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PEDRO CABRITA REIS“COM O CORAÇÃO LIVRE DE CUIDADOS”MAAT Av. de Brasília, Central Tejo 1300-598 Lisboa 16 SET - 15 FEV 2027 Pedro Cabrita Reis entre a cor e a história no MAAT
E então ele disse para, da água e da terra, fazer emergir a força humana. Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias, vv. 60–62.
As palavras foram o meio que Hesíodo e Homero usaram para descrever os acontecimentos mais importantes do nascimento do mundo na cultura grega. É das palavras que se desprendem os deuses e os homens, as guerras e os mitos, os ciclopes e os desastres. Há, entretanto, outros meios de fazer surgir e ver: a cor, em sua potência, não habita as coisas: atravessa-as. Está no mundo como uma realidade anterior, que permite que as coisas venham à nossa visão. Por isso, entre contrastes e contornos, entre luz e transparência, a cor também ofereceu, na história da pintura, uma das formas visuais mais privilegiadas de acesso ao mundo invisível e espiritual. É esse poder da cor que atravessa a mais recente exposição de Pedro Cabrita Reis (1956), um dos mais reconhecidos artistas plásticos portugueses, com obras integradas em coleções nacionais e internacionais. O artista celebrou o seu 70º aniversário no MAAT com a sua primeira exposição individual no edifício à beira do Tejo, que também comemora os seus 10 anos em 2026. “Com o coração livre de cuidados” — frase que remete à obra de Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias — está patente de 16 de setembro de 2026 a 15 de fevereiro de 2027, com curadoria de João Pinharanda. A exposição, com quase 200 obras inéditas, evoca trabalho, mitologia grega e cristianismo em uma espécie de tríade do percurso do artista. Reúne esculturas e desenhos do artista, mas dedica especial atenção à sua pintura, onde a cor assume um papel proeminente. ** A arquitetura do MAAT é fundamental na forma e na experiência das exposições que abriga: a rampa que nos conduz em descida ao pavilhão principal tem funcionado como uma espécie de preâmbulo, dedicado à apresentação do artista. Neste caso, ao descer a rampa, encontramo-nos diante de autorretratos de Pedro Cabrita Reis (colagens, desenhos, fotografias), nos quais a sua imagem ao mesmo tempo se replica e se modifica, se traveste e se apresenta. Esse gesto indica desde logo o carácter celebratório da exposição, tanto no que diz respeito aos dez anos do museu como aos 70 anos do artista português. Assinala a sua importância para a história da arte portuguesa dos últimos anos e prepara-nos, em um gesto íntimo, para as pinturas colossais que nos aguardam alguns metros mais abaixo. ** Se as palavras se desprendem na mente de quem as lê, é sobre a madeira que Cabrita Reis desprende as cores da sua pintura, que se voltam para nós como uma visão. Numa série pintada com uma esfregona sobre madeira, intitulada Nenúfares, Cabrita Reis põe-nos à escuta do seu diálogo com Monet, o mestre do impressionismo francês. Se a esfregona é uma questão prática ou conceptual, é difícil dizer. Para além de um instrumento de trabalho cíclico, que não promete a durabilidade arquitetônica dos edifícios, mas a limpeza necessária dos dias, a esfregona é um símbolo do trabalho desvalorizado e necessário para que o mundo gire. Nesse inverter de instrumentos, Cabrita Reis relê os Nenúfares do pintor francês em um exercício que radicaliza a abstração. Se, por um lado, a cor dá contornos e evidencia contrastes, por outro, entrelaça e borra limites. É ela que, transcendendo a materialidade das formas, pode atingir-nos sensível e espiritualmente, em uma comunicação que prescinde de palavras. É precisamente nesse espaço que se situam as pinturas de Cabrita Reis: com a cor, o artista não enlaça uma coisa à outra, mas dissolve as propriedades do objeto e da origem, chegando a uma abstração quase total dos nenúfares do pintor francês. Deixa-nos assim diante do exercício quase puro da cor. Nessa abstração conquistada, a presença de Monet é sentida como uma lembrança longínqua que reluz parcamente na memória. O exercício desta primeira série atinge assim o seu apogeu etimológico: abstrai: extrai, puxa, arranca uma coisa daquilo a que estava ligada, até que as pinturas à nossa frente se apresentam com uma espécie de lonjura, em que nos custa lembrar do que se trata, ainda que o saibamos perfeitamente. Nesse sentido, a esfregona pode ser lida como uma figura até emblemática, uma vez que a pintura nasce de um instrumento feito para limpar: pinta como quem também apaga, apaga como quem também pinta. Sem que a exposição o afirme, poderíamos dizer que há uma aproximação à metafísica, conquistada pelo uso da cor — o que aproxima a exposição do sagrado tanto pelos temas que se seguem quanto pelo método de abstração e de profanação dos contornos. Procurando tocar, com a ponta dos dedos, Monet e El Greco, Cabrita Reis parece ter alcançado, com a esfregona, a metafísica da cor e da transparência. Esse gesto ganha um fôlego épico no quadro Doppia Pietà, no pavilhão interno: uma obra que se divide e reúne em três e que dificilmente ganhará outro sentido que não o do maravilhoso. Em uma paisagem de cor e escuridão, com os braços erguidos num suplício que esconde e revela, ao fundo, o recolhimento maternal, a peça é ao mesmo tempo obscura e viva, numa tensão bem estabelecida entre a vida e a morte. É a obra principal do pavilhão interno e quiçá da exposição, e funciona como uma espécie de clímax da potência da cor no reposicionamento de uma espiritualidade já mais figurada em diálogo com temas clássicos do cristianismo e da história da arte. A partir da Doppia Pietà, as pinturas se modificam: a cor e a transparência dão lugar ao exercício de contornos e movimentos e ao uso de cores mais escuras, em que as figuras não só emergem com maior nitidez como muitas vezes já estão lá desde o princípio — como é o caso de Adão e Eva. Uma certa atmosfera barroca marca o pavilhão interno, sobretudo devido às treze pinturas de Cristo e dos doze apóstolos, declaradamente inspiradas em El Greco, que pintou, entre 1608 e 1614, treze telas retratando Cristo e os seus seguidores. Essas pinturas de Cabrita Reis seguem a mesma premissa da série Nenúfares: uma desfiguração das figuras, um borrar dos contornos, uma leitura que deslê. Trata-se de um exercício de diálogo, de inspiração e talvez de posicionamento diante da tradição, em que o seu uso da cor não opera como contorno, mas como dissolução. A temática religiosa está largamente presente na exposição, evidenciada na escultura Croce, em alumínio e pedra, que liga o cristianismo mais claramente ao mundo do trabalho, ao lado de 3=1, três estruturas de alumínio que também conectam uma especulação sobre o dogma da Santíssima Trindade à materialidade industrial. A exposição conta ainda com uma série de desenhos eróticos (Le Musée Secret) que Cabrita Reis fez em homenagem a Auguste Rodin. ** As exposições individuais com forte componente biográfica são um desafio delicado e podem, em particular, tornar-se confusas, ainda mais tratando-se de um artista virtuoso, capaz de ir a toda a parte. Ao atravessar diferentes caminhos e formas, a pluralidade da sua obra dificulta a construção de uma linha narrativa que a costure como um todo. Os temas do cristianismo, associados ao trabalho, evidenciam-se: as esculturas Croce e 3=1, a presença de Cristo e dos doze apóstolos no Apostolado, a Doppia Pietà, o tríptico Adam and Eve (revised) e a série Ecce Homo são sinais do interesse do artista português pelo universo do cristianismo e também da influência da cultura cristã no seu trabalho e, de maneira mais geral, na história da arte. Mas se a tríade trabalho, mitologia e cristianismo confere alguma unidade ao conjunto, as pinturas e o exercício de diálogo com os mestres da história da arte operam em outro sentido, e não é claro o papel que desempenham na exposição. Poderíamos entendê-los como parte de um exercício de repetição e diferença, buscando evidenciar em que medida o estilo do artista mantém e modifica os temas, as formas e os métodos desses pintores. Mas os diálogos parecem funcionar sobretudo como referências que compõem o universo do artista, sem chegar a revelar um método ou forma pessoal. O emaranhado de meios, nesse sentido, aludindo à polifonia que marca o seu trabalho, faz nascer uma exposição sobretudo biográfica, que remete à história do artista sem recorrer a marcos temporais, mas sim a uma espécie de universo de afinidades eletivas. ** Entretanto, o uso que Cabrita Reis faz da cor e da transparência — na série Nenúfares, na Doppia Pietà, em Adam and Eve (revised) e noutras obras — remete-nos ao poder da cor na história da pintura e à sua particularidade de acesso às formas sensíveis do mundo invisível. “Uma cor, diz Whitehead, é eterna. Assombra o tempo como um fantasma. Ao contrário dos objetos dotados de permanência, a cor vai e vem — mas, onde quer que apareça, é sempre a mesma cor.” É por isso que ela pode ser vista como uma forma de aproximação do sagrado: não enquanto tema, mas enquanto matéria. Se Cézanne partia da natureza e caminhava, pela cor, em direção à forma, Cabrita Reis aqui parece mostrar-nos o inverso: partindo de formas mais ou menos plenas, dissolve-as na cor, devolvendo-as a um estado anterior à sua fixação. Remete, neste sentido, a essa espécie de caos primordial que marca o surgimento das formas. Em “com o coração livre de cuidados”, a cor não serve para estabelecer com clareza os contornos das formas, como quando o verde é usado para fazer sobressair o vermelho e o vermelho o verde. Ela funciona, antes, como uma espécie de assentamento: um fundo de onde as formas podem surgir, mais do que um instrumento que as delimita. É aqui, e não tanto nas temáticas religiosas, que o sagrado poderia ser buscado: no uso da cor como via de passagem do invisível ao visível, em que os contornos e as figuras são dissolvidos e reencontrados em um fundo de paixões e temperamentos, de eternidade e mutação, em estados íntimos ou místicos. Em nenhum lugar isso é tão evidente como no fim do percurso. À saída da exposição, à esquerda, ao contrário das colagens e fotografias, encontram-se as últimas obras pictóricas de Cabrita Reis: figuras que emergem ou assombram como espíritos sobre um fundo de cor. São obras em que corpos surgem em forma sugerida, nascidos não como objetos imersos, mas como objetos emergidos da cor em nascimento e sugestão. É do próprio amarelo terroso, da própria escuridão, do próprio vermelho que surgem os corpos. Em Os Trabalhos e os Dias, a primeira mulher, Pandora, é modelada por Hefesto, o deus artesão, a partir da terra e da água. Na origem do humano está já o gesto de um artífice, e as figuras que Cabrita Reis faz emergir da cor guardam qualquer coisa desse duplo estatuto: nascem e são fabricadas, surgem do fundo e são trazidas à forma pela mão. Nesse sentido, estas pinturas retomam Hesíodo, que dá nome à exposição: o humano que nasce e surge de um fundo já assentado, inextricavelmente ligado àquilo que já ali estava. As figuras emergem da terra, da água e do fogo, conquistando seus contornos por meio de um delicado equilíbrio entre contraste e transparência. Aqui o coração já não vai livre de cuidados: longe de uma vida anterior ao trabalho, a mão e o labor voltam a originar os homens.
Mariana Varela
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| MARIANA VARELA |

























