentaram algumas outras peças selecionadas pela curadora Marta Moreira de Almeida. Tratam-se, essas últimas, de duas séries de gravuras cedidas pela Casa das Histórias Paula Rego e pela Câmara Municipal de Cascais, e do filme de Nick Willing, Paula Rego, Histórias & Segredos (2016). Assim se consolidou um forte discurso que se materializa sob a forma de uma excepcional mostra.

Inaugurada no passado dia 25 de outubro na Casa de Serralves, apresenta em nítido destaque a série de pastéis de óleo Possessão (2004) que, como Marta de Almeida indica, foi o ponto de partida e o elemento determinante do que demais se apresenta. De facto, pode identificar-se esta obra enquanto a mais impressionante e arrebatadora de toda a mostra. Situada à direita, a partir da entrada do hall do edifício, e exibida numa estrutura concebida propositadamente para a acolher, afirma-se com tamanhas dimensão e potência físicas e visuais que instaura uma esfera própria. Forma uma espécie de força gravitacional que prende o espectador ao centro da sala e que não somente o convida a entrar, como o transporta abruptamente para o universo de Paula Rego.

Possessão, como a curadora explica, é um conjunto de sete telas que, não se definindo por uma ordem rigorosa, tem uma certa lógica, convocando uma narrativa com princípio, meio e fim. Esta foi a mais recente aquisição de peças da artista por parte do Museu de Serralves, não sendo, porém, a mais recente que agora se expõe, contando-se duas outras de 2006.

A exposição traça-se a partir de três eixos distintos. Em primeiro lugar, dá destaque a matérias do quotidiano, de seguida, problematiza o papel da mulher na sociedade contemporânea e, por fim, como se explica no texto que acompanha a exposição, revela universos inesperados do foro das preocupações do homem, principalmente ao nível das relações e da intimidade. No que diz respeito à distribuição espacial das obras, esta não se determina por uma ordem cronológica. O piso térreo está bastante diversificado, encontrando-se dedicado aos últimos vinte e cinco anos de produção da artista, com vários trabalhos desenvolvidos a partir da década de 90 e alguns exemplares de 70.

No andar superior apresentam-se criações dos anos 80, já se revelando aí uma maior orientação temporal e/ou temática e onde as personagens ganham maiores volumetria e protagonismo, repetindo-se a representação de figuras femininas, animais e máscaras. Como Marta de Almeida esclarece, é no início dessa área da Casa que se expõem obras procedentes da exploração plástica da colagem, prática à qual Paula Rego se havia dedicado entre os anos 60 e 70. Enquanto uma das peças mais marcantes dessa expressão criativa refira-se The vivan girls on the farm (1984/85), que já havia sido exposta na primeira mostra individual da artista em Serralves, em 1988. Trata-se de uma tela de grandes dimensões, desconcertante e subversiva, que afeta o espaço em que se instala e qualquer um que se detenha na sua presença. Com uma composição plana, cores fortes e pinceladas largas e vigorosas, aproxima-se da linguagem do desenho e da banda desenhada.

Ainda no piso superior, na última sala, destacam-se duas pinturas ilustrativas de uma menina que tanto cuida e protege como provoca um cão, personagem claramente simbólico da figura masculina. Como a curadora indica, ambas as peças podem ser compreendidas como autobiográficas, sendo importante ter em conta o contexto da sua realização, próximo do falecimento do marido da artista.

Firma-se e expõe-se, assim, um amplo conjunto de obras que, sendo bastante heterogéneas, caracterizam-se por princípios formais e visuais comuns, os quais, por sua vez, são próprios de Paula Rego. É, pois, uma obra que, mesmo revelando um gradual crescimento plástico e conceptual, é pautada por uma qualidade e uma singularidade autoral transversais. O traço da artista é veloz e assertivo, canalizando a sua energia e confiança inconfundíveis e aparentemente inabaláveis. Podem ainda referir-se determinados rituais e processos criativos reincidentes, tal sendo o caso de uma espécie de encenação cénica, preparatória das representações, que tem lugar no atelier e que constitui uma exercício de particular importância para a artista.

Um outro elemento estrutural em toda a obra é o desenho, motivo pelo qual a curadora deu particular destaque às gravuras que, principalmente nos anos 80, Paula Rego compreendeu serem ideais para elaborar e transportar em viagem.

Também comummente, a criação da artista provém, em grande parte, das suas memórias de infância, não somente num sentido vivencial transcrito nas suas ilustrações, como também decorrente de fábulas, contos populares e referências da literatura que a marcaram, caso de Eça de Queiroz e de Shakespeare.

Enquanto espaço expositivo, a Casa de Serralves consiste num particular desafio. Caracterizada pela arquitetura Art Decó dos anos 30 do séc. XX, é constituída por pedra, mármore, madeira e vidro conjugados num rigor decorativo que se distribuí sob a forma de uma singular estrutura, sobretudo no labiríntico piso superior. Por conseguinte, o edifício é capaz de absorver a arte que nele se expõe, algo que já se viu acontecer anteriormente. Porém, como se verifica na presente mostra, tal não acontece, assim se refletindo a qualidade da curadoria de Marta de Almeida, ao alcançar um equilíbrio ideal entre "deixar a casa ser vista como ela é" e destacar e valorizar o trabalho da artista. Mais importante, Paula Rego é, ela mesma, imune às mais complexas condições espaciais.

Entre divisões denota-se uma harmonia na relação objeto/espaço e, em alguns casos até, um sentido de pertença, como se cada obra se instalasse como habitante da casa. A criação da artista não se deixa subjugar e a sua especificidade sobrepõe-se à do contexto em que se insere, tanto espacial como temporal. Trata-se, com efeito, de uma obra acrónica, qualidade de que poucos artistas se podem vangloriar.

Como Philippe Vergne referiu na inauguração, o trabalho de Paula Rego mantem-se extremamente relevante. Todos os assuntos por si abordados, a intimidade, a identidade de género, a violência, os abusos e as relações são, sempre, atuais. Pode, de facto, compreender-se que, sendo questões de natureza humana, projetam-se no tempo, independentemente do momento em que sejam expostas, recebidas e experienciadas. Mesmo, por exemplo, no caso da obra A Cinta (1995), apesar de atualmente não ser tão habitual o uso do referido acessório de vestuário, a pintura não se esgota aí, simbolizando e remetendo para outras problemáticas da esfera feminina.

A atemporalidade de Paula Rego é acentuada e exacerbada pelas sublimes qualidades criativas, plásticas e expressivas da sua obra, razão pela qual a artista é reconhecida e enaltecida como uma das mais relevantes e valiosas no panorama artístico português contemporâneo. Ora, com convicção, afirma-se que assim se manterá, para a posteridade, enquanto máxima referência da arte nacional.

É deste modo, com igual força e segurança que a exposição reclama, em Grito, por ser visitada, o que se encontra passível de concretizar até ao dia 08 de março de 2020.

 

 



CONSTANÇA BABO