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EXPOSIÇÕES ATUAIS


All the views I can't remember, 2026. © Athina Koumparouli. Foto © Manifesta 16 Ruhr / Ivan Erofeev


All the views I can't remember, 2026. © Athina Koumparouli. Foto © Manifesta 16 Ruhr / Ivan Erofeev


All the views I can't remember, 2026. © Athina Koumparouli. Foto © Manifesta 16 Ruhr / Ivan Erofeev


All the views I can't remember, 2026. © Athina Koumparouli. Foto © Manifesta 16 Ruhr / Ivan Erofeev


Dead Natures / New Entities, 2026. © Athina Koumparouli. Foto © Luisa Ferreira


Dead Natures / New Entities, 2026 © Athina Koumparouli. Foto © Manifesta 16 Ruhr / Ivan Erofeev

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ARQUIVO:


ATHINA KOUMPAROULI

MANIFESTA 16 RUHR




KULTURKIRCHE LIEBFRAUEN
König-Heinrich-Platz 3
47051 Duisburg, Alemanha

21 JUN - 04 OUT 2026

Vestígios de futuro

 

 

Para a sua 16.ª edição, a bienal nómada europeia Manifesta instala-se na região de Ruhr, na Alemanha, sob o título This is not a Church. Ocupando igrejas construídas durante a reconstrução do pós-guerra, hoje marcadas pela secularização e pelo abandono, a bienal propõe pensar a transformação destes espaços como um processo inseparável da memória, defendendo que novas formas de vida coletiva dependem de um envolvimento ativo com os vestígios materiais e históricos do passado.

É neste horizonte conceptual que se inscreve a intervenção de Athina Koumparouli (1983). Para a Manifesta 16 Ruhr, a artista grega apresenta duas novas obras encomendadas, Dead Natures / New Entities (2026) e All the Views I Can’t Remember (2026). Com curadoria da dupla de “Creative Mediators” – termo utilizado pela Manifesta para designar os responsáveis pelo programa artístico da bienal – composta por Michael Kurtz e Henry Meyric Hughes, esta é a primeira participação da artista na bienal europeia nómada. Conservadora-restauradora de formação, Koumparouli desenvolve uma prática multidisciplinar que recorre frequentemente a metodologias arqueológicas para explorar as relações entre memória, matéria e transformação em paisagens marcadas por processos de transição, como zonas industriais, locais de escavação ou territórios afetados por catástrofes.

Esta atenção à matéria e aos seus processos de transformação manifesta-se, desde logo, em All the Views I Can't Remember. Numa das visitas mediadas, um breve exercício de imaginação antecede a entrada na instalação: os participantes são convidados a imaginar que sustentam, entre as mãos, um frágil objeto de vidro prestes a cair, procurando equilibrar a força necessária para impedir que se parta sem, contudo, o apertar em excesso. O exercício sintetiza, de forma particularmente eficaz, a tensão entre intervenção e contenção que atravessa a prática de Koumparouli.

Para esta encomenda, a artista recuperou fragmentos de vidro provenientes de edifícios domésticos e industriais de toda a região do Ruhr e reuniu-os em duas peças instaladas numa sala escura no piso térreo da Kulturkirche Liebfrauen – um dos locais da bienal, na cidade de Duisburg, que desde 2011 funciona como espaço cultural, mantendo parcialmente funções religiosas.

Ambos os conjuntos parecem devolver agência ao próprio material. Quando o vidro perde a sua função e a fragmentação parece condená-lo à obsolescência, Koumparouli recusa a lógica da substituição ou da ‘morte’ do material. A procura não passa pela reconstrução da forma original – a artista não teve acesso a ela, nem tão-pouco é esse o escopo da sua intervenção. Antes, os fragmentos permanecem fragmentos, reorganizados agora em estruturas precárias, nas quais elementos como parafusos ou agrafos articulam novas unidades contingentes e autónomas, cujo sentido emerge precisamente da descontinuidade e da re-agregação irregular.

All the Views I Can’t Remember pode ser lida como uma ode à sobrevivência da matéria face à sua própria ruína. Mais do que procurar reconstruir uma memória material, a instalação parece interessar-se pelas condições através das quais essa memória continua a produzir sentido, mesmo quando a integridade do objeto já não é recuperável. Nela inscreve-se uma segunda existência, moldada pela vulnerabilidade e por uma memória que já não depende da integridade do objeto, mas da sua capacidade de evocar aquilo que dele permanece desconhecido, levantando questões como: qual a origem destes fragmentos? Que forma terão assumido? De que histórias serão testemunhas?

Ao recolher esses vestígios, o gesto de Koumparouli aproxima-se da lógica arqueológica, não apenas enquanto metáfora, mas enquanto metodologia recorrente da sua prática. Em ambos os casos, é o fragmento o agente produtor de discurso. Divergem, contudo, quanto à finalidade. Se a arqueologia procura compreender o passado a partir da evidência material, aqui os fragmentos não conduzem a uma forma perdida nem reclamam uma narrativa definitiva. Pelo contrário, é precisamente o seu potencial evocativo que abre espaço a novas leituras do passado.

A segunda intervenção da artista na Liebfrauen prolonga esta ideia, deslocando-a agora do objeto para a paisagem. No exterior abandonado da igreja encontra-se Dead Natures / New Entities, uma instalação que – como explicado no texto de parede – estabelece um diálogo com a história da extração de combustíveis fósseis e da produção industrial na região do Ruhr.

Várias escavações dispersas pelo terreno admitem uma leitura ambivalente. Se, por um lado, a abertura de um buraco no solo remete novamente para o gesto arqueológico, para a escavação destinada a encontrar vestígios capazes de revelar algo sobre o tempo a que pertenceram, por outro, é inevitável a associação destes espaços vazios à morte e à ideia de enterramento. É precisamente esta ambivalência que permite estabelecer uma relação com All the Views I Can’t Remember. Se as peças apresentadas no interior colocam a matéria num estado de suspensão entre a destruição e uma nova forma de sobrevivência, estas cavidades exteriores questionam a estabilidade dessa condição. Lidas enquanto sepulturas, sugerem que a recuperação dos fragmentos de vidro nunca é definitiva, permanecendo sempre em aberto a possibilidade do seu desaparecimento, figurado pelo enterramento. Entendidas enquanto escavações arqueológicas, recusam, porém, a ideia de um desaparecimento absoluto. Pelo contrário, lembram que aquilo que é enterrado pode permanecer como vestígio, aguardando novas formas de descoberta e de atribuição de significado. A instalação resiste, assim, tanto à lógica da perda irreversível como à promessa de uma recuperação integral, situando-se num intervalo em que destruição e permanência coexistem.

Discretamente distribuídos pelo espaço encontram-se ainda folhas e ramos revestidos a cobre, pertencentes a diferentes espécies de industriófitas – plantas capazes de prosperar em solos pobres e contaminados. Longe de funcionarem como simples vestígios do passado industrial da região, estes elementos revelam as formas de vida que dele emergiram, evidenciando a profunda implicação da natureza nestes processos, agora intensificada pelo revestimento metálico. Se, por um lado, esta nova camada preserva as formas orgânicas dos elementos, por outro interrompe qualquer possibilidade de transformação futura, atribuindo-lhes um carácter quase fóssil.
É nesta contradição que reside uma das tensões mais interessantes da obra: o mesmo gesto que preserva é também aquele que interrompe o ciclo de transformação próprio da matéria viva.

Em contraste, novas espécies vegetais, plantadas pela artista no mesmo espaço exterior, pontuam o terreno, sugerindo que a terra, apesar das sucessivas camadas de exploração a que foi sujeita, permanece um lugar de regeneração e de futuros possíveis. Mais do que propor uma imagem otimista da regeneração, estas plantações introduzem a possibilidade de futuros contingentes, inscritos numa paisagem cuja transformação permanece em curso.

Com All the Views I Can't Remember e Dead Natures / New Entities, Koumparouli constrói um mesmo pensamento sobre a matéria enquanto testemunha do passado e agente de transformação. Nem os objetos fragmentados permanecem presos à sua condição de ruína, nem a paisagem se apresenta como um cenário fixo de decadência. Num contexto em que a própria bienal se interroga sobre o futuro de edifícios marcados pelo abandono, Koumparouli desloca o olhar da oposição entre recuperação e perda para uma matéria que nunca deixa de se transformar.

As obras podem ser vistas na igreja Kulturkirche Liebfrauen, Duisburg, na Alemanha, até 4 de outubro de 2026 no âmbito da Manifesta 16 Ruhr.

 

 

 

 

Luísa Ferreira

Licenciada em Ciências da Arte e do Património pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, pós-graduada em Comunicação de Cultura e Indústrias Criativas pela NOVA FCSH e frequenta atualmente o mestrado em Museum Studies na Universidade de Amesterdão. Tem vindo a colaborar com várias instituições culturais, nomeadamente o MAAT e CAM - Fundação Calouste Gulbenkian. 



LUISA FERREIRA