|
|
CRISTINA ROBALOANTES DE SUBIR À TONAFUNDAÇÃO CARMONA E COSTA Rua Soeiro Pereira Gomes, Lote 1- 6º A e D, Edifício de Espanha (Bairro do Rego) 1600-196 Lisboa 07 FEV - 09 MAI 2026 Afundamento (antes de subir à tona)
Logo no início do primeiro capítulo de Différence et Répétition (1968), Gilles Deleuze propõe que “em vez de uma coisa que se distingue de outra, imaginemos algo que se distingue – e, todavia, aquilo de que ele se distingue não se distingue dele”. Acontece na forma que se distingue da matéria, mas a matéria não se distingue da forma. Ou na figura que se distingue do fundo sem que este se possa divorciar dela. Um exercício de distinção, sem perder de vista o fundo, é o que nos propõe a exposição antes de subir à tona, de Cristina Robalo. Com curadoria de Sérgio Fazenda Rodrigues, a exposição ocupa o espaço de arte contemporânea da Fundação Carmona e Costa com obras em formatos e técnicas distintas que, mesmo assim ou por isso mesmo, constituem uma coerente exploração da ideia de desenho e da condição de um "indistinto distinto”. Na primeira sala encontramos quatro obras intituladas “Raiar” (#1, #2, #3 e #4), compostas por planos de papel sobrepostos de pó de grafite e grafite, suturados com linha. A presença das linhas remete-nos para a ideia de mapa ou de registo de trajectos num território delimitado. Por entre as linhas, despontam alguns pequenos recortes coloridos, amarelos e laranjas, que contrastam como corpos intrusos com as formas cinzentas e pretas. Apresentam-se numa posição ambígua, sem conseguirmos determinar se estão a aparecer ou a esconder-se, num jogo de revelação e ocultação. A ideia de “recorte” mantém-se ao longo da exposição e de diversos modos o vemos nas obras, seja pelo recorte mesmo do papel (pela corte manual, pelo perfurar da linha), como pelo trabalhar do fundo que “recorta” a figura. A fazer a passagem entre as duas salas iniciais, impõem-se uma enorme caixa de um azul profundo que serve de suporte a duas peças, ambas intituladas “Carta de Trabalho”. Nelas encontramos uma espécie de assemblagem investigativa, uma constelação de materiais que se associam entre si pela temática, formas, suportes. Encontramos páginas de livros ilustrados com animais marinhos, outras com reproduções de esculturas, textos manuscritos, desenhos, envelopes de onde espreitam coloridas paisagens marinhas... As imagens intervencionadas juntam-se em grupos de semelhanças. Algumas têm um fundo uniformizado, que se vai fechando sobre elas, como uma objectiva lenticular. A linha, que em “Raiar” é quase absorvida na massa negra da grafite, manifesta-se aqui na escrita e prolonga-se horizontalmente como uma pauta de um texto que ficou por escrever, ou de um som que ficou por registar, vindo das profundezas onde habitam alguns dos animais dos recortes. Inaudível pela sua fundura, o som é personificado aqui no pequeno mecanismo de caixa de música que, colado à parede, tem o seu som substituído por uma presença visual muda. Vários desenhos com bustos em grafite e olhos vermelhos lancinantes ordenam-se em coluna e remetem-nos já para uma outra obra, “Faroleiros”, que literalmente se espalha pelo espaço em grupos. São quatrocentas pequenas figuras, espécie de busto rudimentar entre o humano e o animal, feitas com pasta de grafite, que se dispõem em conjuntos nas paredes das salas. Olham numa direcção e têm a boca aberta. Diria que a sua função não é escultórica, são como desenhos no seu estado primordial (pasta de grafite) que se erguem e vigiam. A associação entre o pó de grafite e o fundo do mar encontra-se também na obra “Fundo”, uma composição azulada de fotogravuras que mostram pó solúvel de grafite a simular fundos das profundezas subaquáticas. A raia, animal cuja definição, forma e imagem surge em vários materiais da exposição, tem na obra “Raia lenga dorsal ventral I, II, III e IV” a sua presença mais impactante. São 8 impressões em papel de imagens de raias secas, na posição dorsal e ventral. A semelhança com um registo científico, pelo tipo de imagem e seu fundo neutro, fica abalada pelas expressões misteriosas dos olhos e bocas, entre a tristeza e o despontar da alegria, pelas arestas triangulares com sucessivos cortes. Há qualquer coisa de violento e ao mesmo tempo harmonioso nestas imagens. Enfrentando as raias, estão duas outras obras com peixes, “Tu” e “Natur” (e na sala seguinte "Histoire"). Barbatanas e olhos de peixe boiam num mar negro de grafite, como se estivessem a emergir ou a afundar. Fazemos aqui também um exercício de distinguir visualmente os corpos encobertos pela grafite e que outrora povoavam um típico poster ilustrado com espécies animais.
Cristina Robalo, Natur (2025). Vista da exposição de Cristina Robalo, antes de subir à tona, Fundação Carmona e Costa.
Nesta exposição, o fundo aflora sem deixar de ser fundo. Os seres, os espaços e os sons de profundidade dão-se a ver sem perderem a sua escuridão, o seu mistério, o seu ocultamento. É o desenho que se mostra sem perder a relação com a sua própria sombra. Cristina Robalo resgata o fundo de uma zona de não representação. Aqui, o fundo adensa-se e aparece. A linha do desenho expande-se em corpos negros, planos, tridimensionais, territoriais. Como disse Nuno Faria, em conversa com Rui Chafes em 2019, “o desenho é corpo mais do que imagem”.
Liz Vahia
|

























