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AS 382 “CARTAS DE AMARNA” COM 3000 ANOS QUE REDEFINIRAM O LUGAR DO ANTIGO EGIPTO NO MUNDO2025-12-08Quando as Cartas de Amarna foram descobertas no Egipto, muitos estudiosos pensaram que eram falsas. Não foram escritas em papiro, mas sim em tábuas de argila — um material que não era utilizado na região. Também não foram escritas em egípcio antigo, mas sim numa versão cuneiforme do acádio, língua falada pelas civilizações vizinhas como os assírios e os babilónios. Embora encontradas e batizadas em homenagem à antiga cidade egípcia de Amarna ou Akhetaten, estas tábuas não tiveram origem na terra dos faraós. Como indicam o material e o sistema de escrita, as suas mensagens foram compostas noutro lugar — nas cortes dos governantes vassalos e dos reis rivais. Cada uma era dirigida ao chefe do Estado egípcio, apontando para a existência de uma vasta e sofisticada rede diplomática. A maioria das 382 Cartas de Amarna descobertas até ao momento datam do século XIV a.C., um período singular na história do Antigo Egito, quando o faraó Amenófis IV transferiu a sua corte de Tebas para Amarna, uma cidade dedicada à divindade solar Áton. A mudança teve um significado religioso, pois Amenófis procurou distinguir Áton — com quem se identificava pessoalmente, mudando o seu nome para Aquenáton no início do seu reinado — dos outros deuses e deusas que compunham o panteão egípcio. Com excepção das inscrições de algumas dezenas de mitos, epopeias e silabários — utilizados, presumivelmente, como material de treino para os escribas reais — a maioria das Cartas de Amarna são, bem, cartas. A maioria delas foi escrita em nome de senhores vassalos que governavam cidades e pequenos reinos em nome do faraó, e comunicavam assuntos relacionados com o comércio e a administração local aos seus superiores. Indicando a sua posição, os seus autores dirigem-se ao faraó como “meu senhor” e “o Sol”, referindo-se a si próprios como seus servos. “Prostro-me a seus pés sete vezes seguidas”, diz uma carta de Abi-milku de Tiro, que escreveu para informar o seu superior sobre uma aparente operação militar. “O que o rei, meu senhor, ordenou, eu fiz. Toda a terra teme as tropas do rei, meu senhor”. Algumas cartas foram escritas não por subordinados do faraó, mas pelos seus iguais: reis rivais que presidiam a vastos e poderosos impérios. Em consonância com o poder das suas posições, estes autores eram menos deferentes no tom, dirigindo-se geralmente ao faraó por “irmão”. Não tratam de disputas, mas anunciam presentes e propostas de casamento reais. “Não demores o mensageiro que enviei para uma visita”, lê-se numa carta de Assur-uballit I, o primeiro rei do Império Assírio Médio. “Ele devia visitar e depois partir para aqui. Ele devia ver como és e como é a tua terra, e depois partir para aqui.” Como salientado pelo Metropolitan Museum of Art num artigo, as Cartas de Amarna parecem ter tido um propósito tanto prático como cerimonial. Não eram lidas, mas sim proferidas em voz alta como parte de rituais da corte, e os seus tamanhos, formatos e cores variados sugerem que os governantes utilizavam modelos personalizados. As razões para a sua excelente preservação podem ter sido tanto práticas como cerimoniais. Em primeiro lugar, as cartas — algumas das quais parecem ter sido transferidas entre diferentes ficheiros ao longo do tempo — foram provavelmente armazenadas para manter um registo de apelos, convites e subornos para uso futuro. Ao mesmo tempo, as mensagens — muitas delas recordações de parentes queridos ou estimados — podem ter sido guardadas também pelo seu valor sentimental e estatuto. Hoje, as Cartas de Amarna são, acima de tudo, lembretes de um sistema sem precedentes de relações geopolíticas baseado num conjunto de regras e costumes codificados. Fonte: Artnet News |













