Links

ARQUITETURA E DESIGN




desenho de casa, de planta irregular ©Bruno Lopes


desenho de casa. pára vento ©Bruno Lopes


desenho de casa. empena norte ©Bruno Lopes


desenhos de casas pormenores. com vista de jardim ©Bruno Lopes


vocabulários de formas e materiais ©Bruno Lopes


“Dieses ist lange her/ Ora questo é perduto” (1975)


desenho de vento ©Bruno Lopes


entre águas ©João Krull


Vista de exposição


Vista de exposição


Vista de exposição "desenhos de casas para ti" ©Bernardo Gonçalves


Vista de exposição "desenhos de casas para ti" ©Bernardo Gonçalves

Outros artigos:

2022-04-23


A VIAGEM ARQUITETÓNICA COMO ENCONTRO: DA (RE)DESCOBERTA À (DES)COBERTA DAS ORIGENS


2022-03-29


PODERÁ O PATRIMÓNIO SER EMANCIPATÓRIO?


2022-02-22


EM VÃO: FECHA-SE UMA PORTA PARA QUE UMA JANELA FENOMENOLÓGICA SE ABRA


2022-01-27


SOBRE A 'ESTÉTICA DO CONHECIMENTO': UMA LEITURA DA PEDAGOGIA DE BAUKUNST


2021-12-29


CALL FOR ARCHITECTS


2021-11-27


DE QUE ME SERVE SER ARQUITECTA?


2021-10-26


'OS CAMINHOS DA ÁGUA'


2021-09-30


A ARQUITETURA PORTUGUESA: O TRAJETO DO SÉCULO XX E DESAFIOS DO SÉCULO XXI


2021-08-22


CERAMISTAS E ILUSTRADORES: UMA RESIDÊNCIA EM VIANA DO ALENTEJO


2021-07-27


COMPREENSÃO DA CIDADE DO PORTO ATÉ AO SÉCULO XX


2021-06-20


O ANTECEDENTE CULTURAL DO PORTO NA TRANSIÇÃO PARA O SÉCULO XXI


2021-05-12


JOÃO NISA E AS 'PRIMEIRAS IMPRESSÕES DE UMA PAISAGEM'


2021-02-16


A ORDEM INVISÍVEL DA ARQUITECTURA


2021-01-10


SURENDER, SURENDER


2020-11-30


AS MULHERES NO PRIVATE PRESS MOVEMENT: ESCRITAS, LETRAS DE METAL E CHEIRO DE TINTA


2020-10-30


DES/CONSTRUÇÃO - OS ESPACIALISTAS EM PRO(EX)CESSO


2020-09-19


'A REALIDADE NÃO É UM DESENCANTO'


2020-08-07


FORA DA CIDADE. ARTE E LUGAR


2020-07-06


METROPOLIS, WORLD CITY & E.P.C.O.T. - AS VISÕES PARA A CIDADE PERFEITA IMAGINADAS POR GILLETTE, ANDERSEN E DISNEY


2020-06-08


DESCONFI(N)AR, O FUTURO DA ARQUITECTURA E DAS CIDADES


2020-04-13


UM PRESENTE AO FUTURO: MACAU – DIÁLOGOS SOBRE ARQUITETURA E SOCIEDADE


2020-03-01


R2/FABRICO SUSPENSO: ITINERÁRIOS DE TRABALHO


2019-12-05


PRÁTICAS PÓS-NOSTÁLGICAS / POST-NOSTALGIC KNOWINGS


2019-08-02


TEMPOS MODERNOS, CERÂMICA INDUSTRIAL PORTUGUESA ENTRE GUERRAS


2019-05-22


ATELIER FALA - ARQUITECTURA NA CASA DA CERCA


2019-01-21


VICARA: A ESTÉTICA DA NATUREZA


2018-11-06


PARTE II - FOZ VELHA E FOZ NOVA: PATRIMÓNIO CLASSIFICADO (OU NEM POR ISSO)


2018-09-28


PARTE I - PORTO ELEITO TRÊS VEZES O MELHOR DESTINO EUROPEU: PATRIMÓNIO AMEAÇADO PARA UNS, RENOVADO PARA OUTROS. PARA INGLÊS (NÃO) VER


2018-08-07


PAULO PARRA – “UMA TRAJECTÓRIA DE VIDA” NA GALERIA ROCA LISBON


2018-07-12


DEPOIS, A HISTÓRIA: GO HASEGAWA, KERSTEN GEERS, DAVID VAN SEVEREN


2018-05-29


NU LIMITE


2018-04-18


POLAROID


2018-03-18


VICO MAGISTRETTI NO DIA DO DESIGN ITALIANO


2018-02-10


GALERIA DE ARQUITETURA


2017-12-18


RHYTHM OF DISTANCES: PROPOSITIONS FOR THE REPETITION


2017-11-15


SHAPINGSHAPE NA BIENAL DA MAIA


2017-10-14


O TEATRO CARLOS ALBERTO DIALOGA COM A CIDADE: PELA MÃO DE NUNO LACERDA LOPES


2017-09-10


“VINTE E TRÊS”. AUSÊNCIAS E APARIÇÕES NUMA MOSTRA DE JOALHARIA IBEROAMERICANA PELA PIN ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE JOALHARIA CONTEMPORÂNEA


2017-08-01


23 – JOALHARIA CONTEMPORÂNEA NA IBERO-AMÉRICA


2017-06-30


PASSAGENS DE SERRALVES PELO TERMINAL DE CRUZEIROS DO PORTO DE LEIXÕES


2017-05-30


EVERYTHING IN THE GARDEN IS ROSY: AS PERIFERIAS EM IMAGENS


2017-04-18


“ÁRVORE” (2002), UMA OBRA COM A AUTORIA EM SUSPENSO


2017-03-17


ÁLVARO SIZA : VISÕES DA ALHAMBRA


2017-02-14


“NÃO TOCAR”: O NOVO MUSEU DO DESIGN EM LONDRES


2017-01-17


MAXXI ROMA


2016-12-10


NOTAS SOBRE ESPAÇO E MOVIMENTO


2016-11-15


X BIAU EM SÃO PAULO: JOÃO LUÍS CARRILHO DA GRAÇA À CONVERSA COM PAULO MENDES DA ROCHA E EDUARDO SOUTO DE MOURA


2016-10-11


CENAS PARA UM NOVO PATRIMÓNIO


2016-08-31


DREAM OUT LOUD E O DESIGN SOCIAL NO STEDELIJK MUSEUM


2016-06-24


MATÉRIA-PRIMA. UM OLHAR SOBRE O ARQUIVO DE ÁLVARO SIZA


2016-05-28


NA PEGADA DE LE CORBUSIER


2016-04-29


O EFEITO BREUER – PARTE 2


2016-03-24


O EFEITO BREUER - PARTE 1


2016-02-16


GEORGE BEYLERIAN CELEBRA O DESIGN ITALIANO COM LANÇAMENTO DE “DESIGN MEMORABILIA”


2016-01-08


RESOLUÇÕES DE ANO NOVO PARA A ARQUITETURA E DESIGN EM 2016


2015-11-30


BITTE LEBN. POR FAVOR, VIVE.


2015-10-30


A FORMA IDEAL


2015-09-14


DOS FANTASMAS DE SERRALVES AO CLIENTE COMO ARQUITECTO


2015-08-01


“EXTRA ORDINARY” - JOVENS DESIGNERS EXPLORAM MATERIAIS, PRODUTOS E PROCESSOS


2015-06-25


PODE A TIPOGRAFIA AJUDAR-NOS A CRIAR EMPATIA COM OS OUTROS?


2015-05-20


BIJOY JAIN, STUDIO MUMBAI


2015-04-14


O FIM DA ARQUITECTURA


2015-03-12


TESOURO, MISTÉRIO OU MITO? A ESCOLA DO PORTO EM TRÊS EXPOSIÇÕES (PARTE II/II)


2015-02-11


TESOURO, MISTÉRIO OU MITO? A ESCOLA DO PORTO EM TRÊS EXPOSIÇÕES (PARTE I/II)


2015-01-11


ESPECTADOR


2014-12-09


ARQUITECTAS: ENSAIO PARA UM MANUAL REVOLUCIONÁRIO


2014-11-10


A MARCA QUE TEM O MEU NOME


2014-10-04


NEWS FROM VENICE


2014-09-08


A INCONSCIÊNCIA DE ZENO. MÁQUINAS DE SUBJECTIVIDADE NO SUPERSTUDIO*


2014-07-30


ENTREVISTA A JOSÉ ANTÓNIO PINTO


2014-06-17


ÍNDICES, LISTAGENS E DIAGRAMAS: the world is all there is the case


2014-05-15


FILME COMO ARQUITECTURA, ARQUITECTURA COMO AUTOBIOGRAFIA


2014-04-14


O MUNDO NA MÃO


2014-03-13


A CASA DA PORTA DO MAR


2014-02-13


O VERNACULAR CONTEMPORÂNEO


2014-01-07


PÓS-TRIENAL 2013 [RELAÇÕES INSTÁVEIS ENTRE EVENTOS, ARQUITECTURAS E CIDADES]


2013-11-12


UMA SUBTIL INTERFERÊNCIA: A MONTAGEM DA EXPOSIÇÃO “FERNANDO TÁVORA: MODERNIDADE PERMANENTE” EM GUIMARÃES OU UMA EXPOSIÇÃO TEMPORÁRIA NUMA ESCOLA EM PLENO FUNCIONAMENTO


2013-09-24


DESIGN E DELITO


2013-08-12


“NADA MUDAR PARA QUE TUDO SEJA DIFERENTE”: CONVERSA COM BEYOND ENTROPY


2013-08-11


“CHANGING NOTHING SO THAT EVERYTHING IS DIFFERENT”: CONVERSATION WITH BEYOND ENTROPY


2013-07-04


CORTA MATO. Design industrial do ponto de vista do utilizador


2013-05-20


VÍTOR FIGUEIREDO: A MISÉRIA DO SUPÉRFLUO


2013-04-02


O DESIGNER SOCIAL


2013-03-11


DRESS SEXY AT MY FUNERAL: PARA QUE SERVE A BIENAL DE ARQUITECTURA DE VENEZA?


2013-02-08


O CONSUMIDOR EMANCIPADO


2013-01-08


SOBRE-QUALIFICAÇÃO E REBUSCO


2012-10-29


“REGIONALISM REDIVIVUS”: UM OUTRO OLHAR SOBRE UM TEMA PERSISTENTE


2012-10-08


LEVINA VALENTIM E JOAQUIM PAULO NOGUEIRA


2012-10-07


HOMENAGEM A ROBIN FIOR (1935-2012)


2012-09-08


A PROMESSA DA ARQUITECTURA. CONSIDERAÇÕES SOBRE A GERAÇÃO POR VIR


2012-07-01


ENTREVISTA | ANDRÉ TAVARES


2012-06-10


O DESIGN DA HISTÓRIA DO DESIGN


2012-05-07


O SER URBANO: UMA EXPOSIÇÃO COMO OBRA ABERTA. NO CAMINHO DOS CAMINHOS DE NUNO PORTAS


2012-04-05


UM OBJECTO DE RONAN E ERWAN BOUROULLEC


2012-03-05


DEZ ANOS DE NUDEZ


2012-02-13


ENCONTROS DE DESIGN DE LISBOA ::: DESIGN, CRISE E DEPOIS


2012-01-06


ARCHIZINES – QUAL O TAMANHO DA PEQUENÊS?


2011-12-02


STUDIO ASTOLFI


2011-11-01


TRAMA E EMOÇÃO – TRÊS DISCURSOS


2011-09-07


COMO COMPOR A CONTEMPLAÇÃO? – UMA HISTÓRIA SOBRE O PAVILHÃO TEMPORÁRIO DA SERPENTINE GALLERY E O PROCESSO CRIATIVO DE PETER ZUMTHOR


2011-07-18


EDUARDO SOUTO DE MOURA – PRITZKER 2011. UMA SISTEMATIZAÇÃO A PROPÓSITO DA VISITA DE JUHANI PALLASMAA


2011-06-03


JAHARA STUDIO


2011-05-05


FALEMOS DE 1 MILHÃO DE CASAS. NOTAS SOBRE O CONCURSO E EXPOSIÇÃO “A HOUSE IN LUANDA: PATIO AND PAVILLION”


2011-04-04


A PROPÓSITO DA CONFERÊNCIA “ARQUITECTURA [IN] ]OUT[ POLÍTICA”: UMA LEITURA DISCIPLINAR SOBRE A MEDIAÇÃO E A ESPECIFICIDADE


2011-03-09


HUGO MADUREIRA: O ARTISTA-JOALHEIRO


2011-02-07


O QUE MUDOU, O QUE NÃO MUDOU E O QUE PRECISA MUDAR


2011-01-11


nada


2010-12-02


PEQUENO ELOGIO DO ARCAICO


2010-11-02


CABRACEGA


2010-10-01


12ª BIENAL DE ARQUITECTURA DE VENEZA — “PEOPLE MEET IN ARCHITECTURE”


2010-08-02


ENTREVISTA | FILIPA GUERREIRO E TIAGO CORREIA


2010-07-09


ATYPYK PRODUCTS ARE NOT MADE IN CHINA


2010-06-03


OS PRÓXIMOS 20 ANOS. NOTAS SOBRE OS “DISCURSOS (RE)VISITADOS”


2010-05-07


OBJECTOS SEM MEDO


2010-04-01


O POTENCIAL TRANSFORMADOR DO EFÉMERO: A PROPÓSITO DO PAVILHÃO SERPENTINE EM LONDRES


2010-03-04


PEDRO + RITA = PEDRITA


2010-02-03


PARA UMA ARQUITECTURA SWISSPORT


2009-12-12


SOU FUJIMOTO


2009-11-10


THE HOME PROJECT


2009-10-01


ESTRATÉGIA PARA HABITAÇÃO EVOLUTIVA – ÍNDIA


2009-09-01


NA MANGA DE LIDIJA KOLOVRAT


2009-07-24


DA HESITAÇÃO DE HANS, OU SOBRE O MEDO DE EXISTIR (Parte II)


2009-06-16


DA HESITAÇÃO DE HANS, OU SOBRE O MEDO DE EXISTIR


2009-05-19


O QUE É QUE SE SEGUE?


2009-04-17


À MESA COM SAM BARON


2009-03-24


HISTÓRIAS DE UMA MALA


2009-02-18


NOTAS SOBRE PROJECTOS, ESPAÇOS, VIVÊNCIAS


2009-01-26


OUTONO ESCALDANTE OU LAPSO CRÍTICO? 90 DIAS DE DEBATE DE IDEIAS NA ARQUITECTURA PORTUENSE


2009-01-16


APRENDER COM A PASTELARIA SEMI-INDUSTRIAL PORTUGUESA OU PORQUE É QUE SÓ HÁ UMA RECEITA NO LIVRO FABRICO PRÓPRIO


2008-11-20


ÁLVARO SIZA E O BRASIL


2008-10-21


A FORMA BONITA – PETER ZUMTHOR EM LISBOA


2008-09-18


“DELIRIOUS NEW YORK” EXPLICADO ÀS CRIANÇAS


2008-08-15


A ROOM WITH A VIEW


2008-07-16


DEBATER CRIATIVAMENTE A CIDADE: A EXPERIÊNCIA PORTO REDUX


2008-06-17


FOTOGRAFIA DE ARQUITECTURA, DEFEITO E FEITIO


2008-05-14


A PROPÓSITO DA DEMOLIÇÃO DO ROBIN HOOD GARDENS


2008-04-08


INTERFACES URBANOS: O CASO DE MACAU


2008-03-01


AS CORES DA COR


2008-02-02


Notas sobre a produção arquitectónica portuguesa e sua cartografia na Architectural Association


2008-01-03


TARZANS OF THE MEDIA JUNGLE


2007-12-04


MÚSICA INTERIOR


2007-11-04


O CIRURGIÃO INGLÊS


2007-10-02


NÓS E OS CARROS


2007-09-01


Considerações sobre Tempo e Limite na produção e recepção da Arquitectura


2007-08-01


A SUBLIMAÇÃO DA CONTEMPORANEIDADE


2007-07-01


UMA MITOLOGIA DE CARNE E OSSO


2007-06-01


O LUGAR COMO ARMADILHA


2007-05-02


ESPAÇOS DE FILMAR


2007-04-02


ARTES DO ESPAÇO: ARQUITECTURA/CENOGRAFIA


2007-03-01


TERRAIN VAGUE – Notas de Investigação para uma Identidade


2007-02-02


ERRARE HUMANUM EST…


2007-01-02


QUANDO A CIDADE É TELA PARA ARTE CONTEMPORÂNEA


2006-12-02


ARQUITECTURA: ESPAÇO E RITUAL


2006-11-02


IN SUSTENTÁVEL ( I )


2006-10-01


VISÕES DO FUTURO - AS NOVAS CIDADES ASIÁTICAS


2006-09-03


NOTAS SOLTAS SOBRE ARQUITECTURA E TECNOLOGIA


2006-07-30


O BANAL E A ARQUITECTURA


2006-07-01


NOVAS MORFOLOGIAS NO PORTO INDUSTRIAL DE LISBOA


2006-06-02


SOBRE O ESPAÇO DE REPRESENTAÇÃO MODERNO


2006-04-27


MODOS DE “VER” O ESPAÇO - A PROPÓSITO DE MONTAGENS FOTOGRÁFICAS



OH, AS CASAS, AS CASAS, AS CASAS...

FILIPA ALMEIDA


 

 

 

 

 "A maneira como tu és e eu sou, o modo segundo o qual somos homens sobre essa terra é o Buan, o habitar."
 

Martin Heidegger

 

 

Estou à porta da Galeria 3+1. Está um fim de dia ventoso e inquietante. Consigo, cá de fora, vislumbrar alguns traços de Carlos Nogueira na parede. Entro.

Na sala de cima, começo por pensar nestes traços como desenhos – como o próprio lhes chama – porque penso no preto da grafite sobre o branco das paredes; que podiam ser folhas de papel, ou de luz, e porque são pesos que são leves. Há na solidez e opacidade do aço, da madeira e do carvão, pousadas como apontamentos sugestivos e geométricos na parede, à altura dos olhos, uma fragilidade do traço, da linha que se desenha sem se saber. Trata-se, portanto, do que emerge sem se elaborar nem controlar, da casa que se tece, da relação em construção. Pelas palavras de Mia Couto: "[…] uma casa em flagrante acto de nascer" [1]. Ou, ainda: "A edificação que não revela o esforço: essa é a marca primeira da beleza" [2] – Dir-se-ia, rasgo a rasgo, compondo um mundo de casas que Carlos desenha e reinventa para ti.

Não penso nestas casas para nós, como o título poderia sugerir, ou para mim; penso nestas casas para ti. Alguém que eu não vejo quem é, que eu não posso conhecer; alguém que não sou eu, como quando gosto de observar e sentir algo recebido por outro, com a distância precisa de não ser para mim – esse espaço que eu observo de fora para dentro onde me descubro testemunha; deste presente – dom – ao qual sou convidada a assistir.

Todas as peças da sala de cima são cobertas de um negro duro, opaco, difícil de furar. Estão unificadas como parceiras nesta luta; querem todas ser casa – já o são. Na primeira peça, “Desenho de casa, de planta irregular”, lembro-me de uma cadeira. Poderia sentar-me em cima, ou proteger-me no seu centro – mas é torta, irregular, não sei se aguentaria comigo.
Como escrito no texto curatorial, “pára vento” e “empena norte”, peças expostas e ainda na sala de cima, “resguardam-nos do vento e da luz". Recordo por isso um texto do filósofo Martin Heidegger intitulado "Construir, habitar e pensar" [3], em que somos levados a percorrer um caminho sobre estes conceitos e sentidos. Onde, “O traço fundamental do habitar é esse resguardo. O resguardo perpassa o habitar em toda a sua amplitude”. [4] – um resguardar que liberta por deixar ser, enquanto a condição essencial para habitar. Na peça “desenhos de casas pormenores. com vista de jardim”, as linhas que à partida são mais lineares e rectas abrem-se para uma assimetria ou um acidente de onde nascem recantos para entrar a real Primavera; desordenada e de rompante. Abre-se uma geometria diferente: A da luz e a do tempo, que se deixa existir e escapar por essas fendas devolutas, trilhos de passagem para o espanto, ainda que envolva estranheza. No centro da sala oiço a água correr, sem pressa, numa tarde morna de Outono.

Se em cima percorro os seus desenhos negros, dentro da sua casa errante e flutuante, quando desço, estou no seu atelier e vejo tudo branco – Na extensão do seu atelier, que se estende à exposição, que se estende à casa; neste trânsito de espaços que se (con)fundem e se entrelaçam, atravessando-se e nutrindo-se. Temos agora uma mesa (mesa-atelier, mesa-objecto, mesa-união, mesa-vida, mesa-pormenor) e um desenho de vento na parede. Na mesa estão colocados muitos objectos, caiados de branco – um espaço de memórias e ruínas, que, sem terem a desordenação de Aldo Rossi, lembram a sua ideia de perda e renovação, no seu desenho “Dieses ist lange her/ Ora questo é perduto” (1975), sobre o qual Vittorio Magnano Lampugnani
nos diz:

     

"Mesmo que um olhar desencantado sobre o caos de uma nova época de crise tenha inevitavelmente de confirmar que agora tudo isto se perdeu, que a clássica ordem das coisas se desmoronou irremediavelmente, para Rossi isso ainda não é motivo de resignação. A cada desenho, o longo e enfadonho processo para criar ordem a partir da confusão desesperada do nosso tempo começa com renovada determinação." [5]

 

Da ruína e dos restos, continuar a criação. Da extinção, ser o novo. O corpo colectivo que é esta peça relembra-me que montagem é pensamento; que é necessário experimentar “origamis” e ver de vários ângulos – Porque as coisas podiam estar com uma disposição diferente e seriam uma coisa diferente, teriam outro sabor, outro ângulo de leitura, e, sobretudo, estariam a mostrar outra parte de si. Aqui mostram-se em lua cheia, todas brancas, luminosas, resplandecentes, podiam mesmo ser outras; noutra madrugada, noutro tempo, noutra configuração. O “desenho de vento” é composto por vários ferros retorcidos; ferros de espera, que sinto terem a memória do vento gravada na coluna, que se dobraram com o tempo, que guardaram o gesto e mantêm a expressão e a espectativa. Criam sombras na parede e têm uma certa inocência, ou uma aceitação do sopro – deixam-se moldar sem temer no que se vão transformar.

Saio da galeria e, como curiosamente li no texto escrito pela Carolina Grau, curadora desta exposição, olho para as imponentes árvores do largo Hintze Ribeiro e percebo que, através dos vazios entre as folhas (voltamos sempre aos vazios como espaços que permitem e que abrem), com o vento, posso ver passar a luz; fulgurante a esvoaçar.

Curiosamente, só aqui chegada, percebi que havia mais ecos de Carlos Nogueira pela cidade. Havia outros habitats por descobrir, mais portas e divisões por onde entrar. Senti que fazia sentido caminhar, de uma para a outra, e da outra para a próxima. E, que nesse itinerário e distancia, nesse intervalo entre pistas, havia uma arquitectura do tempo e do espaço que era preciso ser atravessada. Estabelecer, inventar, essa ponte que nos liga aos três lugares diferentes onde estavam as peças de Carlos Nogueira obriga-nos a saber, como de um quarto de uma casa não se adivinha a luz do outro, que estamos perante o relacional e o aberto, por oposição ao fechado.

Saio, inevitavelmente, a pensar: "Quando verei o resto? Por hoje já tudo fechou." Portanto, prolongar no tempo e no espaço esta exposição, que eu vejo como uma só, fragmentada – como um todo por partes para poder ser – é deixar o vento soprar e o tempo demorar: "permanecer" enquanto um “de-morar-se” [6] leva-me a pensar que demorar é morar mais, morar lentamente, morar calmamente – como a casa se demora. Ter vários pontos de luz, sem medo que se espalhem, que dispersem. Existe essa unificação já nas suas peças; uma continuidade há muito esquecida. A desaceleração não imediatista que pedem conduz-nos ao compromisso. Volto a pensar em casa. 

Na sala principal do Museu Vieira da Silva, duas paredes efémeras delimitavam um pequeno anexo do espaço, criando assim condições para que as habitássemos. São estruturas construídas para esta exposição, onde está inscrito o seu nome: "sombras de vento, entre águas" e um texto do curador, David Revés. Foi construída uma pequena casa, apenas com uma divisão, dentro do museu. Por uma porta entro então neste anexo, onde impera um silêncio sereno, suave, mas poderoso. Por outras palavras, mas no mesmo silêncio: "O que eu não sei dizer é mais importante do que o que eu digo”, di-lo, Clarice Lispector, no texto curatorial da exposição anterior. 

Novamente a mesa. Aliás, duas mesas, que parecendo uma só, mantém uma distância que as separa. É também neste hiato de luz entre as duas mesas que nasce a tensão subtil desta peça - "entre águas". Estão quase juntas, mas não se chegam a tocar. Temos caixas pequenas e caixas grandes, caixas dentro de caixas, caixas claras e caixas escuras, todas pintadas e distribuídas ao longo da mesa, algumas sobrepostas, outras lado a lado. Vejo, novamente, um corpo colectivo de possíveis imagens ou paisagens às quais não temos acesso; um corpo colectivo de encaixe, de alongamento, de acrescentamento. Não temos todos espaço para esticar os braços ao mesmo tempo, e as coisas têm de caber como que dobradas, neste caso, sobrepostas e acumuladas, para caberem todas nesta casa – e estas caixas vivem na extensão e na tensão; na maneira como uma se liga a outra, se dá a outra, se mostra com outra, se desvenda ou se esconde com outra. Uma torna-se a expansão de todas, e, numa linguagem de aproximação, sinto um convite para olhar o inteiro, um convite para o encontro dentro deste que já está a acontecer – sou chamada a ver dentro desta dança quieta, "desta espera tensional, ou sensualidade latente", pelas palavras do curador David Revés. Na parede, outro desenho de vento - "sombras de vento" - dobrado mas não ressequido, antes rigoroso e límpido como um raio, certeiro, volta a bramir-me as marcas do vento.

Afinal, onde tudo começa é onde eu acabo – nos desenhos de casa para ti– que foi a pioneira destas três exposições. Tive o enorme privilégio e surpresa de ter contactado o Carlos por email e de ter recebido uma chamada sua, a convidar-me a visitar a exposicão com ele. E assim foi. Numa tarde de Primavera, às 17h30 da tarde, chego à porta – já aberta – e encontro o Carlos, à minha espera para este encontro e visita. Volto a ver o negro sobre branco. Vejo uma só instalação, e uma lareira a estalar, já baixinho, entre o fim da noite e o principiar da luz, quando já todos dormem. Vejo horizontalidade, verticalidade e circularidade, i.e., estou a percorrer um caminho de cima para baixo e de um lado ao outro, e também estou em volta das coisas, estou a atravessar-lhes os vazios, os meios, os nadas, os silêncios.

Estas casas, nesta cidade, lembram-me que do caos pode nascer abrigo; que mesmo do maior receio pode emergir uma estrutura, sabendo que as coisas “[…] ocupam os lugares que lhes são confiados". [7] Lembram-me, que é nas ausências, no entre –nessas escolhas caladas – que escapamos ao peso da escuridão, ou que aprendemos a vestir a sombra. Lembram-me que um lugar vazio é sempre um lugar do novo e um lugar do corpo, e que eu habito esses espaços; que é justamente nesses espaços que eu sou chamada a existir.

 

"[…] a casa não é onde o homem se fecha. É onde o Homem se abre para dentro”. [8]


 

Filipa Almeida

Nasceu em Lisboa, em 1996, cidade onde vive e trabalha. Licenciou-se em Ciências da Cultura e da Comunicação, na Faculdade de Letras. Realizou uma Pós- Gradução em Curadoria de Arte na Nova FCSH, um curso de Estética na SNBA, e está neste momento a realizar o Mestrado em Práticas Tipográficas e Editoriais Contemporâneas na FBAUL. 

 

 

 :::

 

 

Notas:

[1] Mia Couto, “A casa de dentro” in Carlos Nogueira [website], Julho 2005 in https://carlosnogueira.com/pt/textos/textos-sobre-carlos-nogueira/42-a-casa-de-dentro.html (consultado dia 18 de Maio de 2022).

[2] Ibid.

[3] Martin Heidegger, “Construir, Habitar, Pensar”, in Martin Heidegger, Ensaios e Conferências, Petrópolis, Vozes, 2012.

[4] Ibid. p. 129.

[5] Vittorio Magnano Lampugnani citado por Diogo Seixas Lopes, in Diogo Seixas Lopes, Melancolia e arquitectura em Aldo Rossi, Lisboa, Orfeu Negro, 2019, p. 24.

[6] Martin Heidegger, op. cit, p. 129.

[7] Delfim Sardo “Voo doméstico" in Carlos Nogueira [website], Dezembro, 2015 in https://carlosnogueira.com/pt/textos/textos-sobre-carlos-nogueira/172-voo-domestico.html (consultado dia 18 de Maio de 2022).

[8] Mia Couto, op. cit.