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SOL LEWITTLivros![]() MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA Rua D. João de Castro, 210 4150-417 Porto 29 ABR - 15 JUL 2007 ![]() ![]() 1. É vontade dos artistas que as suas obras sejam compreendidas pelo maior número de observadores possÃvel. Os livros ajudam a realizar esse desejo. Esta é a afirmação feita por Sol LeWitt no suplemento do número 14 da revista “Art-rite†(1976-77) que resume, trinta anos depois, a exposição dedicada à sua obra impressa na Biblioteca de Serralves. A sua calendarização não é ingénua: em Abril, data em que foi inaugurada, assinalava-se o primeiro aniversário sobre a sua morte. Embora tÃmida em divulgação (em contraste minimal com as exposições – principais? - a decorrer nas galerias do museu), a exposição é uma sóbria e justa evocação da obra deste artista norte-americano de papel preponderante na Arte Conceptual. Despretensiosa, permite-se rever nas palavras citadas de LeWitt. O desejo assim saciado tem sabor a missão cumprida. Não só de livros de artista se preenchem actualmente as prateleiras e vitrinas da sala de exposições da biblioteca. Alguns dos cerca de setenta exemplares apresentados são catálogos de exposição que, artisticamente dirigidos por LeWitt, revelam uma qualidade gráfica quase indiscernÃvel dos primeiros. Outros ainda são catálogos assumidamente monográficos, resultado de exposições incontornáveis, nos quais Sol Lewitt não deixou, ainda assim, de intervir. Nestes últimos cabem os (importantÃssimos) ensaios que se podem ler em casa. Aqui, porém, o que nos interessa ler (até mesmo textualmente) são as obras. Essas, paradoxa e infelizmente, na minha casa não. 2. A obra de Sol LeWitt é fundamental para a compreensão e afirmação histórica do livro de artista como forma de arte. Os livros de artista de LeWitt já não correspondem ao seu sentido primário. Não são (terão sido algum dia?) universalmente acessÃveis. A necessidade de os colocar hoje em vitrinas confirma-lhes a sacralidade com cuja ruptura foram intencionalmente gerados. A década de 60 encontra aos artistas, na sua vertigem informativa, esse outro lugar, transfronteiriço e democratizador, da publicação eventual ou periódica e, quase simultaneamente, do livro. Urgentes pela submissão da sua obra à experiência concreta do espectador, fora do constrangimento das paredes institucionalizadas dos museus e do glamour economicista das galerias, os artistas arriscam a ultrapassagem, em fuga, para o espaço público. O livro de artista, entendido como o lugar primário das obras que são geradas para aquele contexto especÃfico, desritualiza e provoca uma deliberada disseminação da obra no circuito artÃstico e desmistifica, com a sua reprodutibilidade, o seu carácter fetichista. O livro de artista evita os intermediários e as formulações discursivas externas a si próprio. Retira a obra da sua condição de objecto de contemplação passiva na medida em que a experiência é a acção determinada pelo espectador que com ela interage. No livro de artista a obra é revisitável ad infinitum com máxima liberdade e exigências mÃnimas. Os livros de artista são múltiplos economicamente acessÃveis de edições de grande tiragem e geralmente não assinados. São duráveis, de preço moderado, objectos Ãntimos e portáteis, documentos históricos e universais. Constituem, para LeWitt, um meio como qualquer outro para o artista transmitir as suas ideias ao observador/leitor: “Since no form iS intrinsically superior to another, the artist may use any form, from an expression of words (written or spoken) to physical reality, equally†(“Sentences on Conceptual Artâ€, publicadas na revista “0-9â€, Nova Iorque, e “Art&Languageâ€, Inglaterra, em 1969). É antiga e natural a ligação de Sol LeWitt com o objecto gráfico. No perÃodo imediatamente anterior à sua integração na equipa de frente de casa do MoMA, LeWitt trabalha na área do design para a revista “Seventeen†e depois para o arquitecto I. M. Pei. Foram cerca de cinquenta as edições de artista assinadas por LeWitt desde a sua primeira intervenção no número 5/6 da “Aspen Magazine†(EUA) em 1966, um ano depois da sua primeira exposição individual (Galeria John Daniels, Nova Iorque, 1965). A mais antiga exposta em Serralves recua a 1970, quando apresenta “Lines and Combination of Lines†no “Art & Project Bulletin 18†(Amesterdão). A maioria dos tÃtulos apresentados data da década de 70, altura em que funda, juntamente com Carl Andre, Lucy Lippard ou Pat Steir a “Print Matter†(1976), uma organização alternativa dedicada à publicação de edições de artista. Para os autores ali então reunidos, os livros constituÃam um instrumento de ruptura com a efemeridade, o constrangimento de todo o sistema de convenções instituÃdo e caracterÃstico do circuito artÃstico da época no qual, porém, não deixaram de participar. 3. Os livros de artista são fundamentais para a compreensão da obra integral de Sol Lewitt. O conjunto apresentado em Serralves permite perceber o sentido do desenvolvimento do percurso artÃstico de Sol LeWitt. O método de formulação verbal das obras, igualmente utilizado por artistas como Lawrence Weiner, permite compreender, lendo, logo na capa ou na primeira página da publicação, a sua estrutura conceptual que lhe é também tÃtulo. “As ideias podem ser obras de arteâ€. De formato muitas vezes quadrangular, os livros incluem desenhos que são reformulações e variáveis sistemáticas das mesmas linhas (rectas, finas, grossas, quebradas, curvas, suaves, angulosas), cores (primárias), grelhas, figuras geométricas (quadrados, cÃrculos, triângulos) ou estruturas geométricas modulares (realizadas a partir de cubos abertos e fechados), elementos impessoais recorrentes no desenvolvimento de uma linguagem gráfica pessoal, uma teoria sintáxica fortemente caracterÃstica e só aparentemente didáctica. Destacam-se, entre outros, “Incomplete Open Cubes†(1975); “Five cubes on twenty-five squares†(1977); “Sunrise and Sunset at Praiano†(1980); “Lines in two directions and in five colours with all their combinations†(1988); “Four colours and all their combinations†(1994); “Black Gouaches†(1992); “100 Cubes†(1996). Semanticamente reordenáveis, a sequência da leitura dos seus conteúdos é passÃvel de alteração para lá da pré-determinação editorial. A redução da linguagem operada por Sol LeWitt é igualmente traduzida na escultura e no desenho. Austero e minimal na década de 60, o seu trabalho vem a complexificar-se progressivamente a partir da década seguinte em direcção a uma maior sensualidade e inventividade formais e cromáticas. Os elementos das estruturas modulares que desenvolve são transferidos dos desenhos de pequena dimensão (concebidos para integrar as publicações) ou de escala arquitectónica (que idealiza para cobrir efemeramente as paredes de determinados edifÃcios em murais executados por um conjunto de assistentes a partir das suas determinações). A investigação que precede os trabalhos é idêntica para a multiplicidade de suportes que servem o conjunto da sua obra em que a conceptualização se revê, simultaneamente, em duas ou três dimensões. Os mecanismos da percepção são serialmente perseguidos por LeWitt em cada uma das publicações consultáveis no espaço expositivo da Biblioteca de Serralves. Obsessiva é também a resposta do espectador que se detém em cada uma das páginas, de cada um dos livros, dispostos em cada uma das prateleiras, colocadas neste espaço organizado em generoso conforto. Os livros que fechados nas vitrinas reivindicam estatuto idêntico, apresentam-se em exemplares repetidos e abertos em páginas diferenciadas, permitindo-se timidamente entrever na sua lógica de organização interna. Os desenhos reproduzidos em friso e as reproduções ampliadas de páginas de texto-tÃtulo colocados na parede são, sem o terem sido, a solução LeWittiana por excelência. O interesse da exposição assenta também na enorme sobriedade e no silêncio curioso com que se deixa, demorada e sem artifÃcio, desvendar e não apenas na inteligente adequação da temática a uma predisposição contemporânea para a celebração do género. “Banal ideas cannot be rescued by beautiful executionsâ€. Superado. ![]()
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