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ARQUITETURA E DESIGN




Imagens gerais de Macau (1818 e 2006)


Mapa da Evolução Urbana de Macau: 1912 a 2004





Largo do Lilau e Casa do Mandarim (Centro Histórico, Património Mundial da Humanidade, UNESCO)


Templo de A-Má em Macau (Centro Histórico, Património Mundial da Humanidade, UNESCO)


Igreja de Santo Agostinho (Centro Histórico, Património Mundial da Humanidade, UNESCO)


Igreja e e Seminário de S. José (Centro Histórico, Património Mundial da Humanidade, UNESCO)


Largo do Leal Senado (Centro Histórico, Património Mundial da Humanidade, UNESCO)


Exemplos de ruas em Macau (ruas geralmente de comércio e mercados)





Exemplos de ruas “sem saída” em Macau (ruas geralmente usadas como extensão das casas)


Exemplo de densificação habitacional na zona Norte de Macau


Exemplo de “Disneyitis” em Macau (Fishermans Wharf)


Exemplo de “Disneyitis” em Macau (Torre de Macau)


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INTERFACES URBANOS: O CASO DE MACAU

PAULA MORAIS


Este artigo baseia-se na minha investigação doutoral e estabelece como princípio geral o facto que o ambiente urbano deve, não só respeitar os direitos humanos e a liberdade fundamental do indivíduo mas também permitir a sua integração na sociedade. Uma das possíveis respostas reside no valor do espaço público e o seu papel na construção da identidade urbana. O caso de estudo escolhido, Macau, é altamente relevante dado o facto de ser um espaço onde duas civilizações radicalmente differentes coexistiram durante um largo período na história. Macao é uma cidade cosmopolita e Euro-Asiática (Jonathan Porter 1996).

Interfaces Urbanos: o caso de Macau

Ao romper do século XXI o mundo encontra-se num estado de desassossego. Devido ao aumento da mobilidade, mediação electrónica e ao fenómeno de migração em massa, as cidades enfrentam uma condição intercultural e lutam de forma a gerir as complexidades deste período explosivo de encontros e relações. A narrativa do fenómendo de migração em massa não é um elemento novo na história do homem. Durante centenas de anos os seres humanos viajaram pelo mundo descobrindo novos lugares, à procura de riqueza e oportunidades de poder, explorando e ligando culturas. Até ao século XIII a Ásia permaneceu como um lugar desconhecido que existia essencialmente na imaginação ocidental nutrida por viajantes singulares. Foi apenas em 1500, sob a era dos descobrimentos, que a Europa estabeleceu um forte relação com a Ásia (rede comercial) iniciando um processo que poderia ser caracterizado como o nascer da globalização. Contudo as identidades destes viajantes permaneciam insolúveis: o ambiente Europeu, no seu contexto e dimensão física, viajou quase intacto até à Ásia o que gerou reacções diferentes na natureza destes encontros.

Actualmente a modernidade e a globalização têm sido acompanhadas de uma nova fluidez de capital, cultura e indivíduos. Por consequência as esferas públicas das diásporas anteriormente criadas por estes encontros intermitentes já nao são únicas (Appadurai 1996). Esta fluidez, por sua vez, produziu novas formas no uso cultural do espaço e nos espaços de cultura. Neste momento o mundo está a tornar-se progressivamente plural e um dos problemas nas relações globais de hoje são as diferenças fundamentais nas percepções e comportamentos: as tensões entre culturas, religiões, sistemas políticos e porder económico, reflectem o conflito mundial existente.

Hoje, as cidades observam uma interacção constante entre uma dimensão física relativamente estável e uma dimensão social cada vez mais instável. Devido a esta interacção a identidade urbana é cada vez mais complexa de definir dado que flui entre linguagens de ‘pertença’ de ordem global, nacional e local. As cidades tornam-se cada vez mais espaços de transição onde os espaços encaram um afastamento progressivo dos grupos sociais (Amin and Thrift 2002). Devido a esta nova complexidade o “sentido de pertença” público tornou-se indefinido dado que a “identidade humana presupõe a identidade do lugar” (Schulz 1980) e hoje em dia enfrentam-se várias identidades e significados. Uma “teoria de ruptura” foi sugerida por Appadurai (1996), esta teoria refere-se à “migração e aos media como os elementos principais e inter-relaccionados e explora o seu efeito conjunto no exercício da imaginação como um elemento constitutivo da subjectividade moderna”. Logo, perante este incrível aumento de diversidade é essencial compreender e integrar estas relações complexas entre espaço, tempo e comportamento humano.

A cidade cosmopolita promete uma política baseada na differença e na diversidade de expressão cultural e identificação (Sandercock 1998; Dear and Flusty 1999; Amin and Thrift 2002:135). A heterogeneidade é em si um valor público. A impressionante mudança de escala e de parâmetros do mundo de hoje levaram ao estudo de novas culturas e civilizações: “o mundo da ‘supermodernidade’ não corresponde aquele em que acreditamos viver, porque vivemos num mundo para o qual ainda não aprendemos a observar. Temos que reaprender a pensar sobre o espaço” (Augé 1995).

Diálogo e entendimento são objectivos cruciais no apreensivo mundo contemporâneo e as cidades têm tido um papel neste conflito global criando condições que permitiram a comunicação (negociação) entre civilizações por longos períodos na história. A “Cidade em Nome de Deus na China” foi um dos poucos pontos de contacto constantes entre a China e a Europa durante 450 anos e tem sido um espaço de transição, um interface urbano. Macao tem sido um ‘relações públicas’ (mediador) na história das relações entre o Ocidente e o Oriente. De facto a comunicação e o diálogo poderão ser possíveis quando “dermos a mesma aprovação às mesmas qualidades morais na China e em Inglaterra”, ou resumindo, “quando a nossa simpatia varia sem uma variação na nossa estima” (Deleuze 1991).

Reforçando a importância do papel da identidade no modo como as pessoas se adaptam aos espaços urbanos, este artigo apresenta Macau como um espaço ideal para analisar as reacções entre duas civilizações distintas, as suas tradições e expressões culturais na forma urbana. Explica brevemente como as diferentes tradições (Chinesas e Portuguesas) se estruturaram e expressaram na forma urbana, em especial nos espaços públicos (ruas e praças). Este estudo explora a abordagem relacional entre o espaço (público) e a identidade. Resumindo a identidade é apresentada como uma combinação das prácticas espaciais e sociais e a cultura como uma possibilidade estratégica na reconstrução do significado dos espaços urbanos (Zukin 1995).

Os valores de liberdade, tolerância e pluralismo são provavelmente um dos maiores legados culturais dos Portugueses em Macau, ainda hoje presentes. Macau, na leitura de Marc Augé (1996) é um ‘espaço antropológico’ porque possui três características em comum: “eles querem ser – as pessoas querem que eles sejam – espaços de identidade, de relações e de história”.

Identidade Urbana de Macau:

A história e o carácter de uma cidade podem ser traçadas pelos seus espaços públicos. O espaço público e a vida pública têm sido expressões sólidas de cultura local e têm tido um papel central na vida das cidades. São também fortes indicadores da qualidade urbana de uma cidade.
O espaço público é o espaço de representação onde o público se torna visível sendo o espaço de contacto diário e de “colisões diárias” (Castells 2004), são as ruas e as praças. Existem dois tipos principais de espaços públicos exteriores que coexistem em Macau: as praças (que se formaram em frente das Igrejas e edifícios públicos), as ruas e as “ruas sem saída” (são passagens abertas normalmente com edifícios de dois andares e são usadas como extensão das casas, do espaço privado) (Korenaga et all 2004). De certa forma estes espaços públicos, as ruas “Chinesas” e as praças “Portuguesas”, afirmam uma perfeita combinação de usos comercial (consumo) e político (simbólica).

Hoje em dia as praças principais e as suas artérias, em especial o Largo do Leal Senado, definem os espaços centrais para expressão do poder central, comercial e cerimonial de ambas as culturas. Ainda se encontram vários tipos de espaço público tradicional como exemplos positivos no Macau contemporâneo: praças, ruas e ‘ruas sem saída’ (ver imagens de exemplos em anexo).

Ao longo do tempo a morfologia urbana de Macau foi radicalmente transformada, a linha de costa foi dramaticamente alterada por aterros contínuos e os seus espaços públicos, ruas sempres cheias de vida e com um excelente equilíbrio humano tem que se adaptar à nova escala urbana (ver mapa em anexo). Actualmente Macau é dominada pela perda de qualidade urbana, identidade social, sentido de comunidade, espaço público, coerência e clareza. Os espaços públicos de Macau, com a excepção dos casos protegidos pelo regulamento da UNESCO, são espécies em vias de extinção. Estão lentamente e sucessivamente a ser substituidos por todo o tipo de construção, habitação, mercados fechados, edifícios públicos, casinos e hotéis. A sua função de actor social está a ser transformada. Macau sofre de uma total falta de privacidade no espaço privado devido à densidade geral da habitação logo o espaço exterior público serve como espaço de “descompressão”, a privacidade encontra-se essencialmente nos espaços públicos.

Macau é um território que não é mais “vivido” mas sim “figurado” e “consumido”. Resumindo o ambiente original da cidade tem sido alterado através de initerrupta e não planificada transformação urbana e luta por manter a sua identidade.

Macau sofreu de “dupla personalidade” desde as suas origens. Em 1887, Zhang Zhi-dong, governador-geral de Guandong e Guanxi refere: “boas e más pessoas de Guandong mudaram para Macau em grande quantidade. Mercadores do distrito de Nanhai, Panyu, Xiangshan, e Shunde, dezenas de milhares, vão e vem entre Macau e a província. Frequentemente estabelecem subsistência e negócios em ambos os sítios, sem controlo fronteiriço, o que causa uma excessiva anarquia entre as pessoas. O seu trafégo infindável é igual à tecelagem de um fio”. Um artigo recente na CNN definiu o Macau contemporâneo como: “o enclave Chinês de Macau é conhecido pelo jogo, trafégo de sexo e gangsters Chineses, com intrigas e negócios obscuros, uma grande parte da sua paisagem” (Chinoy, CNN.com 2006). A percepção da coexistência de uma identidade “formal” e uma identidade “informal activa” ainda perdura actualmente. Macau continua a dialogar entre o informal e o formal, o legal e o ilegal, entre o vício e a virtude, o local e o global, entre o Oriente e o Ocidente. Preserva o seu carácter dualista e ambíguo que sempre atraiu indivíduos de todas as partes do mundo.

A identidade de Macau está a perder-se no espaço físico que está a tornar-se cada vez menos humano. Contudo não se pode preservar uma identidade mantendo o ambiente construído “estático” porque os ritmos diários e modos de vida das pessoas alteram-se e a cidade adaptar-se-á instintivamente a essas mundanças. Preservar o centro histórico como um intocável “museu ao ar livre” (título da revista Focus em Macau 2001) terá repercurssões sérias na vida dos habitantes de Macau: a cidade tornar-se-á cada vez mais um espaço para visita de turistas e menos um espaço para viver. A identidade de Macau perder-se-á inevitavelmente caso não sejam desenvolvidas políticas urbanas em direcção a uma urbanização sustentável e de valorização não apenas do património construído mas também do património natural, social e cultural. Em geral as pessoas tendem a observar, valorizar e a contemplar as coisas só quando estas desaparecem (Bauman 2004).

A paisagem de poder económico Asiática está a assegurar uma “creatividade destructiva” (Zukin 1991) onde se observa claramente uma deterioração na escala humana e no “sentido de lugar” (sense of place) . Macau é um espaço onde uma nova “indústria cultural” está a surgir e como Sharon Zukin alerta: “a democracia implica a integração de novas representações visuais desde que se evite a “Disneyitis” (ver exemplos em anexo). A relação entre as antigas e as novas identidades e o papel do espaço físico nos processos de transformação urbana estão a ser questionados actualmente devido ao recente estatuto de património mundial da humanidade atribuido ao centro histórico pela UNESCO.

Mais uma vez Macau adquire o papel de “relações públicas” (Morais 2006)e de plataforma em relação ao mercado económico Europeu e Mundial. Numa visita recente a Portugal o Chefe-executivo da MSAR Edmund Ho exclamou que: “irá realçar o papel de Macau como uma plataforma de cooperação entre a China e os PALOPs”. A visão do governo de Macau em relação à conservação do tecido urbano refere-se essencialmente ao centro histórico e é uma tentativa de manter o significado cultural (identidade cultural e evolução histórica). Os actuais projectos de desenvolvimento para Macau levantam novas questões: como é que a cidade tradicional irá adaptar-se a este crescimento urbano? Qual é o impacto destas novas formas espaciais na identidade urbana?

Talvez o futuro de Macau se encontre em estabelecer uma relação coerente entre o seu eterno carácter dualista, entre o passado e presente. Uma coerência obtida por meio de um verdadeiro “sentido de pertença’” construído a um nível local e global, através dos seus espaços públicos, ambiente construído e habitantes, e que integre ao mesmo tempo inovação e preservação histórica. Como diria Fernando Pessoa: “Quero aquele outrora! Eu era feliz? Não sei: Fui-o outrora agora.”

Desafio para este “hoje global”?

A cidade moderna tem sido apresentada por uma série de autores como um espaço de “open flow”, interacção humana e “proximate reflexivity” em que “cada encontro urbano é um teatro de promessas num jogo de poder” (Amin and Thrift 2002). Há uma forte inclinação em compreender as cidades como espacialmente “abertas” e “cross-cut” por variados tipos de mobilidade, de “fluxos” a indivíduos, de mercadorias a informação (Appadurai 1996; M.P. Smith 2001; Urry 2000; Allen, Massey and Pryke 1999, Massey, Allen and Pile 1999, Amin and Thrift 2002). O espaço que uma vez teve um papel determinante no imaginário social das cidades tornou-se uma “variável dependente dos processos sociais” (Amin and Thrift 2002). Anthony Gidden’s (1991) observou:
“(…) the more tradition loses its hold, and the more daily life is reconstituted in terms of the dialectical interplay of the local and the global, more individuals are forced to negotiate lifestyle choices among a diversity of choices, (…) reflexive organized life-planning, (…) becomes a central feature of the structuring of self-identity”

Resumindo a globalização originou novas espacialidades que se tornaram críticas na formação do lugar. As formas urbanas resultam da ligação de culturas e as questões interculturais permitem uma noção das cidades como objectos em constante transformação. O desafio para este “hoje global” será “se tal heterogeneidade é consistente com um mínimo de convenções de normas e valor, que não requerem uma adesão estrita ao contrato social liberal do moderno Ocidente” e será respondido pelas negociações entre os mundos imaginados deste “espaço de fluxos” (Appandurai 1996). A investigação, a nível académico e na prática profissional, precisa concentrar-se no estudo destas”‘relações da diferença”, entre civilizações e ao pormenor da escala dos utilizadores: o público. É deveras crítico proporcionar uma melhor compreensão sobre o comportamento humano e como estruturas morfológicas e socio-culturais convergem em contextos urbanos. Este tipo de estudos terá como objectivo informar a práctica do desenho urbano e políticas relacionadas com a produção de espaços (públicos) em ambientes urbanos cosmopolitas.

A China está a emergir como um dos países líderes do século XXI e em face a esta realidade progressiva da globalização os profissionais da paisagem urbana tem que estar preparados para responder a futuros desafios. Um dos principais interesses do urban designer (desenhador urbano) é na cidade, como se forma, como se move e transforma, e especialmente na cidade que contribui para a qualidade das vidas que suporta, não apenas como um cenário, mas como geradora de uma particular sociedade urbana e cultura. Compreender a relação entre espaço, identidade e mudança requere um modelo de pensamento mais complexo no contexto global actual. Representar identidade nos dias de hoje implica gerir “significados” e “pontos de vista”, logo uma identidade clara é crucial ao lado de um “sentido de pertença” que flui simultaneamente entre o local e global, entre a liberdade e a norma, entre o presente e a história. Respeitando a diversidade das culturas e tradições de cada indivíduo as cidades tem a responsabilidade de criar condições que permitam uma maior união entre as pessoas de forma a partilhar um futuro baseado em valores comuns.


Paula Morais, Arquitecta
Doutoranda pela Bartlett School of Planning, University College London
Co-Coordenadora do China Planning Research Group (CPRG), Bartlett School of Planning, UCL
Membro da Direcção dos Arquitectos Sem Fronteiras Portugal



Bibliografia:
- Amin A. and Thrift N.: Cities, Reimagining the Urban (2002)
- Appandurai, Arjun.: Modernity at Large, Cultural dimensions of Globalization (1996)
- Augé, Marc : Non-Places, Introduction to an anthropology of supermodernity (1995)
- Bauman, Zygmunt: Identity (2004)
- Castells, Manuel: The Power of Identity, Volume II (1997)
- Deleuze and Guattari: a thousand plateaus (chapter 1440)
- Giddens, Anthony: Modernity and Self-Identity (1991)
- Korenaga M. , Yagi K., Kamimura E., Matsuda T.: Historical Open Public Spaces in Macao (2004)
- Morais, Paula: Space as “Public Relations”? Urban Morphology and Ethnic Identity in Macao, Volume 194, IASTE Working Paper Series, University of California Berkeley, 2006.
- Macao, China (CNN), article By Mike Chinoy, CNN Senior Asia Correspondent (2006)
- Norberg-Schulz, Chistian: Genius Loci: Towards a phenomenology of architecture (1980)
- Porter, J.: Macao the Imaginary City, Culture to Society, 1557 to the Present (1996)
- Zukin, Sharon: The Culture of Cities (1995)