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O ESTADO DA ARTE


Ileana Sonnabend na Galerie Ileana Sonnabend, Paris 1965. Fotografia incluída na exposição Ileana Sonnabend: Ambassador for the New (MoMA, 21 Dez 2013 - 21 Abr 2014).


Leo Castelli com Ileana Sonnabend durante a instalação de “Jammers” de Robert Rauschenberg’s na Castelli Gallery, 1975. Fotografia: Gianfranco Gorgoni.


António Homem diante de " Ileana Sonnabend", de Warhol.


Vista da exposição Sonnabend | Paris - New York, 5 Fev>3 Mai 2015, FASVS.


Christian Boltanski 62 membros do Clube do Rato Mickey em 1955, 1972. 62 fotografias a preto e branco com moldura de estanho Fundação Colecção Sonnabend, Nova Iorque.


Cartaz da exposição “A Coleção Sonnabend/The Sonnabend Collection Part 1: Meio século de arte europeia e americana”, Museu de Serralves.


Canyon (1959), de Robert Rauschenberg.

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SONNABEND EM PORTUGAL

CATARINA FIGUEIREDO CARDOSO

2016-05-17




A colecção Sonnabend tem estado em digressão em Portugal.

O périplo começou em Fevereiro de 2015, em Lisboa, no Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva (MASVS). Continuou no Porto, no Museu de Serralves, entre Fevereiro e Maio de 2016. E entre Março e Maio de 2016 teve uma obra exposta, novamente no MASVS, ocupando a sala do rés-do-chão.


ILEANA SONNABEND

A colecção é sempre referida, na comunicação social, como uma colecção unitária, reunida pela famosa e algo mítica galerista americana Ileana Sonnabend (1914-2007) [1]. Ileana manteve uma galeria de arte em Paris, entre 1962 e os anos 1980, onde divulgou sobretudo os artistas americanos da Pop Art e do minimalismo. Em 1970 abriu outra galeria, em Nova Yorque, na Madison Avenue, que logo a seguir mudou para o SoHo, contribuindo para transformar este bairro no centro internacional da arte contemporânea dos 20 anos seguintes. Em Nova Iorque, Ileana divulgou a arte europeia contemporânea, sobretudo a arte conceptual e a arte povera, e os artistas americanos conceptuais e minimalistas. Na Primavera de 2000 a galeria mudou para Chelsea, NY e após a morte de Ileana em 2007, deixou de ter o um espaço aberto ao público. A galeria continua a operar, representando artistas europeus como Bernd e Hilla Becher, Gilbert & George, Candida Höfer, Anne e Patrick Poirier, e algumas das estrelas que lançou, sendo a mais famosa Jeff Koons [2].

Qual é a ligação da colecção Sonnabend a Portugal? Ileana Sonnabend, o seu primeiro marido Leo Castelli, e a filha de ambos, Nina, passaram por Lisboa a caminho de Nova Iorque, no início da 2ª Grande Guerra, tal como Peggy Guggeheim e família, e os refugiados judeus do filme “Casablanca”. Mas sobretudo, Ileana e o segundo marido, Michael Sonnabend, adoptaram nos anos 1980 o português António Homem.

A história é divertida: António Homem, nascido nos anos 1940, foi estudar engenharia para Genebra, no início dos anos 1960, onde casou com uma grega e teve um filho, Phokion Potamianos Homem. Sem interesse na engenharia e apaixonado por arte, cruzou-se com Ileana Sonnabend na galeria genebrina do seu vizinho Bruno Bischofberger. Em 1968, separado da mulher e do filho, mudou-se para Paris e tornou-se assistente do casal Sonnabend na galeria dos americanos. Logo a seguir os Sonnabend regressaram a Nova Iorque, levando António Homem. E acabaram por adoptá-lo, no final dos anos 1980, devido às dificuldades de Homem com as autoridades americanas para obtenção de um visto de residência [3].

Michael Sonnabend morreu em 2001, com 100 anos. Ileana Sonnabend morreu em 2007, com 93 anos e uma colecção de obras de arte, muitas dos artistas americanos que divulgou na Europa e dos artistas europeus que divulgou nos Estados Unidos, nas suas galerias de arte [4]. Parece que ninguém se tinha preocupado com a colecção e o seu valor. E por isso os filhos de Ileana Sonnabend, António Homem e Nina Sundell, viram-se a braços com um património fabulosamente valioso e tiveram que vender algumas obras para pagar o imposto sucessório. Esta transação foi classificada como a mais importante (ou seja, a que atingiu o valor mais alto) venda privada de obras de arte até à altura em que foi realizada, em 2008. Foi uma venda privada, não um leilão, e Homem e Sundell não revelaram o intermediário, ou se o negócio foi conduzido por eles próprios (Sundell também era galerista). A Christie’s, desde 2015, tem levado a leilão obras referenciadas como pertencentes à Colecção Sonnabend [5].

Depois da amarga experiência com o imposto sucessório, Homem e Sundell decidiram criar uma fundação, a que chamaram Sonnabend Collection Foundation, sobre a qual a informação pública é escassa [6]. António Homem, em Fevereiro de 2015, contou a Anabela Mota Ribeiro a sua versão: depois da morte de Ileana Sonnabend, ele e Nina Sundell venderam 20 obras para pagar o imposto sucessório (a tal venda privada de 2008). Com o resto da colecção dotaram a fundação [7]: «(…) “[M]as devia haver uma parte que fosse a parte da Ileana e do Michael – que ficasse”. Definimos uma colecção e prometemos cada um dar metade. O resto, foi dividido entre a Nina e eu» [8]. Ou seja, aparentemente dividiram as obras entre eles, e uma parte ficou depositada na fundação [9].

Entretanto Nina Sundell morreu em 2014. Os seus bens foram herdados pelos filhos, Margaret e David. Os quadros leiloados pela Christie’s em 2015 e 2016 são apresentados como provenientes da colecção de Ileana Sonnabend e da herança (estate) de Nina Castelli Sundell [10]. A informação disponibilizada nos catálogos da Christie’s não permite perceber que quadros da “Collection of Ileana Sonnabend” estão em causa nestas duas vendas, nomeadamente se pertencem à tal “parte da Ileana e do Michael” invocada por Homem para a constituição da fundação.


A COLECÇÃO HOMEM

Depois de todas estas peripécias, parece adequado perguntar que colecção Sonnabend tem sido apresentada em Portugal. Como acabei de relatar, as obras designadas como colecção Sonnabend, após a morte de Ileana Sonnabend, foram e estão a ser vendidas, foram depositadas numa fundação com o nome da colecção, e foram repartidas entre os herdeiros da galerista. Um deles, António Homem, é o curador das exposições portuguesas, e o principal fornecedor de obras para as mesmas.

A exposição de 2015 no MASVS é apresentada como incidindo nos primeiros cinco anos da galeria em Paris, 1962-1967. As obras expostas não são forçosamente obras mostradas na galeria, mas são de artistas representados pela galeria nessa época [11].

António Homem, curador, é peremptório na curta nota que assina no catálogo. «Todos os trabalhos fazem parte da colecção Sonnabend que acompanhou as vidas de Ileana e do seu marido, Michael Sonnabend, constituindo de um certo modo, uma autobiografia e um autorretrato» (Homem 2015: 7). Na entrevista a Anabela Mota Ribeiro é ainda mais assertivo: «Sem esse controlo, a colecção não existe. Esta exposição em Lisboa: tenho necessidade de um controlo absoluto para que a leitura [sobre as obras] seja a minha – e que corresponde à leitura da Ileana e do Michael» [12]. Curiosamente, a leitura de Ileana e Michael Sonnabend sobre as obras coincide com a sua: 40 das 48 obras exibidas pertencem-lhe, ou seja, são apresentadas como “The Sonnabend Collection, on loan from Antonio Homem”. Duas são simplesmente “The Sonnabend Collection”. Seis são “The Sonnabend Collection, on loan from the Estate of Nina Sundell”.

30 das 48 obras apresentadas em Lisboa transitaram para a exposição do Porto. Para o catálogo desta exposição, intitulada “A Coleção Sonnabend/The Sonnabend Collection Part 1: Meio século de arte europeia e americana”, António Homem, curador, dá uma entrevista a Susanne Cotter, directora do museu. Fala sobre a constituição da colecção sempre no plural. Afirma mesmo: «O que é importante para mim é que se possa ver como as obras se relacionam e criam uma espécie de retrato e de biografia da Ileana – e minha também, porque estive totalmente envolvido nela depois de 1968. (…) [A] Colecção Sonnabend é inteiramente sobre as nossas sensibilidades e as nossas escolhas» (Homem 2016: 15).

Na habitual confusão entre colecção e acervo, típica do coleccionador galerista, a perguntas sobre a colecção responde com os artistas da galeria. A confusão é assumida por Homem: «Nós não víamos a Colecção e a Galeria como entidades em si, eram apenas extensões das nossas vidas. Coleccionar era um acto de autodefinição e negociar arte era querer partilhar o nosso entusiasmo com outros» (Homem 2016: 16).

Homem informa que o núcleo principal de arte americana e europeia é o apresentado em Serralves (Homem 2016: 16). A ser assim, a parte mais importante da colecção será pequena (em Serralves estão 61 obras) e pertence quase toda a António Homem. Destas 61 obras, apenas nove não são suas (15% do total). Algumas das nove obras agora referenciadas como pertencendo a “The Sonnabend Collection” foram antes exibidas no MASVS, mas desapareceu a referência que as identificava como estando “on loan from the Estate of Nina Sundell”.

Três dessas obras estão mesmo reproduzidas no catálogo de 2015 da Christie’s, o tal que anuncia a venda de obras da colecção de Ileana Sonnabend da herança (estate) de Nina Castelli Sundell, (p. 8). É o que sucede com o muito famoso “Little Aloha” de Roy Lichtenstein, que ilustra a capa do catálogo de Serralves. Neste, é identificado como pertencente à colecção de “The Sonnabend Collection Foundation” (p. 169). No catálogo da exposição do MASVS, o mesmo quadro surge como pertença de “The Sonnabend Collection, on loan from the Estate of Nina Sundell” (pp. 82-83). As duas outras obras reproduzidas no catálogo de 2015 da Christie’s apresentadas nas exposições portuguesas são “Figure 8” de Jasper Johns e “Kite” de Robert Rauschenberg (pp. 50-51 e 68-69 do catálogo do MASVS; pp. 170 e 171 do catálogo do Museu de Serralves). Tal como “Little Aloha”, deixaram de ser de “The Sonnabend Collection, on loan from the Estate of Nina Sundell” para passarem a “The Sonnabend Collection Foundation”. Não estão à venda no leilão, mas a sua reprodução sinaliza a sua existência aos potenciais interessados.

Já quanto à obra apresentada no MASVS até ao início de Maio de 2016, não há indicação clara de proprietário. A obra, “62 membros do Clube do Rato Mickey em 1955” de Christian Boltanski, inaugura o novo ciclo intitulado “Uma obra, uma Colecção”, que apresentará uma obra significativa de uma colecção, pública ou privada, em mini-exposições [13]. A colecção a que a obra pertence é a Fundação Colecção Sonnabend, e não há qualquer referência a António Homem na folha de sala.


HOMEM E A COLECÇÃO

O interesse e a importância da parte da colecção Sonnabend que agora é de António Homem e que ele trouxe a Portugal não estão em discussão e não são afectados pelas hiperbólicas referências a Ileana Sonnabend e ao relevo dos artistas na arte contemporânea ocidental. Mas é de lembrar que praticamente todos eles estão representados na Colecção Berardo e têm estado em exposição nos últimos 10 anos.

Discutível é a ausência de informações sobre as condições da colaboração dos dois museus portugueses na estratégia de Homem, um simpático senhor, proprietário de uma fortuna em obras de arte, tomado de súbito amor à Pátria. Obras da colecção Sonnabend, pelo menos da parte composta por obras de artistas europeus e americanos do pós-guerra, está a ser vendida na Christie’s desde Maio de 2015. Uma parte da colecção estará depositada na fundação em Nova Iorque, mas outra está em Veneza, depositada na Fundazione Musei Civici di Venezia, que aparece ligada às exposições portuguesas com excepção da obra singular de Boltanski.

Homem não manifesta interesse especial na constituição de um museu, embora lamente o desaparecimento das colecções com a morte dos seus criadores. Pode querer simplesmente valorizar a sua parte da colecção, ao mesmo tempo que a retira dos Estados Unidos, onde os impostos sucessórios são muito elevados. De resto, em Portugal nem existem.

A Fundação Arpad Szenes Vieira da Silva, à qual pertence o Museu, é uma instituição de direito privado e utilidade pública, dotada de personalidade jurídica. Duas das justificações para apresentar esta colecção, enunciada pelo Presidente da FASVS, António Gomes de Pinho, são pouco consistentes: «aprofundar um diálogo/confronto entre a chamada Escola de Paris, que Vieira da Silva e Arpad Szenes tão bem representam, e novas visões geradas a partir do universo artístico nova-iorquino (…); [e] mostrar a relevância das Galerias e das colecções privadas na afirmação e desenvolvimento da arte contemporânea» [14], são propósitos ambiciosos a que esta exposição e o respectivo catálogo não respondem. A terceira justificação, «permitir o acesso do público português a obras excepcionais de alguns dos mais importantes artistas americanos e europeus do pós-guerra», é simplesmente demagógica: os mesmos artistas estão representados, com mais obras (no caso de Warhol até obras idênticas) e devidamente contextualizadas, na Colecção Berardo.

Já a Fundação de Serralves, à qual pertence o Museu homónimo, é uma fundação pública, com uma importante intervenção do Estado: é um dos fundadores, nomeia dois membros do Conselho de Administração, e garante os meios financeiros necessários para a concretização dos fins estatutários [15].

A justificação de Suzanne Cotter para a realização da exposição sublinha a importância dos artistas apresentados e a sua relevância no contexto da arte contemporânea [16]. Mas é legítimo a um museu público promover e valorizar a colecção privada de um galerista?

A questão foi colocada, exactamente nestes termos, aquando da exposição “Ileana Sonnabend: Ambassador for the New” no Museum of Modern Art de Nova Iorque, no início de 2013.

A exposição foi apresentada pelo MoMA como um tributo a Ileana Sonnabend, e resultou do acordo com os herdeiros, António Homem e Nina Sundell, que permitiu ao museu ficar com a obra “Canyon” de Robert Rauschenberg. É mais uma história Sonnabend divertida.

A obra “Canyon” incorpora uma águia careca empalhada. Ora, de acordo com legislação americana de protecção desta espécie ameaçada de extinção, a obra é absolutamente ilegal. O próprio Rauschenberg tinha fornecido à galerista e ao governo americano uma declaração notarial afirmando que a águia tinha sido empalhada antes das leis de 1918 e de 1940 que criminalizam a posse destes animais, mortos ou vivos. E Ileana Sonnabend só pôde manter a legalidade da titularidade da obra porque a entregou num empréstimo de longo prazo ao Metropolitan Museum of Art, também de Nova Iorque, em 1998. Por estas razões, quando a galerista morreu e os seus herdeiros elencaram os bens para o Internal Revenue Service (IRS) calcular o imposto sucessório, atribuíram a “Canyon” um valor de 0 dólares, por não a poderem vender e por isso não ter valor de mercado. No entanto, o IRS atribuiu a “Canyon” o valor de 65 milhões de dólares e exigiu 29,2 milhões de imposto, e um adicional punitivo de 11,7 milhões por se sentir intencionalmente enganado pelos herdeiros. A situação foi resolvida da seguinte forma: o IRS aceitou a doação de “Canyon” a um museu, pelo que a obra transitou para o MoMA, com promessa de destaque na exposição permanente, o nome de Ileana Sonnabend inscrito na parede dos fundadores (o museu foi fundado em 1929), e o museu dedicou a “Canyon” e à galerista uma importante exposição temporária [17].

O MoMA tinha uma boa justificação para enfrentar os problemas derivados do esbatimento das fronteiras entre museus com fins não lucrativos e galerias comerciais: “Canyon” é uma obra maior de um dos mais importantes artistas americanos do pós-guerra, e apenas oito das 40 obras da exposição pertenciam aos herdeiros de Ileana Sonnabend.

Ora, que justificação têm o Museu Arpad Szenes Vieira da Silva e o Museu de Serralves? As obras e os artistas são importantes mas há outras obras dos mesmos artistas na Colecção Berardo, que já está exposta; não é por isso indispensável mostrar estas obras para ilustrar os portugueses. Que seja de conhecimento público, o galerista António Homem não anunciou pretender doar as obras de que é proprietário a nenhum dos museus. E é preocupante ser avançado por ambas as instituições a intenção de manterem esta orientação das suas actividades: em Serralves é apresentada apenas a Parte 1 da colecção Sonnabend, e o MASVS iniciou um ciclo de exposições com obras de colecções privadas, podendo tais colecções ser também de galeristas.

Subjaz ao êxito da bem sucedida incursão de António Homem a situação grave da falta de meios e de capacidade dos museus e instituições culturais portugueses, que os deixam reféns de galeristas empreendedores e de empresas a necessitarem de limpeza de imagem, e com tendência a recorrerem a expedientes dúbios, ainda que as suas causas sejam nobres [18].

 

Catarina Figueiredo Cardoso

 

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Notas

[1] https://en.wikipedia.org/wiki/Ileana_Sonnabend , http://www.nytimes.com/2007/10/24/arts/24sonnabend.html?_r=0
[2] http://sonnabendgallery.com/index.php
[3] http://anabelamotaribeiro.pt/antonio-homem-206064
[4] A Colecção será mais extensa, incluindo artes decorativas do início do Séc. XX, fotografia, desenhos, obra gráfica e múltiplos. Cf. Catálogo da exposição de Serralves, p. 16.
[5] http://www.blouinartinfo.com/news/story/270208/sought-after-sonnabend-works-sold-in-private-auction, http://www.nytimes.com/2008/04/04/arts/design/04voge.html?pagewanted=1&_r=1&ref=design, http://www.christies.com/salelanding/index.aspx?intSaleID=26078
[6] http://nonprofits.findthecompany.com/l/2251169/Sonnabend-Collection-Foundation
[7] Com obras no valor de cerca de 9.265.000 dólares, valor este retirado da informação financeira constante em http://nonprofits.findthecompany.com/l/2251169/Sonnabend-Collection-Foundation
[8] http://anabelamotaribeiro.pt/antonio-homem-206064
[9] A informação disponível não permite perceber os termos da atribuição das obras à fundação. Pelas indicações de propriedade constantes no catálogo da exposição no MASVS, parece que duas das obras pertencem à fundação propriamente dita, e as restantes a António Homem e à herança (estate) de Nina Sundell, embora estejam emprestadas à ou depositadas (on loan) na fundação. A fundação é uma “charity”, e a venda de obras que lhe estejam alocadas permite aos doadores das mesmas obras a reclamação de uma redução nos impostos a que tais vendas estão sujeitas. Cf. https://theagoraculture.com/wp-content/uploads/2014/03/Bernstein-Wealth-Mgmt-Reserch-Art-Estate-Planning.pdf
[10] “Works from the Collection of Ileana Sonnabend and the Estate of Nina Castelli Sundell”. Sobre o leilão de 13-5-2015, a Christie’s informa: «The first part of the Collection of Ileana Sonnabend and Nina Sundell 100% sold, realizing $60.1 million, doubling the pre-sale estimate. Three lots sold for over $50 million, eight works for over $20 million, thirteen for over $10 million and 63 for over $1 million. 27% of the works sold above their estimate, and 44% sold within estimate range»: http://www.christies.com/sales/post-war-and-contemporary-art-evening-sale-new-york-may-2015/. O leilão de Maio de 2016 ainda não ocorreu no momento em que escrevo, 8-5-2016: http://www.christies.com/salelanding/index.aspx?intSaleID=26078 .
[11] http://anabelamotaribeiro.pt/antonio-homem-206064
[12] http://anabelamotaribeiro.pt/antonio-homem-206064
[13] http://fasvs.pt/exposicoes/exposicoesview/215
[14] No catálogo da exposição, p. 4.
[15] http://www.serralves.pt/pt/fundacao/fundadores-mecenas-e-apoios/apoio-institucional/
[16] No catálogo da exposição, p. 9.
[17] http://www.nytimes.com/2012/07/22/arts/design/a­catch­22­of­art­and­taxes­starring­a­stuffed­eagle.html, http://www.nytimes.com/2012/11/28/arts/design/moma­gains­treasure­that­metropolitan­museum­of­art­also­coveted.html
[18] Por estar fora do âmbito da Artecapital e do tema destes artigos, não comentei a operação Sequeira do MNAA. Mas não posso deixar de observar que são desconhecidos os (supostos) coleccionador e avaliador, ao contrário do que sucede nas operações semelhantes que proliferam em outros países. O coleccionador, de resto, já fez constar que há mais três obras do mesmo ciclo prontas a serem colocadas no mercado…
 

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Referências

HOMEM, António (dir.), A Coleção Sonnabend/The Sonnabend Collection Part 1. Porto: Museu de Arte Contemporânea de Serralves, 2016.

RUIVO, Marina Bairrão (dir.), Sonnabend Paris New York: Os Primeiros Cinco Anos da Galeria Sonnabend em Paris, 1962-1967. Lisboa: Fundação Arpad Szenes Vieira da Silva, 2015.