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O ESTADO DA ARTE


Daniel Buren. Exposição "Um Teatro sem Teatro". Museu Berardo.

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DEZ PONTOS SOBRE O MUSEU BERARDO

AUGUSTO M. SEABRA

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O Museu Colecção Berardo surgiu ao fim de um longo processo, envolto em polémica, até de raros contornos institucionais, patentes nas reservas manifestadas pelo Presidente da República ao Decreto-Lei nº164/2006 de 9 de Agosto, que instituiu a Fundação de Arte Moderna e Contemporânea – Colecção Berardo, e clamorosamente prosseguida, no dia seguinte à inauguração, pelo confronto entre o presidente do CCB, António Mega Ferreira, e o investidor e coleccionador – isto para além de todas as polémicas que as intervenções de Berardo no campo artístico suscitaram, e possam continuar a suscitar.

Creio que entretanto, mais de seis meses passados sobre a abertura pública, e manifestada também uma política de exposições temporárias, se impõe um outro tipo de reflexão, elencando, e de algum modo considerando com relativa autonomia o que são as questões estruturais e as circunstanciais – sabendo-se ainda como as indecisões e demoras das políticas culturais públicas em Portugal acabam muitas vezes por imbricar umas questões nas outras.

É mais do que evidente que não existia no país um museu de arte moderna e contemporânea com um acervo em exposição pública minimamente representativo, já que outra é a manifesta e importante vocação de Serralves, e são por demais conhecidas as diversas indefinições e limitações do Museu do Chiado. Igualmente, e para além dos compromissos directos que cabem ao Estado e que não devem ser esquecidos, é sabido que importantes museus públicos têm origem em colecções privadas. Portanto, primeiro ponto, não havendo em Portugal outra colecção como a de Berardo, um acordo entre aquele e o Estado era de todo o interesse público.

Sabe-se como, após repetidos adiamentos, o processo concreto de negociação foi desencadeado sob a ameaça da colecção sair do país, e como nessas condições, e na conhecida incapacidade política actual do Ministério da Cultura, os termos do acordo não foram devidamente acautelados, nomeadamente no tocante à renegociação dentro de dez anos. Esse é o segundo ponto, a ser devidamente retido, mas que também não anula o primeiro.

É igualmente sabido como a concreta instalação no CCB de facto amputou aquela estrutura pública de uma valia estruturante e criou uma difícil – e conflituosa, como se comprovou – co-existência entre as duas diferentes fundações, terceiro ponto. Acresce ainda a não pouco problemática questão, quarto ponto, de discutir se na rede de valias culturais na malha urbana aquela era de facto a melhor localização, o que de resto implica tantos aspectos, desde o projecto “Belém Redescoberta”, promovido pelos ministérios da Cultura e da Economia (e que é outra achega à crescente presença dos ditames do Ministério da Economia e Inovação na área da cultura), à relação entre os pólos oriental e ocidental da cidade, que por si só implica um debate com outros desenvolvimentos.
Passando então ao concreto do Museu Colecção Berardo, com todas as irregularidades que resultam de uma política de aquisições rápida e, portanto, sujeita a várias flutuações do mercado, os percursos expositivos entretanto patentes mostram núcleos ainda muito inconsistentes, mas também, o do minimalismo e, sobretudo, o da pop arte, outros de incontestável relevo – quinto ponto.

Estes serão os pontos estruturais. Consideremos agora alguns passíveis de serem considerados circunstanciais, ainda que sem dúvida pesem também numa mais concreta ponderação dos outros.

Extravasando agora o quadro deste Museu, diga-se que em 2007 houve em Portugal duas exposições de excepcional importância, de resto ainda patentes: “Robert Rauschenberg Travelling 70’- 76’” em Serralves (até 30-03) e “Um Teatro sem Teatro” que veio do MACBA, Museu de Arte Contemporânea de Barcelona, para o Museu Berardo (até 17-02). Na situação semi-periférica de Portugal, semi-periférica também no circuito internacional das exposições, há que assinalar uma tal conjunção, pois que as políticas expositivas da arte contemporânea não podem ser reduzidas à disponibilização pública dos acervos. Este aspecto, deveras importante, tem pois de ser ponderado em relação concretamente ao Museu Berardo, tanto mais que uma das dúvidas maiores que se colocou ao seu enxerto no CCB foi o da ocupação logística de uma plataforma de exposições temporárias.

Cabe pois assinalar, sexto ponto, que uma das mais importantes exposições internacionais do ano (escolhida mesmo como a melhor do ano no blog “Lunettes Rouges” do “Le Monde” - http://lunettesrouges.blog.lemonde.fr/2008/01/01/), veio logo depois para Lisboa. Ora, independentemente de uma consideração da exposição em si mesma, parece-me evidente, já que sou em especial sensível à proposta geral e a alguns aspectos particulares de “Um Teatro sem Teatro”, que há matérias e referências do maior relevo que são atrofiadas num espaço expositivo de relativa exiguidade – sétimo ponto, o da capacidade de acolhimento, que todavia desde logo implica o quarto, da implantação do Museu no espaço do CCB.

Para todos os efeitos, a real evidência da inscrição internacional do Museu prende-se também com as competências do director, Jean-François Chougnet, certamente um valor seguro – oitavo ponto.
É matéria de especulação – mesmo que seja difícil arredá-la de algumas ponderações – saber se, face à acentuada hiper-presidencialização do CCB com Mega Ferreira, não será mesmo preferível ter alguém com uma reconhecida competência específica a dirigir uma entidade expositiva e museológica, e isso não desmente de qualquer maneira o terceiro ponto, de um equipamento público polivalente ter sido amputado.

O que também não deixa de se verificar, quer com outra exposição já apresentada, “Caminhos Excêntricos” (infeliz amostragem de artistas da Europa Central, oscilando entre a retórica usual das “identidades” e o compromisso político-diplomático) quer com a programação anunciada para o novo ano, é que, nono ponto, se a amputação estrutural ocorreu, várias das funções que eram do Centro de Exposições do CCB serão de facto preenchidas pelo novo Museu, até em aspectos menos interessantes, o que também não deve ser alheado da reflexão.

Enfim, não creio que, décimo ponto, possa ser desconsiderada a adesão pública que o Museu tem suscitado, pesem ainda os equívocos inerentes à “gratuitidade”, ou seja, que o primeiro ponto, o da constituição de uma entidade pública a partir da Colecção Berardo, está confirmado na capacidade de “publicamente disponibilizar” – o que é um dado fulcral às políticas da cultura.
Nada disto faz esquecer os termos da negociação, mas a apreciação do Museu Berardo deve também ser autonomizada das susceptibilidades que suscita a pessoa concreta do investidor.