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OPINIÃO


Jos de Gruyter e Harald Thys, “The Frigate”, 2008. Still de vídeo. Vídeo, cor, 19’. Cortesia da Galeria Dependance, Bruxelas e Galeria Isabella Bortolozzi, Berlim


Jos de Gruyter e Harald Thys. Vista da instalação no stand da Galeria Isabella Bortolozzi / Fiac 2008. Cortesia da Galeria Dependance, Bruxelas e Galeria Isabella Bortolozzi, Berlim


Jos de Gruyter e Harald Thys , “Der Schlamm von Branst”, 2008. Still de vídeo. Vídeo, cor, 20’. Cortesia da Galeria Dependance, Bruxelas e Galeria Isabella Bortolozzi, Berlim


Jos de Gruyter e Harald Thys, “Sem título”, 2008. Fotografia a cores. 10 x 15 cm. Cortesia da Galeria Dependance, Bruxelas e Galeria Isabella Bortolozzi, Berlim

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O CASO DE JOS DE GRUYTER E HARALD THYS



SOFIA NUNES

2010-01-13




A exposição “Jos de Gruyter e Harald Thys”, comissariada por Miguel Wandschneider e recentemente apresentada na Culturgest, foi sem dúvida uma das melhores exposições que pudemos assistir ao longo de 2009. Lamentavelmente, passou ao lado dos balanços de alguma crítica especializada com responsabilidade e que mais uma vez se ficou pelo convencionalismo. Mas vejamos então de perto o caso destes dois artistas belgas, que até há bem pouco tempo era praticamente desconhecido fora do seu país.

Jos de Gruyter (n.1965, Geel) e Harald Thys (n.1966, Wilrijk) conheceram-se na St. Luke’s Institute for the Visual Arts, em Bruxelas, onde ambos estudaram, e começaram a trabalhar juntos no final da década de 1980. Todavia, só recentemente é que começaram a expor em importantes eventos de arte, como a Manifesta e a Bienal de Berlim, em 2008, e a realizar exposições individuais fora da Bélgica, nomeadamente no Le Plateau, em Paris (2007); no Kaleidoscope, Art Space, em Milão (2009) ou na Culturgest, em Lisboa (2009), despertando, assim, o interesse da crítica internacional. A estes centros de arte, junta-se agora a Kunsthalle de Basel que irá também dedicar-lhes uma outra individual já este ano.

Apesar de usarem diferentes media, Gruyter e Thys têm centrado a sua prática artística na produção de vídeo-instalações monocanal, que evocam a memória do tableau-vivant, uma forma de entretenimento com origens no século XIX, onde grupos de actores representavam uma dada cena, pousando praticamente imobilizados para um público em tempo real. Já antes de Gruyter e Thys, outros artistas contemporâneos terão recuperado a técnica do tableau-vivant através do uso da imagem projectada, explorando as suas potencialidades de diálogo entre as artes do palco e artes visuais e desconstruindo o tempo a si associado, isto é, o da presença. Lembro-me naturalmente de James Coleman.

No entanto, a reconfiguração que Gruyter e Thys fazem do tableau-vivant segue uma via diferente ancorada numa pesquisa sobre o estado de depressão e alienação que, segundo os próprios, parece hoje assombrar a vida e hábitos sociais de algumas cidades flamengas e holandesas. Tal não significa, porém, que estejamos perante um trabalho com um discurso humanista, preocupado em olhar para a sociedade actual como um mal a abater. Desde há vinte anos que esta dupla insiste exactamente em amplificar processos de autismo, falhas de comunicação, paranóia, ansiedade, medo ou vigilância, criando cenários habitados por estranhas personagens muito mal vestidas e guiões inquietantes, que não poupam a ironia, tal como acontece nos vídeos “A Lama do Branst” e “A Fragata”, que compunham a exposição da Culturgest.

“A Lama do Branst”, de 2008, consiste na sequência de diversas cenas desenvolvidas dentro de um atelier de escultura e interpretadas por várias personagens que executam o papel de artistas, praticamente imobilizados. À medida que umas modelam o barro e fitam o olhar entre si, aparece uma mulher a gemer agarrada a um bloco de barro. O olhar geral é agora lançado sobre esta personagem, cujo gemido, criado em pós-sincronização, é contínuo, assumindo proporções terríficas, sendo apenas interrompido pela imagem difusa da margem de um rio enlameado. O rio assume assim a posição de fantasma e de fonte de trabalho, introduzindo a segunda parte da acção do vídeo que se inicia com um pequeno travelling sob as esculturas e objectos espalhados no atelier, para dar lugar a uma outra cena de vigilância, envolvendo de novo o mesmo alvo, ou seja, a personagem feminina que agora reza para um busto de barro. Por fim, é o próprio espectador que acaba no lugar da vítima quando de súbito a câmara lhe devolve ironicamente o olhar intenso de uma boneca.

É também o olhar, enquanto dispositivo de controlo, que organiza a acção do segundo vídeo da exposição. Mas enquanto no primeiro tínhamos o barro a desencadear o processo, em “A Fragata”, de 2009, será a vez de um barco preto em miniatura. Uma sequência de planos sem movimento narra então o encontro de seis personagens em torno daquele objecto. Entre elas não há diálogo e o silêncio que invade as imagens é preenchido alternadamente por uma perseguição de olhares, expressões agressivas e uma atracção incompreensível e obsessiva pelo pequeno objecto. Apresentado sob fundo negro e ao som de uma música fúnebre, o barco vai a pouco e pouco perdendo o seu carácter de brinquedo inicial para se transformar numa sombra perturbadora.

A tensão que ambos os vídeos operam, através da sua narrativa hermética e de uma estranha relação entre sujeitos e objectos, torna-se ainda mais desconfortável e, por isso, eficaz, quando deparamos com os seus cenários. Quer o atelier dos artistas, quer a sala do barco preto são espaços sem qualquer relação com o exterior, com luz artificial e as paredes pintadas de bege, cinzento ou cor de tijolo. A preferência por este ambientes não será propriamente inocente, já que acentuam uma clivagem entre o interior e o exterior, amplificando o carácter ameaçador da dimensão performativa de cada trabalho. Mas, por outro lado, também não será uma novidade no contexto geral da obra de Jos de Gruyter e Harald Thys. Veja-se, por exemplo, um vídeo mais antigo, “A roda giratória”, de 2002, onde uma mãe e dois filhos são filmados dentro de uma cabine minúscula, forrada do chão ao tecto com madeiras diferentes e sem saída para o exterior. Também aqui, a acção do vídeo, desdobrada em múltiplas tentativas de diversão, como os diálogos, acabam por ser contaminados pelo efeito claustrofóbico do próprio cenário.

É com frequência que vemos esta noção de espaço ser também ela habilmente expandida pelos artistas para o espaço expositivo, desafiando a própria posição de espectador. No caso da Culturgest, tínhamos duas salas reconfiguradas em dois corredores fechados, sem comunicação entre si e mal iluminados. O actor destes cenários era, desta vez, o espectador que, forçado a percorrê-los, se confrontou com uma série de esculturas em barro e de fotografias a preto e branco do barco. Como espectros dos vídeos a actualizar as suas acções?


Sofia Nunes