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ARTES PERFORMATIVAS


ANNA VON HAUSSWOLFF - DEAD MAGIC

RICARDO ESCARDUÇA

2018-03-17



"É a sua maldita barriga que causa terríveis aborrecimentos aos homens (…)". As suas lendas e mitos têm milhares de anos, mas o verso de Homero podia ter sido escrito hoje em referência à relação antipodal em que a corporalidade e imediatismo do material se sobrepõe à intangibilidade e intemporalidade do espectral. É precisamente esta ofuscação do primordial e poderoso, o desvanecimento da essência da condição humana, que está na origem do quarto LP da sueca Anna von Hausswolff.

Dead Magic é o título do álbum que foi apresentado pela artista com recurso a uma citação do poeta conterrâneo Walter Ljungquist: "Take the fate of a human being, a thin pathetic line that contours and encircles an infinite and unknown silence. It is in this very silence, in an only imagined and unknown centre, that legends are born. Alas! That is why there are no legends in our time. Our time is a time deprived of silence and secrets; in their absence no legends can grow."

Dead Magic é um álbum violento e exigente, exactamente o que torna notável. Mais do que Singing from the Grave, de 2010, são Ceremony, de 2013, e The Miraculous, de 2015, que exibem a capacidade notável de Anna von Hausswolff para criar verdadeiras experiências estéticas de sublimação do âmago mais capital da natureza humana. Dead Magic não só não lhes fica atrás como intensifica a experiência de imersão e introspecção, desde a ideia ou sentimento transformada em obra musical experimentada pelos sentidos até às emoções e imagens que faz despertar.

A faixa de menor duração supera os cinco minutos e a mais longa atinge os dezasseis. Em nenhuma delas há monotonia ou aborrecimento. Moldando um volume sonoro inconfundível e memorável com uma mestria que evita o experimentalismo descaracterizado ao mesmo tempo que deita por terra as fronteiras entre o progressive, o gothic, o ambient, o drone, o folk, o metal, o rock, von Hausswolff cria, acima de tudo, um cenário conceptual volátil entre complementaridades enigmáticas. Por vezes, convoca o horror asfixiante das trevas, o ambiente é abrasivo e perturbante, é claustrofóbico e angustiante, em outras surge a harmonia celestial da luz, o ambiente é etéreo e delicado, é belo e cristalino. Se não outras, são incontornáveis ideias de morte e nascimento, de esquecimento e memória, de espírito e carne, de macabro e puro, de tormenta e alívio. Dead Magic é uma catarse e exaltação das intimidades humanas mais profundas e essenciais, que atinge cada um que se atravesse no seu caminho diferentemente e, para quem seja para lá transportado na viagem sonora, reduz a pó os aborrecimentos causados pela barriga.

O órgão de igreja e a sua conotação com o sagrado e o ritual contribuem decisivamente para o dramatismo majestoso e imponente da música de von Hausswolff, que explora a versatilidade do instrumento em toda a amplitude de fúria ou quietude. Colher-lhe todo o potencial obriga a cuidados redobrados com as condições acústicas. Desta vez, a escolha recaiu sobre uma das capelas da igreja Marmorkirken, em Copenhaga. Tanto quanto a presença do órgão impõem-se os vocais multifacetados de von Hausswolff em mutações tonais de estridentes cânticos operáticos ou de ténues sussurros pairadores que sobrecarregam o dramatismo e a espiritualidade do ambiente. A grandiosidade da música de von Hausswolff é também marcada pelo seu virtuosismo enquanto compositora, imprimindo uma dinâmica cinemática de contrastes das harmonias e ritmos e alternando a densidade e espessura dos arranjos musicais de cordas, guitarras, sintetizadores e bateria. Este bem-conseguido dinamismo faz-se sentir quer à entrada do álbum, ao longo da progressão das várias secções e distintas secções ambientais da faixa "The Truth, The Glow, The Fall", quer entre as cinco faixas do álbum, por exemplo entre a opressão de "Ugly and Vengeful", a faixa mais marcante de todo o trabalho, e a pausa de "The Marble Eye".

 

A música experimental e progressiva de instrumentações estendidas e faixas de longa duração é exigente e requer o momento certo para ser disfrutada. Porém, sendo-lhe proporcionado o tempo certo para revelar a sua magnitude e intensidade, recompensa. É o caso de Dead Magic, cuja experiência, à semelhança dos seus dois predecessores, vai muito além da experiência musical e que, entre o poder sugestivo de imaginários que vão desde a tragédia à constrição, desempenha uma superior função de desligar-se da banalidade do quotidiano para evocar o mais ancestral e primordial.



Dead Magic tracklist

1. The Truth, The Glow, The Fall
2. The Mysterious Vanishing of Electra
3. Ugly and Vengeful
4. The Marble Eye
5. Källans återuppståndelse

 

 

 




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