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MOSTRA REVÊ PENSAMENTO BÉLICO DE DEBORD, CÉREBRO DO MAIO DE 68

2013-06-17




Em tempos de revolta em São Paulo e Istambul, e na ressaca da Primavera Árabe, uma mostra em cartaz na Biblioteca Nacional de França, em Paris, revê o legado do cérebro por detrás dos protestos de maio de 1968, a revolução-modelo para tempos de crise.

Guy Debord, autor de A Sociedade do Espetáculo, tem a obra revista a partir do seu caráter bélico numa exposição abrangente, que começa com as suas anotações penduradas num círculo que rodeia o público na entrada - o “coração da obra”, nas palavras dos seus organizadores.

Esse coração por pouco não saiu de Paris e foi vendido à Universidade Yale, nos Estados Unidos. Fora das caixas onde estavam guardados pela sua viúva, os documentos comprados pelo governo francês por cerca de 27milhões de euros escancaram a filosofia de Debord, líder do movimento situacionista, que é agora redescoberto pelos franceses.

Na convulsão cultural que varreu a França no fim dos anos 1950 e fez rever as regras do romance – “nouveau roman” – e do cinema – “nouvelle vague” –, os situacionistas que gravitavam em torno de Debord, morto em 1994, queriam desmanchar as vanguardas, atacando a arte, a literatura e o urbanismo.

“Eles opuseram-se a tudo isso em nome de uma criação mais livre”, diz Laurence Le Bras, curadora da mostra, à Folha de S. Paulo. “Queriam uma vanguarda que batesse de frente com artistas que trabalhavam para a indústria. Eram contra a Bauhaus, o mercado de arte e a arquitetura racional.”

É na arquitetura, aliás, que se concentra talvez a parte mais radical do pensamento de Debord, homem que cunhou o conceito de deriva, hoje tão caro às artes visuais. A sua ideia era rever o urbanismo. Os espaços e as ligações entre eles deveria se dar de forma afetiva, o que chamou de “psicogeografia”, e não pelo modo comum de ruas e avenidas.

Na mostra parisiense, estão maquetes de cidades hipermodernas. “Eram espaços construídos em titânio e alumínio, embora o ponto de partida seja primitive”, diz Le Bras. “A ideia era transformar o homem de volta em selvagem, num novo nómada.\"

O seu foco nas ruas e nesse nomadismo acabou provocando a reprodução dos seus slogans nos muros de Paris durante as revoltas estudantis. No fim dos anos 1960, Debord percebeu que para pôr em prática a sua filosofia deveria abraçar a política no lugar da arte.

A influência de Debord tornar-se-ia evidente. Os mapas da colagem dos cartazes pró-revolução, expostos na mostra, guardam grande semelhança com os mapas da Paris que Debord frequentava, como se o roteiro dessa “arte da guerra” fora traçado por ele em primeira mão.

“Ele pregava uma revolução nas ruas”, diz Le Bras. “Em última instância, propunha um capitalismo estatizado, em que a burguesia seria substituída pelo Estado. Era o seu socialismo da barbárie.”

Disponível em: Folha de S Paulo