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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Damien Hirst, Father (Divided) (2011–12). Vista da exposição Vexation of Spirit, Museu de Serralves. © nvstudio


Hermann Nitsch, Oedipus Christus (1981). Vista da exposição Vexation of Spirit, Museu de Serralves. © nvstudio


Hermann Nitsch, Grazer Raum (1987). Vista da exposição Vexation of Spirit, Museu de Serralves. © nvstudio


Hermann Nitsch, Grazer Raum (1987) [Pormenor]. Vista da exposição Vexation of Spirit, Museu de Serralves. © nvstudio


À esquerda, Michael Landy Christ, Driving the Traders from the Temple (2010); à direita, Theaster Gates, Painting Black With Kettle (2012). Museu de Serralves. © nvstudio


Theaster Gates, Painting Black With Kettle (2012). Vista da exposição Vexation of Spirit, Museu de Serralves. © nvstudio


Theaster Gates, Painting Black With Kettle (2012). Vista da exposição Vexation of Spirit, Museu de Serralves. © nvstudio


Theaster Gates, Black Library (2012). Vista da exposição Vexation of Spirit, Museu de Serralves. © nvstudio


Na parede, Gilbert & George, Money First (2011) e Attack Straight (2011). Ao centro, Michael Landy Saint Jerome (2012). Museu de Serralves. © nvstudio


Vista da exposição Vexation of Spirit, Museu de Serralves. © nvstudio


Stefan Hunstein, Obersalzberg (Berghof) 1930 (1994). Vista da exposição Vexation of Spirit, Museu de Serralves. © nvstudio


Georg Baselitz, Kopf (1960), Rayski-Kopf (1960), Kopf anthropomorph (1960), Kopf (1960), Ferd. v. Rayski (1960). Museu de Serralves. © nvstudio


Jake e Dinos Chapman, The Milk of Human Weakness IV (2011). Vista da exposição Vexation of Spirit, Museu de Serralves. © nvstudio


À esquerda, Damien Hirst, How Did We Lose Our Way? (2009); À direita, Raoef Mamedov, The Last Supper (1997/2025); Ao fundo, Sam Taylor-Johnson, Pietà (2001). © nvstudio


Ao centro, Anselm Kiefer, Hortus Philosophorum (2007). Vista da exposição Vexation of Spirit, Museu de Serralves. © nvstudio


Anselm Kiefer, Dat Rosa Miel Apibus (2010–11). Vista da exposição Vexation of Spirit, Museu de Serralves. © nvstudio


À direita, Zhang Huan, 1959 National Day (2010). Vista da exposição Vexation of Spirit, Museu de Serralves. © nvstudio


Damien Hirst, The Martyrdom of Saint Jude (2002–03). Vista da exposição Vexation of Spirit, Museu de Serralves. © nvstudio


Sala dos desenhos. Vista da exposição Vexation of Spirit, Museu de Serralves. © nvstudio


À esquerda, Haralampi G. Oroschakoff, War (1984–92); ao fundo, Jake e Dinos Chapman, Unholy Trinity (2003). Vista da exposição Vexation of Spirit, Museu de Serralves. © nvstudio


À esquerda, Georg Baselitz, Blondes Mädchen kommt – Wilhelm (1984/87); Ao fundo, Jake e Dinos Chapman Unholy McTrinity (2003). Museu de Serralves. © nvstudio


Vista da exposição Vexation of Spirit, Museu de Serralves. © nvstudio


Jake e Dinos Chapman, The End of Fun (2010). Vista da exposição Vexation of Spirit, Museu de Serralves. © nvstudio


Jake e Dinos Chapman, The End of Fun (2010) [Pormenor]. Vista da exposição Vexation of Spirit, Museu de Serralves. © nvstudio


Jake e Dinos Chapman What the Hell (2000). Vista da exposição Vexation of Spirit, Museu de Serralves. © nvstudio

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THE DUERCKHEIM COLLECTION X SERRALVES

VEXATION OF SPIRIT




MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua D. João de Castro, 210
4150-417 Porto

15 MAI - 01 NOV 2026


 

 

Não quero divertir-vos, quero despertar-vos! É com esta afirmação, em forma de aviso, proferida por Christian Duerckheim (1944), durante a conferência de imprensa da exposição Vexation of Spirit. The Duerckheim Collection x Serralves [1], que o colecionador alemão sublinha a real intenção da mostra patente no Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Num convite à reflexão do público sobre a urgência e complexidade da História atual, as cerca de noventa obras de trinta e quatro artistas poderão, segundo o colecionador: ajudar a fornecer uma orientação sobre os riscos e perigos que enfrentamos.

Fazendo jus ao título Vexation of Spirit, em português Aflição de espírito, escolhido por Christian Duerckheim e proveniente do livro de Eclesiastes, texto sagrado da Bíblia Hebraica, há uma sensação de constrangimento e de inquietude que nos acompanha ao longo dos quatro núcleos que compõem a mostra; uma aflição que, no domínio da teologia cristã, se associa a tormentos e agressões infligidas pelo demónio, e que as obras em exibição nos relembram serem resultado do próprio Homem.

A provocação e o confronto com o público, inicia-se no hall de entrada do museu com What Goes Around Comes Around (2004) de Damien Hirst, onde em vitrines – próprias de museus de história natural – contemplamos a morte e diferentes fases da existência, ao observarmos peixes conservados em formol e os seus esqueletos. Estado de morte e suspensão temporal, que reencontramos em Father Divided (2011-12), do mesmo artista e cuja conceção cenográfica nos induz a atravessar por entre dois tanques, cada um contendo a metade de um mesmo touro. Entre o corpo do animal, que não entra em decomposição, contemplamos as vísceras e vivenciamos o Ritual do Bezerro descrito no Livro de Jeremias, do Antigo Testamento: as partes que estabelecem uma aliança caminham no meio de um bezerro cortado ao meio, simbolizando que o mesmo lhes acontecerá se quebrarem a palavra. Questionado sobre a obra, o colecionador responde com humor e ironia: É Trump! Mostra que é preciso cumprir o que se promete.

 

Hermann Nitsch, Grazer Raum (1987). Vista da exposição Vexation of Spirit. The Duerckheim Collection x Serralves. Museu de Serralves. © nvstudio

 

Próxima, numa fusão entre sagrado e profano, Grazer Raum (1987) de Hermann Nitsch, amostra de uma das action performances, que numa referência eucarística e aludindo ao sacrifício cristão oferece-nos uma pequena capela dominada pela cor vermelha – de tinta acrílica e de sangue – enquanto expressão ritualística e visceral. Na mesma sala, o artista concetual suíço Rémy Zaugg questiona e apela ao cuidado e à perceção visual do espectador por meio da cor com Quadriptychon (1976-79/1988), três pinturas brancas dispostas contra uma parede igualmente branca. Pequenas variações entre as telas, as suas texturas e pigmentos, incitam à proximidade do espectador com a obra, à observação atenta da mesma e ao seu modo de instalação, revelando-se ironicamente um espaço vazio na parede para uma “quarta” pintura-fantasma. Em diálogo e contrastando com a “pureza” dos diversos tons de branco das telas anteriores, observamos o negro do alcatrão em Painting Black With Kettle (2012) de Theaster Gates, numa intervenção carregada de conotações sociopolíticas e históricas.

Do núcleo dedicado à Religião, fator determinante da história humana, seguimos para o segundo momento expositivo, Sociedade, embora e conforme nos relembra Marta Moreira de Almeida, curadora da exposição, seja impossível desassociar os temas. Estando a sociedade estruturada pela religião, é neste conjunto que se apresenta Flesh (1990) de Antony Gormley, escultura em betão de dimensão humana e em forma de cruz que, sobre o chão, sugere a presença de um corpo no momento anterior ao da crucificação.

 

Antony Gormley, Flesh (1990). Vista da exposição Vexation of Spirit. The Duerckheim Collection x Serralves. Museu de Serralves. © nvstudio

 

A abrir o núcleo dedicado à Sociedade, a chamada de atenção de Zaugg Olha, eu estou cego, olha, leva-nos a refletir com recurso à linguagem – a ironia da contradição no início e final da frase – e à cor sobre a visão ou a falta dela. Descemos a rampa do museu e deparam-nos com Black Library (2012) do artista e ativista Austin Gate que, ao estudar e enaltecendo o trabalho desenvolvido pela comunidade negra norte-americana, apresenta uma biblioteca de 300 livros – entre exemplares de história da arte, literatura, religião, política ou filosofia – provenientes de uma editora de Chicago que se dedica à valorização da cultura negra. Ocupando um lugar de destaque, Money First e Attack Straight, pertencentes à série The London Pictures (2011), da dupla Gilbert & George, tratam-se de autênticos estudos sociológicos e grandiosos inventários realizados a partir de títulos e imagens provenientes de jornais, tabloides e cartazes londrinos.

No campo da fotografia, destaque para Obersalzberg (Berghof)1930 (1994), de Stefan Hustein, que ao apropriar-se de um conjunto de imagens captadas por Heinrich Hoffman a Adolf Hitler na sua residência de férias na Baviera, e que ampliando-as ao máximo, tornando-as quase abstratas, revela fragmentos de imagens de veraneio – montanhas, piscina, guarda-sóis e um homem de costas a ler um jornal – levando-nos a questionar a imagem de um ditador. Jogo de ampliação exagerada, sobrecarregando-se o significado do que a imagem pode conter, que reencontramos numa outra obra do artista. De forte cariz político e abrindo o núcleo Guerra, observamos a queda de um corpo, sem imaginarmos a seriedade do momento histórico retratado: a ampliação de Hustein é resultado da apropriação da imagem factual de alguém que, num momento de desespero, saltou o Muro de Berlim tentando atravessá-lo para o lado ocidental.

A reflexão sobre os últimos oitenta anos da História recente, o seu peso e rememoração, prosseguem nas restantes obras que compõem os dois últimos núcleos da exposição: Guerra e Vexação. Lançando-nos num debate sobre o dever histórico, desde o final da Segunda Guerra Mundial, são-nos reveladas peças que presentificam os destroços da guerra, a ruína e o que delas pode renascer. Conduzindo-nos numa reflexão sobre regimes totalitaristas em que o século XX e XXI viveu e está a viver, as três obras de Anselm Kiefer e Zhang Huan, despertam a nossa atenção pelo carácter sombrio, escala monumental e impacto visual. Ocupando a totalidade de uma das paredes da sala de exposições a grandiosa instalação Dat Rosa Miel Aplbus (2010-2011) – doada à coleção de Serralves – recria o cenário do Aeroporto Tempelhof (Berlim), criado em 1927 como porta de entrada para a conquista da Europa e símbolo da Germânia que Hitler queria construir. A carga de destruição e ruína que envolve a obra é conseguida através da paleta cromática, dominada por tons ocres e cinzas e pelos materiais, em particular o chumbo cuja capacidade de se transformar expressa um desejo de renovação. A pontuar a obra, destaque para pequenos aviões abatidos em combate e a presença de girassóis queimados, os mesmo que reencontramos em Hortus Pilosophorum (2007) e que dispostos no chão da sala, juntamente com fragmentos de livros queimados – alusão ao conhecimento, sabedoria e história – relembram-nos a capacidade de regeneração e renovação da flor através das suas sementes, a esperança em momentos de destruição. Esperança que, de forma velada, encontramos na enorme pintura sobre linho de Zhang Huan, cujo título 1959 National Day (2010) e imagem retratada, remetem para a celebração do 1 de outubro na Praça Tiananmen e para o poder da China Maoísta. Numa interessante articulação com o facto histórico, ao utilizar cinzas de incenso recolhidas em templos budistas de Xangai o artista traz esperança e devoção espiritual à composição.

 

Haralampi G. Oroschakoff, Drama Lenin (1998). Vista da exposição Vexation of Spirit. The Duerckheim Collection x Serralves. Museu de Serralves. © nvstudio

 

Num outro espaço da mesma sala, como que escondidos e antecedendo o núcleo Vexação, apresentam-se três retratos de Lenine – segundo diferentes estilos e visões de Oroschakoff, Georg Baselitz, Isaak Brodsky – a única figura política retratada em toda a exposição, que Duerckheim considera como o grande pensador das políticas totalitaristas do início do século XX. Foi Lenine que começou todos os horrores. Foi o padrinho de todo o mal no mundo deste último século. Também devia estar na exposição.

Transportando-nos para o último momento de Vexation of Spirit, observamos 16 impressões que, dispostas ao redor de uma sala, colocando-nos no centro da ação, apresentam imagens de oficiais marítimos. Se num momento inicial, Kursk (2011) não nos provoca aflição, algo se altera no nosso espírito ao tomarmos consciência de que todos os retratados morreram dentro do submarino Kursk, que explodiu em agosto de 2000, no Mar de Barents, ao largo da Rússia. Apropriando-se de uma das últimas fotografias da tripulação, Roman Buxbaum transforma uma imagem de celebração num registro fúnebre, chamando a atenção para o acidente e ineficácia da operação de salvamento ordenada por Putin.

 

Darren Almond, Shelter (2000). Vista da exposição Vexation of Spirit. The Duerckheim Collection x Serralves. Museu de Serralves. © nvstudio

 

Prosseguimos viagem, literalmente, ao depararmo-nos com um equipamento urbano, uma paragem de autocarro vazia, cujo banco nos convida a sentar e esperar pelo próximo transporte. Shelter (2000), título que ironicamente significa abrigo, trata-se da reprodução, em tamanho real, de uma antiga paragem de Oswiecim (Polónia), que conduzia os turistas ao Museu de Auschwitz. Transformada numa instalação artística por Darren Almond, Shelter transporta-nos ao Holocausto e ao caminho para Auschwitz, num exercício de rememoração do pior da história e da humanidade. O sentimento de vergonha e de culpa que nos acompanham, intensificam-se na última sala com a instalação escultórica The End of Fun (2010) da dupla Jake e Dinos Chapman. Composta por nove vitrines, que de cima formam uma suástica, a grandiosidade da instalação equipara-se ao humor negro e carácter provocador da mesma, ao exibir qual jogo de crianças, 30.000 pequenas figuras – entre as quais Hitler e o palhaço Ron Macdonalds – em atos grotescos, bizarros e imorais.

 

Jake e/and Dinos Chapman, The End of Fun (2010) [Pormenor] Vista da exposição Vexation of Spirit. The Duerckheim Collection x Serralves. Museu de Serralves. © nvstudio

 

Num questionamento sobre arte e moral, atrocidades e perversões da guerra, terminamos a nossa visita à exposição com a visualização de Oswiecim, March 1997 (1997) dois filmes de Almond. Na mesma sala onde se encontra Shetler, os filmes a p/b e em slow motion, captados em 8 mm e projetados em justaposição, apresentam duas paragens de autocarros na Polónia que levam e trazem pessoas para o campo de concentração Auschwitz-Birkenau, hoje um museu: de um lado, visitantes à espera de transporte, do outro ninguém. Mergulhando-nos num momento de espera, de suspensão temporal e num pedaço de História, evocando o trajeto de muitos judeus e o vazio de uma paragem à qual ninguém regressa, aumenta a nossa aflição, ao mesmo tempo que ouvimos a melancólica composição musical de Arvo Pärt.

 

 

 

 

Mafalda Teixeira


Mestre em História de Arte, Património e Cultura Visual pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, estagiou e trabalhou no departamento de Exposições Temporárias do Museu d’Art Contemporani de Barcelona. Durante o mestrado realiza um estágio curricular na área de produção da Galeria Municipal do Porto. Atualmente dedica-se à investigação no âmbito da História da Arte Moderna e Contemporânea, e à publicação de artigos científicos.

 

 

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Notas

[1] Inaugurada a 15 de maio de 2026, a exposição assinala a primeira apresentação pública da Coleção Duerckheim, recentemente colocada em Serralves como depósito de longa duração. Com a curadoria de Marta Moreira de Almeida em estreito diálogo com o colecionador, a mostra estrutura-se ao longo de quatro núcleos temáticos: Religião, Sociedade, Guerra e Vexação.



MAFALDA TEIXEIRA