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MARIA TRABULOWINE-DARK SEAGALERIA PRESENÇA (PORTO) Rua Miguel Bombarda, 570 4050-379 Porto 19 SET - 07 NOV 2026 Um mar que não se encerra numa só cor
No seu mais recente trabalho, desenvolvido em diversas zonas costeiras e apresentado na exposição “Wine-Dark Sea” na Galeria Presença, Maria Trabulo reflete sobre a perceção, a experiência humana e as dimensões sociais e políticas associadas ao mar. Sobre a cor da água questionou pescadores, em Creta, trabalhadores e ocupantes de centros de migrantes na Calábria, ativistas ambientais e climáticos e um oceanógrafo, em Aljezur. Mais recentemente, numa residência artística nas Ilhas de Salina e de Lipari, conversou também com arqueólogos, geólogos e sismógrafos que trabalhavam em escavações associadas a navios dos períodos romano e helénico. As respostas foram esclarecedoras e reveladoras não só das diferentes particularidades geográficas, mas também das aceções, vivências e experiências de cada um dos interlocutores. Por exemplo, um pescador grego descreveu a cor do mar como sendo branca, reportando-se especificamente às ondas da rebentação. Já alguém que atravesse o Mediterrâneo, nomeadamente entre a Líbia e a Calábria, encontrará um mar negro de um lado e azul do outro. Atracando na Sicília, surgem as águas cristalinas cujos tons vão do azul-turquesa ao verde-esmeralda. Em Aljezur, a corrente das Canárias inscreve tons verdes e turquesa, mas a atmosfera do Norte de África e as suas partículas de areia tornam as águas mais turvas e acinzentadas. Esses e inúmeros outros tons que o mar assume funcionaram como referências para Maria Trabulo. Telas, superfícies cromáticas, cordas e redes organizam-se entre horizontalidade e verticalidade, exigindo ora proximidade, para a percepção de todos os seus pormenores, ora afastamento, para a sua recepção global, completa. Todos os objetos carregam, assim, densidade simbólica. Por exemplo, “1500 Meters Deep”, uma peça composta por uma corda náutica moldada em sal, embora consista numa forma delicada, leve e harmoniosa, transporta, em si, o peso de travessias e viagens. Nesta e noutras peças, a artista transforma água, sal e tecido numa reflexão sobre a instabilidade que define os mares, lugares que funcionam como fronteiras de separação e, simultaneamente, como espaços de encontro e união. Deste modo, experiências e recordações passam de testemunhos, palavras e sentimentos a matérias, formas e objetos. Na obra da artista, o oceano não surge, portanto, como paisagem, mas antes desenvolve-se e apresenta-se como um conjunto ou uma rede de ações, memórias, histórias, deslocações e relações políticas. Maria Trabulo debruça-se, precisamente, sobre questões da geopolítica, área que a interessa e preocupa. E sendo o mar um território onde a circulação é vigiada e hierarquizada, reside aí uma dimensão política do seu trabalho. A artista torna sensível a distância entre a promessa de um espaço comum e a desigualdade efetiva do direito à mobilidade. A própria exposição, embora serena e harmoniosa, destaca a tensão do mar político. Já o sal liga-se à memória e ao esquecimento, à preservação e à perda. Nas superfícies de algodão e linho, são visíveis as marcas e os cristais deixados pela água salgada que foi recolhida nos diferentes lugares por onde a artista esteve. No chão da galeria, aos pés de quase todas as obras, distribuem-se cerca de 800 quilos de sal. Também ele, tal como o mar, tanto une, como separa. Enquanto agente de conservação e, ao mesmo tempo, de corrosão, o sal interfere e atua autonomamente sob as obras. Cada superfície resulta, então, do encontro entre intenção e contingência, propósito e acaso, gesto humano e ação da matéria. Será também importante mencionar que o título “Wine-Dark Sea” tem origem no grego antigo, οἶνοψ πόντος, oînops póntos, expressão cunhada por Homero em “A Ilíada” e “A Odisseia”. A palavra reúne “oînos”, vinho, e “ops”, olho, face ou aparência, significando, literalmente, "com aparência de vinho" ou "com rosto de vinho". No século XIX, o político e primeiro-ministro do Reino Unido, William Gladstone, sugeriu que os gregos da Antiguidade organizavam as cores por tom, brilho e escuridão, ao invés do matiz, e que o mar profundo teria uma intensidade escura semelhante à do vinho. Mais recentemente, a expressão costuma ser utilizada para falar de um mar tempestuoso ou agitado, ilustrando a textura e a escuridão da água em movimento, ao invés de um tom de azul. Ora, também na obra de Maria Trabulo a cor existe enquanto construção cultural, política e afetiva, definida pelas experiências que lhe dão sentido. A partir de “Wine-Dark Sea”, entendemos que nada é neutro, inalterável e encerrado no visível. Talvez a pergunta “de que cor é o mar?” não procure, afinal, uma cor. Talvez nos sugira reconsiderar e refletir sobre o lugar a partir do qual olhamos, aquele para onde olhamos, o que vemos e, no limite, ainda aquilo que não conseguimos ver.
Constança Babo(Porto, 1992) é crítica de arte e membro da AICA Portugal. É doutorada em Arte dos Media e Comunicação pela Universidade Lusófona, mestre em Estudos Artísticos - Teoria e Crítica de Arte, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, e licenciada em Artes Visuais - Fotografia, pela Escola Superior Artística do Porto. Realizou, igualmente, os cursos Curating New Media Art e Redefining Museums: Curatorial Theory and Practice for a New Era, no Node Center – Curatorial Studies Online, e Questions of Judgement, na Universitat der Kunst Berlin. Foi research fellow no projeto internacional BEYOND MATTER, no Zentrum fur Kunst und Medien Karlsruhe, e colaborou como investigadora no projeto MODINA, na Tallinn University. Também publica artigos científicos.
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