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OPINIÃO


Vista geral da inauguração de The Auction Room. Fotografia: Andy Hague.


Vista de The Auction Room. Fotografia: Andy Hague.


Cadeira. The Auction Room. 
Fotografia: Andy Hague.


Hugo Passos, Martelo. Fotografia: Andy Hague.


Hendzel & Hunt, The Great Victorian Porky Pie. 
Fotografia: Andy Hague.


Private View. The Auction Room. 
Fotografia: Andy Hague.

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ARQUITECTURA COMISSÁRIA: TODOS A BORDO # THE AUCTION ROOM



MARIANA PESTANA

2011-09-23







Sobre The Auction Room, projecto de Mariana Pestana & The Designers Block, realizado entre 17 e 25 de Setembro no programa da London Design Week 2011.

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Até ao modernismo, a arquitectura serviu de contentor e suporte a várias disciplinas: da escultura à pintura, à talha ou baixo-relevo. O edifício arquitectónico encerrava uma metanarrativa, especialmente evidente nos que veiculavam uma ideia de poder ou de exaltação de fé (por exemplo a arquitectura fascista, gótica ou barroca). Dentro dele coexistiam, mais ou menos harmoniosamente, diversas micronarrativas que formavam uma experiência global. Todas as formas de arte (ou expressão) congregavam-se para contar histórias, construir narrativas, e tornavam-se, assim, poderosos instrumentos de comunicação.

No contexto contemporâneo da curadoria, dominado pelas artes plásticas, muitos defendem que, em parte devido à dificuldade de comunicar a linguagem arquitectónica, existe uma necessidade premente de explorar e testar novos formatos para curar arquitectura. Desde a exposição organizada por Philip Johnson em 1932 no MoMA, a arquitectura tem vindo a ser representada de forma relativamente convencional, mimetizando a lógica das exposições de arte. A manutenção deste formato e a dificuldade em optar por um discurso autónomo, tem conduzido a um debate acerca da disciplina, dos seus componentes e dos seus limites.

A curadoria, uma actividade cultural associada inicialmente ao seleccionar e cuidar de objectos para expor – normalmente num contexto de galeria ou museu – emergiu nos anos 60, como forma de mediação (e mais recentemente de produção) criativa, semi-autónoma e de autoria individual (O’Neill). Praticar curadoria implica um processo de mediação (entre obras e público) que normalmente acontece no espaço da exposição. Se a arquitectura é uma forma de negociar o real (Hays) intervindo no universo dos símbolos e processos de significação, então encontra-se num lugar privilegiado para mediar conteúdos, para operar ontologicamente, ou seja, sobre o que as coisas são no contexto curatorial expositivo.


Então, por que é que a arquitectura tende a ficar para trás na corrida curatorial?

Interessa-me particularmente o espaço curatorial da exposição na sua forma clássica. Separada do mundo exterior, a exposição é construída e desenhada especialmente para contar histórias. O crítico Jean Louis Cohen defende que a curadoria de arquitectura falha naquilo que ele define como “fantasia interpretativa”, um lugar onde o trabalho da arquitectura e o trabalho dos sonhos se encontram. Segundo este autor, as exposições de arquitectura investem muito pouco na associação de diferentes experiências e situações num só espaço, quando poderiam operar ao nível da memória do público, evocando experiências e situações. Jeffrey Kipnis escreve, numa curiosa carta dirigida a Paula Marincola, que a exposição é o único teatro em que actor, audiência, cenografia, luz, orquestra (e até o próprio palco) se encontram no palco ao mesmo tempo. Esta coexistência de processos narrativos poderia motivar abordagens cinemáticas, corporais, ambivalentes... No entanto muitas exposições seguem um modelo documental ou didáctico. Mas ao contrário de um livro que pode conquistar a atenção total do leitor, na exposição, o visitante tem apenas tempo de agarrar ou experimentar a ‘ideia’. As exposições são muitas vezes vistas entre cocktails e conversas, e a experiência proporcionada é múltipla, divergente, com um potencial performativo que não tem sido devidamente explorado.

E se a exposição fosse pensada como o próprio teatro em acção? E se esse teatro fosse desenhado de tal forma que envolvesse todos os seus elementos? E que tal se os elementos do teatro fossem os próprios elementos da arquitectura: chão, paredes, luz, puxadores...? Os elementos da exposição estariam embebidos no seu próprio espaço e o público usufruía-os livremente através da mobilização de memórias e de equações pessoais . Nesta perspectiva, a exposição seria a arquitectura, e a arquitectura seria a exposição.

A arquitectura nunca é neutra. Mesmo quando parece limpa, ausente, inexistente, ainda assim comunica ou faz-nos viver essa limpeza, ausência, inexistência. A arquitectura é sempre passível de ser interpretada como é interpretado um texto, com a sua gramática, as suas figuras de estilo e semantizações. Vivemos rodeados de arquitectura, e por analogia reconhecemos as suas tipologias, vocabulário e simbologia. No entanto, as exposições de arquitectura tendem a ignorar esse tipo de conhecimento corporalmente experienciado, promovendo um discurso que distancia observador e objecto, através de olhares ilustrados, de cima para baixo, muito comprometidos com o discurso escrito e erudito. Inclusivamente, o próprio debate em torno da curadoria de arquitectura tende a encastelar-se no exercício de categorias formais e secundarizar conhecimentos do corpo.
É por isso que concordo com Eyal Weizman quando sugere a provocação como alternativa ao modelo estabelecido no qual a pesquisa é um pré-requisito da acção: em vez de saber para agir, devemos agir para saber.

A partir desta premissa, decidi explorar num projecto a ideia da exposição-teatro, cenográfica, de que falei acima. Para tal, propus-me a reviver o modelo da arquitectura comissária e trabalhar em colaboração com várias pessoas para, juntos, fazermos uma experiência: The Auction Room, que está a decorrer agora em Londres, integrada no programa da London Design Week 2011.

No contexto da Semana do Design em Londres, em que muitas das exposições têm um propósito económico, a questão da função torna-se especialmente relevante: uma cadeira que serve aparentemente para sentar, neste contexto serve sobretudo para vender. Assim sendo, porque não expor as peças a cumprir a sua função última? A sala leilão pareceu-me o cenário ideal. Listaram-se os elementos arquitectónicos absolutamente essenciais para identificar o cenário: algumas filas de cadeiras, uma mesa para o leiloeiro, um martelo, luzes e interruptores e alguma decoração. Pediu-se a catorze designers para fazerem esses mesmos elementos: atribuiu-se uma peça a cada e uma vez que se estava a compor um leilão encenado, pediu-se-lhes que reflectissem sobre o tema “falso”. O resultado foi surpreendente: as interpretações individuais ao tema aliadas ao empenho posto na execução das peças deram origem a uma sala heterogénea composta por diversas partes que se complementam para contar uma história. Todas elas estão abertas a licitações até Domingo (25 de Setembro), quando o leilão se realizar (a exposição vai leiloar todas as peças que a constituem). O leilão não vai, no entanto, aceitar euros nem libras: a troca directa é o único modo de aquisição/comércio de produtos. Assim, quem visitar a exposição pode fazer licitações (a sua colecção de discos, um mês de estágio com o designer, uma semana de férias na Grécia, o que quiser) e no Domingo cada designer trocará a sua peça pela oferta que mais lhe aprouver.

O que quero explorar aqui é a possibilidade de a arquitectura falar por si só: é a arquitectura que comissaria as peças, decidindo se precisa de um chão ou de cadeiras, e que dispõe os elementos no espaço. E é precisamente na escolha e na disposição das peças que a narrativa da exposição se constrói. O que quero perceber é se a arquitectura pode ser curadora.


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Mariana Pestana
Vive e trabalha em Londres. Desenvolve actividades nas áreas de arquitectura e curadoria/editorial. Fundou o colectivo de arte e arquitectura The Decorators e é editora-geral da revista Design Exchange. É licenciada pela Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian e detém um Mestrado em Creative Practices for Narrative Environments pela Central Saint Martin’s College of Art and Design.