Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


"Depósito. Anotações sobre Densidade e Conhecimento"


André Cepeda. "Depósito. Anotações sobre Densidade e Conhecimento". Fotografia: André Cepeda


João Leonardo. "Depósito. Anotações sobre Densidade e Conhecimento" durante o processo de montagem. Fotografia: André Cepeda


Manuel Santos Maia. "Depósito. Anotações sobre Densidade e Conhecimento" durante o processo de montagem. Fotografia: André Cepeda


Marta de Menezes. "Depósito. Anotações sobre Densidade e Conhecimento" durante o processo de montagem. Fotografia: André Cepeda

Outras exposições actuais:

LOURDES CASTRO

A VIDA COMO ELA É


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
CONSTANÇA BABO

TÂNIA CARVALHO

COMO SE UMA CAMADA DE ESCAMAS BEM FECHADA


PLATAFORMAS ONLINE,
CATARINA REAL

FRANCISCO VIDAL

OFICINA TROPICAL


Zet Gallery, Braga
FRANCISCA CORREIA

MIGUEL CHETA

TODOS NÓS NASCEMOS ORIGINAIS E MORREMOS CÓPIA


CECAL – Centro de Experimentação e Criação Artística de Loulé, Loulé
MIRIAN TAVARES

ÁLVARO LAPA

LENDO RESOLVE-SE: ÁLVARO LAPA E A LITERATURA


Culturgest, Lisboa
JOANA CONSIGLIERI

JOANA ESCOVAL

MUTAÇÕES. THE LAST POET


Museu Coleção Berardo, Lisboa
FRANCISCA CORREIA

SALVADOR DALÍ

VISITA VIRTUAL


Teatro-Museu Dalí, Figueres
NUNO LOURENÇO

BÁRBARA WAGNER & BENJAMIN DE BURCA 

ESTÁS VENDO COISAS


Galeria Boavista, Lisboa
FRANCISCA CORREIA

ANDREAS H. BITESNICH

DEEPER SHADES: LISBOA E OUTRAS CIDADES


Museu Coleção Berardo, Lisboa
JULIA FLAMINGO

MANON DE BOER

DOWNTIME / TEMPO DE RESPIRAÇÃO


Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
MARC LENOT

ARQUIVO:


COLECTIVA

Depósito. Anotações sobre Densidade e Conhecimento




REITORIA DA UNIVERSIDADE DO PORTO
Praça Gomes Teixeira (Praça dos Leões)
4099-002 Porto

27 JAN - 30 JUN 2007


A exposição “Depósito. Anotações sobre Densidade e Conhecimento” combina trabalhos de vários artistas com uma fracção do espólio dos vários museus e instituições da Universidade do Porto. Entre animais embalsamados, esqueletos, instrumentos científicos e modelos variados, a exposição pretende organizar um diálogo entre a herança do museu de história natural e a produção artística contemporânea. A solução para o espaço e disposição das peças, da responsabilidade do comissário e de Inês Moreira pareceram-nos acertadas, sugerindo-nos a ideia de uma solução cartesiana, entre o eixo da arte e o da ciência, para uma localização das sociedades contemporâneas.

As peças da Universidade estão dispostas numa parede (ou estante) que domina a exposição, numa relação ortogonal com o plano horizontal reservado às obras dos artistas. É um estafado lugar comum sublinhar a estreita relação de dependência entre os nossos quotidianos e os progressos científicos e técnicos, e as conexões entre o conhecimento científico e a arte, tanto ao nível da criação como da crítica, abandonaram hoje qualquer pretensão de fragilidade para passarem a fazer parte da matriz identitária das nossas sociedades.

As disciplinas humanas e as naturais interligam-se e consomem-se reciprocamente, a especialização extrema das matérias faz-se compensar por práticas pluri e multidisciplinares, a apropriação de conceitos, de parte a parte, é uma prática corrente e desejada. A arte, que durante a primeira metade do século XX se relacionou mais proximamente com as ciências humanas, sendo disso o exemplo mais óbvio e conhecido a utilização da psicanálise pelo surrealismo e vice-versa; embora antes, noutros campos, como o da literatura, Freud tenha sido já uma referência para importantes correntes do século XIX, como o naturalismo de Frank Wedekind (depois precursor do expressionismo) ou de Arthur Schnitzler. A partir do século XX, com a revolução relativista a alterar os próprios fundamentos das ciências clássicas, com o tempo e o espaço, até então absolutos na sua rigidez inviolável, transformados em variáveis até certo ponto dependentes de condições de percepção (velocidade, posição, etc.), a produção artística e a crítica estenderam-se até estes campos, importando conceitos e trabalhando-os de forma independente. Hoje, com os avanços na genética, o corpo torna-se não só um motivo mas também barro, media de criação. Os conceitos de origem estão em debate e constante negociação enquanto a neurobiologia e a filosofia da consciência investem na pesquisa do cérebro e no estudo da emergência do indivíduo enquanto consciência. A amplitude e magnitude da discussão epistemológica sobre a ruptura paradigmática entre modernidade e pós-modernidade, é a maior prova da familiaridade entre as disciplinas, e a arte, acompanhando-a, configura e é configurada pelos progressos que fazemos na construção deste corpo de conhecimento.

A Universidade, como símbolo desta agremiação entre as mais diversas disciplinas é o centro nevrálgico das nossas sociedades e uns dos principais motores de inovação e progresso. Como tal, é um palco apropriado para esta exposição. A Universidade do Porto, através desta iniciativa, combina o legado das sociedades geográficas do século XIX, ainda hoje capaz de mobilizar público e curiosos, com o discurso mais especializado da arte contemporânea. A escolha de Paulo Cunha e Silva para comissário deste projecto justifica-se, já que este tem vindo a trabalhar na área específica das relações entre arte e ciência. “Depósito. Anotações sobre Densidade e Conhecimento”, parte dos pressupostos já assinalados para construir um objecto independente, da autoria do comissário (os trabalhos não estão identificados no local, apenas no flyer que funciona como folha de sala), a partir do conceito de depósito e as suas obrigatórias noções de organização, relação e caos. Assumindo que cabe ao espectador parte do trabalho de associação e leitura entre os dois planos (ou universos) representados na exposição, “Depósito” funciona como um baú onde várias gerações armazenaram os seus produtos, aberto à interpretação e à livre associação.

Há no entanto, em toda esta lógica, um hiato geracional entre o eixo vertical, rico em referências a processos, métodos e técnicas do século XIX, e o horizontal, que representa produtos, ideias e conceitos que formatam toda a nossa expectativa face ao século XXI. Ainda que no conjunto dos trabalhos artísticos existam referências a esta época, a produção científica e teórica dos mil e novecentos faz-se sentir quase só no conceito da exposição, que invoca preocupações com a probabilidade e o caos determinista. Assim, entende-se uma dificuldade em construir associações entre o espólio científico de uma tradição moderna (positivista e cartesiana) e trabalhos artísticos que dependem quase unicamente de formulações exclusivas à pós-modernidade. Ainda que esta omissão seja facilmente explicada pelo atraso e alheamento português no que diz respeito a estes campos científicos (física, quântica, biologia, etc.) durante grande parte do século XX, achamos pertinente levantar a questão sobre a representação desta passagem, de um tempo para outro, sem referência aos pilares da ponte que efectivamente a permitiu.

Na exposição encontram-se representados os artistas: André Cepeda, Eduardo Matos, João Leonardo, Mafalda Santos, Manuel Santos Maia, Marta de Menezes; Miguel Flor, Miguel Palma e António Caramelo, Nuno Ramalho, Pedro Tudela, Renato Ferrão, Rita Castro Neves, Sancho Silva e Tiago Guedes.


José Roseira