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ENTREVISTA


MASBEDO, © Ludovica Arcero


The Dark side of the loop by MASBEDO. © IFN


The Dark side of the loop by MASBEDO. © IFN


The Dark side of the loop by MASBEDO. © IFN


The Dark side of the loop by MASBEDO. © IFN


The Dark side of the loop by MASBEDO. © IFN


The Dark side of the loop by MASBEDO. © IFN


The Dark side of the loop by MASBEDO. © IFN


The Dark side of the loop by MASBEDO. © IFN


The Dark side of the loop by MASBEDO. © IFN


Teorema d incompletezza by MASBEDO. © IFN


Teorema d incompletezza by MASBEDO. © IFN


Teorema d incompletezza by MASBEDO. © IFN


Teorema d incompletezza by MASBEDO. © IFN


Teorema d incompletezza by MASBEDO. © IFN


Teorema d incompletezza by MASBEDO. © IFN


ARSA de MASBEDO (Still). Cortesia da RISI Film


ARSA de MASBEDO (Still). Cortesia da RISI Film


ARSA de MASBEDO (Still). Cortesia da RISI Film


ARSA de MASBEDO (Still). Cortesia da RISI Film


© MASBEDO


© MASBEDO


© MASBEDO


© MASBEDO

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MASBEDO


25/04/2026

 

MASBEDO e a Completude

 

 

 

Entrevista por ocasião da abertura da exposição ‘Teorema da Falta’ patente até 2 de maio de 2026 na Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa e a estreia nacional de ‘Arsa’ no Cinema de São Jorge*

 

*contém spoilers

 

 

MASBEDO são uma dupla de artistas italiana, e trabalham juntos desde 1999. Iacopo Bedogni (1970) e Nicolò Massazza (1973) estiveram em Portugal por ocasião da 19ª Festa do Cinema Italiano, que decorreu de 9 a 19 de Abril em Lisboa. Abriram a exposição ‘Teorema da Falta’ no dia 10 de abril e estrearam o seu filme de 2024 em Portugal, ARSA, inseridos na programação do festival na categoria ‘Altre Visioni’.

Estive com eles durante a inauguração da exposição e tive oportunidade de ver o filme ARSA, ainda que não em sala de cinema, mas com uma boa qualidade de som e imagem. Nesta conversa também participou Federico Rudari, que fez a curadoria da exposição a par de Orsola Vannocci Bonsi.

A exposição está patente na sala do primeiro andar da SNBA e conta com duas obras. Central no espaço quando se entra, The Dark Side of the Loop (2026) é uma instalação multicanal, composta por 10 écrans expostos em cima de uma longa mesa, dispostos em três profundidades. Há um ecrã central, de maior tamanho, que abraça todos os outros por também estar na fileira mais afastada. Ao lado direito da instalação, encontra-se a projeção do filme Teorema d’incompletezza (2008), um vídeo com 5 minutos e 38 segundos, que é impossível ignorar devido à sua banda sonora. Este transvasar é assumido na integra pelos curadores e os artistas, que definiram esta obra como o ponto de partida da exposição, fazendo com que a obra se ‘apropriasse das outras imagens, impondo-se simultaneamente como uma paisagem sonora’ [1].

Esta paisagem sonora é dominada pelo som de tiros e de vidro a ser partido pelo tiroteio. O vídeo apresenta uma mesa retangular, com louça feita de vidro em cima, e duas cadeiras nos seus extremos. Esta mise-en-scène está posta na margem de um lago, que por sua vez avista ao fundo uma montanha não muito dramática, mas com neve. O filme é a preto-e-branco, o que sublinha o contraste da neve com o negro do solo, fazendo questão que a montanha não seja ‘só paisagem’. Os grandes-planos focam-se nos cacos, no caos, nos pós e no impacto que os tiros causam ao vidro, entrando em diálogo direto com a abordagem escolhida para esta exposição retrospetiva, que se apoia na ideia de arquivo fragmentado, em cima da mesa.

Aquele ecrã que em The Dark Side of the Loop abraça os outros ecrãs, também destaca a paisagem, e presenteia-nos com um dos aspetos que mais me fascinou no seu trabalho: através de um sentido de trans-corporeidade (Stacy Alaimo) há a exploração da fricção entre as superfícies duras e moles, diferentes estados sólidos e líquidos, quer no plano físico quer no plano emocional. Falo de trans-corporeidade, pois quer nos vídeos apresentados na exposição, quer em ARSA, há um vai e vem entre fronteiras físicas que identifico com a definição de Alaimo: uma nova materialidade que se foca no sentir os sentidos como substancialmente e perpetuamente interconectados com o fluxo das substâncias e agência do meio em que nos inserimos [2].

Esta passagem constante de fronteiras funciona como uma metáfora para a forma como vêm a sua dupla, a sua produção artística.


*


Inês Ferreira-Norman: Como aconteceu começarem a trabalhar juntos?

Iacopo Bedogni: Foi um acaso. Temos dois caminhos completamente diferentes. Antes de nos conhecermos, nunca tivemos um caminho artístico sozinhos. Um de nós conheceu um curador numa leitura de portfólio. Nós éramos jovens, e esse curador disse a um de nós que tinha conhecido um garoto que pensava como o outro, que tinha uma estética idêntica. Sugeriu que fosse bom nos encontrarmos, e assim nós nos conhecemos.

Inês: Que bela coincidência, não!? E qual é a formação individual de cada um?

Nicolò Massazza: É diferente, somos autónomos no sentido de que estudávamos outras coisas, não fizemos academia de arte, e [a prática] nasceu justamente por uma grande paixão. Eu estudei psicologia, sempre tive um grande amor pela arte, e aquele momento foi perfeito, porque Iacopo estava a fazer uma pesquisa fotográfica muito, muito bonita. Eu estava mais concentrado na música, nas partes da performance. E dessa combinação veio automaticamente um começar com o vídeo, porque nos dá muito espaço de liberdade, também individual, mesmo trabalhando a dois.

Inês: Que interessante: um tipo de sorte numa história de amor que já não acontece assim tanto hoje em dia!

Iacopo: É o melhor matrimónio da nossa vida!

Inês: Que bom! Então poderia dizer-se que o lado musical vem do Nicolò?

Nicolò: Não, não. A participação é muito na base da confiança. Alternamos muito frequentemente com duas câmaras e ninguém olha para o que o outro está a fazer. Há um grande ato de confiança, por isso se compartilha muito o editing, a parte sonora, a parte de escrita, não há realmente um papel pré-definido.

Inês: Uma colaboração de raiz, sempre a genuína.

Iacopo: Nós dizemos sempre que o nosso trabalho exige ser uma pergunta íntima. É um mix de coisas sobre o qual a nenhum dos dois interessa dizer, ‘eu faço isso, eu faço aquilo’, porque é uma condivisão. Tanto é verdade que nós também abandonámos os nossos nomes a favor de um acrônimo.

Inês: É interessante saber esta história porque em ARSA há uma grande unidade entre o pensamento artístico-poético, e a plasticidade com que o trabalho é executado. E falando agora um bocadinho de plasticidade, eu vejo que há aqui elementos, o hard e o soft, que há aqui uma materialidade que se foca na fricção. Já alguma vez pensaram nisso?

Nicolò: Sim, é uma ótima observação, no sentido de que nós, sim, creio que temos um olhar pictórico. Mesmo que nenhum de nós pinte! Temos uma espécie de construção, também das imagens que se vêem nestes vídeos, que é muito escultória. Nós, quando procuramos o som, muito frequentemente vemos o som como uma escultura, escultoricamente, cheio de farpas, detalhado. Por isso, dizemos que é uma visão inata: como não somos pintores nem escultores de formação, esses elementos aparecem nas imagens de forma inconsciente.

Iacopo: De facto, o nosso background mesmo não sendo académico dá menos atenção à História d’Arte do que à cultura da imagem, que é uma coisa que é pouco estudada e, nos últimos 30 anos, foi preponderante.

Inês: Dentro dessa cultura da imagem que estás a falar, existem aqui três vídeos que – enquanto mulher – visiono com uma forte bagagem sociocultural. São o vídeo do vestido de noiva a sofrer um tiroteio, o vídeo em que uma mulher luta pela vida dentro de água enquanto tenta mover esqueletos de mobília para não se afogar, e o vídeo da mulher melancólica a fumar. Existe uma intenção vossa de fazer comentário sociocultural de natureza política?

Iacopo: Existe absolutamente. Bem, então, para nós, a relação foi por pelo menos dez anos uma das bases do nosso trabalho prático: uma investigação sobre a relação. Somos dois e a ideia de como é que se está formando uma relação foi central na prática artística.

Nicolò: E, além disso, interessa-nos muito o facto de que, hoje em dia, é muito importante e uma questão de responsabilidade para os homens terem uma perspetiva sobre a sua própria dimensão feminina; é extremamente importante porque é uma forma de poder rever as coisas de uma outra perspetiva, questionarmo-nos a nós próprios. Por isso, elementos que, como neste caso, podem ser muito simbólicos, são postos em causa. Questionar hoje em dia é algo importante. Tentar, falhar, errar, são todos elementos de que precisamos, sobretudo neste momento, no mundo masculino, para poder ir numa direção mais profunda de alguma forma.

Iacopo: No entanto, este é um ponto realmente importante que levantaste, porque é também um aspeto frequentemente criticado, não é verdade? No que diz respeito a um trabalho que se centra na mulher, mas que é realizado por homens. E acho que isto é muito importante; aliás, a seleção feita aqui é uma seleção em que nós, homens, ao longo dos anos, ao observá-la, fizemos uma reflexão sobre a responsabilidade em relação às muitas facetas do que é o feminino, e aqui, na verdade, seria preciso analisá-las uma a uma, pois cada uma tem um significado bem preciso. Como se trata de trabalhos de vinte anos, é uma pequena seleção, mas volta-se sempre a este aspeto de responsabilidade ao refletir sobre a importância do feminino.

Nicolò: É uma responsabilidade política.


*

ARSA, é um filme com paisagens fortes e trans-corporeidades abundantes. Alternando entre o ponto de vista da água sobre terra, e o ponto de vista da terra sobre a água, foi filmado em diferentes paisagens da ilha de Stromboli. A intensidade das imagens varia entre as pinturas de Hockney e Seraut, e o realismo mágico do filme Luna Papa (1999) de Bakhtyar Khudojnazarov. As praias de Stromboli, negras da sua vulcanoclastia por elevadas concentrações de ferro e magnésio, são compostas desde areia fina até seixos grandes, macios do processo intemperial mecânico que o Mar Tirreno lhes impõe. Esta ilha, assenta no topo de um vulcão ativo, o Monte Stromboli, que como se fosse um iceberg, só revela um terço do seu tamanho sobre água.

O submerso esconde ou conta muitas histórias, e durante todo o filme vemos Gala Zohar Martinucci, interpretando a personagem principal Arsa, mergulhar e mergulhar; tentando, praticando a respiração para que consiga chegar cada vez mais ao fundo marinho.

Arsa vive sozinha numa casa por detrás das canas, e observa os turistas que visitam a ilha pelos seus binóculos. Esta indicação leva-nos inconscientemente para um lugar voyeurístico. Arsa estará ela, sem dúvida, também sob observação, mas por sua vez, do olhar masculino (Laura Mulvey) neste filme. Há uma deliberada atenção às formas como tal olhar se manifesta, incluindo formas diferentes de representar o feminino, que incidem sobre Arsa maioritariamente, mas incluem outras mulheres em plano, assim como os três amigos que chegam à ilha também. Federico fala desse aspeto quando falávamos do arco da obra na exposição:

‘É um trabalho sobre a relação com o feminino, mas também o feminino que é interior. Como é que criar uma imagem… qual é a responsabilidade de criar uma imagem que não é necessariamente acompanhada por um texto, por uma interpretação literal? Há uma necessidade e intenção de tentar criar um debate e se calhar perceber o que é ter críticas, falhar, ou não fazer da forma certa, mas a importância de continuar - sobretudo hoje em dia - nesta questão tão importante, mesmo com imperfeições ou com elementos que podem ser melhorados.’

Em ARSA confrontamo-nos com dois jovens muito diferentes, que perderam o pai, e observamos a forma como lidam com o mesmo evento. Dizem os MASBEDO noutra entrevista, por ocasião da estreia do filme em Roma em 2024:

‘Queríamos explorar como uma menina muito jovem consegue viver sozinha após a perda do pai. A Arsa é muito forte e misteriosa. Tinha um pai artesão extraordinário que, apesar da pobreza, conseguiu dar-lhe força e ensinar-lhe o poder dos sonhos e da imaginação. É um exemplo de como, a partir do nada, é possível construir uma vida interior muito rica e um universo muito gratificante. Qualquer ser humano é capaz disso.’ [3]

Arsa ancora o seu luto na criatividade que herdou de seu pai (Lino Musella), e utiliza lixo que apanha nas praias para construir pequenos monstros, a linguagem que falava com ele. Em contraste, Andrea (Jacopo Olmo Antinori), não consegue processar a perda do progenitor e acaba por se obcecar com Arsa. Andrea salva a vida de Arsa, mas isso torna-se num pretexto para a autoconcessão, e ele força-se sobre ela, que renuncia duas vezes os gestos invasores. Andrea é um predador em ‘formação'. Utilizo formação, não para minimizar o seu ato, mas para diagnosticar a sua origem: uma masculinidade que, incapaz de lidar com o luto, se transforma em entitlement. Toda a esta cena, é o culminar do tal olhar masculino que se vem desenvolvendo esparsamente inicialmente, mas que quanto mais nos apercebemos das intenções de Andrea, mais intensos ficam os planos onde a nudez de uma rapariga de 18 anos está presente, e que contrasta com a sua natureza infantil e reservada.

O filme não apaga o olhar masculino: expõe-no na sua brutalidade através desses planos que expressam a visão de Andrea, no entanto, não fica refém destes. Para cada plano voyeurista masculino, os realizadores contrapõem outras perspectivas do feminino, sob diferentes óticas, criando uma (des)tensão dialética onde o feminino também existe sem ser em relação a outro. Os planos em que Arsa nada são um bálsamo por exemplo, pois o fato de banho de perna curta que ela usa permite que nos concentremos na poesia do movimento dela, na sua presença na água e não no corpo objetificado. Outros exemplos, são os quadros poéticos em que corpos formam composições pictóricas contra a rocha negra, e onde havia sempre uma certa melancolia a pairar no ar: até a mão pendurada presente em tantas versões da Pietá (Jesus morto nos braços de Maria) encarna no corpo de uma das adolescentes. Tudo isto ao som de um órgão, de uma voz angélica que assombra a paisagem em sussurros dissonantes, e efeitos sonoros muito envolventes, que lembram as ondas do mar. A natureza introspetiva do feminino, é nestes retratos, muito evidente.

Há ainda, e corroborando o comentário de Federico, algo muito feminino entre os três amigos, e quando Andrea desabafa sobre o seu pai, Pietro (Giovanni Cannata), acaricia-o, massajando confiantemente os seus ombros e peito. Há entre eles, também demonstrado pela profundidade das suas conversas – que poderiam ser interpretadas como uma ode ao génio artista e/ou filósofo modernista em modo Dead Poets Society, uma suscetibilidade para falar de matéria emocional e intelectual que nos permite percecioná-los como pessoas que não têm receio de se mostrarem vulneráveis. O que está em linha com a posição política dos realizadores, no que respeita à perceção do que pode ser a masculinidade.


***


MASBEDO têm sido vistos mais frequentemente no meio artístico do que no meio cinematográfico, tendo sido até a sua primeira longa-metragem [4] - Welcome Palermo (2019) - relacionada com a Manifesta 12. No entanto, a transição para um formato mais tradicional, narrativo, é entusiasmante para eles. Isto porque esta dupla tem trabalhado a transdisciplinaridade desde a sua conceção, tendo sido por isso ‘pioneiros da videoarte italiana’5, assim como também uma inclinação para a reflexão sobre as linguagens escolhidas.

 

Inês: Há uma presença do meta-cinema no vosso trabalho: aqui filma-se a película, ali filma-se o auditório, queria perguntar-vos se esta meta-visão do cinema é consciente da vossa parte, e se faz parte do que vos tornou pioneiros na videoarte italiana. E se não, o que é que vos fez pioneiros?

Iabopo: É evidente que existe esta presença do meta-cinema, ou seja, a filmagem do filme, a película ou o espaço do cinema, mas porque faz parte de uma interdisciplinaridade que não havia na altura.

Nicolò: Eu acredito que o que nos tornou pioneiros em certas coisas é o facto de sermos multidisciplinares desde o início. Trabalhámos imediatamente com a literatura, com o teatro contemporâneo, com a música contemporânea, com a música clássica, com a ópera, com o teatro-dança, com o documentário, com o cinema. Diria que, mais tarde, em Itália, havia este grupo chamado Studio Azzurro que, há muitos anos, fazia este tipo de investigação, mas, sinceramente, parece-me que os verdadeiros artistas multidisciplinares desde o início fomos nós, passando do cinema à instalação, levando isto hoje para fora do mundo dos museus, por exemplo, para a Manifesta em Palermo, para o Arquivo do Estado de Palermo, fazendo performances na Manifesta de Barcelona dentro de um bunker, ou seja, mudando cada vez mais.

Iacopo: E depois, o meta-cinema é talvez uma investigação inconsciente, ou seja, não é de forma alguma intencional, mas faz parte precisamente daquilo que é uma investigação constante, no sentido de que o sentido da imagem é – e dentro daquilo que gostamos sempre de defender como nossa teoria – a função da ficção. A função da ficção para nós é um dogma, ou seja, é em si própria uma investigação absoluta.

Inês: [Por falar em absolutismos], porque é que escolheram este tema do incompleto para a vossa exposição, e especificamente porquê ancorar toda a exposição neste vídeo de 2008, Teorema d’incompletezza?

Nicolò: Então, uma boa pergunta. Voltamos à escultura. É a mesa. Nós fizemos muitos trabalhos com mesas. Mesas onde, para nós latinos, é onde se encontra, onde se faz, onde se alimenta, onde se bebe, onde se nutre, onde se enraivece, onde se pacifica. Então, gostaríamos da ideia de dizer que, com o primeiro vídeo feito com uma mesa, é o teorema de completude.

Inês: Federico, como vês a criação da exposição?

Federico Rudari: Com a apresentação do filme ARSA a acontecer em Lisboa, a ideia era como é que podemos também introduzir de uma forma mais sólida e mais completa um trabalho que, na verdade, só resultou... o cinema sucede depois da videoarte. Ou seja, a videoarte vem muito antes do cinema. Eles nunca tinham apresentado uma exposição individual em Portugal e eles têm vindo a pensar e a trabalhar muito a instalação. Quando eu e a Orsula fomos convidados através da Festa do Cinema, a ideia era através do meio da instalação, criar uma ideia de retrospetiva. Nós não queríamos perder esses elementos através de uma... Não sei, de uma… outra opção era fazer por exemplo fazer uma screening night. Tínhamos de ter vários filmes, mas ia-se perder a ideia de tudo a acontecer ao mesmo tempo, que é um pouco isso da instalação, de vários elementos que encontramos num objeto. Portanto tivemos focados em mantermos esta forma de trabalhar com a instalação (…) e que ao mesmo tempo, nos permite ser mais abrangentes do que apresentando só um vídeo para um público que não conhece muito o trabalho deles. Portanto, eles depois, como falávamos há pouco, partilharam connosco qualquer elemento da mesa, era muito importante para eles. E a partir daí, pensámos nesta dualidade de um vídeo, integrando a imersão, e outros elementos que pudessem dialogar no espaço com esse trabalho. Todos aqueles fragmentos fazem parte de uma peça que tem um título, que tem uma data, que tem uma primeira apresentação. Portanto, a ideia era, se nós não estamos a apresentar peças ou obras completas, também vale a pena tirar as marcas clássicas das obras, como o título, o material, etc. Isto é para deixar o máximo de liberdade interpretativa antes de ter uma ajuda, uma introdução ao trabalho; outra coisa que nós também trabalhámos e que acho interessante, é que quisemos a escuridão para impedir a leitura da folha de sala. A experiência tem que acontecer, antes de ler o texto, para não perturbar a leitura individual.

 

*

 

Os MASBEDO têm um ponto de partida conceptual que privilegia a intimidade, mas uma metodologia que a partilha: querem explorar perguntas que exploram o mundo interior - poderíamos até mesmo dizer a psiché. No entanto, a forma tão simbiótica como materializam transições entre o consciente e o inconsciente, é o reconhecimento que a psiché está ‘substancialmente e perpetuamente interconectada com o fluxo das substâncias e agência do meio em que nos inserimos’.

Querer ‘explorar como uma menina muito jovem consegue viver sozinha após a perda do pai’ é uma pergunta íntima, que por isso tem de incluir as várias dimensões de um ser humano, e é consequentemente sobre o feminino sim. As amalgamas destes fragmentos de onde parte a ideia central da exposição, está também muito presente em ARSA, não seja pelo facto de que ela junta pedaços de lixo para compor um monstro. Estas estatuetas-brinquedos (esculturas), assim como o vendedor de balões que deambula pela praia como um caranguejo-decorador (que aparece em imagens iniciais no filme), e cuja forma escultórica muda com o vento conforme ele caminha pela praia, são a expressão máxima da trans-corporeidade que também vejo presente no trabalho destes artistas que se trans-corporeiam artisticamente há mais de 25 anos. Os balões, como fragmentos de uma carapaça, estão dependentes do meio onde se inserem, pois, a sua materialidade é facilmente manipulada pelo vento, alterando a sua capacidade escultórica. Mostram que MASBEDO continuam a abordar linguagens visuais dominantes da sua contemporaneidade - neste caso o plástico no Antropoceno -, numa obra que procura através do vídeo (ele próprio um médium cuja metodologia exige a fragmentação) buscar um todo, uma completude, mas que está consciente dessa impossibilidade.

 

 

 

Inês Ferreira-Norman‹

Mestre em Artes Plásticas pela University of the Arts London, foi editora chefe do Journal of Arts Writing by Students publicado pela Intellect entre 2019 e 2023, e tem-se formado e envolvido em projetos editoriais desde 2009. Foi produtora cultural e gerente de artistas no Reino Unido até 2018, quando voltou para Portugal para se dedicar à sua prática e ao pensamento artístico.

 

 


:::

 

Notas

[1] Bonsi, O. ; Rudari, F. (2026), Teorema da Falta, exposição de MASBEDO, Sociedade Nacional de Belas-Artes, 10 de abril a 2 de maio de 2026, Lisboa.
[2] Alaimo, S. (2012). States of Suspension: Trans-corporeality at Sea. Interdisciplinary Studies in Literature and Environment, 19(3), 476–493, p. 476. Acedido a 13 de abril de 2026.
[3] Italian artist duo Masbedo on their Rome premiere ‘Arsa’: “Everyone can build a rich inner life”. Acedido a 13 de abril de 2026.
[4] De acordo com as obras listadas no website dos artistas. Acedido a 13 de Abril de 2026
[5] Risi Films (2026), Festa do Cinema Italiano estreia novo filme dos MASBEDO, dupla pioneira da video art italiana, Press Release.