Links

ARQUITETURA E DESIGN




Cadeira Barcelona, M. Veríssimo, 1993





ATOM aquecimento solar passivo portatil. Armadilha Solar 2004


ATOM - aquecimento solar passivo portatil. Armadilha Solar 2004





FONTE - compacto energético para reabilitação de edificios. Armadilha Solar 2005





Trofa, Armadilha Solar 2006





Trofa, Armadilha Solar 2006





Water Spirals, Concurso internacional por convite, Parque La Gavia Vallecas Madrid. CITEREA com Bruno Baldaia e José Ferreira





Water Spirals, Concurso internacional por convite, Parque La Gavia Vallecas Madrid. CITEREA com Bruno Baldaia e José Ferreira








i am a soybean. crédito revista wired junho 2003





i am a network. crédito revista wired, junho 2003





mapa de tréfego do genoma crédito revista wired junho 2003






















Outros artigos:

2017-09-10


“VINTE E TRÊS”. AUSÊNCIAS E APARIÇÕES NUMA MOSTRA DE JOALHARIA IBEROAMERICANA PELA PIN ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE JOALHARIA CONTEMPORÂNEA


2017-08-01


23 – JOALHARIA CONTEMPORÂNEA NA IBERO-AMÉRICA


2017-06-30


PASSAGENS DE SERRALVES PELO TERMINAL DE CRUZEIROS DO PORTO DE LEIXÕES


2017-05-30


EVERYTHING IN THE GARDEN IS ROSY: AS PERIFERIAS EM IMAGENS


2017-04-18


“ÁRVORE” (2002), UMA OBRA COM A AUTORIA EM SUSPENSO


2017-03-17


ÁLVARO SIZA : VISÕES DA ALHAMBRA


2017-02-14


“NÃO TOCAR”: O NOVO MUSEU DO DESIGN EM LONDRES


2017-01-17


MAXXI ROMA


2016-12-10


NOTAS SOBRE ESPAÇO E MOVIMENTO


2016-11-15


X BIAU EM SÃO PAULO: JOÃO LUÍS CARRILHO DA GRAÇA À CONVERSA COM PAULO MENDES DA ROCHA E EDUARDO SOUTO DE MOURA


2016-10-11


CENAS PARA UM NOVO PATRIMÓNIO


2016-08-31


DREAM OUT LOUD E O DESIGN SOCIAL NO STEDELIJK MUSEUM


2016-06-24


MATÉRIA-PRIMA. UM OLHAR SOBRE O ARQUIVO DE ÁLVARO SIZA


2016-05-28


NA PEGADA DE LE CORBUSIER


2016-04-29


O EFEITO BREUER – PARTE 2


2016-03-24


O EFEITO BREUER - PARTE 1


2016-02-16


GEORGE BEYLERIAN CELEBRA O DESIGN ITALIANO COM LANÇAMENTO DE “DESIGN MEMORABILIA”


2016-01-08


RESOLUÇÕES DE ANO NOVO PARA A ARQUITETURA E DESIGN EM 2016


2015-11-30


BITTE LEBN. POR FAVOR, VIVE.


2015-10-30


A FORMA IDEAL


2015-09-14


DOS FANTASMAS DE SERRALVES AO CLIENTE COMO ARQUITECTO


2015-08-01


“EXTRA ORDINARY” - JOVENS DESIGNERS EXPLORAM MATERIAIS, PRODUTOS E PROCESSOS


2015-06-25


PODE A TIPOGRAFIA AJUDAR-NOS A CRIAR EMPATIA COM OS OUTROS?


2015-05-20


BIJOY JAIN, STUDIO MUMBAI


2015-04-14


O FIM DA ARQUITECTURA


2015-03-12


TESOURO, MISTÉRIO OU MITO? A ESCOLA DO PORTO EM TRÊS EXPOSIÇÕES (PARTE II/II)


2015-02-11


TESOURO, MISTÉRIO OU MITO? A ESCOLA DO PORTO EM TRÊS EXPOSIÇÕES (PARTE I/II)


2015-01-11


ESPECTADOR


2014-12-09


ARQUITECTAS: ENSAIO PARA UM MANUAL REVOLUCIONÁRIO


2014-11-10


A MARCA QUE TEM O MEU NOME


2014-10-04


NEWS FROM VENICE


2014-09-08


A INCONSCIÊNCIA DE ZENO. MÁQUINAS DE SUBJECTIVIDADE NO SUPERSTUDIO*


2014-07-30


ENTREVISTA A JOSÉ ANTÓNIO PINTO


2014-06-17


ÍNDICES, LISTAGENS E DIAGRAMAS: the world is all there is the case


2014-05-15


FILME COMO ARQUITECTURA, ARQUITECTURA COMO AUTOBIOGRAFIA


2014-04-14


O MUNDO NA MÃO


2014-03-13


A CASA DA PORTA DO MAR


2014-02-13


O VERNACULAR CONTEMPORÂNEO


2014-01-07


PÓS-TRIENAL 2013 [RELAÇÕES INSTÁVEIS ENTRE EVENTOS, ARQUITECTURAS E CIDADES]


2013-11-12


UMA SUBTIL INTERFERÊNCIA: A MONTAGEM DA EXPOSIÇÃO “FERNANDO TÁVORA: MODERNIDADE PERMANENTE” EM GUIMARÃES OU UMA EXPOSIÇÃO TEMPORÁRIA NUMA ESCOLA EM PLENO FUNCIONAMENTO


2013-09-24


DESIGN E DELITO


2013-08-12


“NADA MUDAR PARA QUE TUDO SEJA DIFERENTE”: CONVERSA COM BEYOND ENTROPY


2013-08-11


“CHANGING NOTHING SO THAT EVERYTHING IS DIFFERENT”: CONVERSATION WITH BEYOND ENTROPY


2013-07-04


CORTA MATO. Design industrial do ponto de vista do utilizador


2013-05-20


VÍTOR FIGUEIREDO: A MISÉRIA DO SUPÉRFLUO


2013-04-02


O DESIGNER SOCIAL


2013-03-11


DRESS SEXY AT MY FUNERAL: PARA QUE SERVE A BIENAL DE ARQUITECTURA DE VENEZA?


2013-02-08


O CONSUMIDOR EMANCIPADO


2013-01-08


SOBRE-QUALIFICAÇÃO E REBUSCO


2012-10-29


“REGIONALISM REDIVIVUS”: UM OUTRO OLHAR SOBRE UM TEMA PERSISTENTE


2012-10-08


LEVINA VALENTIM E JOAQUIM PAULO NOGUEIRA


2012-10-07


HOMENAGEM A ROBIN FIOR (1935-2012)


2012-09-08


A PROMESSA DA ARQUITECTURA. CONSIDERAÇÕES SOBRE A GERAÇÃO POR VIR


2012-07-01


ENTREVISTA | ANDRÉ TAVARES


2012-06-10


O DESIGN DA HISTÓRIA DO DESIGN


2012-05-07


O SER URBANO: UMA EXPOSIÇÃO COMO OBRA ABERTA. NO CAMINHO DOS CAMINHOS DE NUNO PORTAS


2012-04-05


UM OBJECTO DE RONAN E ERWAN BOUROULLEC


2012-03-05


DEZ ANOS DE NUDEZ


2012-02-13


ENCONTROS DE DESIGN DE LISBOA ::: DESIGN, CRISE E DEPOIS


2012-01-06


ARCHIZINES – QUAL O TAMANHO DA PEQUENÊS?


2011-12-02


STUDIO ASTOLFI


2011-11-01


TRAMA E EMOÇÃO – TRÊS DISCURSOS


2011-09-07


COMO COMPOR A CONTEMPLAÇÃO? – UMA HISTÓRIA SOBRE O PAVILHÃO TEMPORÁRIO DA SERPENTINE GALLERY E O PROCESSO CRIATIVO DE PETER ZUMTHOR


2011-07-18


EDUARDO SOUTO DE MOURA – PRITZKER 2011. UMA SISTEMATIZAÇÃO A PROPÓSITO DA VISITA DE JUHANI PALLASMAA


2011-06-03


JAHARA STUDIO


2011-05-05


FALEMOS DE 1 MILHÃO DE CASAS. NOTAS SOBRE O CONCURSO E EXPOSIÇÃO “A HOUSE IN LUANDA: PATIO AND PAVILLION”


2011-04-04


A PROPÓSITO DA CONFERÊNCIA “ARQUITECTURA [IN] ]OUT[ POLÍTICA”: UMA LEITURA DISCIPLINAR SOBRE A MEDIAÇÃO E A ESPECIFICIDADE


2011-03-09


HUGO MADUREIRA: O ARTISTA-JOALHEIRO


2011-02-07


O QUE MUDOU, O QUE NÃO MUDOU E O QUE PRECISA MUDAR


2011-01-11


nada


2010-12-02


PEQUENO ELOGIO DO ARCAICO


2010-11-02


CABRACEGA


2010-10-01


12ª BIENAL DE ARQUITECTURA DE VENEZA — “PEOPLE MEET IN ARCHITECTURE”


2010-08-02


ENTREVISTA | FILIPA GUERREIRO E TIAGO CORREIA


2010-07-09


ATYPYK PRODUCTS ARE NOT MADE IN CHINA


2010-06-03


OS PRÓXIMOS 20 ANOS. NOTAS SOBRE OS “DISCURSOS (RE)VISITADOS”


2010-05-07


OBJECTOS SEM MEDO


2010-04-01


O POTENCIAL TRANSFORMADOR DO EFÉMERO: A PROPÓSITO DO PAVILHÃO SERPENTINE EM LONDRES


2010-03-04


PEDRO + RITA = PEDRITA


2010-02-03


PARA UMA ARQUITECTURA SWISSPORT


2009-12-12


SOU FUJIMOTO


2009-11-10


THE HOME PROJECT


2009-10-01


ESTRATÉGIA PARA HABITAÇÃO EVOLUTIVA – ÍNDIA


2009-09-01


NA MANGA DE LIDIJA KOLOVRAT


2009-07-24


DA HESITAÇÃO DE HANS, OU SOBRE O MEDO DE EXISTIR (Parte II)


2009-06-16


DA HESITAÇÃO DE HANS, OU SOBRE O MEDO DE EXISTIR


2009-05-19


O QUE É QUE SE SEGUE?


2009-04-17


À MESA COM SAM BARON


2009-03-24


HISTÓRIAS DE UMA MALA


2009-02-18


NOTAS SOBRE PROJECTOS, ESPAÇOS, VIVÊNCIAS


2009-01-26


OUTONO ESCALDANTE OU LAPSO CRÍTICO? 90 DIAS DE DEBATE DE IDEIAS NA ARQUITECTURA PORTUENSE


2009-01-16


APRENDER COM A PASTELARIA SEMI-INDUSTRIAL PORTUGUESA OU PORQUE É QUE SÓ HÁ UMA RECEITA NO LIVRO FABRICO PRÓPRIO


2008-11-20


ÁLVARO SIZA E O BRASIL


2008-10-21


A FORMA BONITA – PETER ZUMTHOR EM LISBOA


2008-09-18


“DELIRIOUS NEW YORK” EXPLICADO ÀS CRIANÇAS


2008-08-15


A ROOM WITH A VIEW


2008-07-16


DEBATER CRIATIVAMENTE A CIDADE: A EXPERIÊNCIA PORTO REDUX


2008-06-17


FOTOGRAFIA DE ARQUITECTURA, DEFEITO E FEITIO


2008-05-14


A PROPÓSITO DA DEMOLIÇÃO DO ROBIN HOOD GARDENS


2008-04-08


INTERFACES URBANOS: O CASO DE MACAU


2008-03-01


AS CORES DA COR


2008-02-02


Notas sobre a produção arquitectónica portuguesa e sua cartografia na Architectural Association


2008-01-03


TARZANS OF THE MEDIA JUNGLE


2007-12-04


MÚSICA INTERIOR


2007-11-04


O CIRURGIÃO INGLÊS


2007-10-02


NÓS E OS CARROS


2007-09-01


Considerações sobre Tempo e Limite na produção e recepção da Arquitectura


2007-08-01


A SUBLIMAÇÃO DA CONTEMPORANEIDADE


2007-07-01


UMA MITOLOGIA DE CARNE E OSSO


2007-06-01


O LUGAR COMO ARMADILHA


2007-05-02


ESPAÇOS DE FILMAR


2007-04-02


ARTES DO ESPAÇO: ARQUITECTURA/CENOGRAFIA


2007-03-01


TERRAIN VAGUE – Notas de Investigação para uma Identidade


2007-02-02


ERRARE HUMANUM EST…


2007-01-02


QUANDO A CIDADE É TELA PARA ARTE CONTEMPORÂNEA


2006-12-02


ARQUITECTURA: ESPAÇO E RITUAL


2006-11-02


IN SUSTENTÁVEL ( I )


2006-10-01


VISÕES DO FUTURO - AS NOVAS CIDADES ASIÁTICAS


2006-07-30


O BANAL E A ARQUITECTURA


2006-07-01


NOVAS MORFOLOGIAS NO PORTO INDUSTRIAL DE LISBOA


2006-06-02


SOBRE O ESPAÇO DE REPRESENTAÇÃO MODERNO


2006-04-27


MODOS DE “VER” O ESPAÇO - A PROPÓSITO DE MONTAGENS FOTOGRÁFICAS


share |

NOTAS SOLTAS SOBRE ARQUITECTURA E TECNOLOGIA

MIGUEL VERÍSSIMO, BRUNO BALDAIA, INÊS MOREIRA


NOTA 1 por Miguel Veríssimo

É artificial o que resulta da acção técnica e cultural do homem.
O alerta de que essa acção está a romper os equilíbrios ambientais do planeta; e, sendo a interacção permanente e a interdependência – aparentemente sem escala, uma das lógicas das regras da vida e dos fenómenos ecológicos que a sustentam, é inevitável a constatação que tudo o que existe dentro desse domínio passará assim a ser designado como artificial porque está sujeito à acção humana.

É preciso no entanto não confundir essa tomada de consciência ética com “antropocentrismo”. Pelo contrário, é preciso entende-la como a emergência de um novo paradigma de desenvolvimento e dum desafio integrador, pela compreensão de novas complexidades e responsabilidades que esse estatuto nos irá trazer. Por isso, considero sim, “antropocêntricas”, as apologias redutoras que culpabilizam moralmente o ser humano nesse cenário de mudança; quer pela defesa de um estatuto meramente biológico, esquecendo a nossa especificidade como espécie, quer pelo refúgio fatalista e desresponsabilizador em que cristalizaram os discursos políticos/religiosos/culturais – resultando numa separação entre corpo e mente, individuo e sociedade ou, na linearidade entre o exercício intelectual e as consequências práticas da acção. Sendo, as “faces duma mesma moeda”, ambas as posturas falham, ao esquecerem que somos antes de mais uma realização da natureza – de longe a forma de vida mais complexa do Planeta, e parte integrante do seu património; com o direito de agir, como qualquer outro ser vivo nos seus processos de evolução. Mas, deparamos agora, na emergência da acção, com uma total ausência de enquadramento teórico/prático. E isso indicia antes de mais, a falência dos modelos, moderno e pós moderno (de certo modo ainda) vigentes. Falência essa que se deveu, antes de mais, à postura classista dos seus intérpretes e, à instrumentalização politica, que serviu – consentidamente ou não, a formatação das políticas coloniais e pós-coloniais dominadoras e centralizadoras dos recursos. No final, os discursos moderno e pós-moderno, perderam-se numa ambivalência entre colectivismo e individualismo e, no impacto económico e social dos media. Uma posição que se desviou de temas centrais – um verdadeiro aprofundamento da democracia, e discussão e acção criticas em torno dos modelos de desenvolvimento. O resultado foi a desatenção dada aos grandes fenómenos que estavam então em marcha – a massificação do conhecimento e uma exponencial e caótica explosão demográfica. Dos dois, interessa-me mais referir que, sabemos hoje não ser a explosão demográfica, um apregoado resultado do progresso técnico ou cientifico – nos países onde se concentrou verdadeiramente essa evolução, o crescimento demográfico regrediu ou estabilizou; foi sim, a consequência duma implementação global de modelos de dominação politica e cultural, obviamente desajustados.

A rotura pós 11.Set. que está a decorrer, é bastante mais profunda do que as que ocorreram durante a modernidade. Esta crise não é só uma mudança de combustível – É uma ruptura total entre os processos humanos e os modelos que suportam a vida na Terra. A crise actual é a mais orgânica e transversal de que há memoria e, os seus contornos tornam-se ainda mais claros, se olhada sob um ponto de vista de leitura histórica incrivelmente certeiro – a relação do desenvolvimento humano com os factores económico/ecológico (energia) que o sustentam. Estamos hoje a assistir, a uma total reformulação do nosso “sistema eco-energético”, pondo em causa paralelamente, o modelo civilizacional – estruturado economicamente em “lógicas lineares”, em contraponto a outro, mais ecológico, inspirado em “lógicas circulares” simbióticas e interactivas. O impacto dessa mudança, lança logo questões políticas fundamentais. Exemplarmente renascem já, apologias centralizadoras, apelando às reduções totalitárias colectivistas e populistas; apelando à simplificação e subtracção em oposição a síntese, numa tentativa de isolamento progressivo do âmbito da acção provocando assim, a ruptura e a violência. Daí, a urgência duma ampla discussão, uma imensa abertura democrática, contribuindo para que os mais atentos ajudem à mudança de referencial, reflectindo para uma urgente regeneração civilizacional.

A energia e os fenómenos físicos a ela ligados, são uma das “jóias escondidas” da natureza – e têm apoiado, ao longo da sua descoberta no sec.VII até à recente mecânica quântica, para sustentar a compreensão e o determinismo do tempo e da acção sobre a matéria: do desequilíbrio ao impacto, do movimento às transferências de calor e de massa, e que tem servido – num âmbito mais abstracto para cruzar as acções humanas com a natureza; e assim, ajudar a compreender as transformações a que estamos a assistir. Desde logo, pelas possibilidades de fusão de conceitos (aparentemente dispersos) que influenciam a todos os níveis o mundo real: perfeição e imperfeição (o belo), degradação e perpetuidade, escala, material e imaterial e finalmente, o tempo! É pois, principalmente por Claucius e o conceito de Entropia, que se tornou possível avaliar as repercussões físicas da termodinâmica na matéria e, da ligação entre os domínios macroscópicos e microscópicos da mesma, noções que até então existiam somente de forma empírica. Ou ainda, perceber a repercussão das leis da termodinâmica, a todos os níveis sociedade – por um encadeamento de relacionamentos de causa/efeito com o aparelho produtivo – que é basilar e mediador entre o ser humano e ecologia/economia/cultura. É preciso referir que a progressiva descodificação dos fenómenos da termodinâmica, marca o inicio da “era moderna” através da introdução de novos processos técnicos e tecnológicos e um novo paradigma energético – os combustíveis fosseis (energia solar quimicamente concentrada na matéria orgânica), diferente daquele que até então suportava o aparelho produtivo – as energias: o fogo, a energia metabólica (animal/humana), a eólica e a hidráulica. Com a descoberta do conceito de entropia (demonstrado pela experiência de Joule) constatou-se que: num sistema isolado (sem transferências de matéria ou energia com a envolvente), qualquer acção ou movimento que provoque transferências de energia, esta vai-se progressivamente degradando noutras formas menos nobres de energia, transformando-se a outros níveis e progressivamente, em calor. A dissipação de energia ocorre (mesmo sendo um sistema isolado), porque à medida que se desenvolve o movimento e a consequente produção de calor, a entropia (desorganização) do sistema cresce progressivamente, a outras escalas, indefinidamente para o caos (factor de escala). Os determinismos temporal e material da experiência são, uma aparente irreversibilidade do processo, ou seja: transformar o calor de novo em movimento. Assim, a única forma de equilibrar o sistema, retomando a sua entropia inicial é; parar o movimento, ou abrindo-o, fazendo com que ceda energia interna ao exterior, deixando assim de ser adiabático ou isolado. (a árvore desempenha aqui um papel fundamental já que é a única “coisa” existente, capaz de inverter esse processo)

O paralelismo com o recente chavão do “aquecimento global” é assim decorrente: O progresso e desenvolvimento criam os “gases de estufa” que, pelas suas propriedades físicas e químicas se fixam na Atmosfera, formando uma barreira à dissipação cósmica da energia – o “chapéu” que estamos a criar é transparente à radiações de baixo comprimento de onda, mas é opaco às radiações com elevado comprimento de onda, conservando-as assim na atmosfera, acumulando a energia sob a forma de calor. A energia criada artificialmente na Terra, pela máquina / atrito / movimento, incêndios e desflorestação, a criação animal, a climatização artificial, a extracção, criação, transformação e decomposição de matérias primas, etc. – degrada-se progressivamente em calor e aquecimento, aumentando o nível de entropia. A reacção humana, procurando contrariar um caos inevitável, tende a carregar mais o sistema com mais e mais energia procurando em vão, contornar consequências da criação de calor. Isso levará progressivamente à ruptura dos processos naturais (degelo das calotes polares, emissões de metano, incêndios naturais, etc.). Fenómenos para os quais, a natureza tinha equilíbrios e mecanismos de defesa próprios, mantendo equilibradamente a Terra, como um sistema aberto. Assim, a natureza, passará progressivamente a contribuir, ela própria, para o colapso.

A acção irracional do homem, provocou em poucos anos, o isolamento dum sistema aperfeiçoado ao longo de milhares de milhões de anos, lançando-o no caos. É um facto com profundas consequências!

As justificações poderão ter sido a demanda do progresso, realização cultural e material, a melhoria do conforto e qualidade de vida – satisfação física, estabilidade social, auto-estima. Mas, medindo privilégios e privilegiados, deparamos com números assustadores: Até finais do sec.XX, somente 10% da população mundial conseguiu, em 300 anos de modernidade acelerada, subir todos os degraus da “pirâmide de Maslow”. Mas, o que fazer com os restantes 90% condená-los à exclusão? Com o recente final do centralismo ocidental, o fim do proteccionismo dos mercados e, a globalização, deram-se passos enormes na igualdade de oportunidades. Mas, em contrapartida, adivinha-se o colapso das fontes e uma inevitável escassez! No entanto, é preciso não reduzir a mudança civilizacional em curso, a urgência duma aceleração tecnológica, que irá certamente desempenhar um papel preponderante na optimização e eficiência na exploração utilização dos recursos, reduzindo simultaneamente os impactes ambientais. É preciso, incentivar primeiro o aprofundamento duma rede de cidadãos livres (cidadão = polis), forçando os governos a disseminar o poder (ainda demasiado centralizado), responsabilizando assim, cada um pelos seus actos.

No meu ponto de vista, a degradação climática e o consequente caos ou entropia – se não ocorrer uma mudança ainda que próxima do paradigma energético, as consequências serão certamente dramáticas, mas não levará ainda à apregoada extinção da espécie – substituindo-a por uma forma biológica mais simples reiniciando um novo ciclo evolutivo. No entanto, ameaçará (com que direito e em nome de quê) toda a magnífica biodiversidade existente, impedindo as futuras gerações de aprenderem com a sua observação directa, real e exemplar. Para termos consciência do muito que ainda temos que aprender, basta-nos comparar a acção redutora do nosso “metabolismo linear”, com a complexidade dos ciclos naturais, recuando ao momento em que se tornou possível a existência de vida no planeta. Há cerca de quatro mil milhões de anos, com uma ocasional abertura do sistema – e um consequente arrefecimento do planeta, surgiram os oceanos. Alguns “objectos” conseguiram, por uma sucessão de acasos, numa amálgama química, a posse duma molécula – o DNA. Com o poder de se auto recriar indefinidamente, garantindo e preservando a sua existência, foram ao longo do tempo (por defeito e por acaso), acumulando outras capacidades – a de criar proteínas. Alguns desses seres vivos primitivos, tiveram a capacidade de sintetizar os ácidos aminados. Através da absorção da energia solar, geraram o metabolismo dos gases carbónicos, expulsando o oxigénio para a atmosfera. O oxigénio produziu ozono, que estabilizou numa camada atmosférica, funcionando como protecção aos raios ultravioleta. Só então, os seres vivos puderam abandonar o meio aquático e começar a cobrir as primitivas e mais simples formas minerais com outras mais evoluídas e complexas – as vegetais e animais. São estes ciclos espiralados que se auto regeneram abertamente – criando vida, que devemos imitar quando pensarmos em novas formas e estruturas artificiais, quaisquer que sejam e a todos os níveis do conhecimento. Mas, agora que precisamos de olhar a natureza em toda a sua diversidade, para projectarmos e nos projectarmos, criando novos equilíbrios ainda que artificiais, provocamos a sua redução lançando-nos sem alternativa, numa virtualidade estéril, abandonando o real.

Como contrariar a entropia e o aquecimento global? Desde logo, percebendo o que está em causa e foi demonstrado na experiência de Joule: O movimento, cria pelo atrito, sucessivamente e a diversas escalas, a degradação da energia em calor. Assim, o sistema só poderá regressar ao seu nível de entropia anterior abrindo-o, permitindo a troca de massa e energia com o meio envolvente. Das variáveis da experiência de joule, podemos retirar alguns ensinamentos: Tornar o movimento e as máquinas mais eficientes; tirar o máximo partido da realidade virtual (não como substituição do real, mas como uma ferramenta representativa aumentando a eficiência da acção) e da rede, limitando desde logo o movimento extemporâneo, concentrando-o nos movimentos necessários e produtivos. Pensar de forma circular, reutilizando e utilizando materiais recicláveis, conservando e limitando os desperdícios de energia – despendida ao longo desses ciclos e reintroduzindo a energia de novo no sistema. Instrumentos e ferramentas mais eficientes, utilizando no seu funcionamento, novas fontes energéticas – renováveis, ou com menores impactes ambientais. Devemos ainda limitar a produção supérflua de bens de consumo – sem receio de nos limitarmos, ou limitarmos a nossa riqueza dos sentidos – na cultura dos objectos, a sedução, a realização e o status, é residual. Paralelamente, aquilo a que socialmente associamos ao “ser” e não ao “ter”; ao verdadeiro sentido do prazer individual – musica, arte, criatividade e design, cultura, e alguns meios de comunicação, são cada vez mais acessíveis e eco-eficiêntes (pela afectividade, perduram no tempo).
Nos campos social e político, criar e implementar filosofias abertas, que possam trocar e fazer circular a energia – os sistemas político e económico existentes, são centralizadores e limitadores da acção. A concentração económica, só tem alimentado a futilidade nas sociedades industrializadas, e a canalização de recursos para o desperdício e para o exercício do poder económico, e não para o desenvolvimento global. Uma sociedade económica, social e ambientalmente sustentável é, liberal flexível e aberta, funcionando com mecanismos de estabilização social que permitam a livre circulação de pessoas e bens. Assim, a exemplo dos países mais desenvolvidos, o acesso: à esperança, à segurança e estabilidade, à realização individual e social, levarão a rápida inversão da explosão demográfica.

Por fim, o papel do planeamento dos ecossistemas humanos, e o papel dos arquitectos na regeneração dessa “casa comum”. A arquitectura desempenha um papel fundamental nessa nova sociedade. Só projectando edifícios eco-eficientes, consumindo menos, ou mesmo criando energia, as energias renováveis ou outras tecnologias eficientes, poderão dar um contributo real. Sem uma verdadeira redução de consumos e maior eficiência energética, os enormes investimentos que estão a ser feitos em novas formas de energia, não têm nenhuma utilidade.
A caricatural e casuística discussão em torno das árvores de Madrid (sendo a arvore, estranhamente uma das metáforas do Moderno e, em certa medida da retórica pós-moderna – regional ou não), espelha a simplificação e a ignorância que rodeiam o debate em torno do cruzamento entre Arquitectura e Ecologia (“ciência da casa”). Como arquitecto, considero-me naturalmente um ecologista. Fico por isso bastante surpreendido, quando me confronto com um discurso não ecologista. Simplesmente porque não conheço um ecologista que não defenda a concentração comunitária do ser-humano, como um sistema de organização social eco-sustentável. A clarificação dos nossos biótopos, numa rede de comunidades urbanas (desenhadas como ecossistemas, abertos e interactivos com a envolvente) deixando entre elas, espaços para que a fauna e a flora sobreviva, se regenere – campos agrícolas, floresta, reservas ecológicas, etc. Um território planeado e estruturado seguindo os princípios da vida, desenhando redes interligadas por sistemas de mobilidade e comunicação eficientes, é tão válido para os seres humanos como para outro sistema vivo qualquer. As “regras da vida” são, e foram sempre sustentáveis. Por isso, a oposição caricata entre “meio rural” e “meio urbano” que faz no meio ambientalista faz ainda menos sentido. Esse, foi um debate do moderno, feito durante o séc.XIX, opondo modelos de desenvolvimento, naturalmente datados e sem consistência quando transpostos para a contemporaneidade. A nova cidade será multifuncional e espacialmente, rural e urbana, já que sendo um ecossistema os seus contornos embora claros, serão abstractos e esbatidos. Por isso, a questão central, que vale a pena, a meu ver discutir, gira em torno da redução imediata do impacte dessas estruturas urbanas.

Os sistemas urbanos actuais, mal planeados (numa lógica linear), são essencialmente acumulativos e não de concentração. Por isso, a cidade, embora um modelo válido de Eco-Eficiência, são responsáveis directa e indirectamente pelo consumo de mais de metade dos nossos recursos. Mas o problema nem é o consumo mas o desperdício. Quase 60% do consumo urbano, é perdido em coisas que não contribuem para a qualidade, nem fomentam a individualidade ou a cidadania, que são questões “genéticas” quando se fala de cidade. Só podemos concluir, que sem cidadãos, a verdadeira cidade está ainda por inventar! De facto, a cidade, como modelo alternativo ao campo, devido à sua inferioridade demográfica, nunca permitiu ao modelo urbano, impor-se com uma real hegemonia política e económica. Mas, em 2007 – segundo dados do PNUD, as cidades passaram concentrar mais população que o campo. Esse factor fundamental, irá permitir pensar sem nostalgias, pela primeira vez, a cidade como um modelo viável para o desenvolvimento humano. Algumas metodologias orientadoras começam a surgir!
A cidade eco-sustentável deve ser antes de mais, auto-sustentável, garantindo três princípios:
1) Redução dos consumos energéticos – minimizando o desperdício: com a mobilidade desnecessária, recorrendo menos à maquina e mais à energia metabólica; Logísticas de proximidade servindo núcleos alargados (recursos agrícolas – hortas, estufas, floresta, etc…, fontes de energia renováveis, água, matérias-primas e aparelho produtivo, evitando “valor energético acrescentado”.
2) Nas habitações e serviços, recorrer a tipologias, programas e técnicas de projecto cada vez mais eficientes (biomimetismo, eco-eficiencia, aproveitamento, criação e conservação de energia); evitar sempre que possível nova construção, projectando para a reutilização.
3) Reabilitar sempre que seja energeticamente viável; procurando reduzir ao máximo o crescimento em extensão e a introdução de novas matérias-primas reutilizando materiais, evitando assim os gastos energéticos com a sua transformação; apostar na demolição e na reabilitação do espaço público, fomentando a permanência e a circulação pedonal.
3) Reciclar os seus próprios resíduos: gases, matéria orgânica e sólida, tirando o máximo partido de sistemas orgânicos, para melhorar a qualidade do ar, os níveis higrométricos e a biodiversidade urbana.
Estranhamente, uma sábia utilização da fauna e da flora, a sua integração correcta no desenho urbano (principalmente a árvore), é transversal a essas três estratégias e tem uma enorme eficácia. Desde logo porque só com a sua integração – ainda que num contexto artificial, conseguimos inverter naturalmente a entropia. Só a árvore, consegue simplesmente assimilar a energia dissipada e, através da fotossíntese, reintroduzi-la de novo no sistema. Assimilando o calor, a árvore transforma-o de novo em oxigénio e energia, sequestrando gases poluentes. Caricatamente, alguns insistem em projectar e construir, estruturas complexas que pretendem substituir ou imitar o papel da árvore. Mas, como muito da matéria da invenção, é uma tecno-futilidade e contraria o mais elementar bom-senso. Para quê desperdiçar recursos dessa forma? A criação, deve a meu ver estar, como na natureza, ao serviço de lógicas orgânicas de gestão e economia de energia. Uma cultura baseada na tecnologia, não é por si só utilitária e altruísta e, o princípio da cautela, deve ainda orientar o recurso à tecnologia, prevenindo a irracionalidade. A “sociedade do conhecimento” que estamos a fomentar, tem que saber lidar com esse tipo de questões, principalmente, porque a natureza daquilo com que competimos, é tão desmesuradamente grande, complexo e inatingível. Urge por isso, no remate da modernidade contribuir principalmente para o renascimento dum espírito crítico, que procure urgentemente orientar a investigação e a pesquisa de novas ideias, em áreas que sejam verdadeiramente importantes para o desenvolvimento em simbiose da espécie humana, mesmo que assim, os antigos heróis passem a ser os novos inimigos.

Bibliografia essencial:

-From Modernism to Portmodernism – an anthology. Edited by Lawrence Cahoone, Blackwell Philosophy Antologies 2002
-Manual de Filosofia do Ambiente. Dale Jamieson (coord) – Instituto Piaget 2005
-Architecture and The Sciences – exchanging metaphors. Antoine Picon and Alessandra Ponte, ed. Princeton Papers on Architecture 2003
-Fire and Memory, on architecture and energy. Luis Fernandez Galiano (1991), MIT Press 2000
-Ecologia das Populações e das Comunidades , uma abordagem evolutiva do estudo da biodiversidade. Fundação Calouste Gulbenkian 1996
-Proyectar com la Naturaleza. Ian L. McHarg (1967), GG 2000
-A Green Vitruvius, princípios e práticas de projecto para uma arquitectura sustentável. UCDublin, Ordem dos Arquitectos 2001
-Solar Energy in Architecture and Urban Planing. Thomas Herzog, Prestel 1996
-Termodinâmica, princípios e conceitos fundamentais. José J. Delgado Domingos ISTécnico 1996/97



NOTA 2 por Bruno Baldaia


O século XX provocou uma das mais profundas alterações da paisagem natural alguma vez suportadas pelo planeta. A progressiva humanização do território levou inclusive à falência da tradicional divisão entre paisagem natural e paisagem humanizada. Hoje fala-se apenas de território, ou então, numa versão mais abstracta, de espaço. Todo o espaço é hoje utilizável. Esta expansão generalizada tem o seu suporte na progressiva importância das sociedades capitalistas. O capitalismo, dominante no início do século XX, é hoje hegemónico por defeito. A ocupação genérica do território é também a ocupação capitalista do território. A percepção que dele temos é uma percepção mediada por instrumentos como a acessibilidade (relação entre tempo e distância), ou o regime de propriedade. Ou os sistemas de fluxos que correspondem às ligações entre os pontos que garantem a dinâmica do sistema global. O estado selvagem, ou seja a paisagem natural, não é hoje senão a gestão da ausência. O espaço vazio é uma atracção turística. A todo o espaço é atribuível uma função.
A lógica de organização territorial inverteu-se completamente, hoje a maior parte do espaço é espaço urbano. As cidades tornaram-se policêntricas e, com isso, ganharam a possibilidade de se tornarem intermináveis, engolindo porções sucessivas de território. A ocupação humana do território tornar-se-á, um informe, indistinto, e interminável continuum urbano. O espaço em abstracto, como assinalou Henri Lefebvre, assinala a explosão da cidade histórica ampliando-se a todos os aspectos da vida quotidiana, diluindo as oposições tradicionais entre cidade e campo, centro e periferia, industria e agricultura, arte e bem de consumo. Assinala-se, então, a passagem da produção das coisas no espaço, para a produção de espaço em si mesmo.
O espaço abstracto tende a dissolver as diferenças e a eliminar as identidades, mas, paradoxalmente, depende da sua contínua e sistemática capacidade de as absorver e reproduzir para manter a sua capacidade de sedução. Esta bulimia é a sua possibilidade fracturante.

“Nos han acostumbrado a pensar la arquitectura en función del lugar entendiendo que en él podríamos encontrar las claves con las que abordar el proyecto.(...) Pero en los últimos años estamos asistiendo a una transferencia significativa: todo lugar ha pasado a ser entendido como un paisaje, sea natural o artificial, y éste ha dejado de ser ese fondo neutro sobre el que destacan objetos artificiales arquitectónicos más o menos vocacionalmente escultóricos, para ser objecto de interés primario, foco de la atención del arquitecto. Así, modificado el punto de vista, el paisaje pierde su inercia y pasa a ser objecto de transformaciones posibles: es el paisaje lo que puede proyectarse, lo que deviene artificial.”(1)
A disponibilidade contemporânea para baralhar e dar de novo coloca-nos perante a possibilidade de estarmos perante uma reconfiguração do processo do moderno. Considerando o papel da arquitectura neste processo proponho que o entendamos numa perspectiva mais lata do que o seu campo historicamente definido. À arquitectura cabe designar a paisagem, concretizar os seus espaços, acções, procedimentos. O exercício da arquitectura torna-se um campo de discussão tanto como um espaço de concretização.
“[William] James utilizó la imagen de un corredor de hotel cuyas habitaciones albergan distintas concepciones del mundo; el corredor es el lugar en el que todas ellas se cruzan, el lugar donde puede darse una conversación plural y enriquecedora. La metáfora pragmática será así la “conversación”, imagen que subraya los vínculos con un modelo social en el que realmente pueda darse una discusión abierta e impredecible, sin verdades últimas. El creador, el artista y el filósofo se confunden en la figura del “crítico"(...)”.(2) O projecto de arquitectura transforma-se assim no corredor de hotel, no espaço de conversação ao qual são convocadas distintas contribuições. Ao arquitecto reserva-se então o papel do crítico, daquele que faz escolhas(3), afastando-se, portanto, duma ideia de arquitecto enquanto aquele que desenha e da arquitectura como uma prática oficinal. A tecnificação dos procedimentos no interior do projecto de arquitectura, faz deste um processo de mediação entre a realidade do projecto e a realidade da obra construída, e é sobre este processo que se verificam as mais profundas transformações. A emergência da informática como suporte do projecto, e o desenvolvimento de sistemas integrados no mercado da construção, reconfigura de forma decisiva o exercício da arquitectura.
Cabe aqui referir a contraposição entre o feiticeiro e o cirurgião assinalada por Walter Benjamin. O feiticeiro actua em função do poder especial que representa, do lugar que ocupa perante a situação que encontra. O feiticeiro não produz sistemas, mas momentos que se encerram. O cirurgião actua através duma operação sistematizável dependente da coordenação das acções convocadas para desencadear uma resposta. Da actuação do feiticeiro resulta o artefacto, das acções coordenadas pelo cirurgião resultam dispositivos.
Estamos a viver uma época finalmente livre de qualquer manifestação de messianismo, afastada do modernismo heróico, espera-se que livre também da confusão entre dispositivo e gadget.

Referências no texto
(1) Ecomonumentalidad “Iñaki Abalos e Juan Herreros” Natural Artificial” Ediciones ExitLMI, 1999 Madrid.
(2) Iñaki Abalos, “La buena vida”, Editorial Gustavo Gili, 2000.
(3) Enquanto operador de situações em distintos contextos, a figura do DJ seria também aqui aplicável.


NOTA 3 por Inês Moreira



“Queremos sugerir uma estrutura para o sal do ácido deoxyribose nucleico (ADN). Esta estrutura tem novas qualidades que são de interesse biológico considerável”(1). Assim começa o artigo de Watson e Crick que, em 1953, descrevia a estrutura em hélice dupla do ADN. A descoberta da estrutura física e química da informação genética revolucionou e transformou o conhecimento e os paradigmas científicos sobre os processos vitais e a biologia dos seres vivos. Após 1973, quando se conheceram as potencialidades e a efectiva possibilidade de usar informação e manipular material biológico, que Herben Boyer e Stanley Cohen demonstraram quando recombinaram ADN pela primeira vez, os desenvolvimentos da investigação em biologia molecular dispararam transformando radicalmente os referentes das ciências da vida e a ideia de natureza. Emergindo biotecnologias tão potentes como a recombinação de ADN (ADNr), abriu-se campo para a utilização de material biológico através de técnicas que ultrapassam os campos estritamente científicos, tendo a biologia sido relida a partir do ADN (desde a informação sobre o ser vivo e não desde o seu organismo). Versando a manipulação de células e moléculas biológicas, as biotecnologias operam ao nível molecular da vida onde as fronteiras entre espécies desaparecem.

50 anos após a descoberta da estrutura do ADN, estão-se a reunir o conhecimento e as condições económicas, políticas e sociais que anunciam a alvorada de uma Revolução Económica inteiramente nova, com características tão distintas das 3 eras anteriores (agrícola, industrial, informacional(2) ) como estas o foram entre si. As possibilidades das biotecnologias, e as oportunidades comerciais de uso de material biológico, despertaram o interesse da indústria pelas suas aplicações, desenvolvendo usos técnicos e comerciais que despoletam um novo mercado e a criação de novos produtos. Vários autores coincidem na previsão que indica que a economia e sociedade do séc. XXI serão dominadas pela biologia e pelos novos materiais criados em nano e micro escala. Emerge deste conhecimento uma cultura material inteiramente nova, como refere Jeremy Rifkin(3), “após milhares de anos a fundir, derreter, soldar, forjar e queimar matéria inanimada para criar coisas úteis, estamos agora a cortar, recombinar, inserir e a unir material vivo, dando origem a artigos económicos. (...) Estamos a passar da era pirotécnica para a era biotecnológica”(4). Esta Era poderá suplantar as Eras Informacional e Industrial, cujo conhecimento técnico, energia e economia se fundam nas ainda dominantes ciências da Química e Física.

A emergência da “Revolução Biotecnológica” está a ser comandada por duas forças interligadas que decidem a velocidade das transformações: as comunidades científicas, na área da investigação e na produção e desenvolvimento de conhecimento, e as comunidades económicas, na área do financiamento e dinamização de mercados. A Revolução Biotecnológica emergirá pelas bioindústrias e pelos novos mercados que cria, cujas tecnologias de ponta são a investigação, o patenteamento e a produção industrial de “novos produtos biológicos”, ou de produtos produzidos por seres biológicos. Hoje o high-tech e as novidades comerciais tecnológicas não são já produtos das e-indústrias (electrónicas). São as biotecnológicas, com os seus produtos e serviços derivados da biologia e constituídos por matéria orgânica e/ou produtos e serviços focados em aplicações na biologia e na matéria orgânica que constituem o epicentro da actual investigação científica e investimento económico.


03.2_ Corpo biotecnológico: novo paradigma

Uma reflexão sobre o Corpo torna-se imperativa para compreender o alcance da centralidade biológica nos vários domínios humanos. Tal como Gilbert, consideramos que entender “o paradigma da política de corpo permite ligar o espaço entre a nossa discussão de corpos físicos, corpos de conhecimento, e corpos sociais”(5).

O Corpo Biotecnológico resulta da nova centralidade das biologias(6), que invadiram os vários domínios da cultura, da política, à indústria e economia, às várias áreas da ciências e da tecnologia. Acrescentamos que os seus campos de aplicação vão do campo agrícola ao campo e teórico. Sendo que diferentes representações de bioorgs(7), ou organismos biológicos, remetem para entendimentos culturais distintos, podemos contudo enunciar um conjunto de características deste Corpo, que pensamos ser incluir nas suas representações as várias políticas.

O Corpo Bio(tecno)lógico tem origem no laboratório antes da sua própria concepção. Nasce das novas técnicas que manipulam genes, células e tecidos, constituindo-se com, e das, manipulações que lhe dão origem. A reprodução assistida e procriação selectiva, as biotecnologias recombinantes, a selecção e terapia genética, a criação e engenharia de tecidos, são técnicas novas que manipulam e combinam matéria orgânica e inorgânica, criando um novo corpo.

O Corpo Bio(tecno)lógico define-se à escala molecular, escala em que é manipulada informação que se materializa nas qualidades somáticas. As operações de modificação e transplante de órgãos são completadas pelas técnicas de manipulação e recombinação de matéria, definindo o corpo na sua escala de intervenção, o nanómetro. O Corpo Bio(tecno)lógico é essencialmente programável e recombinável, substituindo-se ao corpo transformável. Vem sendo deposta a hegemonia das técnicas que substituem funções corporais através de operações de modificação, substituição, ou transformação emergem técnicas que apuram informação, perfeccionam qualidades do corpo, executando operações de manipulação, recombinação, selecção, agindo sobre a matéria que forma o corpo.

O Corpo Bio(tecno)lógico é um híbrido “undercover”, superando a taxonomia biológica, recombina seres e substâncias apagando fronteiras entre organismos e entre reinos animais e vegetais, entre espécies, abolindo a dicotomia orgânico-inorgânico. Partindo da intermutação de informação genética, são corpos com compatibilidade total, com possibilidades infinitas e numa variedade incatalogável de indivíduos, clones, híbridos e quimeras.

03.3_ Fenótipo: um corpo crítico

A visão da ciência e a percepção dos seus problemas sociais e dependem do conceito de corpo aplicado. O Corpo Fenótipo, como definido por Gilbert, é um modelo que provêm da Biologia e pode estabelecer modelos para a política do corpo, metáforas de origem e narrativas para a cultura. O Fenótipo relaciona a condição material e “corpórea” do Corpo, refere a multiplicidade de corpos físicos, com as suas particularidades, ao corpo entendido como “rede integrada de genes e carne, cérebro e sexualidade, dentro e fora”, é também o corpo das relações recíprocas, “é o corpo do amante em carne e substância”(8).

O Fenótipo é uma ideia política, definida como contra-imagem de três grandes representações que advêm das ciências Pós Segunda Guerra Mundial. Provindo das tecnociências, são representações políticas que se traduzem em leituras de Corpo e Identidade e moldam os paradigmas Social, Económico e Tecnocientífico, traduzindo-se em modelos de políticas do Corpo, metáforas de Origem, e narrativas (de Verdade):

- Corpo Neuronal (Neural), uma reconstrução do Corpo de Descartes, dividido em res cogitans e res extensa, corpo e mente. Este corpo privilegia a informação, o cérebro e o mental, tem domínio sobre a matéria, comanda o corpo e o sensitivo. Neste Corpo, as hormonas, o sistema nervoso, prevalecem sobre o físico e o material, dominam a abstracção e as ideias (as leis, as normas). É o corpo Fordista, num conceito contemporâneo, um sistema integrado de órgãos, sobre os quais o cérebro tem supremacia e decisão (remete de resto para o sistema nervoso e para neurónio). Este Corpo é o Paradigma e o Sujeito da abstracção matemática e absoluta das ciências, na sua pirâmide em que a matéria (ciências da vida e biologia) estão na base, seguidas pela química, pela física sendo encabeçadas pela matemática, numa vitória das ideias abstracta sobre a matéria. Esta política de Corpo acredita na ciência universal, nas leis, tradições e cultura científica que produzem Verdade aculturais, sendo a base da ciência moderna;
- Corpo Imune, adopta conceitos da imunologia, da batalha contra o intruso infecto-contagioso. Estabelece um recinto em conflito, numa luta em que decide a sua identidade. Com a pele por fronteira, defende o interior do exterior do Corpo, o domínio do “Self” sobre o “Self/Non Self”, e luta pela sua integridade, dominada por um interior defensivo que estabelece uma batalha contínua de independência do exterior que o ameaça. O Imune exponencia a ideia moderna de Higienização, de manutenção asséptica e do controle. Tal como a linguagem bélica com que delimita o factor infeccioso no seu exterior, a política do Corpo Imune refere-se à batalha pela redefinição e manutenção de fronteiras. A política deste Corpo experimentou várias etapas: da defesa de agentes externos de infecção, à autodefesa de um interior que se desordena: imprevisivelmente, como no Cancro e suas metáteses; progressivamente, com a obsolescência do envelhecimento físico, o apagamento mental, pelo Alzheimer; ou perdendo identidade, com a SIDA;
- Corpo Genético, que coincide com a definição de Rifkin, um “epifenómeno dos seus genes”, definido pela informação genética e a sua identidade definida no ADN, reforçando que a visão genética separa qualquer dependência entre ciência e cultura, vendo a genética como determinante da identidade e a ciência como determinante da cultura.

O Fenótipo combina os três conceitos de Corpo (Neuronal, Imune, Genético) que privilegiam a Informação, contudo, refere-se à matéria, à corporalidade, à expressão física do corpo. É uma ideia política que implica um modelo de ciência que “vê os produtos materiais e a utilidade prática da ciência como mais importantes do que as suas ideias abstractas. Coloca a ciência dentro de um mundo social onde a consequências têm maior importância do que as teorias”(9), é um mundo que se centra nos meios, nos processos, nas relações, e necessita de conhecimento não só da matemática, da química e da física, mas especialmente da biologia.
O Corpo Fenótipo é uma proposta que privilegia a materialidade do Corpo, materializa e expressa o repertório da informação (genótipo) privilegiando a expressão material de variáveis do contexto e do ambiente em que o corpo se inscreve. Este corpo resiste à molecularização, à redução da matéria, dos seres e da identidade, é um modelo que se aproxima dos conceitos da embriologia e da biologia evolutiva, relacionando, cada vez mais, a Biologia com o contexto Social, Político e, cada vez mais, Económico.

03.4_ Arte/Ciência e Arquitectura/Tecnologia: investigação interdisciplinar

No monumental compêndio denominado “Information Arts – Intersections of Art, Science and Technology”(10), Stephen Wilson faz uma extensiva recolha de colaborações arte-ciência onde refere experiências híbridas que denomina New Media. Aponta vários suportes artísticos e áreas científicas e tecnológicas que partilham objectivos em colaborações – bem como as principais instituições, empresas e entidades, e ainda, oportunidades e campos de investigação em aberto. Considerando a arte e a ciência como actos culturais, elabora sobre o potencial de colaborações entre artistas e cientistas, a cisão histórica destas disciplinas e as características, semelhanças e diferenças, que as separam.

Wilson refere características da arte úteis para a investigação científica: a tradição iconoclasta (a arte recupera linhas de investigação desvalorizadas por outros); a crítica social (a arte poderá mais facilmente integrar temas culturais na sua investigação); a arte pode exercer a “celebração e maravilha” mais do que indústria e o comércio; a arte pode divulgar tecnologia e ciência para públicos mais alargados; a valoração da criatividade e inovação pode levar a novas perspectivas e questões sobre os objectos de estudo. Wilson refere ainda diferentes formas da arte se envolver na investigação das ciências da vida: análise deconstructiva, análise de implicações práticas e éticas e experimentação.

Roy Ascott denomina moistmedia – medias húmidos – os media que “emergem da convergência de bits, átomos, neurónios e genes: o “Big B. A. N. G.” do nosso universo pós-biológico”(11) e prevê que o futuro da arte do século XXI está no uso destas tecnologias, das “moistmedia – a integração de silicon-dry computer systems (sistemas de computação de silício - seco) e wet, living biology (biologia viva e húmida)”(12). Destas práticas emerge uma atitude pragmática, de superação da metáfora, uma dimensão estética mais técnica, implicada eticamente, uma tecnoética, que poderá ser dinamizada por experiências interdisciplinares e laboratoriais, pela predominância da especulação da sua componente metafórica ou discursiva e empírica. Termos como Bioart, ou arte biológica, e DNArt, ou arte genética, etc. denonimam experiências desenvolvidas nas últimas décadas e que reúnem um conjunto de práticas artísticas que transgridem os modelos de representação das artes plásticas. São práticas híbridas, localizando-se entre a Arte e a Ciência, versando tanto o produto artístico como o processo e o debate, exploram diferentes tecnologias e difuminam fronteiras disciplinares.

Algumas das new media arts exploram modelos biológicos computacionais, denominados vida artificial, ou A-life, procurando reproduzir em modelos as regras biológicas de geração de vida. Desenvolvem o potencial da vida artificial repertórios de técnicas (como os “agent-based systems”, a “bottom-up robotics” e os “cellular automata”)

Destacam-se os algoritmos genéticos “uma técnica central, que simula a genética biológica na computação digital. Um algoritmos genético “desenvolve” um “genótipo”, que é uma cadeia de código que especifica um “fenótipo”. O fenótipo pode ser qualquer artefacto digital: um organismo artificial, uma forma tridimensional, uma peça de software. Simulando as variações genéticas causadas pela reprodução sexual e mutação, um algoritmo genético altera o genótipo e o fenótipo; e sendo um processo computacional e não biológico, a criação torna-se rápida e prolífica. Vários tipos de fenótipos possíveis podem ser gerados, sendo usualmente automaticamente avaliados pela sua “fitness”, baseado em alguns critérios formalmente especificados”(13). William Latham e Stephen Todd geram vida artificial, criando seres a partir de procedimentos geométricos. O seu software, Mutator (desenvolvido pela IBM), usa primitivas (gramática da composição geométrica) para gerar formas complexas. Os procedimentos deste código baseiam-se em operações geométricas (rotação, escalamento, translação) de formas simples (esferas), cujas transformações foram definidas para simular visualmente formas biomórficas. O genótipo que criam simula a evolução biológica e os seus fenótipos remetem para seres primitivos (crustáceos, moluscos, etc.), explorando os processos evolutivos e a morfogénese, sob influência de On Growth and Form de D´Arcy Thompson.

Manuel De Landa fez uma aproximação teórica aos algoritmos genéticos analisando-os enquanto ferramenta de projecto de arquitectura, pois o projecto generativo implica um pensamento arquitectónica diferente, consistente com a ferramenta a criar. Três conceitos filosóficos definidos por Gilles Deleuze e reunidos por De Landa estabelecem uma “nova concepção da génese da forma”(14): o pensamento populacional, o pensamento intensivo e o pensamento topológico. O pensamento populacional refere-se à consideração de comunidades reprodutivas alargadas, a população que constitui a matriz para a geração de forma (e não o indivíduo). O pensamento intensivo refere-se à importância das diferenças de qualidades não extensivas, não quantitativas para a geração de fenótipos, próximo da embriogénese (diferença de concentração química, densidade, tensão superficial). O pensamento topológico refere a necessidade de um diagrama abstracto do fenótipo a gerar, não métrico, não concreto, que considere tanto as diferenças de intensidade como a população a gerar. De Landa refere que uma tecnologia generativa estabelece uma mudança de paradigma (e de prática) relativamente ao projecto convencional, referindo: “os arquitectos que desejarem usar este nova ferramenta devem tornar-se não só hackers (de modo a poderem criar o código necessário para unir aspectos intensivos e extensivos) mas devem ser capazes de “piratear” a biologia, termodinâmica, matemática e outras áreas da ciência, de modo a aceder às fontes (resources) necessárias. (...) está claro que a tecnologia digital sem o pensamento populacional, intensivo e topológico, não será suficiente”(15).

Antoine Picon(16) oferece uma visão mais moderada destas possibilidades, refere que as técnicas computacionais possibilitam a conjunção da arte e da técnica, eclodindo numa dimensão poética da computação, “a poética da computação ainda não atingiu o seu desenvolvimento completo. (...) Devido ao computador, a computação opera e transforma sem sempre o explicar. Há algo de mágico nesta sucessão de operações de transformação. Não é um paradoxo menos significativo da era digital ter recreado um mundo encantado dentro do tecido denso dos bancos de dados e das fórmulas. Até agora, os arquitectos apenas sentiram esta magia sem aceitar todas as suas consequências”(17). Picon refere uma certa gratuitidade das formas, que pensa poderem por vezes prevalecer sobre o pensamento arquitectónico. Existem dificuldades dos processos de computação evolutiva em estabilizar um modelo, reconhecendo-lhes um papel potencialmente poiético e uma acção demiúrgica do arquitecto: “a poética da computação torna-se numa poiesis no sentido mais forte do termo: uma arte de procriação que “flirta” abertamente com as prerrogativas do criador, como visto pelas religiões e mitologias. (...) Lançando algoritmos do mesmo modo que culturas bacteriológicas são iniciadas em laboratórios de biologia, (...) o arquitecto torna-se num demiúrgo do mundo das formas em perpétua evolução – um mundo que poderá não ter nunca estabilidade” (18). A sua perspectiva aponta, indubitavelmente, mais reservas do que a posição de De Landa. Na sua leitura crítica destas entusiastas práticas computacionais, processos evolutivos, tal como os programas generativos, refere que o seu potencial não foi totalmente explorado, podendo ainda aproveitar da sua evolução.

As questões arquitectónicas desenvolvidas pela computação genética estão ainda em fase experimental, nomeadamente, a inclusão do um pensamento intensivo (De Landa), que considere a tectónica (forças e cargas), a gravidade, a estática, a dinâmica, estando equacionada a sua possibilidade. No entanto, os processos descritos, enunciam um futuro novo da arquitectura, antecipada em 1998 por Ignási de Solá-Morales. Estes processos privilegiam o processo generativo, não determinista, geram processos que incorporam o tempo, os projectos apresentados lançam as premissas que poderão deslocar a extensão para a intensidade, a forma fixa pela forma em mutação, a determinação apriorística da forma pela geração e emergência de uma forma, e avançam seguramente na direcção que poderá chamar-se “líquida”. Estes projectos parecem avançar as ferramentas que Ignási esperava que transformassem a tríada firmitas, venustas, utilitas Vitruvianos, para avançar com um futuro líquido da arquitectura(19).

[*excertos dos capítulos 2 e 3 da Tese de Mestrado: O Bio(tecno)lógico em Arquitectura. Convergência de Corpo e Arquitectura em Práticas Experimentais, com o apoio da FCT]


Referências:

(1) Watson, J.D. e Crick, F.H.C. – Molecular Structure of Nucleic Acids, A structure for Deoxyribose Nucleic Acid – in Nature Review, nº 171, 25 de Abril de 1953, p. 737-8
(2) ver Toffler, Alvin - A Terceira Vaga - Livros do Brasil, Lisboa, 2000
(3) Jeremy Rifkin é crítico das tecnologias. Rifkin, Jeremy – O Século Biotech. Dominando o Gene e Recriando o Mundo – Europa-América, Mem Martins, Fevereiro 2001
(4) Rifkin, Jeremy – idem
(5) Scott F. Gilbert é “developmental biologist”. Gilbert, Scott F. – Bodies of Knowledge: Biology and the Intercultural University – in Taylor, p.; Halfon; S. Edwards, P. (eds.) - Changing Life. Genomes, Ecologies, Bodies, Commodities – University of Minnesota Press, Minneapolis, 1997
(6) Gilbert, Scott F. – idem
(7) Taylor, Peter, Halfon, Saul E., Edwards, Paul N. (eds) – Changing Life. Genomes Ecologies Bodies Commodities – University of Minnesota Press, Minneapolis, 1997.
(8) Gilbert, Scott F. – idem
(9) Taylor, Peter, Halfon, Saul E., Edwards, Paul N. (eds) – idem
(10) Wilson, Stephen - Information Arts – Intersections of Art, Science and Tecnolgy – MIT Press, cambridge, London, 2002
(11) Ascott, Roy – Planetary Technoetics: Art, Technology and Consciousness – Leonardo, v. 37, N 2, 2004, MIT Press, p. 114.
(12) Ascott, Roy – idem, p. 111
(13) Whitelaw, Mitchell – Metacreation, Art and Artificial Life – MIT, Cambridge, London, 2004. p.8
(14) De Landa, Manuel – Deleuze and the Use of the Genetic Algorithm in Architecture – in Architectural Design Magazine (ed. Ali Rahim) - Contemporary Technics in Architecture - Janeiro 2002 p.9-12
(15) De Landa, Manuel – idem
(16) Picon, Antoine - Digital Architecture and the poetics of computation – in - Metamorph, 9th Internacional Architecture Ehibition, volume Focus – Marsilio, La Biennale de Venezia, 2004. p.63
(17) Picon, Antoine – idem, p.67
(18) Picon, Antoine – idem, p.63
(19) Solà-Morales, Ignasi - Liquid Architecture – in Davidson, Cynthia (ed.) – Anyhow – MIT Press, New York, 1998


Miguel Veríssimo,
arquitecto, desenvolve trabalho de investigação com a Universidade do Minho

Bruno Baldaia,
arquitecto, tem publicado textos de crítica nas áreas de arte e arquitectura em diversas publicações e catálogos de exposições

Inês Moreira,
arquitecta FAUP; Mphil em Arquitectura e Cultura Urbana (UPC-Barcelona)
Doutoranda (Goldsmiths College-Londres)