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JOÃO FONTE SANTA

LIZ VAHIA


 

 

Estudou Pintura na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, expondo regularmente desde meados dos anos 1990. Se no início estava mais ligado ao universo da banda desenhada e das fanzines, a sua obra tem-se firmado no campo da pintura, sem contudo ter deixado de lado as influências pop e mergulhada muitas vezes numa forte crítica sócio-política.


Por Liz Vahia

 

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LV: Habitualmente associam ao teu trabalho uma forte presença da cultura pop, da banda desenhada ou do movimento punk. No entanto, mais do que essas influências formais, o teu trabalho está muito ligado a referências do cinema e da literatura. Como é que conjugas esses conteúdos com um estilo gráfico mais ligado à cultura de massas?

JFS: Tendo crescido no meio do muito conservador Alentejo, numa época em que a televisão tinha entre outras uma função dita educativa, era comum na minha adolescência passar facilmente por todas as referências que citas num espaço de poucas horas criando assim uma relação horizontal entre elas. Por outro lado, desde muito novo que fazia banda desenhada e consumia toda a literatura a que conseguia deitar a mão, por isso é-me de certa forma espontâneo que quando componho todos estas referências comecem a saltar e a enquadrarem-se num determinado efeito plástico pretendido.


LV: A palavra, nem que seja só nos títulos, tem por vezes uma importância fundamental na tua obra. A imagem e o texto surgem lado a lado no teu processo criativo?

JFS: A palavra por vezes é pintada, tornando-se visual como na banda desenhada, na publicidade, no genérico de um filme, cartaz político ou na capa de um disco vinil. Neste caso resulta geralmente de uma necessidade que a própria obra tem de provocar uma reação, noutros casos é a imagem que pede um título para se poder estender, muitas vezes é uma referência literária, complexa quando me parece que a obra em causa tem uma espessura própria. É comum no meio do processo de trabalho chocar com o artefacto que contém a frase que preciso para encerrar a peça.


LV: A tua obra reflecte muitas vezes criticamente o contexto sócio-político contemporâneo. Qual o papel que o atelier tem no teu dia a dia, como espaço de reflexão e trabalho sobre esses acontecimentos? Sentes necessidade de reagir plasticamente aos acontecimentos do quotidiano?

JFS: O meu processo de trabalho é muito lento, nele vão-se intercalando projectos que regularmente demoram anos a serem cumpridos, outros que se vão mantendo em suspenso, à espera do tempo certo. Dito isto, o meu dia de trabalho começa com a leitura de uma dose razoável de notícias e reportagens políticas que me emocionando de uma forma ou de outra, me ajudam ainda assim a ter uma noção de um certo fio condutor do tempo que me envolve e que é refletido no longo prazo do meu processo criativo. A reagir assim mesmo ao quotidiano, é mais ocupar a rua lado a lado com os outros mortais.


LV: Uma deslocação temporal entre o passado e o futuro habita regularmente a tua pintura, muitas vezes reflectida na representação de realidades históricas alternativas, situações divergentes, futuros distópicos. Imaginar o passado e o futuro ajuda-te a pensar melhor sobre a situação presente?

JFS: Há algum tempo descobri, num cruzamento de referências, que a sociedade de castas apresentada no Admirável Mundo Novo funcionava na realidade como uma hipérbole da sociedade de castas inglesa contemporânea ao autor (e que tudo leva a crer que se mantém no nosso tempo). A questão que esta descoberta levantava era que até que ponto não usava a ficção científica o futuro como uma máscara para desmontar mais livremente o presente.
O que tento no fundo é usar toda a informação disponível, do passado e dos futuros imaginados, para conseguir navegar num presente altamente mediatizado, onde é muito difícil orientarmo-nos debaixo do ruído branco emocional a que acedemos diariamente.


LV: A série Cinquenta e Quatro Centrais Nucleares (2012-2014), editada em livro pela Stolen Books, denota bem a ideia de fisicalidade presente no teu trabalho, a sua característica de elaboração virtuosa e paciente. A esse trabalho minucioso junta-se uma tentativa de catalogação exaustiva que o tema comporta (a representação de todas as centrais nucleares mundiais). Como é que justificas para ti estes trabalhos, quando há uma imediatez tão sedutora no contemporâneo?

JFS: A representação, para mim, é o fechar do círculo da apropriação, é de certa forma a materialização do objecto de estudo, que o leva ao estado de compreensão possível, e essa compreensão faz-se através da complexidade da representação. Por outro lado há também algo de resistência política a um sistema sociopolítico que se perpetua pela criação de um estado de excitação permanente, mas uma excitação que pelos métodos da sua própria indução não transporta em si nenhuma hipótese de libertação.


LV: Que projectos podemos encontrar actualmente no teu atelier?

JFS: Para além de uma série de objectos zombies, à procura de família, há duas ou três séries de que te posso falar. A primeira, e mais breve, chama-se "Dias na Birmânia" e trata-se de uma reflexão sobre os "turismos/colonialismos" despoletada pela vida da Troika e situações subsequentes, feita a partir de uma série de gravuras sobre o Egipto no tempo da construção do Canal do Suez.
Há mais duas séries, de certa forma primas, fotorealistas e ambas em progresso e sem fim há vista: "A 2000 Anos Luz se Casa" e "Em Cada Lar Moderno Um Coração Destroçado" onde em ambas tento traçar o mapa, através de recolha de imagens/documentos, dos processos e pressões arbitrários que ao longo dos últimos cem anos construíram a crise do presente.