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OPINIÃO


Vista da exposição, antes da abertura ao público. © Rijksmuseum / Henk Wildschut


Vista da exposição. © Rijksmuseum/Henk Wildschut


Vista da exposição. © Rijksmuseum/Henk Wildschut


Vista da exposição. © Rijksmuseum/Kelly Schenk


Rapariga a escrever, Johannes Vermeer, 1664-67. Óleo sobre tela. National Gallery of Art, Washington.


Mulher de azul lendo uma carta, Johannes Vermeer, 1662-64. Óleo sobre tela. Rijksmuseum, Amsterdam. (empréstimo da Cidade de Amsterdão)


Rapariga com brinco de pérola, 1664–67. Óleo sobre tela. Mauritshuis, The Hague.


Rapariga com colar de pérolas, Johannes Vermeer, c. 1662-64. Óleo sobre tela. Staatliche Museen zu Berlin – Gemäldegalerie


Mulher com uma balança, Johannes Vermeer, c. 1662-64. Óleo sobre tela. National Gallery of Art, Washington, Widener Collection

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AQUELA LUZ QUE VEM DA HOLANDA



ELISA MELONI

2023-07-04




 

 

Ter tido o privilégio de visitar a exposição dedicada a Johannes Vermeer (1632-1675) que decorreu no Rijksmuseum de Amsterdão - talvez apressadamente definida como a exposição do século - induz o observador comum a anotar as impressões e os pensamentos que dela surgiram.

Certamente a enorme afluência de público, pela grande divulgação dada ao evento, não ajuda inicialmente o visitante ávido por mergulhar nas atmosferas subtis do pintor. No entanto, se ele fizer um esforço e se isolar da multidão pode partir para uma viagem que só a visão direta das obras permite.

No reduzido número de obras presentes, surgem aos nossos olhos todas as pinturas que retratam o local amado onde Vermeer nasceu e viveu – a cidade de Delft – bem como os entes queridos, muito provavelmente a sua esposa e uma ou mais das suas filhas.

Paciência, se no jogo de atribuições mais ou menos certas, mesmo as pinturas assinadas – e sobretudo de temática religiosa – parecem ser obra de outro pintor. Só vendo o brilho tranquilo das águas de Uma Vista de Delft (c.1660–1663) e a sua transparência se percebe porque razão o quadro foi definido por Marcel Proust como “a pintura mais bela do mundo”.

 

Vista de Delft, Johannes Vermeer, 1660-61. Óleo sobre tela. Mauritshuis, The Hague.

 

Em seguida, passamos a admirar as figuras que animam os interiores. A presença simultânea de tantas obras em que as figuras femininas se sucedem umas às outras, leva a que elaboremos uma hipótese que um crítico não ouse formular, nomeadamente a de que a mulher grávida que vemos é sempre a sua mulher Catarina e a menina mais nova é uma das suas filhas.

O facto de a esposa de Vermeer estar quase sempre grávida não é surpreendente, visto que em pouco mais de vinte anos de casamento os dois tiveram catorze filhos. A filha mais nova é muito parecida com uma outra figura feminina, no que aparenta ser o mesmo interior. Poderá ser a filha mais velha, Maria, cujo nome conhecemos, e é o mesmo da sua avó Maria Thins?

A terceira mulher que se destaca é a figura de A Leiteira (c. 1658-1661), talvez a empregada da casa dos Vermeer, não menos deslumbrante do que as outras, principalmente depois do recente restauro.

 

A Leiteira, Johannes Vermeer, 1658-59. Óleo sobre tela. Rijksmuseum, Amsterdam.

 

Afigura-se, também, provável que os títulos, todos atribuídos a posteriori, sejam fruto de uma ideia oitocentista e romântica dos papéis que cada uma desempenha: é por isso que Rapariga com brinco de pérola (c.1665-1667), pintura pertencente ao Museu Mauritshuis em Haia é descrita como exótica: “Não é um retrato, mas um ‘tronie’ – uma figura imaginária. ‘Tronies’ retratam um certo tipo ou personagem; neste caso uma jovem de vestido exótico, usando um turbante oriental e uma pérola na orelha de tamanho improvável”.

“Tronie”, segundo a definição, são rostos característicos da pintura de género, tipologia semelhante às cabeças grotescas de Leonardo da Vinci, um tema da excelente e original exposição “De Visi Mostruosi e Caricature. Da Leonardo da Vinci a Bacon” (Palazzo Loredan, Fondazione Giancarlo Ligabue) que terminou recentemente em Veneza. Ao meditarmos nessa referência, como aceitar então Rapariga com brinco de pérola como um “tronie”, quando o seu rosto parece tão familiar e a jaqueta amarela semelhante a outras pinturas de Vermeer? E, ainda, quando o “turbante exótico” se aparenta a um modo de usar as cortinas de seda que abundavam naquela Idade de Ouro do comércio holandês? 

A mesma pérola, “improvavelmente grande”, também pode ser vista pendurada na orelha da Mulher com colar de pérolas (c. 1663/64) havendo uma profusão de pérolas em torno do seu pescoço e dentro da casa, como na pintura Mulher com uma balança (c. 1663/64) (que na verdade segura uma balança na mão onde não há pérolas). Mas, quem sabe, talvez esteja a ser usada para pesar ouro pois há moedas de ouro sobre a mesa (Schütz, [2015], 2021, 354). Esta mulher visivelmente grávida é provavelmente a mesma Catarina.

A presença neste último quadro de uma pintura que representa o Juízo Final levou muitos estudiosos a pensar que as pérolas aludem a uma Vanitas e que a obra está carregada de referências religiosas. Mas será porventura mais intrigante considerá-la parte do grupo das “pinturas de pérolas”, como as designou o crítico Lawrence Gowing (Vermeer, [1952], 1970), quadros unidos pela mesma atitude recolhida e pensativa das mulheres retratadas.

Tentemos então encontrar um elo entre as interpretações possíveis, e imaginemos que Mulher com uma balança está a meditar sobre o equilíbrio a manter entre a fé, a vida eterna (o Juízo Final) e os efémeros bens materiais. Se continuarmos no assunto da riqueza, o uso do caríssimo ultramarino, uma cor feita de lápis-lazúli, poderia explicar-se pela presença de outra mulher que morava na mesma casa, ou melhor, em cuja casa morava toda a família Vermeer – a sogra Maria Thins. Sabe-se que ela pertencia a uma rica família católica e os sinais de riqueza são evidentes nos casacos de pele, quiçá de arminho, nos tapetes orientais, nas pinturas das paredes, na profusão de pérolas... Podemos supor que negociasse pérolas, visto que a época é de comércio colonial com a Ásia, ou, quem sabe, talvez Maria vendesse ocasionalmente uma das pérolas de família para financiar o genro. Também é provável que as pérolas dos brincos fossem de vidro e tivessem vindo de Veneza, onde ainda hoje são produzidas da mesma forma.

Estas suposições não deixam, porém, de mostrar algumas evidências: as mulheres da família sabem ler e escrever e também brincar. São, portanto, mulheres cultas e elegantes, e provavelmente objetos de orgulho e amor por parte do autor das pinturas. Nessas imagens de Vermeer parece emergir uma tranquila felicidade doméstica, feita de harmonia de interiores e atenção exclusiva aos afetos. Estes interiores com grandes janelas envidraçadas que procuram o mais possível captar a luz, são os interiores onde se movem as suas dilectas figuras. Espaços amados e imersos num jogo de luzes, em sombras e reflexos e distantes do observador, parecem estar sempre presentes na alma do artista. A luz que os banha é uma luz especial, existindo apenas num mundo feito de água, translucidez e reflexos esverdeados como na paisagem polder, rica em verde das plantas à beira d'água. Conhecer esse espaço geográfico permite-nos entender o lugar metafísico onde vivem as amadas mulheres de Vermeer.

 


Elisa Meloni
Licenciada em medicina e cirurgia e também ensaista.

 

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Bibliografia

Gowing, Lawrence, Vermeer, London [1952], 2ª ed. London, New York, 1970
Schütz, Karl, Vermeer, the Complete Works, Köln: Taschen, [2015], 2021.