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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Fotografia @Cortesia Fundação de Serralves.


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LOURDES CASTRO

A VIDA COMO ELA É




MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua D. João de Castro, 210
4150-417 Porto

18 MAI - 18 OUT 2020


 

 

O Museu de Arte Contemporânea de Serralves inaugurou uma exposição que cruza o intemporal com a maior atualidade. Lourdes Castro: A vida é como ela é! aponta para uma figura exemplar da criação artística que não se define por tempos e contextos, relembrando ao mesmo tempo que, independentemente da presente crise global, é necessário aceitar e, acima de tudo, viver.

É, pois, à arte, à cultura e à vida que a instituição cultural portuense apela, desígnio com o qual retomou a sua programação, a 18 de maio, data criteriosamente escolhida na medida em que assinala, a nível internacional, o Dia dos Museus. Sendo Lourdes Castro uma das artistas nacionais mais relevantes, cujo reconhecimento se estende além fronteiras, assim se celebrou, tão apropriadamente, a ocasião.

Foi no final de um dia de intensa programação de visitas, conversas e encontros que Serralves inaugurou esta exposição particularmente querida, tanto para o museu, como para todos os que, dotados de justa capacidade de apreciação estética, reconhecem na obra de Lourdes Castro a sua extrema qualidade e distinto valor.

A atual mostra foi particularmente esperada no decorrer do seu longo adiamento em consequência da situação de emergência nacional, tendo o museu encerrado seis dias antes da então agendada abertura. Porém, a concepção expositiva e as suas correntes criativas mantiveram-se nutridas e em desenvolvimento durante estes últimos dois meses, durante os quais se possibilitou o que Ricardo Nicolau refere enquanto um "diálogo perpétuo" que manteve com a artista. Como confessou ainda na inauguração, transmitida ao público via online, apesar de "feliz e infelizmente" ter sido uma programação muito longa, essas conversas far-lhe-ão profunda falta. A elas se acrescenta uma troca de cartas entre o curador e a artista, desde a data prevista à data definitiva da abertura, Cartas à Lourdes: das 4 às 5, que serão brevemente reunidas numa publicação impressa, sendo que algumas se encontram disponíveis no site do museu, no que se revela uma valiosa leitura.

A exposição deveria ter inaugurado a 20 de março, no primeiro dia de Primavera, coincidência que muito tinha agradado Lourdes Castro. Para quem conhece o seu trabalho, isso compreende-se facilmente. A estação mais viva do ano coaduna-se com o apreço que a artista tem por flores, expresso nas suas inúmeras obras que as invocam. Aliás, como pode ler-se numa das mensagens da artista para o curador, "não me importava nada de ver as minhas obras em exposições temáticas, desde que o tema fosse por exemplo As flores" (Castro, 22 de abril de 2020).

Esta predileção ganhou particular visibilidade quando materializada, em 1988, na reconhecida obra A Montanha de flores (1988-) A peça, central na sua exposição no Museu de Serralves, em 2003, encontra-se, agora, passível de ser recordada, desde a montagem à sua conclusão, através de um registo de vídeo. Tal mostra, a primeira de Lourdes Castro na instituição, fora comissariada por João Fernandes e intitulada de Sombras à volta de um centro, à qual se seguiu, sete anos depois, À luz da sombra, desta vez em conjunto com o companheiro da artista, Manuel Zimbro. Ambos os títulos divergem do atual, afirmando-se este sem sombras, distinção pretendida por Ricardo Nicolau. É, porém, importante notar que as sombras são, para a artista, também simbólicas do seu contrário, da luz, verificando-se como surgem também enquanto imagens do físico, do táctil e do corpóreo. Nomeadamente, quando trabalhadas com materiais como o plexiglass, como se vê na presente exposição, as sombras ganham cor e estrutura, apesar da transparência desse suporte representar, acima de tudo, a falta de matéria que lhes é inerente.

O curador também sublinha ter recorrido, principalmente na escrita do texto de sala, ao livro Zen e Arte do Tiro com Arco (1949) de Eugen Herrigel, assim incorporando uma das maiores referências da artista. O reconhecimento da importância desse livro contribui, sobretudo, para situar o início do interesse da artista pelo mundo oriental, pela relação imersiva com a natureza e pela adopção de uma filosofia zen, aspetos estes que se revelam não só na sua forma de viver como nas recorrentes referências à flora.

Sobre o retorno ao Museu, Lourdes Castro declara que "voltar a Serralves é um gosto e é natural". Francisco Tropa, por sua vez, também no contexto da mais recente inauguração, recordou momentos do passado, nomeadamente o seu convívio com a artista durante o trabalho conjuntamente realizado no âmbito da Bienal de São Paulo de 1998. Reporta-se a essa experiência enquanto "fantástica e muito gratificante", assinalando que com ela compreendeu "como é que no fazer artístico há momentos em que é mais importante dar um passo atrás do que um passo à frente".

Com efeito, no percurso de Lourdes Castro observam-se grandes avanços mas também alguns "recuos". Refira-se o que hoje se tenderá a interpretar como um "confinamento voluntário", na sua casa e no seu jardim na Madeira, desde 1983, com escassas saídas, época a partir da qual entrou numa exponencial produção artística. Recorde-se também a decisão de não concluir o curso de Pintura, na Escola de Belas-Artes de Lisboa, o que, contrariamente ao mais expectável, possibilitou a sua partida para a Europa, a experiência mais determinante do seu desenvolvimento artístico. A viagem terminou com 25 anos vividos em Paris, onde, como Ricardo Nicolau indica, "foi adotada pela pintora Maria Helena Vieira da Silva".

Foi também na capital francesa que a artista, em conjunto com outras relevantes figuras do contexto artístico, fundou o grupo KWY, responsável pela ousada revista com o mesmo nome, da qual alguns exemplares se encontram, agora, exibidos em Serralves. Com eles se expõem outros objetos de Lourdes Castro, na sua maioria da coleção do museu, cedidos ou depositados pela própria. Cartazes e livros de artista, desenhos e peças mais tridimensionais reúnem-se num corpo de trabalho que, apesar de pouco extenso, embora datado de 1950 a 2012, representa as suas várias fases criativas. Admiram-se peças mais gráficas que sempre acompanharam as suas exposições, bem como algumas das mais reconhecidas, caso da icónica Sombras deitadas (1969) e a mais arrojada série Sombra projetada (1968).

No centro da galeria central do museu também se encontra Peça (1998), realizada com Francisco Tropa, cuja larga dimensão poderia sobrepor-se às restantes obras, considerando o espaço limitado da exposição, mas que, ao invés, se relaciona harmoniosamente com o demais. Ao mesmo tempo, aí se revela a força do trabalho de Lourdes Castro, cujas figuras e cores eximiamente concebidas e conjugadas não se encerram nos limites dos seus suportes. A referir, ainda, os contornos de camélias, lilases, malmequeres, narcisos, primaveras, rosas...

A exposição também contou com a curadoria de Isabel Braga, a qual, sobre o trabalho de Lourdes Castro, acertadamente assinalou que, observando-se motivos "prosaicos, da esfera do quotidiano e do doméstico, não se pode, por isso, considerá-los simples". No caso do trabalho atualmente exposto, isso verifica-se principalmente na primeira série à esquerda, aquando da entrada na galeria. Com efeito, se alguns dos elementos das peças da artista se afiguram elementares, na verdade e particularmente quando dispostos lado a lado e em diálogo com a restante obra, produzem jogos de linguagem e uma notável complexidade tão formal quanto significativa, pautada por uma transversal profundidade estética. É, aliás, a capacidade de se relacionar com o universo do comum e, simultaneamente, dotar-se de uma aura magistral que torna a sua arte tão especial.

Se, por um lado, como Ricardo Nicolau referiu na primeira carta dirigida à artista, "Chegar a si dá trabalho, Lourdes", a exposição que ora se apresenta permite transpor um certo enigma que circunda a sua obra, inscrevendo-a no espectador. Com efeito, Lourdes Castro, sem o procurar ou intentar, cativa e encanta numa condição que se projeta no tempo, enquanto houver vida, enquanto houver flores.



CONSTANÇA BABO