Links

share |

MÚSICA


ONEOHTRIX POINT NEVER: DA IMPLOSÃO DOS FANTASMAS

RUI MIGUEL ABREU

2011-11-25



 

 

 

No recentemente editado Retromania, o crítico e teórico Simon Reynolds conta a história de como Jim Jupp, um dos homens do leme do quartel general do género conhecido como Hauntology, a Ghost Box, fez "um morto cantar uma nova canção" ao samplar e alterar uma gravação originalmente feita em 1908. Na verdade, nestes últimos 100 anos, todos nos habituámos à ideia da permanência dos fantasmas: Billie Holiday que nos canta os seus lamentos, Jimi Hendrix que nos convida para nadar no seu oceano de feedback particular ou Ian Curtis que nos puxa para o abismo. Sob uma certa perspectiva, todos são fantasmas que se recusam a abandonar este plano e que cumprem com rigor o plano de vaguear nesta dimensão para todo o sempre. Mas já não são casas, o que estes fantasmas assombram, mas os nossos próprios ouvidos.


Na capa de Replica, novo trabalho de Daniel Lopatin enquanto Oneohtrix Point Never, uma mão segura um espelho onde se reflecte a imagem de um esqueleto, como se o reflexo revelasse uma réplica não do que somos, mas do que inevitavelmente haveremos de ser. No documentário Scratch, DJ Shadow, homem que fez uma carreira em cima de uma ideia particular de arqueologia aural, refere que encara os depósitos de velhos discos (armazéns, caves de lojas) como colecções de promessas por cumprir, de sonhos desfeitos pelas rodas dentadas da própria máquina pop. O sampler, funciona assim como um portal que permite resgatar todos esses sonhos ao plano da memória. O que Lopatin ensina no sucessor de Returnal é no entanto muito diferente. Ainda se encontram por aqui as paisagens abstractas de sintetizadores, propostas para uma visão alternativa de Blade Runner, se por acaso o clássico de Ridley Scott rodasse em loop permanente numa televisão a preto e branco, mas há algo mais de profundamente diferente também. Como os estetas da Ghost Box, Lopatin também usa a memória para reimaginar o tempo, mas ao contrário dos projectos associados à editora britânica não há por aqui nenhum ensaio nostálgico, nenhuma vontade de recriar um tempo, mesmo se meramente imaginado. Lopatin prefere fragmentar esse tempo, destruindo o sentido das vozes que sampla, encarando-as como meros pormenores texturais com que pinta uma espécie de mural sónico equivalente àquelas imagens que se fazem de um mosaico de muitas outras imagens.

Em Replica, os fantasmas são finalmente desencarcerados desta armadilha do tempo, implodidos e convidados a abandonar este plano. Lopatin substitui então a nostalgia pela melancolia, com a luz trémula de um único ecrã como a iluminação exclusiva da música que aqui apresenta. E a imagem do ecrã não é acidental: Lopatin tem usado o YouTube como uma fonte e uma foz ao mesmo tempo, procurando vídeos que depois desconstrói através da repetição, como o belíssimo e fantasmático "Nobody Here" que sampla Chris de Burgh e que leva um dos comentários a assegurar "this is the devil's music". Lopatin vai ampliando as imagens que "fotocopia" com o seu sampler, até pouco mais restar do que uma mancha de um pormenor que não revela a sua origem. Implodem-se os fantasmas.

 

 

Replica é, como a antologia Rifts e o mais recente Returnal, um trabalho de um músico pouco importado com rituais ou com a construção de um qualquer universo paralelo. Os códigos só valem se puderem ser destruídos, transformados ou completamente ignorados. O que é evidente é o seu crescimento como autor, a marca distinta da sua abordagem à música - das paisagens geladas pintadas a sintetizador à melancolia desolada de quem não consegue parar de ver uma determinada imagem em repetição constante até ao ponto em que os olhos já pouco mais vêem do que uma névoa. Música triste, enfim, mas de uma beleza imensa.

 

 




Outros artigos:

2017-11-12


HAARVÖL | ENTREVISTA
 

2017-10-07


GHOSTPOET – “DARK DAYS + CANAPÉS”
 

2017-09-02


TATRAN – “EYES, “NO SIDES” E O RESTO
 

2017-07-20


SUGESTÕES ADICIONAIS A MEIO DE 2017
 

2017-06-20


TIMBER TIMBRE – A HIBRIDIZAÇÃO MUSICAL
 

2017-05-17


KARRIEM RIGGINS: EXPERIÊNCIAS E IDEIAS SOBRE RITMO E HARMONIAS
 

2017-04-17


PONTIAK – UM PASSO EM FRENTE
 

2017-03-13


TRISTESSE CONTEMPORAINE – SEM ILUSÕES NEM DESILUSÕES
 

2017-02-10


A PROJECTION – OBJECTOS DE HOJE, SÍMBOLOS DE ONTEM
 

2017-01-13


AGORA QUE 2016 TERMINOU
 

2016-12-13


THE PARKINSONS – QUINZE ANOS PUNK
 

2016-11-02


patten – A EXPERIÊNCIA DOS SENTIDOS, A ALTERAÇÃO DA PERCEPÇÃO
 

2016-10-03


GONJASUFI – DESCIDA À CAVE REAL E PSICOLÓGICA
 

2016-08-29


AGORA QUE 2016 VAI A MEIO
 

2016-07-27


ODONIS ODONIS – A QUESTÃO TECNOLÓGICA
 

2016-06-27


GAIKA – ENTRE POLÍTICA E MÚSICA
 

2016-05-25


PUBLIC MEMORY – A TRANSFORMAÇÃO PASSO A PASSO
 

2016-04-23


JOHN CALE – O REECONTRO COM O PASSADO EM MAIS UMA FACE DO POLIMORFISMO
 

2016-03-22


SAUL WILLIAMS – A FORÇA E A ARTE DA PALAVRA ALIADA À MÚSICA
 

2016-02-11


BIANCA CASADY & THE C.I.A – SINGULARES EXPERIMENTALISMO E IMAGINÁRIO
 

2015-12-29


AGORA QUE 2015 TERMINOU
 

2015-12-15


LANTERNS ON THE LAKE – SOBRE FORÇA E FRAGILIDADE
 

2015-11-11


BLUE DAISY – UM VÓRTEX DE OBSCURA REALIDADE E HONESTA REVOLTA
 

2015-10-06


MORLY – EM REDOR DE REVOLUÇÕES, REFORMULAÇÕES E REINVENÇÕES
 

2015-09-04


ABRA – PONTO DE EXCLAMAÇÃO, PONTO DE EXCLAMAÇÃO!! PONTO DE INTERROGAÇÃO?...
 

2015-08-05


BILAL – A BANDEIRA EMPUNHADA POR QUEM SABE QUEM É
 

2015-07-05


ANNABEL (LEE) – NA PRESENÇA SUPERIOR DA PROFUNDIDADE E DA EXCELÊNCIA
 

2015-06-03


ZIMOWA – A SURPREENDENTE ORIGEM DO FUTURO
 

2015-05-04


FRANCESCA BELMONTE – A EMERGÊNCIA DE UMA ALMA VELHA JOVEM
 

2015-04-06


CHOCOLAT – A RELEVANTE EXTRAVAGÂNCIA DO VERDADEIRO ROCK
 

2015-03-03


DELHIA DE FRANCE, PENTATONES E O LIRISMO NA ERA ELECTRÓNICA
 

2015-02-02


TĀLĀ – VOLTA AO MUNDO EM DOIS EP’S
 

2014-12-30


SILK RHODES - Viagem no Tempo
 

2014-12-02


ARCA – O SURREALISMO FUTURISTA
 

2014-10-30


MONEY – É TEMPO DE PARAR
 

2014-09-30


MOTHXR – O PRAZER DA SIMPLICIDADE
 

2014-08-21


CARLA BOZULICH E NÓS, SOZINHOS NUMA SALA SOTURNA
 

2014-07-14


SHAMIR: MULTI-CAMADA AOS 19
 

2014-06-18


COURTNEY BARNETT
 

2014-05-19


KENDRA MORRIS
 

2014-04-15


!VON CALHAU!
 

2014-03-18


VANCE JOY
 

2014-02-17


FKA Twigs
 

2014-01-15


SKY FERREIRA – MORE THAN MY IMAGE
 

2013-09-24


ENTRE O MAL E A INOCÊNCIA: RUTH WHITE E AS SUAS FLOWERS OF EVIL
 

2013-07-05


GENESIS P-ORRIDGE: ALMA PANDRÓGINA (PARTE 2)
 

2013-06-03


GENESIS P-ORRIDGE: ALMA PANDRÓGINA (PARTE 1)
 

2013-04-03


BERNARDO DEVLIN: SEGREDO EXÓTICO
 

2013-02-05


TOD DOCKSTADER: O HOMEM QUE VIA O SOM
 

2012-11-27


TROPA MACACA: O SOM DO MISTÉRIO
 

2012-10-19


RECOLLECTION GRM: DAS MÁQUINAS E DOS HOMENS
 

2012-09-10


BRANCHES: DOS AFECTOS E DAS MEMÓRIAS
 

2012-07-19


DEVON FOLKLORE TAPES (II): SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA COM DAVID CHATTON BARKER
 

2012-06-11


DEVON FOLKLORE TAPES - PESQUISAS DE CAMPO, FANTASMAS FOLCLÓRICOS E LANÇAMENTOS EM CASSETE
 

2012-04-11


FC JUDD: AMADOR DA ELETRÓNICA
 

2012-02-06


SPETTRO FAMILY: OCULTISMO PSICADÉLICO ITALIANO
 

2011-11-25


ONEOHTRIX POINT NEVER: DA IMPLOSÃO DOS FANTASMAS
 

2011-10-06


O SOM E O SENTIDO – PÁGINAS DA MEMÓRIA DO RADIOPHONIC WORKSHOP
 

2011-09-01


ZOMBY. PARA LÁ DO DUBSTEP
 

2011-07-08


ASTROBOY: SONHOS ANALÓGICOS MADE IN PORTUGAL
 

2011-06-02


DELIA DERBYSHIRE: O SOM E A MATEMÁTICA
 

2011-05-06


DAPHNE ORAM: PIONEIRA ELECTRÓNICA E INVENTORA DO FUTURO
 

2011-03-29


TERREIRO DAS BRUXAS: ELECTRÓNICA FANTASMAGÓRICA, WITCH HOUSE E MATER SUSPIRIA VISION
 

2010-09-04


ARTE E INOVAÇÃO: A ELECTRODIVA PAMELA Z
 

2010-06-28


YOKO PLASTIC ONO BAND – BETWEEN MY HEAD AND THE SKY: MÚLTIPLA FANTASIA EM MÚLTIPLOS ESTILOS