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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Colapso, Silvestre Pestana, Galeria Municipal do Porto. © Lais Pereira


Vista da exposição Colapso, Silvestre Pestana, Galeria Municipal do Porto. © Lais Pereira


Vista da exposição Colapso, Silvestre Pestana, Galeria Municipal do Porto. © Lais Pereira


Vista da exposição Colapso, Silvestre Pestana, Galeria Municipal do Porto. © Lais Pereira


Vista da exposição Colapso, Silvestre Pestana, Galeria Municipal do Porto. © Lais Pereira


Vista da exposição Colapso, Silvestre Pestana, Galeria Municipal do Porto. © Lais Pereira

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ARQUIVO:


SILVESTRE PESTANA

COLAPSO




GALERIA MUNICIPAL DO PORTO
Palácio de Cristal Rua D. Manuel II
4050-346 Porto

14 MAR - 28 JUN 2026

A cidade de Silvestre Pestana

 

No dia da inauguração, o artista partilha que a intuição é a principal referência que guia o seu processo artístico. Silvestre Pestana tem desenvolvido uma constante reflexão sobre a vida diária, o imediato e a contemporaneidade. Apresenta a sua mais recente exposição Colapso na Galeria Municipal do Porto, propondo representar a chegada à cidade, este centro que se determina por uma realidade labiríntica e saturada de tecnologia.

Com a curadoria de João Laia, a exposição foi, propositadamente, concebida para ocupar o espaço alongado do primeiro piso da galeria, o que reforça a intencionalidade de um percurso sem fim, de uma caminhada enérgica e, simultaneamente, esgotante pela cidade. Os elementos visuais da exposição levam o artista a estabelecer um diálogo intertextual, fazendo referência a obras anteriores para inscrever a sua prática em diferentes modos de ver.

Quando analisamos a obra de Silvestre Pestana, torna-se impossível ignorar o impacto do passado na construção de uma narrativa que emerge de um contexto limitador, em que a educação e a liberdade eram direitos exclusivos. O seu percurso artístico inicia em 1960, ao encontrar no coletivo Poesia Experimental Portuguesa (PO.EX.) um espaço para a escrita ganhar o seu valor na luta contra o regime antifascista. Quando regressa a Portugal, no pós- 25 de Abril, após exílio na Suécia entre 1969 e 1974, adapta a visualidade, a sonoridade e a corporalidade do poema ao vídeo, à performance e à fotografia. Desde então, é considerado um artista inovador, nunca temendo pela novidade e pelo futuro que a tecnologia carrega.

Esta constante curiosidade pelos diferentes meios tecnológicos reflete-se também no uso de LEDs, néons e luzes florescentes, que se tornam, muitas vezes, elementos complementares à escultura, à performance e aos poemas gráficos. Para Pestana, as novas tecnologias assumem-se como novos campos exploratórios nas artes visuais. Trata-se de um constante desafio de aprendizagem e de adaptação do saber fazer manual à experiência multidirecional tecnológica.

Ao entrar na galeria, reservo um breve momento para que os olhos se acalmem naquela falsa escuridão. Estou perante uma composição de dispositivos LED em diferentes posições, com variadas cores e informações, sempre em constante mudança. O espaço enche-se de luz, uma claridade que desgasta a atenção e impossibilita o foco num único pormenor. Gradualmente, percorro os obstáculos, encarando as palavras como uma construção de uma narrativa. A cada tentativa de olhar novamente com curiosidade, mais turva se torna a visão, bem como a informação que daí se retira. Tendo sido considerado um dispositivo inovador desde o seu surgimento, Pestana regressa ao LED apresentando-o como potencial visual e sensorial. A partir de memórias de infância, o artista destaca a presença destes painéis em festividades populares, montras publicitárias ou até mesmo no dia a dia, onde pequenas palavras definem o destino, a saída e a chegada de uma viagem. Silvestre Pestana, já antes designado por “artista de contraciclos”, sempre refletiu sobre inquietações políticas e sociais para além do seu tempo; hoje, a sua postura radical e audaz ganha ainda mais sentido. A tecnologia tem tido um foco ainda mais gritante na sociedade, quer para aqueles que tomam consciência dela ou para os outros que se encontram perdidos neste jogo de persuasão e manipulação. Vive-se numa realidade, onde se questiona a sua própria veracidade. Tenta-se encontrar respostas nos ecrãs e fontes inesgotáveis de informação que aparentam concentrar todo o conhecimento humano.

No espaço superior da Galeria, somos envolvidos numa instalação que coloca a língua portuguesa no centro de um contexto urbano. Naturalmente, a linguagem assume-se como um meio de expressão, levando os visitantes a terem uma compreensão imediata da informação. Pontualmente, as estruturas densas e metálicas de sistemas de rede reforçam a atual facilidade de comunicação e partilha de conhecimento, podendo ser análogas à representação visual da palavra neurónio. É nestas palavras soltas e aparentemente desconexas, que encontramos o poema de Silvestre Pestana. Um poema que é em si uma constelação, passível de ser reformulado a cada visita, em cada procura de uma nova interpretação.

A combinação infinita das palavras selecionadas pelo artista lembra a atual partilha facilitada de informação e a constante luta de uma verdade no meio de tantos significados. O artista reativa o primeiro poema-objeto Atómico Acto – Construir o poema, destruir o objeto (1969) servindo-se, novamente, de um balão de borracha vermelho e o seu consequente impacto ao ser rebentado, estabelecendo a analogia com uma bomba atómica em contexto de guerra. A performance foi apresentada no dia da inauguração, com o intuito do público ser surpreendido por um momento de rutura, um momento que quebra a cadência da exposição.

Regressando à poesia concreta e à arte experimental, a poesia de Silvestre Pestana é intemporal e propõe a reformulação de um poema num ato sensorial e visual. Deste modo, o artista oferece-nos um espaço para refletir no poder das tecnologias enquanto força para criar e destruir. Pode-se entender que é da responsabilidade humana identificar quando estes momentos de rutura aprisionam e desencadeiam consequências irreversíveis.

Colapso é a primeira palavra revelada e título da exposição. Tal como João Laia refere na folha de sala, este momento de falência é comparado à contemporaneidade e à vida urbana pela qual todos ansiamos. Atualmente, a tecnologia apresenta-se, simultaneamente, como avanço e ameaça, fascínio e receio, assumindo-se, por vezes, como um espaço inspirador e otimista, como um meio criativo e multidisciplinar.

Silvestre Pestana poderá ser enquadrado na descrição de Walter Benjamin, em 1928, em Rua de Sentido Único, como um homem da vida moderna, encontrando no deambular pela cidade e na receção dos múltiplos estímulos que vivencia, uma forma de experiência em que o conhecimento se constrói através da intuição. Nesta longa e complexa caminhada pela cidade, mantém-se a questão, qual será o poema para uma sociedade ruidosa? As múltiplas respostas poderão ser encontradas na exposição, que decorre entre 14 de março a 28 de junho de 2026, na Galeria Municipal do Porto.

 

 

 

Ana Carolina Esteves

Licenciada em Artes Plásticas - Escultura e mestre em Estudos Curatoriais, desenvolve investigação prática e teórica sobre a memória, a experiência e o livro de artista. Dedica-se à prática artística, à curadoria, à educação e à escrita.

 



ANA CAROLINA ESTEVES