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ENTREVISTA


Rachel Korman. Fotografia: Alípio Padilha.


FUSO 2019, Travessa da Ermida. Fotografia: Alípio Padilha.


FUSO 2019, Travessa da Ermida. Fotografia: Alípio Padilha.


FUSO 2019, MAAT. Fotografia: Alípio Padilha.


FUSO 2019, MAAT. Fotografia: Alípio Padilha.


FUSO 2019, MAAT. Fotografia: Alípio Padilha.


FUSO 2019, Museu de História Natural. Fotografia: Alípio Padilha.


FUSO 2019, Museu de História Natural. Fotografia: Alípio Padilha.


FUSO 2019, Museu de História Natural. Fotografia: Alípio Padilha.


FUSO 2019. Fotografia: Alípio Padilha.


FUSO 2019, Antonio Câmara Manuel, Rachel Korman e Jean-François Chougnet. Fotografia: Alípio Padilha.

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MIGUEL VON HAFE PÉREZ



JOÃO RENDEIRO



MARGARIDA VEIGA




RACHEL KORMAN


 


A 11ª edição do festival anual de videoarte FUSO teve lugar de 27 de Agosto a 1 de setembro deste ano, em Lisboa. Concebido para criar um espaço de encontro a partir da videoarte, o evento aconteceu durante seis noites de verão lisboetas do lado de fora de museus e outros espaços de arte: espreguiçadeiras, mantas e um copo vinho proporcionaram um cenário confortável e diferente para assistir a vídeos em programações criadas por curadores, outras de artistas convidados e um Open Call de jovens artistas.

Por trás do FUSO estão António Câmara Manuel, diretor da produtora DuplaCena (também responsável pelo festival lisboeta Temps d'Images), Jean-François Chougnet, diretor do MUCEM, em Marseille, e Rachel Korman, a brasileira que, desde 2007, integra e agita a cena artística portuguesa e que hoje vive nos Açores. Num encontro num café algumas horas antes de abertura do FUSO 2019, que aconteceu a 26 de agosto na Travessa da Ermida, duas brasileiras (Rachel e a jornalista que aqui escreve) se encontraram para falar sobre o festival, a videoarte, o cenário artístico em Lisboa e Portugal e as suas idas e vindas do Brasil.


Por Julia Flamingo



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JF: A programação deste ano contou com nomes fortes da videoarte, como Nam June Paik, Antoní Muntadas e Jonathas de Andrade, artistas que também vêm de contexto completamente diferentes. Como é feita essa seleção dos artistas do festival?

RK: O FUSO tem dois programas bem fortes: um em que nós convidamos curadores ou artistas nacionais e internacionais para criarem sessões a partir do tema principal, que este ano foi sustentabilidade. É muito interessante ver como os curadores abordam esse tema de maneiras muito diferentes e amplas, alguns são mais políticos e engajados, outros falam mais sobre tecnologia. A ideia é olhar a sustentabilidade para muito além da natureza, o que é muito importante no momento em que estamos vivendo. Outro programa é formado pelo Open Call de artistas que podem ganhar dois prémios, o prémio-aquisição do MAAT e da Fundação EDP e o prémio de incentivo da Restart, na qual um artista ganha apoio para criar o seu próximo trabalho em vídeo. E a terceira característica muito importante do FUSO é a convivência entre todas essas pessoas: durante a semana do festival encontramo-nos diariamente antes das sessões, para um Happy Hour ou um jantar, onde conhecemos mais gente e conversamos com todas as pessoas ligadas ao campo da imagem em movimento.

 

JF: E como começou a ideia do FUSO? Quando é que a Rachel passou a integrar o projeto?

RK: Eu mudei-me do Rio de Janeiro para Lisboa em 2007 e o Jean-François já vinha fazendo algumas sessões de videoarte no jardim do Museu Berardo, onde ele então era diretor. Durante os verões ele queria agilizar a programação do museu. Quando saiu de lá juntou-se ao António e o FUSO começou a crescer ainda mais. Eu era uma das sócias do Carpe Diem, no Palácio Pombal, que era lindo e que tinha um jardim fantástico onde recebíamos uma sessão do FUSO todos os anos. E eu adorava! Em 2013 voltei para o Brasil e quando vim para Portugal de novo, em 2016, o António convidou-me para pensar numa programação latino-americana do FUSO para 2017, porque naquele ano Lisboa seria a capital ibero-americana da cultura. Foi aí que eu entrei com a coordenação curatorial – pensar o fuso curatorialmente, o tema, os convites para os curadores. Deu muito certo, o festival foi super bonito. O tema em 2017 estava relacionado com o passado e o presente da videoarte. Em 2018, o mote era a revolução de maio de 1968. E este ano é o meu terceiro!

 

JF: Sendo o primeiro e único festival de videoarte de Portugal, vocês têm um papel importante de educação e formação do público. O que me diz sobre isso?

RK: Com certeza! Criar um publico não e fácil. O fuso já acontece há 11 anos, começamos muito didáticos e todos os anos temos um resgate histórico do começo da videoarte. A insistência é bem importante para criar esse público que temos hoje, que é bem amplo. Também temos um compromisso com a itinerância durante todo o ano, para levar o FUSO para outros lugares que não Lisboa, nacional e internacionalmente. No ano passado, por exemplo, consegui levá-lo para o Brasil: duas sessões foram para o Videobrasil, em São Paulo, e outra para o Parque Lage, no Rio de Janeiro. Este ano estamos em contato com Leiria, com o Porto. O FUSO nunca pára, faz itinerâncias até chegar a próxima edição. E agora temos um festival nos Açores!

 

JF: Que máximo! [conheci a Rachel nos Açores, durante o Walk&Talk 2019, e não demorou para eu perceber o incrível envolvimento dela com a cena artística local]. E como será isso?

RK: Lá será um pouco diferente das itinerâncias. A começar que demos outro nome - Fuso Insular. Nos Açores há uma lacuna muito grande de videoarte. Já tiveram cineclubes rotativos e programações de cinema, mas nada de videoarte. Mesmo nos dois óptimos festivais que tem lá e que eu vivi nesse último ano – o Walk&Talk e o Tremor – a videoarte ainda não aparece como linguagem principal. Os meus amigos de lá vivem me perguntando o que é videoarte, estão curiosos! E nós temos um festival tão incrível, então por que não levar para lá?

Também achamos que faz mais sentido fazer um workshop, do que um open call, levar pessoas daqui para lá para que possam contribuir com os artistas locais a pensar a videoarte e fazer suas próprias obras. Vamos levar artistas conceituados para trazer a parte teórica, usar a mão de obra local para assessorar e usar o festival não só para mostrar obras nacionais e internacionais, que tenham uma introdução mais didática do que é videoarte, mas também apresentar as obras feitas lá. Isso será para o ano que vem. Em outubro, nos dias 18 e 19, vamos fazer um piloto, uma pequena mostra do Fuso, no Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada.

 

JF: E quando as pessoas te perguntam o que é videoarte, o que responde?

RK: Respondo que é arte em vídeo, que a videoarte surgiu nos anos 60 em contestação aos parâmetros que se tinha na época do que era arte, dos suportes que se usavam. Hoje, isso já se faz, por isso a videoarte tem um campo muito mais amplo, ela pode ser um filme experimental, um registro de performance, ter simplesmente uma questão visual. Não é uma questão de duração, se o vídeo é curto ou longo, mas o facto de não estar amarrada a uma narrativa, uma construção.

 

JF: Quais são os videoartistas que tem como referência?

RK: Videoarte, no Brasil, para mim é o [Paulo] Bruscky. Ele fazia trabalhos com xerox, fotocópia, fazia um trabalho muito experimental. A história da minha vida e de onde eu venho está muito ligada a isso. Aqui em Portugal, minhas referências vêm muito do Ernesto de Souza, que usava o super 8 e filmava a vida dele e do grupo nas férias, fazendo experimentação com o filme. O Julião Sarmento, que também experimentou muito com vídeo, a Ana Hatherly. Ela é um fenómeno para mim - é a minha preferida.

 

JF: Como foi o seu movimento de sair do Brasil para trabalhar em Portugal com arte?

RK: A minha decisão de vir para cá foi em 2007. A arte sempre esteve na minha vida, mas eu trabalhava com ela indiretamente. A minha formação é em jornalismo, em Belo Horizonte, e depois no Rio de Janeiro, onde me fixei. Comecei trabalhando na publicidade como jornalista e foi numa agência que me interessei em saber mais sobre, então fui estudar pintura no Parque Lage. Mas aí entrou o Nelson Leirner na minha vida e tudo se embaralhou. Ele era professor na escola e embaralhou a minha cabeça e de todas as minhas colegas. Largámos a pintura e mergulhámos naquilo que ele falava sobre arte contemporânea. E mesmo depois da escola ainda fiquei com ele muitos anos. Montámos um grupo e brincávamos a chamar-nos de “Nelsetes”, e nos encontrávamos no ateliê dele, tanto para falar sobre os trabalhos dele como sobre a nossa própria produção. Aí eu saí da agência de publicidade e fui trabalhar num escritório de design com projetos culturais.

Mas chegou um momento em que eu queria que fosse a arte pela arte. Mesmo que não fosse a minha criação, mas eu queria que tudo o que eu trabalhasse estivesse diretamente relacionado a arte. E foi em Portugal que surgiu essa oportunidade, porque me senti muito bem recebida como artista aqui, quando vim pela primeira vez com o Nelson, para uma exposição dele no Porto, em 2006. Daí surgiu uma primeira exposição desse grupo nos Maus Hábitos, no ano seguinte fiz uma exposição numa galeria do Porto e depois fui estudar na Maumaus.

Nessa época eu estava em contato intenso com o Paulo Reis. O Carpe Diem existia para o Paulo como ideia. Fazia muito tempo que ele queria montar esse espaço de debate, de diálogo, de residências. Quando o Paulo conseguiu o Palácio do Pombal para o Carpe Diem, então, entrámos com tudo no projeto. Continuei na minha área, de comunicação, e também fazendo a coordenação das residências artísticas.

 

JF: E como vê a cena de arte em Portugal e suas mudanças, durante todo esse período em que vem atuando ativamente nesse meio?

RK: Quando o Paulo morreu, em 2011, eu consegui cumprir a programação do Carpe Diem até 2012, quando passámos a não receber mais apoio. E aí voltei para o Brasil. Então estive fora da cena de arte daqui durante três anos. Quando voltei para cá, em 2016, encontrei outra Lisboa. Muito mais turística e muito mais preocupada com o turismo do que sempre. Por outro lado, encontrei uma Lisboa também incrivelmente efervescente culturalmente. Não se consegue acompanhar a quantidade de espaços novos que abrem, galerias, cooperativas, grupos independentes (isso não tinha tanto, era mais no Porto). Mas, ao mesmo tempo, eu também me afastei muito do dia-a-dia desse cenário. Fui trabalhar com a equipa do Hangar e sempre fui muito de ir às exposições, mas meu gás foi acabando e comecei a querer uma vida mais sossegada, mais tranquila. Eu faço o FUSO desde que voltei para cá, mas queria mudanças, queria ficar mais próxima da natureza. Nessa época fui visitar um amigo aos Açores, fiquei encantada e as coisas em Lisboa também começaram a mudar, era muita gente tendo que sair de casa por conta dessa efervescência.

Foi a mudança mais feliz que fiz na vida. Fui recebida de braços abertos e para minha felicidade o FUSO despertou um interesse e atenção tão grande que eu percebi que posso levá-lo para lá. Meu plano é fazer o FUSO aqui e lá, todos os anos. Se eu conseguir isso, sou uma mulher realizada! E melhor ainda se for nas nove ilhas!