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LEILOEIRA CHRISTIE’S DECIDE QUE CULTURA POP ESTÁ PRONTA PARA ENTRAR NA PRIMEIRA DIVISÃO

2026-09-24




A Christies’s confirmou na quarta-feira o lançamento de uma divisão dedicada à cultura pop, uma nova operação global que realizará anualmente vários leilões, abrangendo cinema e televisão, música e instrumentos musicais, memorabilia desportiva, ciência e tecnologia, história natural, moda e design popular. Josh Benesh, antigo executivo da Heritage Auctions que se juntou à Christie’s como consultor no início deste ano, foi nomeado para liderar a divisão como seu diretor global, com sede em Nova Iorque.

A iniciativa surge após anos de avaliação do interesse da Christie’s pela categoria, mais recentemente com a estrondosa venda da coleção do proprietário dos Indianapolis Colts, Jim Irsay. Ao longo de cinco leilões este ano, a Christie’s vendeu 404 lotes do vasto espólio de memorabilia musical, desportiva e histórica de Irsay por 105,3 milhões de dólares, o que, segundo a leiloeira, representa o valor mais elevado alguma vez alcançado por uma coleção de memorabilia.

“Temos estado a testar este mercado”, disse a diretora executiva da Christie’s, Bonnie Brennan, na quarta-feira, durante uma conversa com Marion Maneker, da revista Puck, na conferência Art of Influence da publicação, em Nova Iorque, onde anunciou a nova divisão. “Acreditamos que este momento atingiu um nível de maturidade que nos permite investir de facto.”

A Christie’s não é uma estreante na venda de coleções e objetos pessoais de celebridades. Entre os seus anteriores consignados, encontram-se as coleções de Elizabeth Taylor, Audrey Hepburn, Elton John, George Michael, Mark Knopfler e David Gilmour. A novidade reside na decisão de reunir este negócio num departamento global permanente, algo que vários concorrentes da Christie’s já fizeram.

A Sotheby’s criou um departamento dedicado à Ciência e Cultura Popular em 2021 sob a liderança de Cassandra Hatton, que já tinha trabalhado em leilões dedicados à exploração espacial, ciência e tecnologia, história natural e hip-hop após se ter juntado à empresa em 2016. No ano passado, Ralph De Luca, consultor de arte, juntou-se à Sotheby’s como vice-presidente de cultura pop; no entanto, a sua permanência foi curta, pois deixou a casa discretamente passado um ano.

Durante o painel, Brennan afirmou que a Christie’s não tem interesse em competir pelo volume puro. "Não queremos ser os maiores", disse ela. Em vez disso, a leiloeira pretende concentrar-se em objetos com origem e significado cultural que possam beneficiar da estrutura narrativa que aplica às belas-artes e às grandes coleções de um único proprietário.

Para este efeito, a coleção Irsay ofereceu um caso de teste quase ideal. Irsay, que faleceu no ano passado, passou décadas a reunir uma coleção que ia desde documentos presidenciais e o manuscrito original de Jack Kerouac para “On the Road” até algumas das guitarras mais famosas da história do rock. Os primeiros quatro leilões, em março, arrecadaram 94,5 milhões de dólares e tiveram 100% dos lotes vendidos, estabelecendo 28 recordes de leilão. Uma venda final em julho elevou o total para mais de 105 milhões de dólares.

A coleção incluía a famosa "Black Strat" ​​de David Gilmour, guitarrista principal dos Pink Floyd, que foi vendida por 14,5 milhões de dólares e se tornou a guitarra mais cara alguma vez vendida em leilão, além da "Tiger" de Jerry Garcia, vocalista dos Grateful Dead, e da Fender Mustang tocada por Kurt Cobain, dos Nirvana, no videoclipe de "Smells Like Teen Spirit".

Benesh, o líder da nova divisão, disse à ARTnews por e-mail que o leilão da colecção Irsay foi "uma prova de conceito convincente", mas que as discussões sobre a criação de um negócio dedicado à cultura pop já tinham começado muito antes da colecção ser arrematada.

Para Brennan, a importância do leilão ia para além do seu valor total. "Estava sentada na sala do leilão Jim Irsay, e foi uma experiência como nunca tinha visto", disse. Os compradores estavam a "dar palmadas nas costas uns dos outros", recordou ela, e abraçavam-se depois de arrematarem vários lotes. "Não havia melhor exemplo de como um leilão pode criar comunidade do que aquele."

A Christie's já tinha observado sinais deste público antes. No palco da conferência, Brennan recordou o leilão da coleção de guitarras de Gilmour em 2019, quando a avalanche de licitações online se tornou tão intensa que o sistema da casa de leilões caiu e a venda teve de ser adiada. "Há uma procura real, e precisamos de a satisfazer", disse Brennan.

Esta procura alinha-se com um esforço maior da Christie’s para utilizar os leilões como forma de atrair colecionadores que podem não se considerar compradores de arte tradicional. No início da conversa de terça-feira, Brennan descreveu a entrada de clientes mais jovens e novos no mercado secundário como uma preocupação existencial para a casa de leilões com 260 anos.

"Se não convidarmos as pessoas, se não fizermos com que a próxima geração sinta que a Christie's é um lugar para elas, morremos", disse ela.

Os artigos de luxo já provaram o seu valor para a Christie's, onde relógios, joias, bolsas e vinhos podem oferecer uma porta de entrada relativamente familiar para uma instituição que, de outra forma, pode parecer intimidante. Brennan afirmou que 75% das licitações nos leilões de luxo da Christie’s chegam agora através das suas ferramentas online.

A cultura pop oferece outra via de acesso, com objetos cuja importância dispensa, muitas vezes, apresentações a um potencial comprador. O maior objetivo é acompanhar os colecionadores em diversas categorias. "Os colecionadores raramente se limitam a uma única categoria", disse Benesh. "Observámos uma enorme conversão, mas isto funciona nos dois sentidos. Os nossos clientes de arte estão igualmente entusiasmados com estas oportunidades."


Fonte: ARTnews