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O ESTADO DA ARTE


Telephone Without A Wire, London Fieldworks. Instalação, Colégio das Artes, 3 de Junho a 21 de Setembro 2016. Fotografia: Victor Garcia.


Telephone Without A Wire, London Fieldworks. Instalação, Colégio das Artes, 3 de Junho a 21 de Setembro 2016. Fotografia: Victor Garcia.


Telephone Without A Wire, London Fieldworks. Instalação, Colégio das Artes, 3 de Junho a 21 de Setembro 2016. Fotografia: Victor Garcia.


Telephone Without A Wire, London Fieldworks. Instalação, Colégio das Artes, 3 de Junho a 21 de Setembro 2016. Fotografia: Victor Garcia.


Telephone Without A Wire, London Fieldworks. Instalação, Colégio das Artes, 3 de Junho a 21 de Setembro 2016. Fotografia: Victor Garcia.


Telephone Without A Wire, London Fieldworks. Instalação, Colégio das Artes, 3 de Junho a 21 de Setembro 2016. Fotografia: Victor Garcia.

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TELEPHONE WITHOUT A WIRE – PARTE 1

JO JOELSON

2016-08-25




O Colégio das Artes, em Coimbra, recebe até 21 de Setembro a instalação audiovisual “Telephone Without A Wire” da dupla britânica London Fieldworks (LFW).

A instalação parte da ideia de tradução e de interacção entre sistemas de conhecimento. O título refere-se ao popular jogo que faz uso dos erros cumulativos que se produzem em múltiplas trocas de informação, que em Portugal é mais conhecido por “Jogo do telefone estragado”. Os vídeos presentes nesta exposição foram todos filmados durante um período de trabalho de campo que a dupla realizou na floresta amazónica em 2009. Neles se exploram as conexões etno-zoológicas entre humanos e animais, que determinam o modo como nos relacionamos entre espécies.

LFW é um colectivo constituído pelos artistas Bruce Gilchrist e Jo Joelson, que desde 2000 promove práticas artísticas baseadas na interdisciplinaridade e na colaboração. Os LFW trabalham em diversos meios, desde a instalação, a escultura, a arquitectura, o filme, a edição, até ao envolvimento social, criando obras para galerias, espaços exteriores, ecrãs ou mesmo rádio.

Por ocasião da exposição em Portugal, a Artecapital publica, em duas partes, dois textos da autoria de cada um dos membros do LFW referentes ao seu processo de trabalho e ao contexto de criação desta instalação.

 

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Os investigadores de campo

As nossas relações geográficas com o mundo incluem uma base em Londres - e períodos de trabalho de campo que ocorrem noutros lugares - em locais rurais e às vezes remotos - um processo que implica o desenvolvimento de um tipo de conhecimento local, uma intimidade com o lugar que cria as condições para fazer um novo trabalho. A influência de outras disciplinas, como as ciências, geografia, antropologia e ecologia, teve impacto na nossa prática e resposta ao meio ambiente.
No seu ensaio "An Intimate Geography", Barry Lopez escreve sobre a nossa capacidade para a intimidade e como a intimidade com uma paisagem pode levar a uma consciência mais profunda. Escreve que algumas das nossas experiências e interacções com a natureza estão além do intelecto, que acabam por representar as arestas vivas de um mundo que inclui, mas também transcende, o mundo humano.

Com o apoio do British Council, planeámos uma residência de 2 meses no Brasil, em 2009, para realizar investigação de campo numa área da Mata Atlântica. Sediámo-nos na REGUA (Reserva Ecológica de Guapiaçu) - uma ONG criada em 2001 com a missão de proteger a vegetação nativa e florestas remanescentes da bacia do rio Guapiaçu da desflorestação, caça e sobre-exploração dos recursos naturais. Situada relativamente próximo das cidades em expansão permanente do Rio de Janeiro e São Paulo, a floresta permanece sob intensa pressão do desenvolvimento e está a desaparecer rapidamente. Muitos dos pássaros da floresta são raros e estão ameaçados de extinção, das 111 espécies de aves brasileiras listadas pela BirdLife International em risco de extinção, 98 encontram-se na Mata Atlântica.

Tínhamos planeado voltar ao tema da andorinha do mar ártica desde que encontrámos pela primeira vez esta criatura extraordinária alguns anos antes no nordeste da Gronelândia. Estávamos conscientes do interesse científico da andorinha do mar ártica como um bioindicador, devido à sua existência extrema, vivendo todos os dias em voo contínuo entre os pólos norte e sul, usando a costa do Brasil para navegar. Fizemos uma conexão entre a ideia contemporânea do bioindicador com a antiga prática da divinação - um ritual que envolvia a observação do vôo dos pássaros para fazer previsões sobre eventos futuros.

Esta ideia de predicção e previsão levou-nos à tradição da profecia da chuva, aos relatos de métodos de previsão de tempo indígenas na sua maioria ligados à agricultura. Os "Profetas da Chuva" do Nordeste do Brasil são um desses grupos, geralmente agricultores mais velhos que fizeram previsões meteorológicas durante gerações com base nas suas observações contínuas de insectos, animais, pássaros, plantas, nuvens e outros fenómenos na natureza conhecidos por indicar chuva ou seca. Estas técnicas de previsão são transmitidas oralmente dentro do ambiente familiar, as práticas e os conhecimentos passam então de geração em geração. Os profetas da chuva tem uma vida inteira de experiência a viver na terra e são considerados especialistas credíveis, partilhando as suas previsões com as suas comunidades, como parte de uma forma regional do saber, ajudando a negociar os desafios do clima na produção agrícola. A natureza intuitiva da profecia da chuva contradiz os procedimentos dos serviços meteorológicos governamentais e demonstra como diferentes formas de conhecimento pode existir independentemente umas das outras.

A ideia de previsão como uma invenção do futuro, da experiência futura, representa muito mais do que informação útil. A história dos Profetas da Chuva expôs-nos à luta entre a ciência e o conhecimento indígena e a interacção entre os sistemas de conhecimento; as formas pelas quais a ciência ocidental é informado pelo conhecimento local e indígena, mas posiciona-se em contraste. Planeámos explorar algumas dessas tensões no contexto sociocultural e ambiental da REGUA e das comunidades rurais circundantes.

As nossas actividades e interacções dentro das comunidades locais eram bastante diversificadas - algumas formais e algumas informais. Focámo-nos nas relações que as pessoas tinham com a terra através do trabalho, lazer, fé religiosa ou folclore e as formas como as mudanças no clima ou eventos climáticos induzidos foram percebidas no contexto cultural local e como a percepção se alterou de acordo com o conhecimento e as crenças.

Realizámos uma série de entrevistas com moradores das aldeias vizinhas. Procurámos indivíduos com diferentes perspectivas. Entre os participantes incluíam-se um pastor evangélico, um segurança e membro da religião Candomblé, agricultores e trabalhadores agrícolas, guardas florestais, uma antiga directora, um professor, pequenos proprietários e o dono de uma empresa de autocarros local. Os contactos foram feitos de acordo com a técnica da bola de neve, na qual um especialista local indica outro participante e assim por diante. As perguntas que fizémos relacionavam-se com padrões climáticos sazonais, ciclos de plantio de alimentos e produção de alimentos e se sinais específicos na natureza se relacionavam com mudanças sazonais ou padrões climáticos. Perguntámos se conheciam mitos locais, folclore e contos relacionados com animais e fenómenos naturais. As conversas foram registadas em filme e em cadernos, fornecendo experiências em primeira mão do meio ambiente, do local, das experiência a partir de uma perspectiva pessoal. Houve exemplos de sinais da natureza, como a menção de um quero-quero (Vanellus do Sul) para prever sol, ou o chamamento da caracara (Caracara do Sul) para prever alguém prestes a sair ou a morrer; quando o vento norte sopra pode-se esperar chuva ou quando as relas e sapos cantam ou quando ocorrem alterações na canção de certos tipos de cigarras.

Durante as entrevistas, a maioria conduzidas nas casas dos participantes, percebemos a prática comum de manter aves em gaiolas. Embora seja ilegal criar aves selvagens como animais de estimação, é popular fazê-lo nos sítios rurais, e mais descobrimos que são muitas vezes utilizadas para competição. O Trinca-Ferro é uma ave canora brasileira extremamente territorial e por isso o macho canta alto para demarcar o seu território e afastar outros machos dos seus domínios. O macho e a fêmea são idênticos e o canto é o único factor que os distingue. Como os machos competem pelo território, um vai cantar mais alto do que o outro para ganhar a atenção das fêmeas. Portanto, quando um Trinca-Ferro começa a cantar outro irá aparecer, começando um duelo de canto de pleno direito. As competições começam muitas vezes com um máximo de 40 aves numa grande sala e os machos são gradualmente removidos assim que deixam de cantar. Isto pode resultar num confronto final entre os dois ou três últimos machos. A macho que cantar durante mais tempo pode valer muito dinheiro ao criador certo. Ver estes Trinca-Ferros enjaulados numa área com uma abundância de espécies selvagens nativas faz o seu encarceramento mais lamentável e desumano.

Os nossos encontros diários com aves selvagens nos trilhos da floresta e ao redor do pantanal na reserva, incluindo avistamentos de Wing-banded Hornero, Rufous-tailed Jacamar, Pygmy Owl, Blue Manakin, Crescent-chested Puffbird, Spot-backed Antshrike, Chestnut-backed Antshrike, White-bellied Seedeater, Striped Cuckoo, Black-capped Donacobius, Grey-hooded Attila, Surucua Trogon, Tropical Screech-Owl. Capturámos imagens de um Mutum-de-bico-vermelho (um pássaro que foi reintroduzido, visto que foi caçado quase até à extinção na área), um Urubu-de-cabeça-preta a usar correntes de ar e abrigando-se das tempestades, garças juntando-se nas árvores ao redor do pantanal no crepúsculo, beija-flores e Acauãs cantarolando - que cantam uma música característica que dá origem ao seu nome. No folclore amazónico é dito que os gritos do Acauã anunciam a chegada de estranhos. Na região de Guapiaçu é dito que anunciam a morte de um conhecido.

Fomos apresentados a Adilei Carvalho da Cunha, um ex-caçador que se transformou em guia de aves e um protector apaixonado da fauna local. Desde que trabalha para a REGUA desenvolveu as suas capacidades de guia florestal e as suas habilidades no mimetismo de pássaros - chamando as aves para baixo das copas da floresta para os entusiastas observarem e fotografarem. Observando Lelei a comunicar na floresta com a vida selvagem, ele foi transformado de um humano num quase pássaro e assim nós gravamo-lo em filme, capturando as suas habilidades de mimetismo e comunicação. Tornou-se no nosso mediador, um guia que poderia trazer uma nova perspectiva e narrativa.

Enquanto estávamos no Brasil, ficámos a saber que o antropólogo e etnólogo francês Claude Levi-Strauss tinha morrido aos 100 anos de idade. Na sua obra monumental Mythologiques, a opinião de Lévi-Strauss é que os mitos não têm autores, e que a sua criação ocorre imperceptivelmente através da transmissão e transformação ao longo do tempo e entre territórios. Também acreditava que os mitos eram todos manifestações da mesma língua e eram muitas vezes bastante semelhantes entre culturas, proporcionando aos seres humanos ferramentas para chegar a acordo com o maior mistério do mundo: a possibilidade de não ser, a carga de mortalidade.

As nossas explorações criativas no Brasil produziram materiais que se tornaram estímulos para novas narrativas onde a ciência, o conhecimento local, a cultura e a experiência subjectiva se cruzam. Revisitando as filmagens vídeo, as gravações de som e a imagética permitem-nos fazer conexões entre mito e ciência, sinais ambientais e controle tecnológico, e ao questionar a mudança provocada pelo avanço tecnológico podemos repensar o equilíbrio entre o mundo tradicional e o contemporâneo. [versão portuguesa do original inglês intitulado “Fieldworkers”, produzido a propósito da exposição “Telephone Without A Wire”, 2016]

 

 

Jo Joelson


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Referências

Hammersley, M., and Atkinson, P., (2007) ethnography: principles in practice, third edition, Routledge, Oxon.

Pennesi, Karen and Carla Renata B. de Souza (2011) “Encontro dos Profetas Populares da Chuva de Quixadá: Reflexões acerca dos quinze anos” (Meeting of the Rain Prophets of Quixadá: Reflections after fifteen years). In XI Encontro de Pós-Graduação e Pesquisa 17 a 21 de outubro de 2011. Fortaleza: Universidade de Fortaleza.

Levi-Strauss, C., (1992) Tristes Tropiques, Penguin Books, London.

Wilcken, P., (2010) The Poet in the Laboratory, Bloomsbury, London.

Regua (Reserva Ecologica de Guapiacu) http://regua.org

Bloch, M., (2009) Claude Lévi-Strauss obituary, The Guardian, Tuesday 3 November 2009 Available from: https://www.theguardian.com/science/2009/nov/03/claude-levi-strauss-obituary