Links

SNAPSHOT. NO ATELIER DE...



























Outros registos:

Isabel Madureira Andrade



Fernando Marques Penteado



Virgílio Ferreira



Antonio Fiorentino



Alexandre Conefrey



Filipe Cortez



João Fonte Santa



André Sier



Rui Algarvio



Rui Calçada Bastos



Paulo Quintas



Miguel Ângelo Rocha



Miguel Palma



Miguel Bonneville



João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira



João Serra



André Gomes



Pauliana Valente Pimentel



Christine Henry



Joanna Latka



Fabrizio Matos



Andrea Brandão e Daniel Barroca



Jarosław Fliciński



Pedro Gomes



Pedro Calapez



João Jacinto



Atelier Concorde



Noronha da Costa



Pedro Valdez Cardoso



João Queiroz



Pedro Pousada



Gonçalo Pena



São Trindade



Inez Teixeira



Binelde Hyrcan



António Júlio Duarte



Délio Jasse



Nástio Mosquito



José Pedro Cortes



share |

ANA TECEDEIRO

LAURA SEQUEIRA FALÉ


 

 

Convivo diariamente há mais de dois anos com a artista plástica Ana Tecedeiro. Conheci dois ateliers antes deste. O primeiro era uma mesinha numa casa minúscula. O segundo, uma sala com uma mesa maior, a mesa que ainda hoje tem, na casa para onde mudou a seguir. Este é uma cave, um covil ou como ela gosta de lhe chamar: um bunker. O espaço muda-se facilmente. Caótico, está cheio de coisas por descobrir.
Ana Tecedeiro (Santarém, 1979) vive e trabalha em Lisboa. É licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e mestre em Artes Visuais pela Universidade de Évora.

 

Por Laura Sequeira Falé

 

>>>

 

 

Laura Sequeira Falé: Nos últimos dois anos passaste por três ateliers diferentes e, pelo meio, fizeste cerca de seis exposições. Os espaços por onde passaste afectaram directamente o teu trabalho ou a sua dimensão não vem daí?

Ana Tecedeiro: O meu trabalho é muito sensível ao ambiente em que nasce. Cada atelier oferece possibilidades ou barreiras, mas o espaço decisivo é o emocional. É o meu ambiente emocional que me diz que o trabalho tem de ser maior ou se deve em determinada fase ter dimensões mais íntimas. Depois tento arranjar condições de trabalho para que ele se possa desenvolver. Por exemplo, em 2014 vivi num T0 minúsculo, que foi quarto, sala, atelier e apesar disso foi nessa fase que fiz as primeiras agrafagens, para uma exposição na Bloco103. Ainda hoje não percebo como consegui produzir aquela exposição a partir de um espaço tão diminuto...


LSF: O teu trabalho usa materiais tão acessíveis e básicos, e as suas técnicas, como tu própria dizes, estão ‘ao alcance de uma mão’. Porquê?

AT: Sim, é mais gestos “ao alcance de qualquer mão”, que é uma expressão inspirado no titulo de um desenho do Ângelo de Sousa. Acho muito bonita esta ideia de se ser capaz. Interessam-me mais as pequenas capacidades do que os virtuosismos. De certa forma sempre me agradaram muito os gestos simples. Tenho aquela série de vídeos ( “O gato” que apresentei há uns anos na Contextile, ou “Amarração” que esteve no FUSO’2015) que não são mais do que o registo de movimentos simples e repetitivos. E há as microesculturas que raramente mostro e às quais chamo micro-gestos. No meu trabalho, o gesto é sempre o mais importante. É pelo gesto que esses tais materiais básicos são valorizados. O gesto e o tempo é que os salvam.

 

 


LSF: Os teus livros de poesia (Rebento-ladrão (2014), editado pela Tea for One e Deitar a Trazer (2015), editado pela Douda Correria) são uma outra parte desse conjunto de gestos simples? O teu trabalho e os teus poemas vêm do mesmo sítio?

AT: Sim, acho que é tudo o mesmo sob outra forma. No caso do Deitar a Trazer isso é ainda mais explícito, porque os poemas foram quase todos encontrados na rua! (risos)
Partiram sempre de anotações que ia fazendo enquanto caminhava, de situações que ia observando. Trazer objectos da rua e usá-los numa pequena escultura ou trazer observações que me impressionaram e transformá-las num poema não é muito diferente. São sempre formas de dar a volta à realidade, chamar a atenção para coisas que são desvalorizadas, dar sentidos novos.


LSF: Na tua penúltima exposição, o Único, na Miguel Justino Contemporary Art, fizeste uma retrospectiva de todas as tuas séries desde o tempo da faculdade até agora. Houve necessidade de fechar um ciclo?

AT: Houve a necessidade de fazer um balanço. Apercebi-me de que em quinze anos tinha usado uma diversidade muito grande de técnicas e quis fazer a experiência de colocar aqueles trabalhos lado a lado, numa só parede. No processo percebi que aquilo que os unia era muito mais do que o que os separava. Todos eles eram coisas feitas de muitas coisas, havia sempre uma ironia, uma busca de sentido, ou de subversão do sentido e um cromatismo muito delirante. Compreendi melhor a realidade interna de onde os meus trabalhos nascem, mas isso é algo que fica para mim. Acho que era a exposição que me fazia falta naquela altura.


LSF: Achas que é desejável compreender a realidade interna dos trabalhos?

AT: Pode ser perigoso! (risos) Os artistas andam sempre à procura de algo que não sabem sobre si. Se o descobrirem totalmente terão razões para continuar a trabalhar? Tenho dúvidas! O “não saber” é o grande motor da criação artística. Mas isto são questões que só interessam ao próprio artista, acho que o observador da obra raramente chega a estes planos de significado.

 

:::

 

[fotografias de Laura Sequeira Falé]