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JORGE DIAS


O panorama artístico moçambicano foi o grande tema desta entrevista realizada a Jorge Dias, nome de referência de inúmeras iniciativas e projectos desenvolvidos no âmbito da arte contemporânea do país. É artista plástico, professor de arte e curador de exposições. Exerce funções de docência na Escola Nacional de Artes Visuais (ENAV) e desempenha actividades de curadoria no Museu Nacional de Arte de Moçambique (Musart). No seu percurso destaca-se igualmente a colaboração com o Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique (MUVART), de que foi um dos membros fundadores.

Por Sandra Vieira Jürgens
Lisboa, 20 de Março


P: Pode falar-me um pouco da sua formação e do seu percurso no âmbito das artes plásticas?

R: A minha formação em arte iniciou-se em Moçambique. Estudei numa escola de nível médio em Maputo, a Escola Nacional de Artes Visuais - ENAV, onde fiz um curso de Tecnologia de Cerâmica. Para além da tecnologia da cerâmica artesanal e industrial, o curso tem uma componente artística. Foi o que mais me interessou em termos de formação. Logo depois de me ter formado nessa escola, em 1992, entrei para o quadro de professores da escola que tinha só praticamente professores estrangeiros de áreas específicas. Como o Estado e as organizações não-governamentais já não podiam continuar a pagar a professores estrangeiros, optaram por ter alunos formados nos cursos de cerâmica, de gráficas e de têxteis, para começar a dar aulas nessas áreas específicas do curso de formação. Fui um dos alunos escolhidos para trabalhar na escola, onde leccionei até 1996 as disciplinas de cerâmica e desenho analítico e em 1997 viajei para o Brasil para estudar escultura. Sai especificamente para estudar escultura, porque sempre tive maior proximidade e afinidade com a linguagem a três dimensões.
Antes de ir para o Brasil, fiz alguns trabalhos em pintura e participei em algumas exposições em Maputo, como nas Bienais que lá existiam, muito ligadas à região. Em 1993, associei-me a um artista e abrimos uma galeria de arte, experiência que durou dois anos. Foi nesse período que comecei a relacionar-me com artistas, no sentido de escolher trabalhos, vendo o que se poderia colocar em exposição, o que se poderia vender. Tratava-se de uma galeria comercial, mas afastei-me dela. Funcionou de 1994 até 1996, altura em que fui para o Brasil estudar até 2002, ano em que me formei em escultura.



P: Porque escolheu o Brasil?

R: Juntei o útil ao agradável. O Brasil tem uma política de bolsas para Moçambique e para alguns países africanos. Além disso, eu tinha como estar no Brasil. Em termos de bolsa, só poderia pagar a minha estadia, a passagem e a faculdade. Como o meu pai vive no Rio de Janeiro, fui ter com ele. Foi-me muito mais fácil ir estudar para o Brasil do que para qualquer outro país. Em 1997 sai de Moçambique para o Brasil. Em 2002, quando me encontro com Gemuce no Rio de Janeiro, ele fala-me da iniciativa MUVART (Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique).



P: Que influências foram mais marcantes no seu percurso?

R: Mesmo antes de conhecer o Brasil, nunca tinha saído do continente africano e todo o trabalho que já fazia (em Moçambique) fugia muito dos cânones estéticos da pintura moçambicana. Era mais próximo a pintura do Eugénio Lemos, considerado o primeiro pintor abstracto de Moçambique, o qual fazia uma pintura só com uso de cor e estruturação de limites, e formas, no espaço, não se identificando tanto com temáticas nacionalistas, sociais, mais ligado a aspectos líricos e de sensações.
Quando estudei no Brasil, não me identifiquei muito com esta procura que a maior parte dos artistas africanos fazem — de aprofundar as suas raízes, a sua cultura, a sua identidade —, mas trabalho mais questões que não se aproximam disso, o que faz, talvez, com que o trabalho naquele contexto seja diferente. Mas alguns comentários de estudantes e de professores iam no sentido de que o meu trabalho era muito africano — os clichés… —, enquanto em Moçambique diziam que o meu trabalho não tinha nada a ver com o africano, que era muito mais brasileiro. Acredito que isso possa ter a ver com a minha educação, formação e origem árabe, africana, sendo o meu pai português a viver no Brasil. Tudo isso, de alguma forma, são elementos que vão estruturando a minha forma de pensar até nos materiais para o meu trabalho.
O que acham no Brasil ou em Moçambique não constitui a minha procura, porque acho que estou lúcido quanto ao que me proponho. E “parecer mais ou parecer menos” são julgamentos que as pessoas fazem em relação àquilo que é superficial na imagem, não nos conteúdos.
Mas muitos artistas brasileiros marcaram-me: a música e a forma de pensar da Bossa Nova influenciou-me muito, a música do Caetano Veloso, de Gilberto Gil embarcaram muito até na minha personalidade, a Lygia Pape, o Hélio Oiticica têm trabalhos de que gosto muito. Marcou-me a forma como eles se posicionam no espaço artístico e nas políticas culturais, nas propostas que apresentam, e ainda os seus pensamentos muito mais livres e ousados. É algo que em Moçambique não acontece muito, onde os posicionamentos são muito em prol das ideologias nacionalistas.
Na escola, vou passando também essas influências para os meus alunos. Eles começam a trabalhar de forma diferente e de alguma forma, acaba por transparecer que isso será uma marca da forma de pensar do Prof. Jorge Dias e não de outro professor.



P: Voltou depois para Moçambique?

R: Trabalho em Moçambique desde 2002 e desenvolvo um trabalho, não só na escola, mas também de acompanhamento de artistas.



P: Em Moçambique, existe conhecimento da arte que se faz em Portugal?

R: De certa forma, há um grande afastamento. Moçambique não conhece a arte portuguesa. Eu próprio, antes de vir a Portugal, tinha um completo desconhecimento em relação a arte portuguesa. O conhecimento que nos chegava era sobre arte antiga, azulejo. Mas a informação sobre arte contemporânea, do século XX, é muito reduzida. Só quem se interessava em pesquisar a fundo é que detinha esse conhecimento, porque a informação em Moçambique sobre arte em geral é muito escassa. A informação que nos chega em termos de escola de arte é de arte antiga, do Renascimento para cá, e dos movimentos americanos, como a pop art e o minimalismo. Esses conhecimentos e a proximidade dos artistas em Moçambique prendem-se com essas correntes artísticas. Quem conhece algo sobre arte portuguesa é quem sai de Moçambique e acaba por ver uma exposição.
Esse desconhecimento deve-se ao facto de em Moçambique, no pós-independência ou já antes da independência, ter havido um sentimento de rejeição em relação a tudo o que vinha de Portugal, tanto que a Colecção do Museu Nacional de Arte (a que está exposta) não inclui pintores portugueses. Apesar da Colecção ter obras de pintores portugueses, elas ficam na reserva, não sendo abertas ao público.
Cria-se uma política de direccionamento estético, ideológico, de que a arte é “aquilo” e não se abre a outras coisas. Mas, gradualmente, as coisas começam a mudar.



P: Como é que o contexto da arte contemporânea em Moçambique? Quais são as tendências? E os clichés?

R: A arte contemporânea é completamente desconhecida em Moçambique, o que, ao mesmo tempo, é estranho. Há uma atitude de curiosidade e de rejeição. Ao mesmo tempo que as pessoas querem conhecer, rejeitam. Existe o cliché de que tudo o que não é pintura a óleo ou acrílico é arte contemporânea. Tudo o que é experimentalismo é classificado como arte contemporânea, tudo o que não é perceptível, segundo o que as pessoas foram aprendendo em termos de pintura e de escultura em Moçambique, é arte contemporânea. Mas Moçambique vive hoje e viveu há muitos anos uma fase muito densa em experimentalismo — experimentar técnicas, formatos, dimensões, materiais —, o que foi compreendido como sendo arte contemporânea. Algo que foi acontecendo porque há pouco conhecimento em relação à arte contemporânea.
Mas no MUVART, na escola e como artista existe uma preocupação diferente em relação a esses posicionamentos: achamos que a arte contemporânea é um pouco mais do que isso. É reflexão sobre o tempo moderno, o actual, usar novos meios de comunicar e expressar que dialogam com o dia de hoje, o contemporâneo é romper com os estereótipos, é propor coisas novas. Isso é também muito ambíguo, muito aberto, porque falta a um certo grupo de pessoas em Moçambique, que podem debater sobre isso, matéria para discutir sobre arte contemporânea.
É muito cedo para poder dizer o que é a arte contemporânea em Moçambique hoje em dia. Aquilo que estamos a fazer é uma proposta do que entendemos ser arte contemporânea. É uma proposta por ser diferente daquilo que eram os clichés ou a arte direccionada da pintura de cavalete com os temas sociais, políticos, culturais da região e aquela escultura de pau-preto. Se saímos disso e vamos um pouco mais além, a produção é compreendida como contemporânea. Ao mesmo tempo que isto acontece, temos artistas que trabalharam muito neste período que também se envolveram na discussão, como o Mucavel, o Eugénio Lemos e outros mais, que se empenharam muito nesta proposta sobre a pintura e a escultura na arte moderna moçambicana, mas também têm uma produção super actualizada que se enquadra perfeitamente na arte contemporânea em Moçambique. Então, temos um espaço muito novo e, simultaneamente, bastante diversificado.



P: Em termos de condições e de apoio à produção, como trabalham os artistas? Há mercado e exposições suficientes para que os artistas possam continuar a desenvolver a sua actividade?

R: Em termos de apoios estatais, cada vez há menos, assim como há menos políticas, no campo das artes plásticas e das artes visuais. E as que existem são mal geridas, não correspondendo às exigências e à procura que os artistas têm hoje. Ainda são adoptados modelos ultrapassados, que se aplicariam perfeitamente nos anos 80, mas que não foram actualizados.



P: Em que sentido?

R: Na sua concepção, no direccionamento dos apoios, nas exposições oficiais. Usam-se critérios que não são compatíveis com o que é o mundo actual. Refiro-me aos critérios de selecção, de valorização, de separação, no que se relaciona com as exposições, com a premiação de artistas, e valorização do que está feito.
Até há alguns anos, o Museu Nacional de Arte - Musart nunca tinha sido compreendido com o papel que tem que é o de um museu de arte, no qual foi sempre visto pelas pessoas associadas ao mundo da arte, professores, artistas e estudantes, como uma galeria comum. Não se entende muito bem o que é o quê, num espaço em terrenos movediços, ao qual se deve dar legitimação e valor, e a mais não se olha. Isso aconteceu muito nos anos 90, tendo a situação começado a arrumar-se, talvez, nos últimos três ou quatro anos. Mas se a casa foi desarrumada durante 10, 20 ou 30 anos, não se arruma logo.
Em relação a apoios privados, eles existem, mas não seguem uma política institucional, de grupo, respondendo a interesses particulares, privados, de quem os financia. As artes são mais utilizadas como suporte para imagens publicitárias pelas empresas do que como preocupação pela arte e pela cultura. As leis que protegem a produção artística, no campo das artes plásticas, como os direitos de autor, não são aplicadas de forma abragente porque tal não convém às empresas. Se convém, são utilizadas por pessoas que não compreendem as realidades. O que está a acontecer é completamente impróprio.
Mas, de uma forma geral, a produção artística, a reflexão e os espaços são, actualmente, muito mais abertos. Por exemplo, há três ou quatro anos que existe no jornal, o “Jornal de Notícias”, o qual dá oito páginas para a cultura, duas das quais para as artes plásticas. Desde o ano passado, já são dois jornais a dar oito páginas para a cultura. Antes disso, só havia um jornal semanário que dava meia página.
Anteriormente, havia mais preocupação por parte do Estado e as políticas eram ajustadas à realidade. Hoje em dia, estão desajustadas, porém, há maior espaço e maior produção, não só nas artes visuais, mas em todas as áreas.



P: Os espaços em que é possível expor arte contemporânea têm vindo a aumentar em Maputo?

R: Os principais espaços são o Centro Cultural Franco-Moçambicano, o Centro de Estudos Brasileiro e o Instituto Camões, centros culturais associados às Embaixadas e a instituições diplomáticas. Depois, temos o Museu Nacional de Arte que também faz exposições temporárias e existe uma Galeria da Associação Moçambicana de Fotografia. Além disso, a Fortaleza de Maputo tem um espaço, a Casa da Cultura abriu também um espaço que teve momentos muito bons e outros muito fracos, e surgiu um outro tipo de local alternativo que são os espaços dos hotéis, os quais também organizam exposições temporárias de determinados artistas.
Os espaços que existem em Maputo correspondem à produção que lá existe. É possível conseguir-se um espaço: se qualquer artista quiser expor, em menos de seis meses consegue um espaço para tal, com excepção do Museu Nacional de Arte. Em relação a isso, não há problema nenhum. Vive-se um privilégio nesse sentido.



P: Em termos galerísticos?

R: Não existe nenhum circuito comercial, como existe na Europa e em Portugal, em particular. Não temos galerias comerciais, sendo as vendas concretizadas nas exposições ou nos ateliers dos artistas. Mas existe muita venda de arte. Muitos artistas vivem da arte em Moçambique, apesar de não existirem galerias de arte.
A figura do curador está a aparecer agora. Até então, a figura do curador estava associada à imagem de alguém que dava um acompanhamento a uma exposição ou ao artista, mas que não ia para além disso, não reflectindo sobre o que ia ser mostrado ou sobre as temáticas, os contextos, entre outros. Gradualmente, as pessoas estão a tomar consciência de que é necessário haver a figura do curador no meio institucional; os artistas já procuram um curador, muitas vezes, para que este dê outro direccionamento, outra visibilidade, ao que estão a fazer, e não apenas alguém que vai acompanhá-los para assegurar um espaço da exposição. Há preocupações que vão além de simplesmente mostrar.



P: Porque é que acha que não existem galerias?

R: Acredito que quem quer adquirir obras de arte fá-lo a um preço muito mais baixo num atelier. Uma galeria tem outros encargos. Iria colocar a obra de arte à venda a um determinado valor, sendo possível, depois, ligar para o artista e conseguir o mesmo trabalho ou um muito próximo pela metade do preço. Acho que isso inibe qualquer tentativa de haver galerias comerciais em Maputo. Já existiram várias, mas não duraram muito tempo, fechando logo de seguida, porque o circuito é extremamente viciado. Maputo é uma cidade muito pequena e existe uma proximidade muito grande entre os artistas e quem vai lá, seja moçambicano ou estrangeiro.



P: Não existe necessidade de terem tantos representantes?

R: Exactamente. Por exemplo, as empresas quando compram as colecções ou adquirem as obras não o fazem, normalmente, nas galerias que existem nem junto dos comissários. Elas têm alguém com quem trabalham que vai às exposições ou vai aos ateliers dos artistas. Não é possível estruturar, nesses modelos, um circuito comercial de arte, apesar de ele existir, mas com particularidades muito próprias.



P: Em que condições surge o Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique (MUVART)?

R: Surgiu, porque, nos anos 90, uma quantidade enorme de artistas a sair da Escola de Artes Visuais — que queriam fazer coisas diferentes, produzir arte mais experimental e que se identificavam menos com aquilo que estava a ser feito — não encontrou espaço e compreensão no meio dos intelectuais da arte. Os críticos e os curadores que existiam não os compreendiam, sendo a censura sobre os artistas muito forte. Estes começaram a fazer as suas manifestações e a trabalhar isoladamente. Já na altura se estava a fazer arte contemporânea — o Marcos Mutheia e o Titos Mabota são exemplos disso. Mas como trabalhavam isoladamente, não se faziam sentir e dificilmente conseguiam ter uma boa crítica ou ser compreendidos. De alguma forma, eram aceites, mas não conseguiam o espaço que realmente mereciam ter. Não se escrevia nada sobre o seu trabalho.
O MUVART surge como uma alternativa de artistas que têm a preocupação de produzir os seus trabalhos e teorizar sobre o que estão a fazer, e de apresentar ao circuito uma proposta de arte, outros caminhos diferentes do que estava a ser realizado. Coincidentemente, parte destes artistas são professores e ex-alunos da Escola de Artes Visuais e são pessoas que, na sua maioria, estudaram fora (na África do Sul, em França, no Brasil, o Marcus em Cuba). Juntámo-nos num período em que estávamos a voltar para Moçambique, no ano 2000 até 2003. Em Moçambique, em 2003, este grupo já estava a efectuar alguns debates sobre o que se propunham fazer em relação às artes. Chego a Moçambique no final de 2002, já estando ao corrente desta preocupação, porque tinha falado com o Gemuce.
Fizemos a nossa primeira exposição de arte contemporânea só com artistas nacionais, pois antes não havia nada do género, em termos de colectivas. Existia, mas só com artistas de fora. Pelo contrário, esta iniciativa era algo que não vinha de fora e revelava que também tínhamos a nossa própria preocupação. Deve-se realçar este aspecto, porque esses artistas já produziam antes mas, agora, no MUVART são compreendidos.
Através do MUVART foi possível juntar energias suficientes para se encontrar interlocutores. Então, em 2004, fizemos essa exposição que foi um sucesso total. Por um lado, havia gente muito céptica dizendo que já tinham visto o mesmo numa revista, porque realmente as pessoas vêem semelhanças no uso dos materiais e dos recursos, mas não propriamente nas temáticas e nos conceitos. Há em Moçambique uma Bienal muito forte, a TDM, que movimenta todos os artistas e jornalistas, mas só o consegue a nível regional, em Maputo, um pouco no centro, um pouco na África do Sul, e com um ou dois artistas convidados.
Nós propomos organizar também uma Bienal e convidar artistas de fora, de outros quadrantes, como do Brasil, de Portugal, Espanha, França. Fizemos em 2004 essa exposição e foi depois disso que o enquadramento, a percepção da arte e a compreensão do nosso trabalho, mudou.



P: Como é que se chamava a exposição?

R: Chamou-se “Expo Arte Contemporânea Moçambique’ 04”. Hoje, as coisas mudaram completamente, porque os centros culturais, como é o caso do Centro Cultural Franco-Moçambicano criaram uma política que privilegia as exposições de arte contemporânea; o Museu Nacional de Arte, depois do MUVART, compreendeu que era necessário ser a instituição a catalizar a produção artística e começou a adquirir, pela primeira vez, trabalhos com esta natureza, com uma política de aquisição; os jornais e as pessoas que escreviam sobre o assunto mudaram gradualmente as suas opiniões. Houve uma certa revolução nisso, também, em parte, porque os artistas envolvidos no MUVART são professores na Escola de Artes Visuais, o que muda também a forma de ensino, o que vão passando aos alunos, existindo uma maior abertura. Só criando o movimento é que foi possível mudar o estado da arte em Maputo, senão não seria. Isoladamente, levaria muito mais tempo.
Hoje, produzimos, temos um grupo que organiza debates sobre a produção que está ser feita, escrevemos sobre os nossos trabalhos. Não temos críticos que possam trabalhar nesse sentido. Alda Costa, a historiadora de arte em Moçambique, escreve sobre nós; alguns amigos aqui (em Portugal) aproximaram-se também daquilo que o MUVART se propõe fazer, como o Vítor Pinto da Fonseca, Fernandes Dias, António Pinto Ribeiro, que compreenderam e criaram espaços. Nós viemos para cá e tivemos conversas, e debates, e eles divulgaram o nosso trabalho em Portugal.



P: Qual considera ser a visibilidade da arte moçambicana no circuito internacional? Modificou-se com a acção do MUVART?

R: Poderia dizer que se modificou completamente. Mas a figura que se conhece em Moçambique ainda é a do Malangatana, do Chissano, da Renata, do Mucavel, artistas que, de alguma forma, saíram muitas vezes, que estiveram muito associados a exposições diplomáticas dadas pelas Embaixadas. Depois, há três ou quatro artistas muito bons que não fazem parte do movimento de arte contemporânea, que é o Titos Mabota, o Gonçalo Mabunda, os quais participam, há uns anos, em exposições importantíssimas fora de África, aqui na Europa, nos Estados Unidos, em Bienais e que mostram um trabalho diferente, mais ligado à arte contemporânea. Temos ainda a fotografia moçambicana que é muito forte, muito conhecida e particular, através da figura do Ricardo Rangel, do Rui Assubuji, Mauro Pinto, em África e também aqui em Portugal. Houve também várias exposições de fotografia moçambicana. Logo, temos um panorama aberto, com várias frentes.
Actualmente, o movimento de arte contemporânea é conhecido em Portugal, em Espanha e um pouco mais no Brasil, mas é ainda muito novo, porque começámos só há dois anos e propomos algo de diferente do que sempre tem sido feito. Acredito que a arte moçambicana é, de alguma forma, compreendida no circuito europeu. Embora possa não ser uma arte de muita importância para a Europa, há consciência de que ela existe, que tem o seu valor, que tem o seu espaço e que precisa, talvez, de lhe dar mais espaço.
Em relação a África, a situação é muito diferente: a arte moçambicana é muito forte, muito presente, sendo os artistas sempre muito solicitados.



P: É importante para vocês terem um espaço de afirmação no contexto europeu ou não é uma aspiração?

R: É realmente importante, para nós, termos um espaço no continente europeu, como é importante para qualquer artista no mundo ter um espaço na Europa. O circuito ocidental é extremamente importante: é o circuito mais competitivo, o que tem mais investimento e mais visibilidade. Nesse sentido, se um artista não existe no circuito ocidental, não existe. É mais um espaço e é mais uma vitrina. É a principal vitrina no mundo. Estar na Europa, estar nos Estados Unidos, nas colecções europeias e nas norte-americanas tem a força, a visibilidade, o valor e a legitimação.
No que diz respeito a subsídios à produção, é muito mais importante, neste momento, estarmos virados para a própria região. Há artistas actualmente, em Moçambique e em África, que se identificam mais com alimentar-se o que está lá do que o que está cá.



P: Há ideia de que existem artistas africanos que incarnam o discurso identitário, o essencialismo e, por outro lado, aqueles que seguem os cânones ocidentais?

R: No MUVART, por exemplo, temos essa situação. Há artistas que trabalham muito com as raízes culturais, não porque estão à procura das suas raízes, mas porque acham que nelas alimentam o seu trabalho, interessando falar das questões da sua natureza. E há artistas que vão ao encontro do mundo, da estética global, relacionando conceitos que são tratados em qualquer espaço do universo, sem usar materiais associados a determinados locais. Outros, fazem essa mistura. Diria que o MUVART é um bom exemplo, porque todos os artistas são diferentes uns dos outros, em termos de produção de arte contemporânea. Temos formações e origens diferentes, para além da formação académica ou intelectual. É um espaço extremamente democrático.
É um pouco o que acontece em Moçambique. Há uma discussão muito forte com o argumento de que não podemos estar a importar estéticas pró-americanas, de que a instalação é uma estética americanizada, imposta pelos circuitos e pelos centros culturais dos museus internacionais que se tornam uma ditadura para o artista, beneficiando o curador e a instituição. Outro argumento defende que devemos valorizar o objecto porque torna o artista independente. Mas são discussões em aberto e muito novas também para nós.



P: Há autores que defendem que o conceito de arte africana contemporânea surge na década de 90. Qual é a sua ideia sobre isso?

R: Ela surge nos anos 90 no sentido institucionalizado. A produção já existe desde os anos 40, com um trabalho e linguagens bastante actualizadas. Refiro-me ao Norte da África até em Moçambique. Mas este conceito institucionalizado que compartilha a figura de um curador, de um crítico, da instituição e de um pensamento global, talvez faça mais sentido a partir dos anos 90. Em Moçambique, isso começa um pouco mais tarde, não arrancando no início da década de 90, mas sim no final.



P: Acha que os artistas, no mercado ocidental ou no circuito internacional podem continuar a divulgar o seu trabalho fora dessa categoria? Não acha que o enquadramento do MUVART pode limitar a produção a uma certa ideia e a clichés sobre o que é a arte africana?

R: Claro que limita. Quando me refiro a um artista africano não estou a falar de um artista que trabalha com determinados clichés, mas o artista ou a arte que são trabalhados nesse continente. Porque a arte africana, no sentido dos clichés, com determinados códigos visuais e conceptuais, já não existe. Existe quem o faça mas, para a compreensão da arte, isso já não existe. Hoje, a arte africana é uma arte que vai muito para além desses clichés e se nós nos alimentarmos deles, vamo-nos fechando num espaço e perdemo-nos nele. Referi-me ao MUVART porque ele lança essa discussão que é amplamente debatida no grupo e fora dele, sobre devermos abrir e não fechar clichés da arte africana, tanto que uma das premissas adoptadas no nosso manifesto é a de não citar nada que se refira ao facto de a arte africana dever estar dentro deste ou daqueles clichés entendidos como “arte africana.”
A produção desses artistas individualmente é uma coisa, porque no MUVART existe um manifesto do grupo associativo e existem manifestos individuais, desvinculados do de grupo. Quase todos nós temos um manifesto individual. O manifesto do grupo tenta ser consensual em todos eles.



P: Quais são os outros pontos importantes do manifesto associativo do MUVART?

R: Não ser uma arte que se fecha nos clichés africanos, não sendo preocupação do nosso grupo ir buscar técnicas, procedimentos ou então posicionamentos da arte que é feita em África ou em Moçambique; abrir espaço para todas as forma de expressão artística, visual, corporal e tecnológica, cibernética e de tudo o que é possível; a pintura, o desenho, a escultura a talhe são entendidos como arte contemporânea, algo que se começava a perder, desde que esteja inserida nas novas preocupações e abordagens actuais; o artista deve ser o primeiro a trazer contributos teóricos e conceptuais sobre o seu trabalho; a crítica que acompanha a produção de qualquer um desses artistas do MUVART deve ser mais próxima do artista e daquilo que ele está a produzir, teorizando sobre aspectos do que está a ser feito em determinado contexto, sendo mais direccionada ao indivíduo e menos ao colectivo.



P: Que influências produziu o Manifesto mesmo em termos de crítica? Como é que a crítica recebeu essa independência e teorização dos trabalhos feita pelos próprios artistas, espaço que normalmente é reservado aos críticos? Houve alguma evolução na recepção por parte da crítica?

R: Houve uma grande viragem, incomparável, porque, logo depois, o que existia antes desapareceu completamente. Hoje, só temos ideia de como era anteriormente. São desníveis muito grandes. Todas as pessoas que escreviam sobre os artistas e que eram convidadas a fazer, por exemplo, catálogos desaparecem por completo. Hoje em dia, há um maior número de artistas a escreverem sobre os outros artistas e intelectuais que não encontravam espaço na produção de pensamento, e na teorização da arte, em Moçambique encontraram esse espaço.
Há também uma coincidência, que eu diria desagradável, porque duas das principais figuras que escreviam sobre as artes plásticas morrem nesses dois, três, anos. É o fim de um período e o início de um outro. E nas artes plásticas surge uma linha divisória. De alguma forma, eu acabo por influenciar muito isso, porque comecei a escrever com certa regularidade para os jornais, ocupando esse papel de teorização da arte. Era uma forma de escrever completamente diferente do que havia sido feito antes. Começo a escrever com mais regularidade, enquanto os outros começam a escrever com menor frequência e somem completamente. Há uma substituição gradual. O mesmo acontece em relação ao Museu Nacional de Arte.



P: Agora é comissário do Museu Nacional de Arte. Quais são as suas ideias em termos de comissariado?

R: O Museu tem uma política, uma estruturação, muito bem concebida em termos de exposições e de serviços educativos. Mas o que, talvez, não estivesse a acontecer era esta abertura. Mas se formos a ver, os pressupostos estavam lá escritos, existindo uma preocupação com novas produções, com a arte contemporânea, mas quem tinha poder para o fazer, não o fazia. Acho que agora é o momento de fazer, porque está tudo lá.
Existe um grupo de artistas extremamente forte, muito novos, e que têm uma produção muito pertinente e com muita qualidade. Acho que se deve dar espaço a estes artistas e expor os seus trabalhos colectiva e individualmente, e abrir também espaços para artistas de outros centros artísticos, de outras regiões, aproximar a arte de artistas africanos que estejam noutros países — francófonos, anglófonos, lusófonos — para o Museu. Algo que não se faz porque não há recursos para isso. Isso é extremamente importante aproximando mais o Museu à comunidade, porque até então o Museu era muito fechado, muito virado para ele, sendo que os serviços educativos devem criar condições de aproximar o Museu à comunidade, associado à curadoria de Museu. Levar o Museu Nacional de Arte à comunidade é uma preocupação minha. São preocupações muito actuais. O Museu não deve estar fechado e só receber, mas deve abrir-se à comunidade.



P: Como é a adesão do público em termos de arte contemporânea?

R: Em Moçambique, visita-se muito pouco exposições. E o Museu está localizado numa zona da cidade que é o centro mas, de alguma forma, as pessoas não estão habituadas a fazer essa deslocação. Também não há muitos restaurantes e outro tipo de estabelecimentos em torno do Museu, ficando um pouco isolado. Mas sinto que agora as pessoas têm mais gosto pelo Museu. As exposições de arte contemporânea que fazemos no Museu são sempre muito bem recebidas e as pessoas gostam, perguntam, as visitas que se fazem são muito proveitosas, sendo que aprendemos sempre com isso. Cria um espaço colectivo realmente interessante entre o Museu e a comunidade. A Escola de Artes Visuais está a aproximar-se muito do Museu. É uma das escolas que mais se aproxima do Museu. Os debates que organizamos — temos continuamente ciclo de palestras — são sempre muito concorridos.



P: Que tipo de palestras têm?

R: Conversamos sobre um pouco de tudo que tenha a ver com a cultura no geral, desde o cinema, à dança, às artes plásticas, até debates sobre a sociedade e a cultura em geral. Em Novembro, tivemos um ciclo de filosofia em Maputo, no qual durante três dias o Museu esteve muito cheio. Foi muito abrangente. Em Janeiro, organizámos um encontro de artistas para debaterem sobre a situação da arte em Moçambique, o qual teve como ponto de partida uma exposição colectiva do Museu. Depois, organizámos um debate sobre a legitimação de arte com um sociólogo de arte muito interessante, Filimone Meigos, que recebeu muitas pessoas, constituindo um público bastante diversificado. Anteriormente, o público era muito específico.



P: Existia um certo elitismo?

R: Não, Maputo não tem essa “coisa” de elitismo. Todas as pessoas convivem nesse espaço, com excepção de casos muito pontuais. O Museu não tem esse problema de elitismo.



P: Qual o ponto sobre arte contemporânea que se encontra mais em debate nos vossos ciclos?

R: Até ao ano passado, debateu-se muito a questão das curadorias e políticas de exposições. Foi o que mais interessou às pessoas, por causa da “Expo de Arte Contemporânea´06” e da exposição “Réplica e Rebeldia”. Este ano, o que tem suscitado mais interesse, em termos de debate, é a legitimação da arte — quem são as figuras que têm o poder de legitimar —, entre outros.
Para além de organizar os eventos, tenho também acompanhado individualmente as pessoas, vou conversando e, assim, vejo que o interesse delas é nesta direcção.



P: O interesse provém da comunidade artística ou mesmo do público para saber como está a funcionar interiormente o campo das artes?

R: É de todos, porque faço uma espécie de pesquisa. Não é escrita, mas converso com estudantes, com professores, tanto nas Escola de Artes como nas Universidades, como com o público em geral, e existe esta preocupação em geral daquilo que interessa mais em todos eles.
Depois, outra abordagem que começa a suscitar muito interesse é a vídeoarte. Também temos de incluir na programação vídeoarte, fazer exposições e exibir projecções.



P: Fazia-se vídeoarte?
Era muito desconhecida. Um ou outro fazia muito isoladamente até ser criada a Associação de Vídeoarte em Moçambique, altura em que a situação mudou.



P: Está ligado a essa Associação?

R: Acompanho o trabalho deles mas não estou ligado à associação. O meu trabalho diz respeito à teorização daquilo que eles fazem. De alguma forma, estou ligado a todos eles pelo jornal, pelo Museu, pela crítica ou, então, pela escola.



P: Quais são os seus projectos futuros, designadamente para o Museu Nacional de Arte?

R: O Museu tem uma programação diferente, pois mudámos alguns aspectos. Em primeiro lugar, o modelo dessa exposição anual não pode ser continuado. Faltava coragem para se fazer isso, mas já estamos a trabalhar nesse sentido. Depois, para além da programação do Museu e das exposições, promovemos uma política de abertura, de debate, de reflexão e de tomadas de posição que são, realmente, prioritárias: assim, vamos realizar uma exposição do willfred lam, um artista cubano, uma exposição de um grande artista, já falecido, Eugénio Lemos, e da Colecção da TDM, cujos patrimónios e colecções queremos discutir. Penso que o Museu desempenha um papel muito importante este ano ao trazer a questão dos patrimónios e das colecções à discussão.
Em relação ao MUVART, vai fazer quatro individuais de quatro artistas do movimento que são, actualmente, figuras importantes no movimento. Tratam-se do Gemuce, da Anésia Manjate, do Marcos Bonifácio e eu. O MUVART vai trabalhar no sentido de fazer essas quatro individuais, pois são artistas que não expõem com individuais há algum tempo, necessárias para poder debater, teorizar e medir o que está a ser feito, que caminhos estamos a seguir. Só com uma produção dinâmica, actual, podemos confrontar-nos connosco mesmo.
Paralelamente a isso, vou desenvolvendo trabalhos que têm a ver com o acompanhamento dos artistas, por causa do Museu e do MUVART, e vou escrevendo para os jornais.