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O VIGÉSIMO ANIVERSÁRIO DA BIENAL DE BERLIMTINY DOMINGOS2018-09-06A Bienal de Berlim festeja este ano o seu vigésimo aniversário. O maior evento de arte contemporânea da capital alemã e o segundo maior da Alemanha fica aberto ao público até 9.9.2018. Vale a pena voltar um pouco atrás. Há dois anos, a curadoria do evento tinha sido confiada ao coletivo nova-iorquino DIS que, como previsto, deu prioridade à estética da geração pós-internet e aos cruzamentos com tecnologia, moda e publicidade. Houve quem tivesse elogiado o "update", mas o certo é que a receção do público e da crítica foi bastante mitigada. Várias vozes ergueram-se na altura para criticar a vacuidade da maioria das obras e o flirt com a linguagem comercial (houve até quem referisse casos de descarado "product placement"), mas o aspeto mais sublinhado foi o alheamento em relação a uma realidade política exacerbada pela crise dos refugiados e pelo sucesso da extrema-direita, bem como pelas consequências das políticas de austeridade e do poder dos "mercados" (cada vez mais presente no mundo da arte e da cultura). Esta última crítica sobre o distanciamento em relação a algumas das maiores questões do nosso tempo acertou na muche e o júri da Bienal decidiu acertar os ponteiros nesta edição e dar-lhe um cunho bem mais "engagé". A curadoria foi confiada a Gabi Ngcobo (artista e curadora nascida em 1974 na África do Sul, com passagem pelas bienais da Cidade do Cabo e de São Paulo e por Frankfurt), conhecida pelas suas iniciativas em prol da emancipação cidadã, queer e artística, do tratamento das questões pós-coloniais e da defesa da negritude. Um gesto benfazejo e cheio de significado no atual contexto que obviamente não deixou de criar algumas reticências. A nomeação pela primeira vez de uma curadora africana, já em si, foi uma verdadeira sensação numa cidade que conta com pouca presença africana e onde a liderança das instâncias políticas e culturais está tradicionalmente reservada a uma elite cultural alemã que não raras vezes já se conhece desde o jardim de infância ou no mínimo desde a universidade. O facto da curadora se ter rodeado de uma equipa 100% negra (Nomaduma Rosa Masilela, Serubiri Moses, Thiago de Paula e Yvette Mutumba) e da maioria dos artistas selecionados para esta décima edição da Bienal ser desconhecida na Europa também não terá agradado a todos. O reduzido número de artistas berlinenses (10 num total de 46 selecionados) também não terá caído bem numa cidade que conta com mais de 8000 artistas visuais profissionais. O mote geral da Bienal é "We don´t need another hero". Um título tomado de empréstimo à célebre balada rock celebrizada por Tina Turner em 1985 numa sequela dos filmes MAD MAX. A equipa curatorial parece ter encontrado alguns paralelos entre o atual estado do mundo e o cenário apocalíptico destes filmes australianos conhecidos pelas suas cenas de violência com muito sangue, ferro-velho e crueldade à mistura. Segundo as explicações de Gabi Ngcobo, este mote não pretende questionar a heroicidade em si, nem a sua necessidade, mas sim pôr em causa alguns pedestais históricos e contemporâneos ("Os heróis de hoje podem ser os ditadores de amanhã") e apontar para a urgência de novos modelos e sobretudo de uma maior visibilidade para a criação fora do poderoso eixo artístico euro-norteamericano. "Sejamos claros: estamos em guerra" proclamou a curadora durante a concorrida conferência de imprensa inaugural (sabiamente pontuada pela vibrante voz de Tina Turner e com imagens dos anos 80, considerados anos charneira para a nossa atualidade). Uma combatividade empolgante inspirada pelo convite à ação de Frantz Fanon, mas que contrasta com uma exposição estranhamente bem comportada e sem grandes statements, nem gestos ou efeitos provocatórios, que aposta no regresso à subjetividade com dispositivos surpreendentemente convencionais (com uma ou outra notável exceção). Enfim: uma bienal bastante tradicional no seu todo, anacrónica para alguns, marcada pelo regresso em força dos media tradicionais: pintura em estilo "déjà vu", desenho, linogravura, fotografia analógica, Super 8... Tudo isto por artistas millenials que cresceram com a internet. A equipa curatorial tinha-se antecipado às enormes expetativas criadas à volta da "sua" bienal dizendo de antemão não se querer prender a teorias, nem ser sua função "fazer a arrumação", sublinhando a sua preferência pela formulação de perguntas em detrimento da apresentação de respostas. A intenção era dar continuidade ao método de "desaprendizagem" ("Un-learning") implementado por Adam Szymczyk na última Documenta. No entanto, tal como em Kassel e Atenas (embora por razões diversas), a décima edição da Bienal de Berlim acaba por desiludir, relançando até a crítica à bienalização do mundo da arte. Esta décima edição vem mais uma vez provar que as melhores intenções curatoriais nem sempre são seguidas por exposições bem conseguidas e inspiradoras. Apesar de tudo, há aqui alguns momentos felizes. A intenção de Gabi Ngcobo de incutir uma certa ligeireza à exposição e de criar uma desaceleração foi bem conseguida na Akademie der Künste. De um modo geral foi obviamente importante ter trazido contribuições e perspetivas consideradas "periféricas" para a ribalta, mas faltam as grandes "obras de embate" que captam e refletem a atualidade e que o público procura ansiosamente quando entra numa exposição de arte contemporânea desta envergadura. Falemos de números: O orçamento da Bienal foi aumentado este ano para 3 milhões de euros (confirmando a tendência na Alemanha de aumento dos orçamentos da cultura, vista como pedra basilar de uma sociedade pluralista e democrática - em total contraciclo dos movimentos populistas que já anunciaram querer nacionalizar e "tradicionalizar" a esfera cultural) e o número de artistas foi reduzido para 46 (a anterior edição contou com mais de 120). Um reforço que permitiu dar prioridade à produção de novas peças. Uma delas encontra-se logo à frente do edifício da Akademie der Künste: a ruína do Palácio de Sans-Souci, símbolo da independência do Haiti, da autoria de Firelei Baez, que faz a ligação entre o palácio do autoproclamado primeiro rei haitiano (Henri I) e o célebre palácio Sanssouci em Potsdam (o Versalhes berlinense) que lhe serviu de modelo. Este original elo entre a Prússia e as Caraíbas foi sublinhado pela curadora que mencionou a novela "O noivado de São Domingos" de Heinrich von Kleist (autor clássico alemão, 1777- 1811) durante a conferência de imprensa inaugural. Um texto requintado que nos transporta para as lutas de libertação das populações negras escravizadas pelos colonos franceses, mas repleto de considerações chocantemente racistas para o leitor de hoje. Prova de um legado cultural que continua a perdurar sem comentários e mais um exemplo da urgência do projeto de des-colonialização das mentes defendida pela equipa curadorial desta bienal. Uma obra que retém a atenção é o vídeo IT’S IN THE GAME ‘17 or Mirror Gag for Vitrine and Projection da jovem artista Sondra Perry, nascida em 1986. A artista consegue a proeza de juntar numa só obra a questão identitária na era digital e a sua usurpação (avatares), o tema do racismo e da vivência da comunidade negra nos USA bem como a problemática da restituição dos artefactos africanos, oceânicos e americanos dos museus europeus e norte-americanos tendo como pano de fundo o facto da identidade do seu irmão ter sido apropriada para um herói de jogo de vídeo sem que o mesmo tenha dado o seu consentimento. Como artista "digital native" que é, Sondra Perry teve a feliz ideia de colocar este (e outros vídeos) online, o que permite uma visualização mais confortável do que no próprio local da Bienal: https://vimeo.com/218718564. "Black Celebration" de Tony Cokes ocupa a grande cave central da ZKU e é outra obra que consegue marcar os espíritos. Releitura das insurreições da comunidade negra norte-americana nos anos 60 à luz da Internacional Situacionista, com inclusão de textos de Morrissey, Martin L. Gore e Barbara Kruger. As vozes dos noticiários originais foram substituídas por música industrial. Uma obra emancipatória que pretende contradizer o monopólio estatal da violência e enfrentar os preconceitos que criminalizam os atos de revolta. Surpreendente pela simplicidade dos meios utilizados, este dispositivo revela-se particularmente eficaz ao separar trechos de discursos de Donald Trump e Hillary Clinton (entre outros) das respetivas imagens e ao deixá-los passar sobre um fundo monocromático com hip-hop em pano de fundo musical. Sem dúvida, um dos pontos fortes da bienal. Depois de uma violenta discussão num supermercado em Arnsdorf (no estado da Saxónia, ex. RDA), um refugiado iraniano foi preso a uma árvore por uma autoproclamada milícia civil. O vídeo da discussão propagou-se na net e o caso foi para a justiça. Meses depois, o refugiado em questão foi encontrado morto numa floresta pouco antes de se dar início ao julgamento. O crime foi noticiado mas não criou um grande debate. Algo que incomodou Mario Pfeifer, artista natural desta região (mas com residência em Berlim e Nova-Iorque), que decidiu reencenar este caso e perguntar a um júri de habitantes da região como a violência se pôde despoletar desta maneira. Um olhar frio sobre os mecanismos que levam à insensibilidade, ao racismo e ao homicídio numa sociedade que parece ter decidido fechar os olhos sobre estas derivas. Um trabalho na mesma linha da grandiosa instalação da Forensic Architecture sobre os crimes (mais ou menos abafados) do grupúsculo neo-nazi NSU exibido em Kassel na última Documenta. Cenário à MAD MAX na sala central da KW, com pilares derrubados, tijolos partidos e Nina Simone num monitor a cantar "Feelings" no Festival de Jazz de Montreux em 1976. A artista sul africana Dineo Seshee Bopape convidou mais 3 colegas para a sua instalação e Jabu Arnell juntou a sua grande "Discoball #9" de cartão a este cenário apocalíptico. Os curadores bem tinham avisado que não vinham fazer grandes arrumações... Liz Johnson Artur interroga-se sobre a imagem do ser humano no seu contexto direto e indireto quer na fotografia como nos media, colecionando imagens sob a perpetiva negra há 30 anos. Completado por desenhos e apontamentos, o seu "Arquivo" cresce ao sabor dos encontros e segundo uma lógica e regras muito próprias. Destaque para o empolgante trabalho de vídeo que acompanha as vitrinas do arquivo. Lugar de destaque na KW para Grada Kilomba, que pretende analisar em que medida "o simbolismo e a alegoria são veículos do potencial da opressão" através do mito edipiano. Em si, uma excelente ideia, a de pegar nos clássicos para indagar o presente. Felizmente, a rigidez e um certo "academismo" da leitura da narradora são equilibrados pelos movimentos e pela expressividade de um grupo de performers negros sobre um depurado fundo branco. Menos feliz e - até contraproducente porque muito ilustrativo - é o uso de faixas vermelhas a simbolizar correntes, com o consequente rasgamento a ilustrar o impulso libertador. Não deixa de ser estranho ver Kalaf Epalanga com este adereço um pouco óbvio e algo lacrimoso em contradição com a sua imagem de epígono da elegância e da coolness. Sinethemba Twalo e Jabu Arnell transformaram por completo o sótão da KW com os entrelaçamentos da sua instalação "A Kind of Black: an emergent poetics of the imminent unknown". Um letreiro refere a "poética emergente do desconhecido iminente". Uma expressão que resume muito bem os raros mas bons momentos desta bienal. Entretanto Gabi Ngcobo foi convidada para o conselho curatorial da maior exposição internacional de artes visuais: a Documenta, cuja primeira missão é a designação da próxima curadora ou curador. Este é portanto o início de uma conversa que se irá prolongar e que – esperemos - irá ganhar contornos um pouco mais definidos.
Tiny Domingos |