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MAHKU - MOVIMENTO DOS ARTISTAS HUNI KUINCIPÓ - PINTURAS HUNI KUIN NA COLEÇÃO MARMUSEU DE ARTE DO RIO (MAR) Praça Mauá, 5 - Saúde 20081-240 Rio de Janeiro - RJ 06 SET - 06 SET 2026
Vista da exposição Cipó, do coletivo Mahku – Movimento dos artistas Huni Kuin. © Cris Lucena / Cortesia MAR.
O título da exposição faz referência ao preparado amazônico ancestral denominado na língua Hãtxa Kuin — pertencente à família lingüística Pano — como Nixi Pae, mais conhecido como ayahuasca. No filme NIXI PAE – O Espírito da Floresta (2012), dirigido por Amilton Pelegrino de Mattos [2], Ibã Huni Kuin, criador do MAHKU, explica que a palavra nixi significa “fio”, e pae, “encanto”. Central na cultura Huni Kuin, essa planta — medicina sagrada — carrega o poder do restabelecimento, da aprendizagem e da percepção ampliada. Conforme explicado por Rita Huni Kuin [3] e registrado tanto no livro Nixi pae - O Espírito da Floresta, feito pelo seu pai, Ibã, quanto na publicação Una Shubu Hiwea - Livro Escola Viva do Povo Huni Kuin do rio Jordão, o mito Yube Inu Dua Buse conta que a sabedoria sobre o preparo do Nixi Pae originou-se nas profundezas de um lago. Nesse mito, o caçador Dua Buse conheceu uma mulher-jiboia com quem viveu em uma aldeia subaquática. Desrespeitando seu sogro, Dua Buse ingeriu o Nixi Pae e mais tarde foi consumido por uma jiboia. Após a sua morte, parte de seu corpo virou cipó. Assim, esta cobra é o ser primordial na cosmologia Huni Kuin, figurando em diversas produções da mostra. Além da figura da jiboia, as composições visuais das obras também incluem a fauna e flora amazônicas, combinações cromáticas, iconografia tradicional e os kenes: traços geométricos, que, segundo a tradição Huni Kuin, foram ensinados pela jiboia e são desenhados nas cerâmicas, na tecelagem, em adereços e nos corpos. A arte apresentada em Cipó é uma tradução dos Huni Meka, cantos sagrados entoados durante os ritos de Nixi Pae. Assim, não são representações ou ilustrações, mas a própria materialização dos cantos do cipó que conduzem os rituais — uma manifestação visual da música, que conecta realidades e mundos diversos. Essas imagens plasmam as “mirações”, revelações visuais provocadas pela medicina milenar, que apresentam passado, presente e futuro em simultâneo.
Vista da exposição Cipó, do coletivo Mahku – Movimento dos artistas Huni Kuin. © Cris Lucena / Cortesia MAR.
No centro da galeria, os painéis suspensos estão dispostos de modo que o percurso do espectador seja inusitado. Sem ordem determinada, para apreendê-los, deve-se ingressar nos caminhos sinuosos que o desenho expográfico propõe: é preciso adentrar nas pinturas, deixar-se levar pelo universo da floresta, por suas texturas. Os tecidos contam histórias que compõem a cosmovisão Huni Kuin e devem ser vistos pelos dois lados: em um, estão as artes visuais; no outro, textos. Cada painel foi produzido por um artista diferente: Nete Beku Miyui / História de Nete Beku, de Abel Paulino Kaxinawa Bane; Kanapã Napaix Ani / História do relâmpago e do trovão, do pajé José Melo; Mexu Bini / História da chegada da noite, de Menegildo Isaka; Kapa Yuxibu / História do katipuru (esquilo) encantado, de Francilino Macário Kaxinawa Maya Huni Kuin; Yube Inu Dua Buse / História do Cipó, de Tatulino Macário Kaxinawá Ixã; Kuin Dume Teneni / História do dono do rapé, de Acelino Sales Tuin; Siriani / História do surgimento dos desenhos, de Iran Pinheiro Sales Bane; Basne Puru Yuxibu / História da aranha encantada, de Jaosni Sales Ixã. Essas peças têm origem no projeto Una Shubu Hiwea / Livro Escola Viva. Na cosmologia Huni Kuin, sua história é dividia em cinco tempos, que incluem períodos de grande violência, como o Tempo da Correria, em que a população foi reduzida a três centenas de indivíduos, e o Tempo do Cativeiro, em que tornaram-se reféns de seringueiros, extratores de látex na região. O período atual, Novo Tempo (Xinã Bena) conecta o repasse dos saberes ancestrais entre os mais velhos e as novas gerações às interações com a sociedade do século XXI. É nesse contexto que surge o projeto Una Shubu Hiwea - Livro Escola Viva, idealizado por lideranças dos territórios indígenas localizados nos rios Jordão e alto Tarauacá, no Acre, e coordenado pelo pajé Dua Buse. O programa visa o fortalecimento cultural e o estudo da medicina tradicional através da preservação de saberes ancestrais, da pesquisa da flora nativa e o estabelecimento de parques de plantas medicinais. Sua abordagem pedagógica, fundamentada na tradição oral e na convivência intergeracional, materializa-se em produções audiovisuais e impressas, encontros comunitários, exposições e na construção de uma sede educacional na aldeia Coração da Floresta. As pinturas em tecido que compõem Cipó são parte desta produção.
Pormenor da exposição Cipó, do coletivo Mahku – Movimento dos artistas Huni Kuin. © Cris Lucena / Cortesia MAR.
As três grandes paredes da sala ocupadas pela arte Huni Kuin envolvem o espectador de forma imersiva. Seu tamanho e a intensidade cromática geram uma sensação de completa absorção sensorial e vertigem. São obras inéditas pintadas com tinta acrílica diretamente sobre o concreto do museu [4]: Nai Mãpu Yubekã, de Ibã Sales Huni Kuin e Pedro Macário Mana; Txãi Puke Ruakē, de Ibã Sales Huni Kuin e Acelino Sales Huni Kuin; Yame Awa kawanai, de Ibã Sales Huni Kuin e Itamar Rios. A escolha da tinta acrílica reflete uma preocupação com a floresta; nas palavras de Ibã Huni Kuin [5]: “temos muitas tintas naturais, das flores, do urucum, da casca de mogno, da casca de aguano, mas ninguém as extrai. Nunca destruímos a terra. Então, decidimos usar mais acrílico para tela. Não conhecíamos esses materiais, porque eu não me formei na universidade, me formei dentro de mim mesmo”. Os três artistas integram o coletivo MAHKU. O MAHKU (Movimento dos Artistas Huni Kuin) nasceu na bacia do rio Jordão, Acre, no norte do Brasil. A gênese do grupo está profundamente associada à trajetória de seu fundador e líder, Ibã Huni Kuin — artista, educador, pesquisador e txana (mestre dos cantos) —, que iniciou um trabalho de preservação cultural a partir dos ensinamentos do seu pai, Tuin Huni Kuin, que tinha grande conhecimento sobre as cantorias Huni Meka: os cantos do cipó. No século XIX, a região do povo Huni Kuin (que ficou conhecido como Kaxinawá) foi palco do Ciclo da Borracha. O projeto extrativista dos seringais submeteu a população a um sistema escravocrata, em que sua língua e cultura eram proibidas. Preocupado com o risco de apagamento dos saberes orais entre as gerações mais jovens, Ibã dedicou-se durante anos a registrar os Huni Meka, até então transmitidos somente pela tradição oral. Ele relata que seu pai cantava apenas eventualmente, e de forma sigilosa [6]. Para aprofundar esses estudos tanto com os mais jovens, quanto com pessoas não indígenas — com aqueles que não obtinham conhecimentos através do Nixi Pae — Ibã e seu filho Bane Huni Kuin passaram a empregar o desenho e a pintura como ferramentas para materializar graficamente os mitos, as mirações e a experiência do Nixi Pae: “eu quero desenhar na música” [7], nas palavras de Ibã. Assim é originado o MAHKU, que, segundo Ibã, é a própria língua dos Huni Kuin. Com um fazer artístico focado sobretudo na pintura com tinta acrílica, o grupo atua como uma potente ponte pedagógica e intercultural, gerando renda para salvaguardar seu modo de vida e assegurar sua autonomia. Com o lema “vende tela, compra terra”, o coletivo reverte o valor gerado pela comercialização das obras à aquisição de áreas rurais vizinhas às reservas indígenas homologadas. De acordo com Norberto Sales Kaxinawá [8], essas terras sofrem com invasores, caçadores e pescadores, cuja presença não é autorizada pela comunidade. Além disso, a planta do Nixi Pae — o cipó que dá nome à exposição — está em progressiva escassez. Devido à ocupação de uma considerável parte do território do Acre por fazendas do agronegócio, a árvore é sistematicamente derrubada para dar lugar a atividades agrícolas e pecuárias. Assim, a compra de terras pelo MAHKU também tem como objetivo o reflorestamento e a retomada de territórios ancestrais. Ao “fazer material o imaterial”, expressão de Ibã [9], a arte Huni Kuin também atinge o próprio desenho geográfico, o ecossistema amazônico e os modos de ocupar esses espaços.
Isabel SteinÉ doutoranda em Estudos Artísticos na Universidade Nova de Lisboa. Mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ, integra os grupos de pesquisa Observatório de Estudos Visuais e Arqueologia dos Media (NOVA FCSH) e Imagem/Tempo (UFRJ). Sua investigação e prática centram-se na fotografia, explorando suas articulações com a história, a arte e a política. Tem participado de conferências e publicações acadêmicas sobre a imagem fotográfica. Além disso, desenvolve projetos curatoriais e artísticos, como a exposição Imagens intangíveis (2025) e a fundação do InterStruct Collective.
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Notas [1] Informações retiradas do livro Una Shubu Hiwea - Livro Escola Viva do Povo Huni Kuĩ do Rio Jordão (2017).
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