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OPINIÃO


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Thomas Cole, “O Estado Pastoral ou Arcadiano”


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Thomas Cole, “Desolação”

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SOBRE A ARTICIDADE (OU OS ARTISTAS DENTRO DA CIDADE)



PEDRO PORTUGAL

2008-05-16




[A propósito dos seminários “O MAIS OU O MENOS - O espaço público de Cultura nas Autarquias Locais”, dirigido por Jorge Barreto Xavier, que decorre na Fundação de Serralves no Porto. Os encontros são dirigidos a: Presidentes de Câmara, Vereadores da Cultura, etc., até aos técnicos superiores e cidadãos interessados no processo de fabricação de cultura. O primeiro seminário tinha o nome: “POLÍTICAS CULTURAIS AUTÁRQUICAS: A CEREJA EM CIMA DO BOLO?”]

Está provado que a cidade não é um bolo e a cultura não é uma cereja. A Cultura é a Cidade: Cultura + Cidade = Civilização.

“[Os ataques de 11 de Setembro foram] a maior obra de arte do cosmos, comparado com isso, nós compositores não somos nada” afirmou Karlheinz Stockhausen. Bertolt Brecht disse que: “Nada ficará das grandes cidades excepto o vento que através delas sopra.”

Há 2300 anos, Platão, na sua utopia “A República”, excluía os poetas, os artistas e os políticos da fundação da cidade. Dizia que, para começar uma cidade, só eram necessários 4 homens: o lavrador, o pedreiro, o tecelão e o sapateiro. Mas: “Portanto, temos de tornar a cidade maior. A que era sã não é bastante, mas temos que a encher de uma multidão de pessoas, que já não se encontram na cidade por ser necessária, como os caçadores de toda a espécie e imitadores, muitos dos quais são os que se ocupam de desenho e cores, muitos outros da arte das Musas, ou seja, os poetas e os seus servidores, rapsodos, actores, coreutas, empresários, artífices que fabriquem todas a espécie de utensílios, sobretudo adereços femininos.”

Ao invés do que pensava, o ultraconservador filósofo grego (veja-se a preferência pela arte persa e pelo desprezo dedicado aos seus contemporâneos Praxíteles e Lísipo), quando se olha para as pinturas e para a arquitectura do passado o que observamos é que, nas suas diversas manifestações, é a ARTE que permanece como testemunho das civilizações e das cidades (as últimas palavras dos grandes homens também fazem parte desse património mas numa categoria invisível).

Thomas Cole, a meio do séc. XIX, pintou o “O Curso do Império”. Um conjunto de telas para a sala de jantar da casa do senhor Luman Reed, o rei das mercearias de Nova Iorque. Estas cinco pinturas, “O Estado Selvagem”; “O Estado Pastoral ou Arcadiano”; “A Consumação”; “Destruição” e “Desolação”, completadas em 1846, representavam para o artista o ciclo do aparecimento e declínio inexorável das civilizações. Em 1829, dias antes de visitar o atelier de Turner em Londres, Cole escreve antes de pintar: “a série de pinturas ilustram a mutação das Coisas Terrestres. O ciclo deve começar com uma selva primordial... as figuras humanas devem ser selvagens... indicando nas suas ocupações que os meios de subsistência são a caça. A segunda pintura será um amanhecer - um campo parcialmente cultivado... aqui e ali grupos de camponeses nos campos... A terceira pintura deve representar uma cena ao meio dia. Uma cidade esplendorosa com uma montanha de Arquitectura magnificente. Um porto cheio de navios - uma procissão esplêndida etc. e tal - tudo isso combinado para demonstrar a prosperidade no seu máximo (riqueza e luxo). A quarta deverá ser uma batalha tempestuosa e uma cidade a arder - com todas as concomitantes cenas de horror. A quinta deverá ser um pôr-do-sol - uma cena de ruínas, montanhas abandonadas, o mar invadindo a terra, templos delapidados, etc. - sarcófagos. Todas as cenas terão a mesma localização.”

Cole apresenta os 5 parâmetros pelos quais se pode, homologamente, classificar a progressão formal dos objectos artísticos: o ARCAICO, o CLÁSSICO e o BARROCO (referidos por E. H. Gombrich), que constituem um enquadramento operativo para toda a história da arte até ao fim do século XIX. Todos os períodos artísticos passaram por metamorfoses cíclicas que vão de um período (ou estilo) arcaico onde se manifesta a rudeza própria da experimentação, seguido de um período classicizante de consolidação e aperfeiçoamento e, por fim, a um período exuberante de fim de império. É a festa barroca antes de entrar num novo arcaico - sendo a festa barroca o que chamamos hoje de vanguardas e o novo arcaico as expressões e cristalizações conceptuais e públicas decorrentes dos momentos de revolução formal (ver também G. Kubler). O século XX, por causa da possibilidade de compilar e acumular informação, permite a introdução de duas novas categorias: o MODERNO e o CONTEMPORÂNEO (o pós-moderno é só um barroquismo do moderno e o contemporâneo já é “remix” ou “mush-up”.

O que é pode ser então o mais e o menos no governo da acção cultural de uma cidade — na assunção deste ciclo de ascensão e colapso?

a) Convidar um “starchitect” (1) para contrariar a decadência cultural da sua cidade ou fazer fluir dinamicamente as hordes dos que já não são necessários e que vivem na cidade e que fabricam objectos e ilusões (os referidos artistas e poetas)?

b) Oferecer a possibilidade dos funcionários da arte e políticos, praticarem um mínimo de 10.000 horas de meditação de compaixão (2) e dirigirem bondade e amor aos concidadãos, limitando assim, a previsível mediocridade administrativa que é a construção da cidade e a sua inexorável “Destrição” e “Desolação”.

Pedro Portugal
Artista Plástico


NOTAS

(1) Há um companheirismo entre a ambição de demiurgia grandiosa do arquitecto (que é também a angústia do arquitecto Solness em Ibsen) e as visões épicas dos tiranos: Versalhes, Hitler e Speer, o Palácio do Povo de Ceausescu, e a recente associação entre o presidente do Kazakistão e Norman Foster ou Rem Koolhaas e os árabes.

(2) A Universidade de Wisconsin-Madison publicou uma investigação, em Março deste ano, sobre como o cultivo da compaixão e bondade através da meditação afecta áreas do cérebro e pode fazer uma pessoa sentir mais empatia pelas outras. Os investigadores usaram um scanner FRI (Functional Magnetic Resonance Imaging) num grupo de monges Tibetanos e concluíram, pela análise das imagens produzidas, que nos indivíduos com grande prática de meditação de compaixão, os circuitos cerebrais usados para detectar emoções e sentimentos são muito diferentes do que nos indivíduos sem este treino.