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Capriccio (2018). © Vasco Araújo e Galeria Francisco Fino


Capriccio (2018). © Vasco Araújo e Galeria Francisco Fino


NoteBook – La Morte del Desiderio (2018). © Vasco Araújo e Galeria Francisco Fino


NoteBook – La Morte del Desiderio (2018). © Vasco Araújo e Galeria Francisco Fino


Pormenor de NoteBook – La Morte del Desiderio (2018). © Vasco Araújo e Galeria Francisco Fino


Entre o tempo e o desengano (2018). © Vasco Araújo e Galeria Francisco Fino


Vista geral de La Morte del Desiderio (2018). © Vasco Araújo e Galeria Francisco Fino


O Inimigo (Diálogo entre uma metralhadora e uma estátua) (2018). © Vasco Araújo e Galeria Francisco Fino


O Inimigo (Diálogo entre uma metralhadora e uma estátua) (2018). © Vasco Araújo e Galeria Francisco Fino

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VASCO ARAÚJO

LA MORTE DEL DESIDERIO




GALERIA FRANCISCO FINO
Rua Capitão Leitão, 76 Marvila, Lisboa


10 MAR - 28 ABR 2018

DEMORA NOS DESEJOS É MUDANÇA

 

O ato de desejar é, em simultâneo, uma condição e uma condenação para o ser humano. Nele assenta a busca por uma ideia de futuro, sempre idealizado, sempre fechado ao imprevisível.

Diz-nos uma visão lacaniana do mundo que o desejo humano implica o preenchimento de um vazio. E é, por natureza, um desejo do outro, do reconhecimento pelo outro. Assim, a idealização pressupõe um certo afastamento do objecto de desejo: a partir do momento em que ele se confronta com a realidade, desintegra-se. Morre.

É isso que mostra Vasco Araújo (1975) nas cinco obras que apresenta em La Morte del Desiderio, exposição pensada para o espaço da Galeria Francisco Fino, em Lisboa. A tradução para português não deixa dúvidas: é da morte do desejo e, em última instância, da nossa própria morte que aqui se trata. A folha de sala, em registo epistolar, lança o mote: Seremos outra coisa a não ser a projeção de um desejo?

Vasco Araújo volta, uma vez mais, às bases e contradições da civilização ocidental, para, através dessa construção histórica, localizar o presente e, inevitavelmente, questionar o futuro. As referências eruditas são dispostas num jogo performativo dentro do espaço da galeria. Exigem intimidade e tempo para que a apreciação, dependente da componente textual, seja devidamente feita.

NoteBook – La Morte del Desiderio representa o ponto alto da exposição a que dá nome. Um friso fotográfico, a lembrar os livros de história das nossas infâncias, convida a uma aproximação à extensa parede lateral da galeria. Só assim é possível confrontar os rostos austeros, com olhos de pedra, de estátuas da Roma Antiga.

Vasco Araújo surpreende neste diário de bordo, associando cada uma dessas faces a textos ou pensamentos soltos, escritos à mão ou datilografados. A partir dos escritos do poeta português Al Berto e do grego Konstantínos Kaváfis, o artista introduz reflexões pessoais e inicia a (nossa) construção de um desejo em relação a essas figuras. Reconstrói-lhes o passado, repõe-lhes uma história e um corpo, torna-as aptas ao amor e ao desejo. O artista inverte o jogo da mortalidade e da fugacidade do tempo a seu próprio favor.

Por capricho, diríamos. Mas deixamos essa “decisão ou exigência que é arbitrária e cuja origem se encontra numa vontade” para outra obra: Capriccio, a instalação de vídeo que marca e define estrategicamente o centro de La Morte Del Desiderio. A imagem remete, de imediato, para as construções clássicas. Além dessas colunas romanas, só se verá a deslizar – como uma ficha técnica - o argumento escrito de um filme que nunca será filmado. O texto, assinado com José Maria Vieira Mendes – dramaturgo ligado ao Teatro Praga, com que Araújo tem colaborado amiúde – coloca a ideia (e a vontade) antes da sua própria concretização. Ao fazê-lo, obriga o visitante a parar, a envolver-se, a imaginar. E, assim, a projetar um desejo. É-lhe dado o espaço para se perguntar: se este filme fosse meu, como o faria? Para concluir que, no exato momento em que esse filme se tornasse real, o desejo que lhe deu origem se desintegraria. Morria.

 

Tempo morto (2018)

 

Nesta exposição, até pela diversidade de suportes, os desejos são encarados como construções múltiplas, mutáveis e, acima de tudo, imperfeitas. Como tal, defende Vasco Araújo, todo e qualquer desejo implica um obstáculo à sua concretização, um inimigo que, não raras vezes, encontramos no nosso próprio espelho, nas nossas próprias memórias.

Em La Morte del Desiderio, o mistério de cada uma das cinco obras apresentadas convida ao envolvimento. Enquanto galeria comercial, a aposta da Galeria Francisco Fino neste projeto é ousada, porque da sua configuração não se vislumbra um convite direto à compra (privada). A exposição mantém-se coesa no seu propósito artístico: é, na sua génese, um mecanismo de construção de desejo.

Ao ponto de os cartazes cor-de-rosa de Entre o tempo e o desengano, contrastando com os tons cinzentos das restantes obras, marcados com frases sobre o amor e espalhados por três caixas de madeira – uma delas estrategicamente à entrada –, nos suscitarem a vontade de os levarmos para casa, de possuirmos esses objetos de desejo, sem uma transação monetária. Até que os enrolamos, colocamos debaixo do braço e percebemos que algo mudou. O nosso desejo tornou-se real. Desintegrou-se. Morreu.

 

 

Wilson Ledo
É jornalista desde 2013, tendo colaborado com a RTP e o Jornal de Negócios. É formado em Ciências da Comunicação e em Curadoria de Arte pela Universidade Nova de Lisboa. Escreve regularmente sobre as áreas de Teatro, Turismo e Lazer.

 



WILSON LEDO