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BABU
PEDRO VAZ
No próximo dia 6 de Maio inaugura no Convento de São Francisco em Coimbra, a nova exposição a solo de Babu: Entre Lugares, na qual está reunida uma nova série do artista angolano residente em Portugal que partiu de um projeto de investigação do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra intitulado X-MEN: Masculinidades, Empatia e Não Violência, que visa a promoção de masculinidades não violentas e o desenvolvimento de estratégias para quebrar os ciclos de violência e promover a igualdade de género na adolescência em contextos institucionais. Este tema foi traduzido num conjunto de peças conceptualizadas a partir de entrevistas levadas a cabo pela equipa de investigação junto de comunidades de jovens residentes em centros de detenção juvenil. A exposição surge como uma das iniciativas de X-MEN de pesquisa e conceção de ferramentas e programas com o intuito de reduzir a violência baseada no género e promoção de masculinidades equitativas.
Hamilton Francisco, ou simplesmente Babu, nasceu em Angola, em Malanje, em 25 de Abril de 1974. Desde muito cedo teve a paixão pela pintura. Estudou desenho industrial no Centro de Formação e Tecnologia Manauto, em Luanda. Já em Portugal, aprofundou o seu conhecimento na arte, trabalhando com diferentes materialidades visuais. Depois de participar no Projecto Museus no Centro, em Coimbra, criou e desenvolveu o projecto de investigação artística "Memória e Identidade", onde reflecte e materializa grandes questões da história de África na sua relação com o mundo, e a relação entre colono e colonizado. Tem participado em várias exposições individuais e colectivas, bem como residências artísticas em vários países. As suas obras estão presentes em coleções públicas e privadas, em Angola e no estrangeiro como a Fundação Millenium Atlântico, CLC Arquitectos, Presidente Meridien Luanda, coleção Jean Clode de Almeida.
Antes da inauguração de Entre Lugares, tive oportunidade de entrevistar o artista e, enquanto curador da exposição, propor um conjunto de perguntas alusivas ao seu universo estético para perceber como este foi traduzido para este novo projecto.
Por Pedro Vaz
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PV: Como pensaste esta nova série de seis obras que irão compor a tua próxima exposição no Convento de São Francisco?
B: Como sabes é um tema muito delicado que dá resultado a exclusão social, numa era de sofisticação do ser humano e quando as nossas preocupações estão voltadas para criações de eventos e objetos tecnológicos daí tudo bem, só que passamos a ser uma força geológica contra nós mesmo em vez de força biológica para aquilo que existimos, fala-se, mas ainda com um certo tabu infelizmente. É resultado de vermos de vez em quando surge um ser humano capaz de incutir a ideia de ser o grande e o primeiro, aí devemos começar a refletir seriamente sobre isso. Foi com base nas atividades desenvolvidas com os jovens, como sabes, em situação de reclusão, e, com os fatos de relações e aprendizagem que a vida nos obriga desde a nascença. Isso porque todos temos história de violência, e cada um à sua medida assim como cada um de nós tem diferentes maneiras de absorver e resolver ao longo do tempo, alguns podem conseguir, ou pode- se transformar em perseguição fantasma.
PV: De que forma é que a materialidade destas obras potencializa a exposição?
B: São pinturas aplicadas com várias técnicas, algumas com colagens e impressões em serigrafia de forma a torná-las mais orgânicas. E umas das obras é um vídeo, sonorizado com música feita pela Kénia que é um Freestyle com o violoncelo, também baseado a partir das atividades com os jovens, onde expressam os seus sonhos lutas, e aprendizagem nos Centros de Educativos.
PV: Tendo em consideração a natureza antropológico-social do projeto X- MEN (do qual surge esta nova exposição “Entre Lugares”), de que forma é que o universo dos testemunhos das comunidades jovens que participaram nestas entrevistas, entraram no teu universo artístico?
B: Como sabes, o que tenho vindo a desenvolver no fundo tem muito a ver, porque o projeto Memória e Identidade é antropológico-social onde obriga- me a absorver tudo que se passa a minha volta. Desde o meu cotidiano entre relações, as sinergias que transmitimos uns com os outros.” Entre Lugares” é a deslocação a que todos estamos sujeitos e isso até mesmo estando no mesmo território, olha, o exemplo real é: tu deslocaste-te para Coimbra e foi assim que nos conhecemos, talvez fosse num outro lugar ou até nunca. Por isso devíamos começar a pensar seriamente naqueles discursos essencialistas e puristas que no fundo tudo é uma transformação, não há puro! No caso destes jovens é a obrigação de reaprender, e como sabes das conversas que temos tido aqui no ateliê, não compactuo com um modelo de vida onde temos todos de obedecer um modelo que nos obriga a uma vida padronizada. Daí olhar para esse cotidiano de forma a absorver estas sinergias que é da forma quando me refiro sobre o ser tribal que dá muitas vantagens no crescimento juvenil! Porque há situações que nos acontecem na adolescência que podem bloquear toda nossa vida adulta e infelizmente nem todos conseguem superar, que no fundo não é esquecer, mas saber que aconteceu e não deixar isso afetar-nos. Por isso é desafio estimulante num universo onde tu também passaste a fazer parte dele desde que começamos a trabalhar no projeto, conversas que temos tido, música que ouvimos a literatura e textos que gostamos ou não, as tuas ideias em relação a este assunto que é tão delicado, tudo isso contribuiu para materializar e concretizar cada peça de forma diferente ao mesmo tempo no mesmo diálogo.
PV: Com que motivação pensas no potencial reflexivo desta nova exposição, principalmente nas questões alusivas ao tema da masculinidade?
B: Em princípio penso numa nova forma de educação por mais evoluída que seja esta que temos, conforme leste no relatório de pesquisa que nos foi dado pelo CES, e as entrevistas a que também tiveste acesso, constatamos que normalmente é o homem a falhar ou seja, o pai. A referência de alguém que está a começar a perceber da vida, é de fato bastante complexo a imaginação de um adolescente, no meu caso a questão de pai felizmente não é algo traumático com o pai ausente, mas as referências que tenho é só da mãe e sempre foi normal, talvez por ter nascido numa sociedade que em base são as mães que dão as referências aos filhos. Desde pequeno que cresci em vários lugares, como Malanje, Kinshasa, Matadi, Uíge e Luanda foi sempre com a mãe por perto enquanto o meu pai andava nas matas com movimento e era o início da guerra civil em Angola.
PV: O projeto de esta nova exposição surge como um dos momentos da programação de uma investigação académica no campo das Ciências Sociais. De que forma é que esta colaboração entre o campo da investigação académica e o campo das artes compõe um exemplo para pensar na harmonia entre a ciência e a produção artística?
B: A arte no fundo está sempre ligada à Ciência, seja na matemática como no campo sociológico e histórico, e esse tema veio dar-me mais a certeza das dúvidas em relação ao modelo de família que é implementada em várias culturas ao longo dos séculos. A pesquisa académica não é muito diferente daquela da arte atualmente. É que, também tem de se fazer uma pesquisa visual e muitas das vezes podemos agarrar em algo como referência, mas como ponto de partida, isso para responder uma parte da tua pergunta sim! Podemos encontrar harmonia entre a ciência e a produção artística. É um campo a ser explorado, e de diversas formas. Este trabalho tem sido divertido e além do mais, sabes que há um outro campo que é a da criatividade, a da inspiração que dá a diversão, que por norma acaba no dia da inauguração.
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Pedro Vaz
Organiza desde 2014, em Coimbra, exposições e performances. Completou entre 2013 e 2018 a Licenciatura e Mestrado em Estudos Artísticos pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Atualmente é doutorando em Artes e Mediações pela FCSH da Universidade NOVA, e faz curadoria independente pelo Coletivo Gambuzino, fundado por si e por Emanuela Boccia em 2023.