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TATIANA MACEDORADICAL GESTURESRIALTO6 Rua Conde Redondo 6, 1 andar 1150-105 Lisboa 02 JUL - 03 OUT 2026
Radical Gestures organiza-se em duas secções: uma «sala de projecção» em formato black box, onde é apresentada uma selecção dos filmes experimentais de Macedo, e um espaço aberto que acolhe novas instalações site-specific. As instalações são compostas por ecrãs individuais distribuídos pela sala, nos quais surgem planos aproximados de diferentes objectos, a par de registos de pés e mãos que executam pequenos gestos coreografados. O aspecto indeterminado dos objectos — um relógio de parede comum, um botão metálico, uma cadeira com um aspecto desconfortável — e as roupas e os sapatos, que se assemelham a um uniforme, situam a narrativa num contexto institucional liminar, enquanto uma das peças centrais — um vídeo de um cordão de veludo vermelho — aponta mais directamente para o contexto de um espaço cultural.
Vista da exposição de Tatiana Macedo, Radical Gestures. © Vasco Vilhena / Cortesia da artista e Rialto6.
Estas instalações vídeo decorrem da investigação desenvolvida por Macedo na Tate Modern e na Tate Britain, em Londres, em 2011, onde estudou o trabalho dos vigilantes de sala: pessoas cujo trabalho se define, em grande medida, pela sua presença no espaço e pelo acto de observar. Desta investigação resultou o primeiro filme de Macedo, Seems So Long Ago, Nancy (2012), também apresentado na sala de projecção da exposição. Tanto o filme como os vídeos individuais registam a passagem do tempo através de gestos subtis que permanecem para lá do visível no ambiente saturado de imagens de um museu: sombras à deriva, silhuetas fugazes de pessoas reflectidas em superfícies metálicas e o movimento discreto das mãos, dos pés e das pálpebras dos vigilantes. Da minha própria experiência enquanto vigilante de museu, recordo a mudança de atenção que muitas vezes ocorria ao longo de um turno, à medida que o olhar se cansava de um espaço que se tornara demasiado familiar. Subitamente, pequenos pormenores da sala começavam a destacar-se, e aquilo que antes fora visualmente insignificante passava a determinar o ambiente. Os filmes e as instalações de Tatiana parecem captar precisamente a forma como o mundo se apresenta de forma diferente através de um abrandamento radical da observação. Outra memória da minha experiência que ressurgiu perante as obras de Tatiana foi a dos pequenos rituais pessoais que inventava para me entreter durante os turnos e marcar a passagem das horas: contar de três em três, por exemplo, ou desenhar formas com a ponta do sapato. Eram formas de criar pequenas bolsas de liberdade e de espaço pessoal no interior do ambiente disciplinar da instituição, resistindo à condição foucaultiana do corpo dócil. Tatiana registou «rituais» semelhantes durante a sua investigação. Um deles — cantarolar mentalmente, em silêncio, a canção Seems So Long Ago, Nancy, de Leonard Cohen — que acabou mesmo por dar título ao filme. A exploração de Tatiana das formas como os corpos e o olhar respondem ao espaço e ao tempo prolonga-se na lógica operativa das suas instalações. À medida que se circula entre os vídeos, parando por vezes para os observar de perto, pode começar a sentir-se que o espaço envolvente se organiza segundo um certo ritmo. Esse ritmo emerge dos movimentos repetitivos dos vídeos, da dinâmica espacial entre os ecrãs e do som intenso de um sino de igreja que, a intervalos, atravessa o espaço. Gradualmente, o espaço passa do estático ao performativo, sugerindo um convite a seguir este ritmo e a desviar-se do movimento do corpo institucionalmente prescrito no interior de uma exposição de arte — talvez até através da dança. Radical Gestures foi concebido como um projecto que se desdobra em dois «actos». O primeiro reuniu a instalação de Tatiana e o seu filme Seems So Long Ago, Nancy, apresentado continuamente na sala de projecção, enquanto o segundo incluiu uma selecção mais ampla dos seus filmes, organizada em três «programas»: O Museu Corpo, A Cidade Proibida e Os Arquivos por ser, oferecendo uma visão abrangente da prática fílmica da artista. A própria artista dá à sala de projecção o nome CINEMA DE ARTISTA: UM CINEMA QUE SEJA SÓ SEU, numa referência a Virginia Woolf e à ideia de que dispor de um espaço próprio, físico e intelectual, pode tornar-se uma condição para a independência artística. Aqui, o filme surge como esse espaço, pertencente à própria Macedo: uma prática artística autónoma, informada não apenas pelo cinema enquanto meio, mas também pelo interesse de Macedo num «vocabulário transdisciplinar que incorpora cinema, teatro, música, pintura, dança, arquitectura, fotografia, performance e antropologia». [1] Ao percorrer os filmes de Tatiana, é possível continuar a identificar uma reflexão prática sobre as formas como os sistemas institucionais e os media ditam narrativas, formas e corpos. Se O Museu Corpo, que inclui Seems So Long Ago, Nancy, aborda as estruturas museológicas, A Cidade Proibida reúne filmes realizados por Macedo em Pequim que parecem interrogar a forma como um lugar desconhecido ou uma experiência humana podem ser representados, inclusive através da câmara. Os filmes apresentam cenas registadas sob diferentes restrições: a partir da janela de um hotel, através da janela de um automóvel, ou com o campo de visão interrompido por telhados ou por uma cortina de chuva — uma impossibilidade física de apreender uma imagem completa, «real». Uma sensibilidade semelhante emerge no filme dedicado à Praça Tiananmen e aos seus visitantes, também incluído no programa. Realizado no aniversário dos protestos de 1989, parece deixar por resolver uma certa distância entre a experiência vivida e a sua representação através do cinema. O programa Os Arquivos por ser, de Macedo, surge como uma investigação sobre a materialidade, de um arquivo ou de um livro. Reúne dois filmes: um resultante da sua residência em Bayreuth, onde investigou a colecção multidisciplinar de Ulli Beier conservada no Iwalewahaus, e da exposição que se seguiu; o outro, do seu trabalho a partir de um conto sobre um violinista, ilustrado com fotografias de grande formato e semelhante a um fotolivro. Em ambos os filmes, a câmara parece percorrer de muito perto as superfícies de vídeos de arquivo, documentos e discos de vinil, assim como as fotografias de um livro, evocando uma experiência corpórea, desfazendo a linearidade e sugerindo uma «leitura» alternativa das narrativas contidas no livro e no arquivo. O ponto de referência para o projecto expositivo de Macedo em Bayreuth foi Cosmococa/CC5 Hendrix-War (1973), de Hélio Oiticica e Neville D’Almeida, uma obra que dissolve as distinções entre cinema, instalação, som e experiência corporal. Esta recusa de categorias fixas encontra eco em toda a prática de Macedo, na qual as fronteiras entre meios, formas de conhecimento e modos de espectatorialidade são repetidamente desestabilizadas. Neste sentido, o gesto radical talvez resida precisamente em abrir as estruturas e as hierarquias que determinam a forma como as imagens são produzidas, experienciadas e compreendidas.
Katya Savchenko
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Notas [1] Tatiana Macedo, «Radical Gestures», Rialto6, Junho de 2026. Disponível aqui.
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