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VICTOR GORGULHO
15/03/2026
Selecionada como uma das exposições Top 10 de 2025, pela ArtForum, a mostra Paula Rego e Adriana Varejão: Entre os Vossos Dentes (2025), apresentada no CAM-Gulbenkian (Lisboa), contou com a curadoria conjunta de Adriana Varejão, Helena de Freitas e Victor Gorgulho. Realizado ao longo de quatro anos, o processo curatorial da mostra foi guiado por questões sensíveis e conceptuais que procuraram amplificar o diálogo entre as obras das duas artistas. Tendo como mote inicial da nossa conversa o trabalho desenvolvido por Victor Gorgulho na exposição Entre os vossos dentes (2025), entrevistámos o curador e investigador carioca sobre o seu percurso profissional, interesses artísticos e projetos futuros.
Por Mafalda Teixeira
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MT: Gostaria de iniciar a nossa conversa pelo título da exposição – Entre os vossos dentes – em cuja pesquisa e seleção o Victor teve um papel essencial. Como se deu o encontro entre as obras visuais de Paula Rego e Adriana Varejão com a obra poética de Hilda Hilst?
VG: Eu e a Adriana trabalhávamos baseados no Rio de Janeiro, em contato frequente com a Helena Freitas, nossa cocuradora no projeto, baseada em Lisboa. Já tínhamos determinado que a exposição se dividia em treze núcleos, que entendemos como treze diferentes conversas, independentes umas das outras, mas ligadas pelas temáticas que íamos identificando entre o trabalho da Adriana e da Paula e exibidas numa expografia delicada e precisa assinada por Daniela Thomas.
Num desses dias de trabalho para a exposição, enquanto discutíamos o título, a Adriana comentou comigo algo como “Já sei, a Hilda Hilst!” Imediatamente concordei e considerei interessante pesquisar a obra de Hilst, precisamente pela acidez das questões femininas. Depois de pesquisar a antologia poética da Hilda, encontrei quatro versos de Poemas aos Homens do Nosso Tempo (1974) e senti que havia ali uma pulsão de vida, algo meio em chamas que tinha de dividir com a Adriana e a Helena.
Quando partilhei a estrofe, praticamente na hora recebi uma resposta, também elas tinham sentido aquele impacto nessa parte do poema que decidimos apresentar no início da exposição, próximo ao texto curatorial. Como título recorremos ao trecho final do verso – Entre os vossos dentes – numa ligação que considero muito precisa, porque a obra – tanto da Paula quanto da Adriana – não é completamente digerida, são obras absorvidas de um modo que nos deixam vestígios por entre os dentes. Há uma força, um ímpeto meio voraz de devorar e de permanecer.
MT: Poderia falar-nos sobre o modo como desenharam e conceberam em termos expositivos, em conjunto com a cenógrafa Daniela Thomas, o espaço e a estrutura da mostra?
VG: Eu havia participado da conceção da primeira exposição Paula Rego e Adriana Varejão [Carpintaria, Rio de Janeiro, 2017] que promoveu um pequeno encontro em termos de escala e de obras. Estive envolvido no processo, vi a exposição ser pensada, montada, executada e depois existir e se abrir para o público, num diálogo que funcionou muito bem.
O espaço onde a mostra foi realizada, pedia e previa, de alguma forma, que todos trabalhos estivessem em conversa uns com os outros. Era um local onde não havia muita oportunidade cenográfica para se provocarem fricções e relações mais específicas entre os trabalhos. Ali todos coexistiam entre si. Para aquele tamanho de exposição, esse modelo topográfico funcionava, porque tínhamos um número médio de obras. Quando passamos para uma escala que sabíamos que seria maior, a Daniela Thomas entrou como uma parceira, quase como uma co-curadora.
Os núcleos e suas respetivas obras foram pensados pela curadoria em paralelo com o trabalho desenvolvido e arquitetado pela Daniela. À entrada da Daniela no projeto expositivo, já contávamos com mais de 150 obras e foi a própria que nos disse que tal não seria viável. Nós entendemos quais os núcleos a serem apresentados nessas espécies de casas, nesses ambientes, nessas paredes que contêm porta de entrada, mas também frestas de maneira a tornar possível, tanto uma espécie de porosidade por entre as salas dentro da exposição, como também acentuam um pouco a ideia do voyeurismo ou de abertura para uma outra sala, para um outro espaço, numa relação até com a questão da perspetiva na pintura da Paula Rego e por vezes na da Adriana.
Chegou num ponto em que o espaço tinha uma função metalinguística para a exposição e ele foi muito “dançado” pela Daniela Thomas, brilhantemente executado pela Gulbenkian e permitiu, através dessa divisão em três salas com um pequeno texto para cada uma, que a exposição dialogasse com os diversos públicos que a visitaram.
MT: Num momento em que se discute no Brasil e no mundo questões referentes ao lugar de fala – conforme pesquisado por Djamila Ribeiro – e à decolonialidade nas artes visuais, como avalia o impacto, a recetividade e o despertar (ou não) de consciências políticas que exposições como Entre os vossos dentes, possam promover junto do público em especial do europeu?
VG: Eu acho muito importante que uma instituição do porte da Gulbenkian tenha percebido o potencial que poderia resultar do encontro da produção da Paula Rego e da Adriana Varejão. Acredito que tenha existido um impacto positivo, de maneira diferente, em diversos públicos.
Neste momento em que a exposição já foi montada, visitada e encerrada, eu olho para trás e vejo que tivemos alguns, embora poucos, episódios de pessoas falando mal na esfera pública, mas também recebemos muitos elogios. Na minha opinião, a crítica tem que acontecer da maneira mais sincera, sem balizas ou censuras de nenhuma forma.
Assistindo ao que determinadas pessoas da classe artística portuguesa falaram e escreveram sobre a exposição, reforça-se a minha ideia de que Portugal está muito mais distante e atrás do Brasil no que toca às questões do debate decolonial. Hoje, no Brasil, essa questão é um território que é uma espécie de campo minado, tratada de maneira muito inflamada pelo debate público, mas estamos refletindo, colocando-a no debate público para ser pensada em várias esferas: tanto na Academia, como em esferas mainstreans.
Em Portugal, vivenciei alguns episódios de muita resistência e de uma certa violência verbal, relacionados com a questão decolonial. A relação colonial entre Portugal e Brasil tem sido pensada, mas com muita resistência, a meu ver. Considero que no Brasil, embora se trate de um assunto sensível e delicado, esse tipo de discussão está sendo mais amplificado, ganhando em força e tamanho e é definitivamente uma das questões do nosso debate público nos dias de hoje.
MT: Analisando o seu percurso profissional, é evidente nas exposições que curou a importância que atribui na promoção e divulgação de leituras do Brasil, da sua arte e diversidade cultural recorrendo, por vezes, a um diálogo e cruzamento entre registos históricos com obras contemporâneas de artistas de diferentes gerações.
Existe alguma tendência particular da prática artística contemporânea que lhe interesse especialmente e que procure apresentar nas suas exposições?
VG: Quando comecei a trabalhar, há quinze anos atrás, eu tinha um interesse muito grande pelo vídeo enquanto media art. Naquela época, interessava-me a ideia de como a videoarte tinha uma contribuição brasileira importante na história da arte ocidental. É no Brasil que nós temos, desde os anos sessenta, a Letícia Parente (1930-1991) e toda uma produção ligada a uma estética doméstica. Eu queria ser um artista que trabalhava com vídeo: a questão da imagem, os regimes de imagem da contemporaneidade.
A propósito das leituras do Brasil, mencionada na pergunta, eu entendi uma convergência entre esse interesse pelo audiovisual e a produção fílmica. Por exemplo, a produção audiovisual brasileira do fim dos anos sessenta e início dos anos setenta é fantástica. Foi quando mergulhei no chamado cinema marginal brasileiro, nos filmes do Rogério Sganzerla (1946-2004), do Júlio Bressane (1946), toda uma geração que tinha “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” como dizia o Glauber Rocha (1938-1981), cineasta do cinema novo. O cinema marginal lia de um jeito tropical, tupiniquim - como gostavam de dizer - a produção fílmica do cinema underground daquela época. O cinema marginal brasileiro é um movimento udigrúdi, um cinema radicalmente livre em termos de linguagem, em termos de processo, de maneiras de execução e filmagem, contando na maior parte das vezes com poucos recursos para ser realizado.
Estou falando especialmente dessa produção, de como o cinema marginal brasileiro me influenciou, porque é aí que eu entendo uma ligação entre esses artistas do audiovisual com a vanguarda das artes plásticas naquela época.
O Brasil viveu, entre o fim dos anos 1960 e início dos anos 1970, durante uma ditadura militar, um período artístico explosivo. No Rio de Janeiro, por exemplo, houve uma convergência enorme entre artistas do cinema novo e cinema marginal (Glauber, Bressane, Sganzerla) do Teatro de São Paulo (José Celso Martinez Corrêa), artistas plásticos (Lygia Pape, Hélio Oiticica, Lygia Clark), artistas ligados ao Neoconcretismo. A maneira como todas essas produções se misturam e se influenciam, podem ser lidas como produções que ficam debaixo um guarda-chuva teórico, que seria o do tropicalismo, um movimento mais amplo. O tropicalismo não aconteceu só na música, o tropicalismo musical do Caetano Veloso, do Gilberto Gil, da Gal Costa, espalha-se por várias outras áreas de produção e de criação artística.
O que considero mais fantástico é tudo isso acontecer no campo da música, do teatro, do cinema, das artes plásticas, debaixo de um regime ditatorial, conectadas no espaço e no tempo. A minha cabeça mudou, o meu mundo abriu desde que mergulhei nas obras e trajetórias desses artistas. Um interesse que tinha começado no audiovisual foi ficando maior e mergulho nas artes plásticas, na arte contemporânea, começando a fazer assistência para projetos expositivos e assistência de curadoria. Fui pedindo para trabalhar, muitas vezes sem ganhar, pela experiência e por querer trabalha com cultura, com artistas. Precisava tornar isso uma profissão para mim mesmo.
MT: As exposições com a sua curadoria O terceiro mundo pede a benção e vai dormir (Despina, 2017) ou Vivemos na melhor cidade da América do Sul (Espaço Átomos, 2016) cujos títulos – provenientes de letras musicais associadas ao Tropicalismo – acarretam também uma certa ironia e provocação.
Passadas quase seis décadas do nascimento do Tropicalismo, como avalia nos dias de hoje esse que foi um dos mais emblemáticos movimentos culturais brasileiros e qual considera ser a sua repercussão nas práticas artísticas contemporâneas das novas gerações?
VG: Nessas exposições, cujos títulos são versos de letras de músicas de artistas ligados ao tropicalismo, eu estava querendo reproduzir a amálgama que unia, de maneira transversal, campos diferentes. Trechos de músicas de artistas ligados ao tropicalismo davam corpo a um mote curatorial que tinha uma certa ironia e provocação. A reunião de artistas nessas exposições coletivas não partia de uma resposta aos títulos, estes funcionavam como comentários que, juntamente com o trabalho da curadoria, embasavam os projetos expositivos.
Vivemos na melhor cidade da América do Sul tem uma história engraçada. É um verso da música Baby (1969) de Caetano Veloso [interpretada por Gal Costa] e que, na verdade, não nos diz qual é afinal a melhor cidade da América do Sul, que permanece como um enigma. Com o tempo, a música foi adotada pelos cariocas e o Rio de Janeiro tomou para si a alcunha, até que um dia Caetano deixou claro que, na realidade, estava se referindo a São Paulo. A exposição Vivemos na melhor cidade da América do Sul, era sobre o lado B, C e D da experiência do Rio de Janeiro, que é uma cidade absolutamente maravilhosa e paradisíaca, mas igualmente violenta. Vivemos na melhor cidade da América do Sul era um comentário ácido dessa imagem que o Rio de Janeiro estabeleceu como própria.
Embora não acredite numa visão nostálgica da vida, no campo artístico considero importante a capacidade de olhar em retrospetiva e entender o que veio antes.
[A este propósito Victor Gorgulho menciona o título da obra de 1972 do artista brasileiro Wesley Duke Lee (1931-2010), Hoje é sempre Ontem, frase emblemática que sugere uma crítica sociopolítica e uma reflexão sobre inércia histórica.]
Atualmente existe uma vasta produção académica de pensamento da contemporaneidade sobre as marcas do tropicalismo. Essa herança é muito marcante e determinante, mas ao mesmo tempo, penso que o tropicalismo já passou. Hoje, eu acredito numa balança que oscila entre: o olhar para trás, como um gesto de respeito e de inspiração, e a necessidade de se olhar para a frente. Por exemplo, numa ala mais conservadora dos estudos culturais no Brasil, há uma resistência em entender que o funk carioca, que vem percorrendo o mundo com obras de diferentes artistas da cena musical atual, é uma das maiores heranças do tropicalismo. Quem faz funk não sabe o que foi o tropicalismo, de que maneira foi fundamental como ponto de inflexão na cultura brasileira. Considero que a herança do tropicalismo está na capacidade inesgotável que existe no Brasil de devorar o que vem de fora, de devorar as mil referências que recebemos no campo da cultura, seja de massa ou erudita. O Brasil é um país que sempre bebeu muitas influências, mas que soube - e esse é o maior legado do tropicalismo - digerir e devolver outra coisa que só o povo brasileiro é capaz de produzir, eu realmente acredito nisso e essa é uma herança do tropicalismo total.
MT: Em que projetos está atualmente a trabalhar?
VG: Neste momento, está em cartaz na Galeria Nara Roesler, no Rio de Janeiro, uma coletiva que curei chamada Rasura. Trata-se de uma mostra que gira em torno de uma investigação sobre a ideia e o gesto do apagamento, da subtração, da escavação e por aí vai de uma obra de arte, apresentando de maneira expandida diferentes formas de pensar a relação entre a rasura e as práticas artísticas contemporâneas.
MT: Para além do seu trabalho como curador e investigador, o Victor fundou o Glória ArtBooks, uma livraria e biblioteca de arte e cultura contemporânea. Pode-nos falar um pouco sobre este projeto?
VG: Um outro projeto que eu tenho é o Glória ArtBooks, um projeto nómada, que hoje tem uma base no bairro da Glória, no Rio de Janeiro. É um projeto que tem tentáculos, que pode e deve ganhar formatos distintos. Glória nada mais é do que uma reunião de livros do campo da arte e da cultura contemporânea.
Eu considero que os livros são objetos de resistência para que os nossos aparatos cognitivos sigam funcionando nas próximas décadas que estão por vir. Vivemos uma época pautada pelo celular e pelas telas, em que o livro e a ideia de uma pequena livraria, como o Glória, parecem ideias obsoletas, atrasadas. Porquê cultivar uma coleção de livros? Eu comecei colocando a minha própria biblioteca pessoal com livros para consulta e pesquisa. Glória é um projeto sem fins lucrativos, uma reunião de livros de arte, muitos dos quais doados por instituições e por artistas, aos quais se juntam outros do meu próprio acervo pessoal e uma pequena parcela de livros que estão à venda oriundos de editoras parceiras do projeto. A ideia é estabelecer um convívio entre uma espécie de biblioteca, de loja e de livraria para que essas publicações cheguem a públicos maiores.
Existe uma passagem grande entre a produção editorial brasileira do campo da arte e da cultura, no que toca às bibliotecas públicas no Rio de Janeiro. Procuro receber doações e colocar títulos que estejam na minha coleção, outros resultantes de trocas com artistas, com editoras, com instituições, para fazer com que o acervo seja crescente, para que nunca perca uma dimensão pública e para que seja possível de ser dividido nesse modelo em que não há fins lucrativos, mas em que é necessário investimento. O projeto tem sido muito bem recebido, e para quem quiser visitar a nossa pequena livraria, ela fica no Bairro da Glória, na Rua do Russel n.º 344, dentro do Déjavu, no Rio de Janeiro.
MT: Há artistas portugueses contemporâneos cujo trabalho lhe interessem e com quem gostaria de trabalhar no futuro?
VG: Mais de um: Vasco Araújo; Gabriel Abrantes; Carlos Bunga; Pedro Barateiro e Isa Toledo. Esses são artistas que eu tenho o desejo de trabalhar e tomara que consiga nos próximos tempos!
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Victor Gorgulho
Curador, jornalista e pesquisador. Graduado em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ e mestrando em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Atualmente, é curador-chefe do Instituto Inclusartiz [inclusartiz.org], fundado e presido por Frances Reynolds, com sede física no Rio de Janeiro, mas com projetos expositivos, de residências artísticas e de fomento às artes visuais contemporâneas espalhados por diversos outros países do globo.
Curou as exposições Vivemos na melhor cidade da América do Sul, junto com Bernardo José de Souza (Átomos, Rio de Janeiro, 2016 e Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, 2017); Eu sempre sonhei com um incêndio no museu – Laura Lima & Luiz Roque no Teatro de Marionetes Carlos Werneck (Rio de Janeiro, 2018); Perdona que no te crea (Carpintaria, Rio de Janeiro, 2019); Escrito no Corpo [Engraved into the body] (Tanya Bonakdar Gallery, Nova York, 2020) e Os Monstros de Babaloo (Fortes D'Aloia & Gabriel, São Paulo, 2021).
Como jornalista, foi editor assistente de cultura do Jornal do Brasil (2014-2017) e hoje colabora com veículos como a Folha de São Paulo e o jornal espanhol El País. Coorganizador, junto da crítica e curadora Luisa Duarte, do livro No tremor do mundo - Ensaios e entrevistas à luz da pandemia (Editora Cobogó, 2020).
Mafalda Teixeira

Mestre em História de Arte, Património e Cultura Visual pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, estagiou e trabalhou no departamento de Exposições Temporárias do Museu d’Art Contemporani de Barcelona. Durante o mestrado realiza um estágio curricular na área de produção da Galeria Municipal do Porto. Atualmente dedica-se à investigação no âmbito da História da Arte Moderna e Contemporânea, e à publicação de artigos científicos.
































